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É assim mesmo: Kurt Vonnegut está preso no âmbar deste momento

11 / abril / 2022

Por Naotto Rocha*

Kurt Vonnegut © Ulf Andersen, Getty Images

Eu nunca tinha ouvido falar de Kurt Vonnegut até pouco antes do lançamento de Matadouro-Cinco, em março de 2019, alguns meses depois de ter começado a trabalhar na Intrínseca. Apesar disso, desde então sou o responsável pelas campanhas de marketing dos três livros do autor publicados na editora: Café da manhã dos campeões, Piano mecânico e o já citado Matadouro-Cinco.

Ler suas obras “fora de ordem”, enquanto ainda descobria mais sobre o autor, fez com que eu me sentisse como Billy Pilgrim, protagonista de seu romance mais famoso: eu estava levemente solto no tempo. Foi desafiador tentar entender a voz de Vonnegut e em qual momento de sua vida ou carreira ele havia escrito cada título, mas, ao mesmo tempo, eu sentia uma conexão estranhamente familiar e reconfortante com todas as obras.

Era como dirigir o antigo carro da família olhando para o retrovisor e para a frente ao mesmo tempo, sem saber exatamente para onde estava indo. Mas a música que tocava no rádio até que era bem legal.

 

É assim mesmo

Ao longo dos anos, descobri que tenho muitas coisas em comum com Vonnegut: sou o caçula da minha família (e, como todo caçula, desenvolvi um lado palhaço para garantir a atenção dos mais velhos), gosto de ler histórias em quadrinhos, sempre fui um consumidor voraz de cultura pop, escrevo textos para viver e já trabalhei em muitos lugares para pagar as contas do mês. De diferente: nunca fui à guerra, nunca escrevi um livro, não sou ateu e ainda não aprendi a não levar a vida tão a sério.

Kurt se dizia humanista e fazia questão de repetir isso sempre que podia em suas palestras. De acordo com ele, os seguidores dessa filosofia se comportam da maneira mais honesta possível, sem nenhuma expectativa de recompensa ou punição após a morte. A piada mais engraçada entre eles — como o próprio fez com seu amigo e também escritor Isaac Asimov — era dizer que algum humanista que já havia morrido estava no céu: “Se eu tiver que morrer, que Deus não permita isso, espero que alguém diga ‘Kurt está lá no céu agora’. É a minha piada favorita.”

Sua frase mais famosa (“É assim mesmo”) pode ser entendida como a síntese desse pensamento. As três palavras que se repetem mais de 100 vezes em Matadouro-Cinco expressam uma resignação triste e irônica em face de acontecimentos que não podem ser mudados ou evitados, como a morte de um amigo, de uma criança ou o extermínio de uma cidade inteira durante uma guerra. Para Kurt, o importante era sempre seguir em frente e fazer o melhor que pudermos com nossos amigos e nossa comunidade. Talvez ele tenha chegado a essa conclusão depois de viver um verdadeiro inferno em Dresden.

Este ano, completam-se quinze anos desde que Vonnegut nos deixou e foi para o céu. Também celebramos o centenário de nascimento do autor. No fim da vida, ele dizia já ter vivido demais e que iria processar a empresa que fabricava os cigarros Pall Mall, que fumava desde os 12 anos de idade: “Poxa, já tenho 83 anos, eles prometeram me matar rápido.” Apenas dois anos depois, o autor faleceu devido a uma queda sofrida em casa. É assim mesmo.

 

Escuta só: Kurt Vonnegut ficou solto no tempo

Nascido em 1922, Vonnegut fez muita coisa antes de virar escritor. Trabalhou no jornal da escola, serviu no Exército durante a invasão dos Aliados à Alemanha, casou-se com uma amiga de infância, tentou algumas faculdades e desistiu de todas por motivos diferentes e aos 40 anos publicou seu primeiro romance: Piano mecânico. A ideia para o livro sobre uma sociedade na qual as máquinas substituíram toda a mão de obra bruta do mercado de trabalho veio enquanto Kurt trabalhava como publicitário na GE, em um emprego arrumado por seu irmão, Bernard. Ele simplesmente odiava aquele trabalho e se preocupava com o futuro de uma humanidade que perdeu a motivação de viver ao perder o propósito de trabalho.

Publicado originalmente em 1952, o livro foi lançado no auge do Fordismo e contestava uma sociedade voltada apenas para produção industrial. Assim como, durante a guerra no Vietnã, Vonnegut lançou seu magnum opus Matadouro-Cinco, uma obra antibelicista sobre o absurdo da guerra. Kurt estava sempre à frente de sua época e, ao mesmo tempo, estava sempre no tempo certo e na hora certa. Sua consciência também estava solta pelo tempo.

