Bastidores

A primeira carta de amor

4 / maio / 2016

Por Rebeca Bolite*

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Era fim de 2011, talvez início de 2012, e começamos a trabalhar em um livro de uma autora que já tínhamos ouvido falar, por alto. De cara, confesso que não me chamou muito a atenção. O original tinha uma capa meio rosada, com tons de lilás, a história parecia ser algo sobre duas mulheres, cada uma em sua época, enfrentando questões de relacionamento. Havíamos acabado de lançar Um dia, existia muita expectativa em torno da E L James, autora de Cinquenta tons de cinza, e o livro de capa meio rosada estava lá na minha mesa, esperando para ser lido.

A autora era Jojo Moyes, o romance, A última carta de amor, e eu ainda não tinha noção do livro fantástico que tinha em mãos.

Em uma semana, é claro, eu só queria trabalhar naquele livro. Comentava empolgada com os colegas como ele era bom, surpreendente, cheio de reviravoltas. Imaginem vocês, Londres, em 1960. Após sofrer um acidente, Jennifer perde a memória completamente. De volta à casa, com marido, familiares e amigos fazendo de tudo para que ela lembre algo, Jennifer encontra uma série de cartas de amor, endereçadas a ela, assinadas por um tal de B. Ela percebe então que estava vivendo um romance fora do casamento. Nos anos 2000, na mesma Londres, Ellie encontra uma dessas cartas enquanto faz pesquisas para uma matéria no jornal em que trabalha. Obcecada pela ideia de reunir os dois protagonistas da história, ela empreende diversas investigações, que, ao final, farão com que os caminhos do seu próprio destino sejam alterados.

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Capa antiga e capa nova de A última carta de amor

Fiquei durante meses intrigada com essa ideia sensacional e inovadora de enredo. Como seria acordar um dia como Jennifer e não lembrar nada da minha vida? Olhar para objetos que guardo para me recordar de determinados momentos e eles de uma hora para outra não significarem nada para mim? (Isso porque não tenho cartas de amantes guardadas, hehehe.)

Ou, como Ellie, achar uma carta tão emocionante e verdadeira que encontrar remetente e destinatário se torne prioridade, além de fazer repensar tudo que você considerava verdade na sua vida?

Confesso que me sinto uma mistura da jornalista metida a detetive com a mulher dos anos sessenta que perdeu a memória quando revisito as fotos antigas dos meus pais, avós, bisavós. Não que eu repense toda a verdade da minha vida ou que esqueça quem as pessoas são, claro. Mas faço muitas reflexões sobre as verdades das vidas, de modo geral, e tento encontrar, identificar, reconhecer as pessoas das fotos, só que de forma abstrata.

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Vovó, mamãe e titia enfileiradinhas, encostadas num carro, como numa capa de disco dos anos setenta. Obviamente foi proposital. Titia está com uma cara de adolescente entediada, mamãe decidiu posar mirando o nada e vovó aparentemente não entendeu o conceito da coisa toda e resolveu olhar de forma coquete para o fotógrafo.

Papai sentadinho no chão de um lugar qualquer, olhando para o lado, com as mãozinhas juntas: vovó, tão cheia de capas plásticas no sofá, TV e máquina de lavar, já teve coragem de largar um filho bebê num chão de cimento qualquer com o único propósito aparente de tirar um retrato?

Em uma foto tirada do alto por alguém certamente de pé numa cadeira, uma festa de aniversário: vovó de óculos escuros estilo gatinho virando a cara do titio, para ele aparecer na foto?, uma bronca?, a bisavó com cara de poucos amigos mais atrás, talvez pensando em ralhar com alguém, mamãe de colarzinho olhando alguma coisa na cara do titio.

No que parece ser um evento da Marinha, vovó olha para vovô, estão dançando?, de forma quase apaixonada, um sentimento que não transparece mais nas macarronadas de domingo.

Vovô, vovó, mamãe e titia num brinde a alguma coisa: vovó com a mesma cara de hoje em dia, impressionantemente; vovô de bigodón fumando, e eu nem sabia que vovô já havia sido fumante, sem nem ligar para a foto, bem blasé, característica que mantém; mamãe fazendo pose de bonita e requintada brindando com o fotógrafo, quem era ele?, e titia com um corte de cabelo bem hippie que eu não ousaria usar e nem a encorajaria a repetir.

