testeRetorno às raízes

A artista têxtil Mitti Mendonça é a convidada desta semana do Quintas pretas, projeto da Intrínseca que abre espaço semanalmente para uma mulher negra pautar conversas sobre temas fundamentais para a nossa construção como sociedade.

 

Os bordados, colagens e ilustrações de Mitti Mendonça (@mao.negra no Instagram) são não só uma construção visual, mas trazem também muitas camadas de histórias em cada linha, composição e cor. Inspirados pela sua arte, convidamos Mitti para criar uma obra exclusiva para o Quintas pretas sobre a herança familiar, um tema muito vivo no romance A metade perdida, de Brit Bennett:

 

Retorno às raízes

Por Mitti Mendonça

 

 

Carrego dentro

Mil camadas

De muitas tramas que trouxeram

Meus pés até aqui

 

Mãos em linhas

Para costurar as lacunas

 

Descubro pérolas e joias

Escondidas em meus próprios cabelos

E o afeto faz ir longe

Correr contra o tempo

 

Mitti Mendonça é a artista têxtil e ilustradora. Em 2017, criou seu selo “Mão Negra”, onde elabora trabalhos visuais por meio das técnicas de crochê, bordado, tapeçaria e arte digital. Suas principais abordagens são as questões de ancestralidade, memória e afeto. É natural de São Leopoldo-RS, onde reside e tem seu ateliê.

testeSorteio Instagram – 900 mil

Essa semana, o instagram da Intrínseca atingiu a marca de 900 mil seguidores <3. Para celebrar, vamos sortear 9 leitores sortudos que poderão escolher um (1) livro do catálogo da Intrínseca para receber em casa.     

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ATENÇÃO:

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– Você pode comentar mais de uma vez no post, mas não pode repetir os amigos marcados.

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– Se você já ganhou um sorteio da Intrínseca nos últimos 7 dias no Instagram, você não poderá participar deste sorteio.

– O resultado será anunciado no dia 17 de junho, quinta-feira, em nosso perfil no Instagram. Boa sorte!

– Caso algum exemplar escolhido não esteja disponível no nosso estoque para envio, o vencedor poderá escolher outro livro para substituí-lo.

testeUma reflexão sobre as dores e alegrias da paternidade

Adriana Calcanhotto apresenta Crônicas de pai, obra que reúne textos afetivos de Leo Aversa

O que se espera de um pai nos anos 20 do século XXI? Como era ser filho nas décadas de 1970 e 1980? Crônicas de pai talvez não dê as respostas exatas a essas perguntas, mas os leitores vão, junto com Leo Aversa, abrir os armários e as gavetas da memória para refletir sobre elas. 

Leo é fotógrafo profissional desde 1988 e cronista do jornal O Globo. Em seu primeiro livro, entre crônicas já publicadas e inéditas, ele reúne as histórias que vão do nascimento à pré-adolescência de seu filho Martín e as da relação transformadora de ter sido cuidado e agora cuidar e acompanhar o pai. O resultado é um retrato de três gerações de homens unidos por laços de amor e cuidado. 

Em edição de luxo, com capa dura, pintura trilateral e projeto gráfico de Aline Ribeiro, Crônicas de pai ainda conta com as belas e sensíveis ilustrações da artista carioca Poeticamente Flor e apresentação de Adriana Calcanhotto, que é possível conferir com exclusividade a seguir:

Fui conhecendo Leo Aversa aos poucos. Primeiro como o crédito em fotos incríveis no jornal, mais tarde  pelas  suas  crônicas  no  mesmo  O  Globo entremeadas por nossos encontros para sessões de fotos, no começo para matérias no Segundo Caderno.  Daí  comecei  a  ser  fotografada  por  ele  para  algumas  revistas  e,  a  meu  convite,  para  ensaios  de  divulgação. Assim nos tornamos amigos, embora muita gente ache, e com razão, que nunca mais falei com ele desde  que  afogamos  um  violão  caríssimo  no  mar  de São Conrado por uma bela foto. Ao contrário, naquela  tarde  de  mar  agitado  quando  tomei  um  caldo  feio com o violão cheio d’água e por isso pesando tonelada e meia, nossa relação ficou mais cúmplice.

O  humor  do  Leo  fotógrafo  transforma  uma  sessão de fotos com uma cantora tímida que não sabe pra onde olhar numa tarde de gargalhadas de doer a barriga. Fora isso, tirou fotos antológicas dos meus ídolos, o que o coloca num lugar muito especial no meu coração.  Mas  ele,  a  respeito  dessas  fotos  de  gente  grande, diz  que  apenas  assumiu  o  posto  de  flanelinha  da  música  popular  brasileira,  porque,  diante  de  Paulinho  da Viola, Marisa Monte ou Chico Buarque, o que ele tem para dizer é: “Um pouquinho mais pra direita, parou, parou, aí!! Agora pra esquerda, levanta o queixo, foi demais, desfaz, desfaz, aí, aí! Click. Lindo!”

