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As faces do conflito: conheça os personagens de Pátria – Parte 1

10 / novembro / 2020

Por Elisa Menezes

Uma das razões do sucesso de Pátria — e isso vale para o livro e para a série — está no fato de que a obra retrata o impacto e as consequências do conflito basco e da atuação do ETA no dia a dia de pessoas comuns. É através dos olhos de donas de casa, comerciantes, estudantes e operários que enxergamos essa mancha impregnando todas as relações. Nada mais justo então do que dedicarmos um olhar atento a esses personagens e aos atores que lhes dão vida. Confira a primeira parte dessa radiografia:

 

1) Embora descreva pouquíssimas características físicas dos personagens, Fernando Aramburu dá aos leitores muitas pistas de seu temperamento — através de ações, falas e pensamentos — que ajudam a construir um rico perfil psicológico dos protagonistas. Sabemos, por exemplo, que a viúva Bittori tem, em 2011, entre 65 e 70 anos, é uma senhora magra e “não envelheceu bem”. Suas atitudes nos dizem, no entanto, que ela é determinada, muito digna, orgulhosa, dominadora e irônica. Sua ex-amiga Miren, por sua vez, está “bem conservada”, tem “sobrancelhas zangadas”, é controladora, pão-dura, teimosa, fria e impaciente. Para não manchar sua reputação de durona, esconde-se no banheiro quando quer chorar. Coloca os filhos acima de tudo.

2) Com essas informações, o artista plástico Renato Moriconi criou dois retratos em guache sobre papel para a edição de julho de 2019 da revista do clube do livro da editora Intrínseca, o intrínsecos, que na ocasião enviou o livro Pátria a seus assinantes, em primeira mão. O curioso é que a Bittori de Moriconi assemelha-se bastante à caracterização da atriz Elena Irureta, que interpreta a personagem na série de TV, como é possível ver na imagem a seguir.

 

3) Elena Irureta e Ane Gabarain, que encarna Miren, são, sem dúvida, as grandes estrelas da série. Elena, de 65 anos, tem uma longa carreira na televisão e no cinema. Sua atuação abarca todas as nuances da personagem: a maneira determinada de caminhar, a postura digna, o olhar decidido, a ironia e o sarcasmo, está tudo lá. Embora personifique com muita autenticidade a aspereza e a amargura de Miren, Ane Gabarain é conhecida, sobretudo, por sua faceta cômica em seriados de TV, peças e filmes. Na vida real, as atrizes são amigas e se conhecem há mais de 30 anos.

 

4) Um dos grandes acertos da série foi escalar um elenco majoritariamente basco, que vivenciou em alguma medida a realidade do conflito. “O diretor não precisava nos explicar o contexto. Eu tenho 70 anos e vivi isso, então minha preparação foi fazer o que eu já sabia fazer. Nós vivemos sabendo quando podíamos ou não dizer algo”, afirma José Ramón Soroiz, intérprete de Txato, o empresário, marido de Bittori, que é assassinado pelo ETA por não conseguir pagar o “imposto revolucionário”. Ane Gabarain endossa seu colega de elenco: “Todos nós conhecemos alguém que sofreu a violência do ETA, e em San Sebastián, onde moro, também tenho conhecidos a favor dos Entendemos perfeitamente a dor dessas duas mulheres.”

 

5) De fato, alguns atores vivenciaram muito de perto essa violência. José Ramón Soroiz revelou que se inspirou no cunhado, ex-governador da província de Guipúscoa, assassinado com dois tiros na nuca pelo ETA em 2000. “Juan Mari Jáuregui era meu cunhado e amigo. Uma das razões para eu aceitar o papel na série foi ele. Quando pensava em Txato, Juan Mari me vinha à cabeça”, contou o ator em entrevista ao jornal El Correo.

 

6) Além de estarem familiarizados com os dramas de seus personagens, vários atores da série já se conheciam e haviam trabalhados juntos. Elena, Ane e José Ramón atuaram em uma série de TV. Mikel Laskurain (que faz o papel de Joxian) e Ane já interpretaram marido e mulher em uma peça de teatro.

 

7) Arantxa, um dos personagens mais carismáticos de Pátria — por sinal, o preferido de Fernando Aramburu —, representou grandes desafios para sua intérprete, Loreto Mauleón, que teve de encarná-la em três momentos distintos: jovem, no início da trama; casada, alguns anos depois; e depois de sofrer um AVC que a deixou com graves sequelas — incapacidade de fala, paralisia facial, perda de movimento dos membros inferiores e necessidade de usar uma cadeira de rodas. “Foi mais fácil estar consciente de que não podia mexer o rosto por causa da prótese facial. Com o corpo era mais difícil”, lembra Loreto. Mesmo sem poder falar, é Arantxa quem promove o diálogo, a única pessoa que dá as boas-vindas a Bittori quando esta decide retornar ao povoado. Embora não possa se mover, a filha mais velha de Miren é quem mais movimenta a trama, buscando a reconciliação entre as duas famílias. “Tinha lido o livro um ano antes de me chamarem para os testes e me apaixonei por Arantxa, foi amor à primeira vista”, conta a atriz.

 

8) De certa forma, quase todos os personagens de Pátria passam a viver em algum tipo de prisão após a morte de Txato. Joxe Mari (interpretado por Jon Olivares) é preso pelos crimes que cometeu em nome do ETA. Arantxa, após o AVC, fica presa em seu corpo quase totalmente imóvel. Xabier, o filho mais velho de Bittori e Txato, interpretado por Iñigo Aranbarri, torna-se prisioneiro da própria tristeza.

9) Se Loreto precisou conter os movimentos, Iñigo teve de conter as emoções para dar vida a um personagem que nunca sorri. O ator disse que durante sua preparação baixou uma playlist intitulada “Depressive” para entrar no clima de Xabier. “Quando penso nas filmagens me lembro muito da dor. Sinto muita compaixão por Xabier, que não se permite ser feliz depois da morte do pai”, disse Iñigo.

 

10) Encontrar o ator ideal para o papel de Joxe Mari, o filho etarra de Miren, foi um desafio. “Precisávamos de alguém com um físico contundente e, ainda por cima, já tínhamos escalado Eneko (Sagardoy), que é um jovem alto, para viver o irmão mais novo, Gorka. Então tínhamos de encontrar um garoto mais alto e mais forte e que ainda tivesse esse nariz que Eneko tem, tão peculiar”, revela o criador e roteirista da série, Aitor Gabilondo. Depois de muitos castings infrutíferos no País Basco, Mikel Laskurain, que interpreta Joxian, sugeriu que os diretores falassem com um jovem ator de teatro que havia trabalhado com ele. “Ficamos atônitos com Jon Olivares porque vimos aquela corpulência. Eu disse que ele teria que malhar, porque precisava estar sarado, musculoso, para as cenas de tortura em que apareceria sem roupa. Era muito importante que o ator fosse atraente e um pouco ameaçador. Precisávamos de um físico poderoso. Jon é um garoto encantador, doce, nada agressivo”, afirma Gabilondo.

Confira o com os personagens

 

Não perca a segunda parte deste artigo especial com mais curiosidades de bastidores e histórias sobre personagens e atores de Pátria.

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