Ele defendia as artes como trampolim para mudanças sociais importantes e necessárias. Criticava a igreja norte-americana por vender um Jesus diferente do homem misericordioso que ele sequer acreditava ser Deus (mas que, apesar de tudo, parecia ter sido um cara bem legal). Foi um crítico e opositor voraz aos governos Bush e às invasões ao Iraque e sempre inflamou seus discursos ao falar sobre o comportamento autodestrutivo da humanidade. Apesar disso, seus livros nunca tinham um vilão, nunca pintavam um alvo sobre um arquétipo que supostamente representava todo o mal encarnado. “Eu sempre escrevo sobre pessoas comuns tentando se comportar de forma decente em uma sociedade indecente”, afirma o autor em um trecho do documentário Kurt Vonnegut: Unstuck in Time, de Robert B. Weide.

 

Tudo foi lindo, e nada machucou

Apesar de ser considerado a voz de uma geração da contracultura norte-americana, o autor também reconhecia que a humanidade ainda tinha salvação: “Sou crítico, mas não pessimista. Olhe tudo o que os seres humanos podem fazer! Eles são versáteis.”

Em um discurso feito na Agnes Scott College em 1999, Vonnegut cita algumas coisas pelas quais vale a pena viver, como “a música, as pinturas, estátuas, palácios, poemas, contos, peças teatrais e ensaios, e filmes (claro) e ideias cheias de humanidade que fazem com que nos sintamos honrados na condição de membros da raça humana”.

Por falar em discursos, praticamente todas as vezes que o autor era convidado a falar em formaturas de universidades entre os anos 1980 e 2000, contava a história de seu tio Alex:

Uma das coisas que ele achava lamentável sobre os seres humanos era que raramente reparavam na própria felicidade. Ele mesmo, entretanto, se esforçava para expressar gratidão pelos momentos bons. Podia acontecer que no verão ficássemos bebendo limonada à sombra de uma macieira, e o tio Alex interrompia a conversa para dizer: “O que tem de mais lindo do que isso?”

Anos depois, quando perguntou a Mark, seu filho mais velho, sobre o sentido da vida, ele respondeu: “Pai, estamos aqui para ajudar uns aos outros a enfrentar essa coisa, seja lá o que for.” Talvez isso tenha motivado Vonnegut a pregar com frequência o conceito que ele chamava de Família Estendida. Kurt acreditava que viver sozinho não era suficiente. Ele acreditava que, além da família, era importante que cada pessoa tivesse uma centena de amigos, conhecidos e pessoas com quem pudesse contar, conversar ou apenas passar o tempo. Era importante nunca estar só, nem viver sempre com o mesmo pequeno grupo de pessoas.

 

 

Não existe motivo

O povo de Tralfamador, o planeta alienígena de Matadouro-Cinco, é capaz de ver todos os momentos ao mesmo tempo. Segundo eles, a impressão que temos aqui na Terra de que um momento se segue a outro é apenas ilusória — o tempo, ensinam os alienígenas, é uma só coisa: o passado coexiste com o presente e o futuro. Isso, obviamente, é um conceito abstrato demais para as nossas pequenas mentes humanas.

Mas como explicar de outra forma que os temas e questionamentos levantados por Vonnegut décadas atrás continuam relevantes até hoje? Como negar a genialidade por trás de suas obras e seu legado como um dos grandes autores do século XX após todos esses anos?

Seria Kurt Vonnegut uma espécie de profeta ou visionário? O escolhido?

— Por que eu?

— É uma pergunta bem terráquea, senhor Pilgrim. Por que você? Por que nós, a propósito? Por que qualquer coisa? Porque este momento simplesmente é. Por acaso o senhor já viu insetos presos em âmbar?

— Sim — respondeu ele.

— Bem, senhor Pilgrim. Aqui estamos nós, presos no âmbar deste momento. Não existe porquê.

Pensando agora, talvez todos esses debates ainda sejam atuais porque a humanidade não mudou nada desde então. E aposto que, olhando lá do céu, Kurt Vonnegut ainda tem muito a dizer.

 

*Naotto Rocha trabalha no marketing da Intrínseca e é um dos apresentadores do podcast Sem Shrink. Infelizmente não conheceu a obra de Kurt Vonnegut enquanto o autor estava vivo, mas fica feliz de ainda ter algum tempo para fazer isso em sua própria vida.


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Comentários

3 Respostas para “É assim mesmo: Kurt Vonnegut está preso no âmbar deste momento

  1. Quando teremos mais livros desse autor maravilhoso publicado por vocês?

  2. Assim que tivermos novidades nós contamos aqui, Vitor! 🙂

  3. No ano passado, foi lancelot um documentation sobre ele, em New York, cidade onde moro parts do ano. Interssantecpor mostrar albums viradas que deu na vida. E que meio que confirmam sua frase: “E assim mesmo.” Talvez foster bom a editora procurar o filme pra mostrar no Brasil e ajudar a divulgar os livros dele.

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