Só  que  lindo  mesmo  é  ver  como  ele  se  transforma,  concentrado,  o  olho  brilhando, acompanhando a luz com um jeito de quem a domina, mas sabe que ela não  será  a  mesma  nem  por  dois  minutos  inteiros.  Algumas vezes me fotografou com buracos gigantes no peito  que  só  eu  via  e  sentia,  inchada  de  chorar,  com dor de cabeça, com dor de cotovelo, enlutada, perplexa com  o  Brasil,  e  o  que  ele  captou  foi  sempre  a  face  de uma pessoa olhando pra câmera e só. Nunca mostrou os  buracos  e  as  tristezas  que,  imagino  —  com  nossos anos  de  amizade  —,  ele  também  viu  na  minha  cara, mas,  generoso  e  amigo,  deixou  de  fora  das  imagens, pelo que sou gratíssima.

Agora  leitora  assídua  das  suas  crônicas  afiadas  no  jornal, descobri mais um talento poderoso do escritor, dos mais raros, que é a capacidade de emocionar. Lendo as crônicas em que ele é um ex-herói para o filho com o Mal da pré-adolescência e quase um ex-filho para o pai com Alzheimer, chorei diversas vezes. A reunião dessas crônicas  torna  o  conjunto  muito  mais  denso  e  muito mais revelador do grande cronista que ele é, porque no jornal  lemos  as  crônicas  junto  a  assuntos  bem  menos  interessantes,  como  o  fascínio  do  Brasil,  em  pleno  século XXI, por combustíveis fósseis, a página que já foi de política e agora é a nova página policial, as crianças negras do Brasil sendo dizimadas por “balas perdidas” em manchetes diárias. De modo que dá um nó na garganta quando no jornal Leo se pergunta quanto tempo vai  levar  pra  que  o  pai  se  esqueça  definitivamente  de quem é ou de quem foi. Aqui, nesta reunião de textos, em  que  ele  é  pai  de  jogador  de  futebol,  filho,  amigo, marido,  cidadão  observador  da  cidade  e  inimigo  das convenções  pequeno-burguesas,  dá  pra  vislumbrar  a estirpe de homem que ele é e isso comove.

A  crônica  é  um  gênero  brasileiro  cujos  maiores representantes  alargaram  a  forma,  como  Machado de  Assis,  Clarice  Lispector  e  Rubem  Braga.  Pra  mim, Leo está nessa lista, porque a crônica, como a crítica, é escrita para embrulhar o peixe de amanhã, precisa ser efêmera. No caso do Leo, como no de Santo Antônio, os  peixes  e  os  textos  convivem  na  memória.  O  jornal vai e a crônica fica.

Não é possível passar batido por um pai sarcástico que  se  assusta  com  o  sarcasmo  do  filho,  a  gente  fica  querendo  botar  o  cronista  no  colo  e  dizer  “pronto, pronto,  passou,  passou”.  Cronista  que,  aliás,  nasceu como cronista ao ouvir na infância o pai lendo para ele o  jornal  da  época  com  textos  de  Carlos  Drummond de  Andrade,  João  Saldanha  e  Carlos  Eduardo  Novaes. Penso então que a crônica seja pra ele um exercício de afeto.

E assim, talvez, neste momento, alguém esteja lendo  este  livro  para  um  filho  ou  uma  filha,  e  a  crônica brasileira estará seguindo seu caminho de texto brasileiro, único, jornalístico, fotográfico. Click. Lindo!

O lançamento da obra está previsto para o dia 30/07.

testeOs sinais da catástrofe que um governo negacionista se recusou a ver

Quando a pandemia de Covid-19 se espalhou pelo mundo, grande parte da população achou que ninguém poderia ter previsto um acontecimento catastrófico dessa magnitude. Mas cientistas e agentes de saúde por todo o mundo já vislumbravam uma crise sanitária iminente havia mais de uma década e se preparavam para isso.

Nos Estados Unidos, tudo começou em 2005, quando o então presidente George W. Bush voltou de suas férias interessado em pandemias. Após lidar com a crise do 11 de setembro e ter anunciado o que ficaria conhecido como a Guerra do Iraque, o republicano estava preocupado com o que enfrentaria em seu segundo mandato. Ele havia lido A grande gripe, de John M. Barry, e decidiu reunir um grupo de especialistas para traçar um plano de combate a possíveis pandemias futuras. Mas, devido às mudanças na administração da Casa Branca nos dez anos seguintes, esse plano foi rapidamente esquecido e arquivado.

Em A premonição, Michael Lewis analisa as constantes batalhas de especialistas e agentes de saúde pública que se recusaram a seguir diretivas baseadas em desinformação e negacionismo. Um thriller de não ficção que explora a abordagem desastrosa do ex-presidente Donald Trump durante a pandemia apenas como uma parte do todo.

Leia um trecho:

 

Laura Glass tinha treze anos e começava a oitava série da Jefferson Middle School em Albuquerque, Novo México, quando deu uma olhada por cima do ombro do pai para ver no que ele estava trabalhando. Bob Glass era cientista do Sandia National Laboratories, criado em meados dos anos 1940 para descobrir tudo o que precisava ser descoberto sobre armas nucleares, menos a criação do plutônio e do urânio que elas carregavam. Foram os engenheiros do Sandia que calcularam como lançar uma bomba de hidrogênio de um avião sem matar o piloto, por exemplo. Em meados dos anos 1980, quando Bob Glass chegou, o Sandia tinha fama de ser o lugar para onde encaminhavam problemas ultrassecretos depois que todo o submundo da segurança nacional fracassara em encontrar uma solução. Atraía pessoas que corriam atrás das próprias ideias, passando por cima de quase todo o resto.

