Bastidores

A Chegada: até onde vamos para entender o diferente?

23 / novembro / 2016

*Por Bruno Machado

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Cena de A Chegada (Fonte)

Quando fomos informados de que A Chegada, adaptação de um dos contos da coletânea História de sua vida e outros contos seria o filme de abertura do Festival do Rio de 2016, a reação na editora foi de grande surpresa. Não pela qualidade do texto que serviu de inspiração para a produção cinematográfica, e sim pelo fato de um filme de ficção científica ter sido escolhido para a sessão de gala do festival.

frente_historia-da-sua-vida_pt-br-pNão é uma declaração bombástica dizer que a ficção científica é um gênero de nicho, seja ele literário ou cinematográfico. Claro, muitas pessoas consideram Star Wars ficção científica, mas não basta para o sci-fi que uma história seja contada no espaço. A saga da família Skywalker é muito mais próxima de uma fantasia que aconteceu “Há muito tempo atrás, em uma galáxia distante”.

Animada com o prestígio dado ao filme, lá foi a equipe da Intrínseca para a Cidade das Artes, assistir ao filme em meio a atores globais e toda sorte de profissionais do cinema nacional. Dirigido por Denis Villeneuve (de Sicario: Terra de Ninguém e Os Suspeitos), a produção já surpreende nos primeiros minutos. Não há naves espaciais bonitas, alienígenas assustadores nem um discurso emocionante do presidente dos Estados Unidos no Quatro de Julho. A Chegada é basicamente uma história sobre mãe e filha.

No filme, doze objetos voadores não identificados que se assemelham a gigantescos monólitos ovais surgem em cantos aleatórios do planeta. A chegada das naves não é detectada por nenhuma agência do mundo, e elas se mantêm impressionantemente estacionadas no céu, como se esperassem por algo. Rapidamente os governos dos países “visitados” começam a tomar providências, e China e Rússia são as duas nações mais propensas a atacar primeiro e perguntar depois.

Enquanto isso, nos Estados Unidos, uma linguista – interpretada por Amy Adams, que aparentemente vai estrelar todas as adaptações dos livros da Intrínseca (vide Tony & Susan que se chamará Animais Noturnos, e Objetos cortantes) – é convocada para ajudar a decifrar o que as criaturas pretendem em nosso planeta. Ao longo da história, vemos como seria o trabalho de tentar entender criaturas que não pensam, não se comportam e nem parecem conosco. E quanto mais próximo da grande revelação do filme – que não falaremos aqui, obviamente –, mais percebemos que as criaturas sequer existem da mesma forma que nós. E apenas a linguista parece compreender isso, com consequências surpreendentes para a trama.

Como assisti ao filme antes de ler o conto “História da sua vida”, a reviravolta do enredo me pegou completamente de surpresa. É daqueles momentos como em O Sexto Sentido, Planeta dos Macacos ou Clube da Luta, no qual uma revelação muda sua ideia do filme por completo. E a forma como Chiang faz isso na prosa e Villeneuve no filme são igualmente emocionantes. Foi impossível chegar ao fim da sessão sem ficar com os olhos cheios d´água, precisando de um tempo para pensar na experiência que acabou de acontecer, como em outro recente sci-fi, Interestelar.

Uma das principais características da ficção científica é provocar reflexão. Seja ao atravessar um buraco de minhoca para encontrar um novo mundo para a raça humana ou tentar entender o incompreensível, o gênero é responsável por nos fazer pensar em limites. Até onde você estaria disposto a ir para entender o diferente? Quanto você gostaria de aprender para ser alguém melhor? Seja em A Chegada, “História da sua vida” ou nos outros contos da coletânea de Ted Chiang, boas histórias definitivamente nos tornam pessoas melhores.

> Leia um trecho de História da sua vida e outros contos.

 

* Bruno Machado é assistente de mídias sociais no departamento de Marketing e acha que só faltam alienígenas aparecerem por aqui para 2016 ser o ano mais louco de todos os tempos.

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