Vovó posando de pé ao lado de um Fusca. Na verdade, segurando a maçaneta do carro, em um terreno descampado tão bizarro que, se não fosse minha própria família, eu poderia dizer que é o registro do roubo do veículo. Talvez seja. As famílias escondem muitas coisas do passado…

E olhando essas fotos sempre me pergunto quem são essas pessoas retratadas, quem são as pessoas que tiraram as fotos. São as mesmas do almoço de domingo? A resposta, acho, é que são e não são. Talvez fossem pessoas com outros sonhos e aspirações, que não imaginavam os filhos, os netos e os bisnetos que iam ter: criaturas que lhes dariam alegrias e desgostos na mesma medida (apesar de que, se perguntados agora, certamente dirão só alegrias).

O tempo muda muito as pessoas. Ainda falta um pouco para eu ser octogenária como os meus avós, mas em algumas fotos minhas mais antigas eu enxergo uma Rebeca que sou e não sou eu, cuja trajetória foi alterada, as arestas, lixadas. Alguns sonhos foram desbotados pela realidade; outros surgiram, mas já moldados pela noção de possibilidade.

Talvez tenha sido isso que aconteceu com as pessoas das minhas fotos de família. Mas não quero perguntar nada. Amo vislumbrar, nessas pausas impressas do tempo, potências de vida dos seres humanos cujos rostos reconheço.

Essas reflexões claro sempre trazem mais perguntas que respostas, bem ao estilo Jojo Moyes. Bem ao estilo A última carta de amor, que foi, na verdade, a primeira carta de amor entre mim e Jojo e é um xodó da editora, por ter sido nosso primeiro livro dela. Um livro de enredo incrível, como eu já disse, que fala sobre amor, memória, essência do ser, personalidade… Prato cheio para diversas reflexões.

Três, quatro anos depois, já são 6 livros da Jojo lançados pela Intrínseca e nós temos cada vez mais orgulho de publicá-la. Uma autora habilidosa, com um talento insuperável na criação de personagens femininas fortes e cativantes, histórias de amor quem fazem rir e chorar (às vezes chorar mais que rir), que retrata com perfeição épocas passadas e também o tempo atual.

Fica então o convite para que todos revisitem as antigas fotos de suas famílias com outro olhar, procurando desconhecer as pessoas que você conhece, como a Jennifer, ou talvez sentindo-se um pouco como Ellie, uma detetive de histórias passadas.

*Rebeca Bolite é editora de livros na Intrínseca e, como Pat Peoples, está sempre procurando o lado bom das coisas.

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Comentários

8 Respostas para “A primeira carta de amor

  1. Que lindo texto minha filha. Desperta a vontade de ler esta história.

  2. Muito bom. Muito bom mesmo. Bjs

  3. Textos muito legais, mas tenho que falar que a capa antiga de “A última Carta de Amor” é muuuuuuuuuuuuuuito mais bonita do que a nova. :/

  4. Assim como você Rebeca, me apaixonei pela JoJo ao 1 olhar nesse livro, ha alguns anos atrás. O tenho e sempre tive muito carinho por ele. Nunca pensei que gostaria de uma autora desse tipo de Romance, mas ela me conquistou. =)

  5. Querida sou professora de literatura e mestre em critica literaria e fa da jojo. Esse livro é maravilhoso. Como todos os dela claro. Fa convencida. Mas o seu texto é simplesmente maravilhoso. Perfeito. Fantastico. E muito tocante. Parabens vc é um genio. Sua eacrita é simpleamente perfeita. Estou sem palavras Rebecca.

  6. Lindo o texto!! Sou super fã da Jojo, já li outros dela e esse, que foi o primeiro, estou lendo só agora!! Estou simplesmente AMANDO!!!
    Quanto a capa, a antiga era linda mas a atual segue o mesmo layout das outras, e são tão lindas….prefiro a nova!!!

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