Gente como Bob Glass. Quando dava uma olhada no que o pai fazia, Laura Glass nem sempre entendia aquilo que tinha diante de si, mas nunca parecia ser algo chato.

O que ela viu naquele dia de 2003 foi uma tela repleta de pontos verdes que se movimentavam de modo aparentemente aleatório. Então notou que alguns dos pontos não eram verdes, mas vermelhos, e quando um ponto vermelho esbarrava num verde, o verde

ficava vermelho também. Era o que se chamava de um “modelo baseado no agente”, como explicou seu pai. Imagine que cada um desses pontos é uma pessoa. Existe um monte de pessoas no planeta. Uma delas é você. Existem tipos diferentes de pessoas, com cronogramas diferentes, e existem regras sobre o modo como essas pessoas interagem. Organizei uma espécie de horário para cada uma e depois soltei todas juntas para ver o que acontece…

Uma das coisas que Bob Glass gostava naquele tipo de estudo era a facilidade de explicá-lo. Os modelos eram abstrações, mas o tema abstraído era familiar: uma entidade única, que poderia ser descrita como uma pessoa, uma informação ou uma série de outras

coisas. À medida que os pontinhos verdes ficavam vermelhos era possível acompanhar uma fofoca se espalhando, um engarrafamento, o início de uma arruaça ou a extinção de uma espécie. “Quando começamos a apresentar a questão desse jeito, todo mundo consegue entender de imediato”, disse ele.

Seu modelo era um retrato grosseiro do mundo real, mas permitia enxergar coisas do mundo real que poderiam ser obscurecidas em um retrato mais detalhado. Também permitia que ele respondesse a perguntas complicadas que agora faziam parte da sua rotina, a maioria relacionada à prevenção de algum desastre nacional. O Federal Reserve Bank of New York [Banco da Reserva Federal de Nova York] tinha acabado de usá-lo para compreender como um fracasso que se dava em um extremo do sistema financeiro norte-americano poderia reverberar no outro. O Departamento de Energia queria que ele determinasse se uma pequena falha na rede elétrica poderia desencadear uma onda de apagões por todo o país. Assim que parava de falar de pessoas e começava a falar, por exemplo, de fluxos de dinheiro, correlacionar os pontinhos na tela e o mundo real ficava mais difícil para quase todo mundo entender, mas não para ele. “Eis o ponto crucial da ciência”, diria Bob com entusiasmo. “Toda ciência é baseada em constrição de modelos. Em todas as áreas da ciência, fazemos abstrações da natureza. A pergunta é: trata-se de uma abstração útil?” Para Bob Glass, útil significava: trata-se de uma abstração capaz de ajudar a resolver um problema?

Naquele momento, Laura Glass tinha o próprio problema: a feira de ciências daquele ano. Não dava para fugir. A ciência sempre exercera um papel importante em seu relacionamento com o pai. Era uma regra tácita da família Glass que ela e as duas irmãs competiriam na feira todos os anos. E, na verdade, Laura adorava. “O tipo de ciência que eu podia fazer com meu pai era muito diferente do tipo de ciência que eu fazia na escola”, confessou ela. “Com a ciência da escola eu sempre tive dificuldade.” Com o pai, a ciência era aquela ferramenta para encontrar novas perguntas interessantes para fazer e para responder. Que perguntas eram essas não importava: o pai não tinha o menor respeito pelas fronteiras entre os assuntos e pensava em todas as ciências como uma coisa só. Os dois criaram um projeto sobre a probabilidade com o jogo de cara ou coroa e outro sobre as diferenças na fotossíntese de espécies de plantas. A cada ano o processo ficava mais competitivo. “Quando o ensino médio começa a se aproximar a gente vê que a competição fica mais acirrada”, relembrou Laura.

Enquanto observava a tela do computador do pai, Laura pensou: É quase como se os pontos vermelhos estivessem infectando os verdes. Na aula de história, ela fizera leituras sobre a peste bubônica. “Eu, que não fazia ideia daquilo, fiquei fascinada. Um terço da Europa foi dizimado.” Ela perguntou ao pai: Seria possível usar esse modelo para estudar a propagação de uma doença? Robert não tinha considerado essa possibilidade. “Pensei, Deus do céu, como vou ajudá-la a fazer isso?”, disse ele. Mas essa colaboração era uma coisa inquestionável para pai e para filha. Enquanto a maioria dos pais era do tipo “pais da liga infantil de esportes”, Bob Glass era um “pai dos estudos científicos”. Talvez ele não se realizasse por meio dos projetos de ciência da filha da mesma forma que os outros pais se realizavam com os jogos de beisebol dos filhos. Mesmo assim…

Em pouco tempo pai e filha estavam imersos em um novo projeto para a feira de ciências. Naquele primeiro ano o modelo era grosseiro. A doença era a peste bubônica, o que, em Albuquerque, Novo México, em 2004, parecia um tanto bobo. A aldeia de Laura tinha dez mil habitantes, uma fração da população de seu distrito escolar. No que chamou de “Mundo Infectado”, as pessoas se contaminavam com a praga simplesmente ao passar perto das outras, o que não era realista. Como seria ela quem se colocaria diante de seus painéis de isopor com gráficos e tabelas para responder às perguntas dos juízes, também era ela quem tinha uma consciência mais profunda sobre as limitações de seu projeto. “Os juízes sempre perguntavam: Essa situação é realista? Como você pode aplicá-la e utilizá-la?”, relembra. Mesmo assim, Laura foi a única aluna na feira a apresentar um projeto de epidemiologia. Seu projeto a qualificou para o campeonato estadual. Ela procurou o pai e disse: Vamos fazer uma coisa real.

