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As faces do conflito: conheça os personagens de Pátria – Parte 2

19 / novembro / 2020

A complexidade dos personagens de Pátria, cada um com suas ambiguidades, defeitos e qualidades, enriquece a trama e nos mantêm envolvidos, seja no percurso das 500 páginas da obra literária ou ao longo dos oito episódios da adaptação televisiva. Confira a segunda parte do artigo que joga luz sobre as estrelas da história: personagens e atores.

 

1) O escritor Fernando Aramburu, autor do livro Pátria, confessa ter predileção por Arantxa, devido à sua personalidade “corajosa, batalhadora, com uma grande capacidade comunicação” e por ser o “tipo de personagem que ao entrar em cena faz as coisas mais interessantes acontecerem”. Já o criador e roteirista da série, Aitor Gabilondo, afirma que o personagem com quem ele mais se identifica é Gorka, o filho mais novo de Miren, que encontra na escrita um passaporte para um novo mundo, longe das tensões domésticas e do domínio do ETA. “Gorka faz uma viagem em direção à sua liberdade individual, ele tem uma rebeldia suave. É um personagem delicado, um homem discreto, nada agressivo, que ama sua família e tem sensibilidade para entender todos e não os rejeitar, embora não compartilhe os pensamentos de seu irmão”, afirma Gabilondo.

 

2) O intérprete de Gorka, Eneko Sagardoy, afirma que uma das coisas mais impactantes da série foi ter de encarnar o personagem durante tantos anos em com tantos eventos importantes. “Sem o apoio imprescindível da maquiagem, do cabelo e do figurino esses personagens não existiriam. No livro há muitas elipses e na série também. Então cada ator teve de fazer seu trabalho, entender o que acontecia com esses personagens ao longo do tempo”, diz.

 

3) Nerea, a filha mais nova de Bittori, talvez seja um dos personagens mais enigmáticos da trama. Sua reação à morte do pai não é das mais comuns: ela decide não ir ao enterro e busca esquecer a dor afastando-se da família. “A princípio, por preconceito, tive dificuldade em entendê-la. Mas depois, refletindo, passei a apreciá-la porque é livre. Ela tem direito de lidar com sua dor da forma que quer. Acredito que a atriz (Susana Abaitua) entendeu isso muito bem. Inclusive ela me disse que conversou com um psicólogo para traçar um perfil do personagem, que é complexo.”, afirma Aitor Gabilondo.

 

4) Susana Abaitua, também destaca o apoio imprescindível da caracterização na composição dos personagens. “As mudanças (de época) eram constantes. Durante a rodagem, de manhã estávamos numa época e à tarde em outra. O arco de Nerea é tão grande, sua evolução é tão grande, que eu precisava ter as coisas muito claras no nível emocional.” Ela ressalta ainda a importância do trabalho dos atores. “Não se pode ter o mesmo olhar com 16 e com 35 anos. Há um frescor do pouco vivido, de quem não tem ideia de nada”, diz.

 

5) A escolha do elenco foi tão acertada que é difícil imaginar os personagens com outros rostos. No entanto, pelo menos dois atores fizeram testes para personagens distintos: José Ramón Soroiz, que interpreta Txato, fez o casting para encarnar Joxian, que ao final ficou a cargo de Mikel Laskurain, que por sua vez foi testado para o papel do padre da trama, Don Serapio.

 

6) Embora os protagonistas da série sejam os membros das famílias de Bittori e Miren, existem outros dois personagens importantes, que participam de momentos significativos da trama: o padre do vilarejo, Don Serapio (interpretado por Patxi Santamaría) e a cuidadora de Arantxa, Celeste (interpretada por María Isabel Díaz Lago). Em certa medida, o padre e a cuidadora são polos opostos: ele é o personagem mais vilanesco da história, em muitos momentos demonstra frieza e maldade, em nome da causa separatista; ela é a personificação da generosidade e do afeto. “É um personagem que ressalta um pouco as características contraditórias dos outros. Miren se protege muito, não quer demonstrar suas emoções, e Celeste, em contraposição, é doce, maternal e protetora. Ela tem uma relação tão bela com Arantxa, de cumplicidade, que vai muito além do que Miren impõe.”, defende María Isabel.

 

7) Para o papel do personagem Txopo, líder do Comando Oria – a célula terrorista de que fazem parte Joxe Mari e Patxo –, Aitor Gabilondo escalou a atriz Nagore Aranburu, embora no livro o personagem seja um homem. Ele afirma que essa decisão foi uma forma de diferenciar mais facilmente os três membros do Comando, já que Txopo seria mais um rapaz jovem de vinte poucos anos. De quebra, ele pôde realizar o desejo de ter Nagore na série. “É uma atriz estupenda com uma presença física espetacular. Seu trabalho no filme Flores (de Jon Garaño e José María Goenaga, disponível na Netflix) me fascinou”, conta.

 

8) Nem só de lembranças amargas, como atentados e mortes, vive a equipe de Pátria. Graças à série, Aitor Gabilondo teve a oportunidade de reviver seus tempos de juventude nas cenas rodadas em uma discoteca. O estabelecimento citado no livro, KU, já foi fechado e precisou ser reconstituído pela equipe de arte, mas Gabilondo se lembra bem de suas noitadas nos anos 1980. “Foi divertido fazer as cenas, reviver. Precisamos ensinar os atores e os figurantes a dançar como as pessoas dançavam naquela época. Houve algumas aulas e eles também assistiram a vídeos”, lembra o criador da série.

 

9) Em uma história tão cheia de silêncios, com pessoas contidas que nem sempre podem ou conseguem dizer o que pensam e o que sentem, o olhar precisa, de fato, transmitir muito. O povoado onde vivem as duas famílias também é um personagem relevante da trama. As janelas de casas e prédios são olhos que testemunham acontecimentos importantes como o assassinato de Txato. “O medo impede que as pessoas apareçam na janela. É a prisão mental. Medo de que aconteça o mesmo com elas. O fato de ninguém acudir (os gritos de Bittori) não quer dizer que ninguém quisesse ajudar”, afirma Aitor Gabilondo.

 

Em diversas entrevistas os atores e os profissionais da equipe técnica afirmaram que Pátria representa um divisor de águas em suas carreiras, uma oportunidade única de participar de um projeto de grande envergadura e com grande excelência técnica a respeito de um tema tão próximo e significativo para todos, sobretudo para os que são do País Basco. Com Pátria, as vítimas, os que foram silenciados e ameaçados, finalmente puderam ser protagonistas de suas histórias.

Se você quiser mergulhar ainda mais no universo de Pátria, não deixe de ler os outros artigos especiais sobre o livro e a série publicados aqui no blog. O primeiro  trata dos bastidores e do processo de adaptação para a TV, o segundo  aborda as diferenças e semelhanças entre as duas obras e o terceiro apresenta outras curiosidades sobre personagens e atores. 

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