Para tanto, ela precisava de um patógeno mais plausível. “Falei para o meu pai: ‘Não vai ser a peste bubônica. Vai ser alguma coisa do mundo moderno, alguma coisa tipo a gripe.’” Fosse qual fosse o patógeno, Laura precisaria aprender mais sobre ele e sobre a sociedade na qual ele interagiria. “Ela veio até mim e disse: ‘Pai, não é muito bom que as pessoas fiquem doentes só de passarem umas pelas outras… Ah, e mais uma coisa, as pessoas não andam por aí desse jeito. Elas têm redes sociais. Preciso ter redes sociais por aqui’”, conta Bob. Durante o ano de 2004, Bob observou a filha, agora com catorze anos, preparar um levantamento e realizá-lo com centenas de pessoas em seu distrito escolar: funcionários de empresas, professores, pais, avós, alunos do ensino médio, do ensino fundamental, da pré-escola. “A princípio, eu devia procurar meus colegas e fazer perguntas”, disse Laura. “Com que frequência se abraçavam e se beijavam? Faziam isso com quantas pessoas? Sentavam-se ao lado de quantas pessoas diferentes todos os dias? Quantos minutos passavam sentados ao lado delas? Depois, deixei os colegas e me concentrei nos pais.” Laura mapeou suas redes sociais e seus movimentos, depois as interações entre diferentes redes sociais. Contou o número de pessoas com quem cada indivíduo interagia com proximidade suficiente para ser infectado com um patógeno transmitido por via aérea.

Ela ficou apaixonada pelo projeto de ciências e o pai adorou. Quanto mais Laura se aprofundava, mais ele se aprofundava também. “Eu a tratava como se fosse uma aluna da pós-graduação. Eu dizia: ‘Me mostre o que você fez e faço minhas perguntas.’” Para ajudar a filha, o modelo computacional de Glass precisava ser aprimorado de formas que estavam fora do alcance até mesmo do conhecimento dele. O programador mais talentoso que Bob Glass conhecia era um sujeito no Sandia National Labs, Walt Beyeler. “Sandia é mesmo um lugar bem esquisito. Los Alamos está cheio de gente com pedigree. Já Sandia contrata os cientistas mais brilhantes que consegue encontrar, mas não dá muita importância para o pedigree”, explica Glass. O próprio Glass correspondia à ideia que a maioria das pessoas faz de uma mente brilhante, mas era Walt quem correspondia à ideia de Bob. Pedir a ele que ajudasse com o projeto da filha para a feira de ciências era um pouco como chamar LeBron James para jogar uma pelada de basquete. Walt topou.

O modelo precisava incluir interações sociais realistas. Precisava levar em conta períodos de incubação, que é quando as pessoas estão infectadas, mas ainda não infectam. Precisava de pessoas assintomáticas, porém capazes de propagar a doença. Precisava que indivíduos imunizados ou mortos fossem removidos da rede. Precisava fazer pressupostos sobre o comportamento social dos doentes e sobre a possibilidade de uma pessoa infectar outra quando entrassem em contato. Pai e filha concordaram que, dada a natureza de suas próprias interações, as crianças tinham o dobro de possibilidade de se infectarem em qualquer interação social em relação aos adultos. Em prol da simplicidade, concordaram em deixar algumas coisas de fora. “Não tínhamos universitários no modelo”, disse Bob Glass. “Deixamos de lado casos de uma noite e coisa e tal.”

Bob Glass ficou seriamente interessado. Para ele, parecia menos com um projeto de ciências e mais com um projeto de engenharia. Ao compreender como uma doença avançava dentro de uma comunidade, seria possível encontrar formas de diminuir seu ritmo e até detê-la. Mas como? Bob começou a ler tudo o que podia sobre doenças e a história das epidemias. Chegou até A grande gripe, livro do historiador John M. Barry sobre a pandemia de gripe de 1918. “Eu olhei aquilo e pensei: ‘Meu Deus, cinquenta milhões de pessoas morreram!’ Eu não fazia ideia. Então comecei a pensar quão importante era esse problema.”

Pai e filha ficaram alertas para o verdadeiro mundo das doenças. No outono de 2004, ficaram assustados ao lerem a notícia sobre a contaminação de uma fábrica de vacinas em Liverpool, na Inglaterra, que levou os Estados Unidos a perderem metade de seus suprimentos da vacina contra a gripe. Não havia vacina suficiente para todos. A pergunta era: quem deveria tomá-la, então? A política do governo norte-americano na época era administrar doses para os indivíduos com o maior risco de morte: os idosos. Laura achou que isso não era correto. “Ela disse: ‘Os jovens têm muito mais interações sociais, são eles que transmitem a doença’”, recordou-se o pai. “E se as vacinas fossem aplicadas neles?”, questionou Laura. Assim, pai e filha retornaram ao modelo e ajustaram a aplicação de vacina em jovens, eliminando sua capacidade de transmissão. De fato, os idosos não contraíam a doença. Bob Glass vasculhou a literatura atrás do infectologista ou epidemiologista que já tivesse chegado a essa conclusão. “Só consegui encontrar um artigo que sugerisse isso”, disse ele.

No fim, Laura Glass, então caloura do ensino médio na Albuquerque High School, ganharia o grande prêmio da feira de ciências estadual do Novo México. Estava a caminho da competição internacional em Phoenix, contra dois mil estudantes de todas as partes do mundo. Seus grandes painéis de isopor se concentravam estritamente em uma pergunta: “As cepas de gripe sofrem mutações o tempo inteiro. O que aconteceria se não tivéssemos a vacina apropriada a tempo?” Bob, por sua vez, já havia lido ou, pelo menos, passado os olhos em tudo o que havia sido escrito sobre epidemias e como controlá-las. A doença de 1918, que matara cinquenta milhões de pessoas, surgiu a partir de uma série de mutações no vírus dentro de alguma ave. Em 2005, a gripe sazonal já apresentava algumas dessas mutações. “Uma questão de vida ou morte com proporções globais se aproximava”, escreveria ele mais tarde. No entanto, todos os especialistas presumiam basicamente que, nos primeiros meses após o surgimento de alguma mutação assassina, pouco poderia ser feito para salvar vidas além de isolar os doentes e rezar por uma vacina. O modelo que Bob desenvolvera com a filha demonstrava não existir diferença entre aplicar uma vacina e remover o indivíduo de suas redes sociais: nos dois casos, a pessoa perdia a capacidade de infectar os outros. Os especialistas, porém, só falavam em acelerar a produção e a distribuição das vacinas. Ninguém parecia estar explorando formas mais eficientes e menos disruptivas de retirar as pessoas de seus círculos sociais. “E então eu tive esse medo súbito”, disse Bob. “De que ninguém perceberia o que poderia ser feito.”

 

***

 

A premonição chega às livrarias e lojas on-line em 25 de junho.

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testeO silenciamento dos inocentes: o Hospital Colônia e os manicômios italianos no vintênio fascista

Por Isa Discacciati*

Antônio Gomes da Silva é um dos sobreviventes do Hospital Colônia de Barbacena e teve sua história revelada pela extensa pesquisa da jornalista Daniela Arbex no livro Holocausto brasileiro. Enquanto Cabo — apelido de Antônio — vagava nu e mudo pelo pátio do Pavilhão Afonso Pena, duas meninas brincavam em um clube campestre, a poucos quilômetros dali, em meio à sombra dos eucaliptos e ao barulho dos passarinhos, símbolos da liberdade. Uma dessas meninas era minha irmã, a outra era eu, nascidas nos anos de 1980 e 1981, respectivamente.

Nessa época, Cabo já estava no Colônia havia onze anos. E enquanto nós brincávamos, estudávamos, vivíamos nossas primeiras aventuras adolescentes e partíamos da gelada cidade do interior para estudar na capital, ele, que com seu apelido irônico podia dar voz de prisão, continuava encarcerado. Quando saiu do Colônia, em 2003, eu tinha acabado de me formar em comunicação, aos 22 anos.

Cabo passou 34 anos apartado do convívio social. Sua rotina incluía terapia de eletrochoque e excluía toda atividade que proporcionasse a cura da qual ele nunca precisou. Assim como 70% das pessoas internadas no Colônia, não tinha qualquer diagnóstico de doença mental.

O grupo dos indesejáveis sociais que eram enviados ao Colônia abarcava miseráveis, negros, prostitutas, militantes políticos, homossexuais, alcoólatras, epilépticos, jovens grávidas (muitas vezes vítimas de estupro), crianças com deficiências físicas que envergonhavam os pais e qualquer indivíduo que fugisse aos modelos sociais da época. Uma época que, infelizmente, durou muito. E que fez pelo menos 60 mil vítimas. 

Nós não sabíamos o que acontecia por trás daqueles muros, mas convivíamos incomodados com um título que também nos pertencia. A concentração de hospitais psiquiátricos, justificada pelo clima propício, fez com que Barbacena ficasse conhecida como a Cidade dos Loucos, nome que contrastava com seu outro título, o de Cidade das Rosas. Rosas que muitas vezes eram plantadas nos canteiros do município pelos próprios internos do Colônia, designados para trabalhos braçais (sem nenhuma remuneração) pela prefeitura da cidade.

E foi assim que conhecemos alguns dos sobreviventes do holocausto. Vestidos com o famoso azulão, eles vagavam por Barbacena, capinando jardins, consertando o asfalto, recebendo olhares curiosos ou repulsivos e alimentando nossas fantasias infantis.

As denúncias que apontavam a superlotação, as péssimas condições de higiene e as acomodações inadequadas responsáveis pelas mortes por frio e fome no Colônia só ganharam força na voz de Franco Basaglia. O médico italiano, símbolo da humanização nos modelos de atendimento nos hospitais psiquiátricos, esteve em Barbacena em 1979, um ano depois da assinatura da Lei 180, na Itália, que ficou conhecida como Lei Basaglia. Promulgada durante a gestão de Tina Anselmi, primeira mulher a ocupar um cargo de ministra no país, a lei pioneira dispunha sobre a reforma psiquiátrica e determinava o fechamento dos manicômios.

Desconcertado após a visita, Franco Basaglia comparou o Hospital Colônia a um campo de concentração. Mas a imagem do holocausto denunciada pelo italiano em Barbacena, em 1979, reproduzia parte da realidade vista em seu país durante o vintênio fascista (1922-1943).

Em uma tarde de primavera, visitei o Museo del Manicomio, na ilha de San Servolo, em Veneza. Assim como no Museu da Loucura, de Barbacena, o acervo suscita inquietação. Algemas, camisas de força, aparelhos de eletrochoque e muitas imagens de seres humanos marginalizados. No mesmo local onde funciona uma fundação que leva o nome de Basaglia estão reunidos milhares de documentos que atestam que o holocausto psiquiátrico não foi exclusividade do Colônia. Entre os documentos, estão as cartas de uma mulher endereçadas a um homem importante, e uma delas diz: “Enquanto estou longe, prisioneira em um vulgaríssimo manicômio, submetida à fome, às torturas, a ultrajes inimagináveis, tomada pelo desespero, você se cala.”

 

O fascismo e os hospitais psiquiátricos: a história de Ida Dalser 

O regime totalitário de Benito Mussolini teve grande influência na dinâmica dos hospitais psiquiátricos. Por um lado, garantia a manutenção dos ideais fascistas, prendendo nos manicômios as mulheres que não correspondiam à imagem de esposa e reprodutora virtuosa da raça italiana. Por outro, silenciava entre os muros dos hospícios seus opositores, reprimindo o dissenso político. Uma pesquisa feita pelo historiador Matteo Petracci, a partir de documentos do Arquivo Central do Estado Italiano, levantou o nome de 475 antifascistas internados em manicômios italianos. Cento e vinte e dois deles morreram dentro dos hospitais.

Em M, o filho do século, obra que faz uma profunda análise da ascensão do regime fascista, o autor Antonio Scurati cita um nome emblemático, apesar de pouco conhecido, que esteve no centro da repressão fascista nos manicômios. Ida Dalser foi a primeira mulher de Benito Mussolini. Poliglota, autônoma, empreendedora e inteligente, abriu um salão de beleza em Milão, em 1913, e começou uma relação amorosa com o Duce, com quem teve um filho, em 1915, Benito Albino. Dalser apoiou incondicionalmente Mussolini no início da carreira e chegou a vender o salão para financiar sua atividade política.

Sua vida sofreu um revés quando Mussolini a abandoou e se casou com Rachele Guidi. A partir daí, Dalser começou uma batalha pelo reconhecimento de seus direitos, escrevendo cartas a autoridades, perseguindo Mussolini em eventos públicos e ameaçando a imagem dele.

A política repressora do regime totalitário definiu o destino de Ida Dalser respaldada pela legislação da época, que se baseava em dois pressupostos para a internação em hospícios: a periculosidade social e o escândalo público. Ida era uma peça incômoda e uma mancha na biografia de Mussolini, que propagava valores conservadores de devoção e respeito à família.

Depois de perseguida e vigiada, a mulher secreta do Duce foi reclusa no manicômio da cidade de Pergine, onde continuou escrevendo cartas que contavam detalhes de sua história. Em 1926, ela deu entrada no manicômio feminino da ilha de São Clemente, em Veneza, onde foi sujeita a procedimentos como hidroterapia (banhos quentes e gelados alternados), terapia do sono, alimentação forçada com sonda e métodos violentos de contenção. Ida morreu em dezembro de 1937, aos 57 anos, sem ter revisto o filho. Benitinho, que fora reconhecido formalmente pelo pai em 1916 ¾ com quem jamais teve contato ¾, também foi vítima do regime. Ele faleceu aos 26 anos, em 1942, no manicômio de Mombello, onde foi internado compulsoriamente.

A história de Dalser só veio à luz em 2000, quando o jornalista italiano Marco Zeni, após longa pesquisa, escreveu o livro L’ultimo filò. Em 2009, o consagrado diretor italiano Marco Bellocchio produziu o filme Vincere, revelando no cinema o segredo de Mussolini. Agora é a vez da história do Colônia, brilhantemente contada por Daniela Arbex, ganhar uma nova versão. A partir do dia 25 de junho, a Globoplay e o Canal Brasil transmitirão a série Colônia, relembrando que conhecer a história é a melhor forma de não deixar que ela se repita.

 

*Isabela Discacciati é jornalista e vive em Treviso, norte da Itália. Especializada em cultura e patrimônio gastronômico pela Universidade Ca Foscari, de Veneza é autora do guia Passeios em Veneza e realiza tours temáticos pela cidade. Leitora entusiasmada desde criança, se inspira no universo dos livros para escrever e contar histórias.

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testeA passabilidade e a política de embranquecimento

Morena Mariah estreia o Quintas pretas, projeto da Intrínseca que abre espaço semanalmente para uma convidada pautar conversas sobre temas fundamentais para a nossa construção como sociedade.

Por Morena Mariah

Passabilidade é um daqueles assuntos delicados que, quando mencionados, fazem as pessoas se mexerem desconfortáveis na cadeira. Mas até os assuntos mais sensíveis precisam ser debatidos e refletidos, pois a transformação depende da nossa capacidade, enquanto sociedade, de tolerar desconfortos, contradições e interesses conflitantes para que haja a construção de um consenso. Sobretudo dentro dos movimentos negros, a formação de consenso para avanço de lutas comuns é fundamental.

A primeira vez que ouvi o termo passabilidade foi em uma discussão, quase briga, entre pessoas negras. Daí em diante, evitei ao máximo pautar publicamente esse debate, porque o assunto toca em questões que nós, dos movimentos negros brasileiros, lutamos durante muitos anos para superar — e ouso dizer que seguem inconclusas.

O termo passabilidade (em inglês, “passing”) significa a possibilidade de uma pessoa ser lida socialmente como membro de um grupo identitário diferente do seu pertencimento originário. Ou seja, é a capacidade de uma pessoa negra se passar por branca, ou de uma pessoa trans se passar por cisgênera, por exemplo. Os objetivos de “se passar” por outra categoria de identidade vão desde a sobrevivência, em casos em que há perigo de morte, até a obtenção de recompensas ou aumento de aceitação social por um grupo dominante.

Nesta reflexão, vamos nos ater a uma análise genealógica e social do conceito, trazendo a realidade brasileira para o campo do debate. É importante contextualizar o surgimento do termo “passabilidade” e levar em conta a historicidade na análise, a fim de evitar anacronismos, uma vez que a realidade social brasileira, e as tensões raciais que a envolvem, diferem em muito da realidade estadunidense.

De início, nos Estados Unidos, a segregação racial se deu de forma explícita, não permitindo a pessoas negras qualquer tipo de mobilidade social, em função de sua raça. Somente no contexto do pós-abolição a população negra estadunidense conseguiu iniciar o movimento de ascensão social de forma mais massiva. A miscigenação, que deu origem a sujeitos tratados no contexto estadunidense como birraciais ou mestiços, foi resultado de estupros, assim como aconteceu no Brasil, durante o período da escravização, e só posteriormente resultou de relações interraciais.

Durante o período da escravização nos Estados Unidos, mesmo as pessoas negras de pele clara tinham seu pertencimento demarcado, de forma a manter o sistema de segregação vigente. As pessoas negras que conseguiam alcançar a liberdade precisavam construir as próprias comunidades e empreendimentos, visto que a segregação impedia que brancos e negros convivessem de forma horizontal.

Assim, o uso da palavra passabilidade para denotar a ambiguidade na leitura social a que indivíduos miscigenados estavam submetidos surge e passa a ser frequente por volta de 1920 nos Estados Unidos. Falar dessa ambiguidade nos aproxima de outro tema muito lembrado nos debates raciais contemporâneos no Brasil — mas nem sempre tratado com o devido cuidado: o colorismo.

O colorismo é uma estrutura hierárquica que impõe a superioridade branca enquanto ideal de poder. Quanto mais próximo do ideal de brancura o sujeito está, melhor será sua condição socioeconômica. Dessa forma, cria-se uma estratificação entre pessoas negras, que as diferencia e tem como objetivo reforçar essa lógica de ordenamento racial, mantendo sujeitos de pele escura nas piores condições e oferecendo aos sujeitos de pele clara benefícios e recompensas por se aproximarem do ideal racial de brancura. É preciso frisar que passabilidade e colorismo são fenômenos derivados de uma estrutura maior e mais poderosa: o racismo. Ambos os conceitos são importantes para entender como o racismo opera nas dinâmicas entre pessoas negras e na relação destas com a branquitude.

Navegando ainda pela história do conceito de passabilidade, chegamos então à década de 1950 nos Estados Unidos, no início do Movimento pelos Direitos Civis. Uma de suas campanhas mais emblemáticas dessa época é o “Black Is Beautiful”, que tinha como objetivo combater o auto-ódio e o racismo internalizado pela comunidade negra e incentivar que todas as pessoas negras, de pele clara ou escura, reivindicassem pertencimento e cultivassem o orgulho de serem negras. Todo esse movimento de incentivo ao reconhecimento das matrizes afro-americanas atenuou a relevância da discussão em torno da passabilidade, já que cada vez mais pessoas negras de pele clara passaram a assumir suas raízes.

 

A política brasileira de embranquecimento

Enquanto isso, no Brasil escravocrata, pessoas negras que conquistavam a liberdade não tinham direito de adquirir terras, estudar ou desenvolver os próprios empreendimentos de forma institucionalizada. Mesmo após a abolição oficial em 1888, negros sofriam proibições  até em relação a práticas religiosas ou à circulação pública. Isso mesmo. A lei da vadiagem tornava legal a prisão de pessoas negras que estivessem na rua. Mesmo após a abolição, nenhum tipo de lei havia sido criado para garantir efetivamente a inserção de pessoas negras na sociedade.

Com todas as possibilidades de ascensão social negadas, o único caminho era o embranquecimento, que não só não era proibido, como era incentivado pelo Estado enquanto política pública. Para figuras como Silvio Romero e João Batista, integrantes do movimento eugenista no Brasil e membros de instituições importantes à época, como o Museu Nacional e a Academia Brasileira de Letras, a solução era extinguir o tráfico negreiro para cessar a entrada de africanos no Brasil, exterminar a população indígena, manter alta a taxa de mortalidade da população negra e incentivar a imigração europeia. Ao seguir essa receita, a previsão era de que em um século a população negra se tornaria cada vez mais embranquecida, até seu completo desaparecimento. Constava na Constituição de 1934 o dever do Estado brasileiro de promover a “educação eugênica” no país.

Neste cenário, as ideias coloristas que hierarquizavam pessoas negras pelo tom de pele tiveram cada vez mais aderência social. Tornou-se, então, uma questão de sobrevivência embranquecer-se no Brasil pós-abolição. A negritude inegável de pessoas de pele escura passou a ser cada vez mais desprezada, enquanto a figura do “mulato” foi sendo reconhecida como sinônimo do sucesso das políticas de embranquecimento adotadas pelo Estado brasileiro.

A passabilidade de sujeitos de pele escura era — e segue sendo — nula, e sobre eles recaía todo o peso da violência racial velada. Já entre os negros de pele clara, aumentou a aceitação social, e, junto dela, as oportunidades de ascensão social. A passabilidade era, então, desejada, inclusive pelos sujeitos de pele escura, como único recurso disponível para evitar a violenta exclusão social que se impunha.

O mito da democracia racial e do “homem cordial” surgem nas vozes dos intelectuais brancos Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Holanda, que descreviam em seus livros o Brasil como sendo um paraíso da miscigenação, que, na prática, para a população negra, nunca existiu. Mesmo com o processo de embranquecimento em curso no país ao longo de todo o século XX, é necessário frisar que as violências do racismo contra pessoas de pele negra de todos os tons seguiram se reinventando e, mesmo que mudassem de intensidade, nunca cessaram.

O movimento de reconhecimento da negritude de pessoas de pele clara no Brasil começa a acontecer aos poucos ainda no século XXI. Exemplo que ratifica este entendimento é o aumento no número de pessoas que se autodeclaram negras ao censo do IBGE, na maioria dos casos como pardas. Se o reconhecimento do pertencimento racial para pessoas de pele clara é marcado por processos de luta e resistência, por outro lado pessoas pretas de pele escura nunca puderam usufruir do benefício da dúvida e, com ele, de maior aceitação social.

 

A passabilidade na ficção

A metade perdida explora, através da ficção, os conflitos e tensões que a passabilidade provoca nas relações entre pessoas negras. A possibilidade de obter benefícios, a hierarquização e o caminho de ascensão pelo embranquecimento fazem refletir sobre as opressões que ainda nos atravessam e de que maneiras esses aspectos criam novas formas de violência que se atualizam ininterruptamente.

Acompanhamos as irmãs gêmeas Vignes em sua travessia pela adolescência na isolada cidade de Mallard — formada por uma comunidade de pessoas negras de pele clara que se recusam a serem lidas socialmente como pessoas de pele escura, rechaçando a própria negritude —, até a vida adulta, quando  cada uma delas opta por um caminho oposto ao construir suas identidades raciais.

A trama de Brit Bennett nos aponta nuances cruéis de um mundo que, ainda hoje, submete pessoas negras a critérios de valoração de sua humanidade, e ergue um muro construído com base na quantidade de melanina entre semelhantes. A obra evidencia a importância de compreendermos o refinamento e as armadilhas da estrutura racialmente hierarquizada na qual todos vivemos e nos convida à vontade de transformação que somente a dor das injustiças pode nos provocar.

 

Morena Mariah é escritora, estrategista e produtora cultural, consultora de projetos e palestrante. Resolvedora de problemas complexos. Especialista em Afrofuturismo, Estudos Culturais, Mídias e Cultura Afrodiaspórica.

testeVasto, perigoso e sem lei: uma investigação sobre a fronteira menos vigiada do nosso planeta

Apesar de ocuparem dois terços do planeta e nos fascinarem com sua beleza, os oceanos são lugares distópicos, pouco conhecidos e com altos índices de criminalidade. Povoados por traficantes, contrabandistas, ladrões de naufrágios e despejadores ilegais de petróleo, os mares são grandes demais para serem policiados e não há  uma jurisdição internacional bem definida. Tudo isso leva a práticas tenebrosas e desumanas, como tripulações escravas em navios e atividade pesqueira clandestina.

A falta de regulamentação fica ainda mais evidente quando surgem casos de grande repercussão como o encalhe do navio Evergreen, no canal de Suez, em março de 2021, e o vazamento de 5 mil toneladas de óleo na costa brasileira em 2019, cuja origem até hoje é desconhecida.   

Diante de um cenário tão perturbador e pouco conhecido, o premiado repórter do The New York Times Ian Urbina decidiu investir cinco anos de sua carreira em uma perigosa investigação sobre esse mundo oculto. A bordo de diversas embarcações e muito longe da terra firme, Urbina conheceu vários personagens surpreendentes e histórias de coragem, brutalidade, sobrevivência e tragédia. O resultado é o livro Oceano sem lei, que chega ao Brasil no dia 25 de junho e já está em pré-venda.

Os direitos da obra foram comprados por Leonardo DiCaprio e pela Netflix, que planejam produzir uma série documental inspirada na reveladora investigação de Urbina. Antes disso, algumas das matérias do autor inspiraram filmes como Horizonte profundo (2011), com Mark Wahlberg, e Redenção (2011), com Gerard Butler.