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Kurt Vonnegut: o artista está presente

11 / dezembro / 2019

*por João Lourenço

Imagem: reprodução Oyster

Muito tem se discutido sobre o caráter de alguns escritores e como isso influencia suas obras. Alguns defendem que não se deve misturar a vida pessoal com o trabalho. Outros acreditam que uma coisa está intrinsecamente relacionada à outra — e seria impossível separar vivências e ideias do autor daquilo que ele escreve.

Na literatura, temos vários exemplos de escritores que transportam suas experiências pessoais para as páginas da ficção — alguns tentam camuflar as referências e outros não, como é o caso do americano Kurt Vonnegut. Seu livro mais famoso, Matadouro-Cinco, teve grande influência do massacre que ocorreu em Dresden, na Alemanha, no final da Segunda Guerra Mundial, onde o autor — assim como o protagonista do livro — presenciou a morte de milhares de civis. Momentos antes da cidade ser bombardeada, Kurt e seus companheiros de exército se esconderam em um depósito de carnes subterrâneo e permaneceram lá por três dias. O massacre de Dresden ficou marcado na história como um dos maiores crimes de guerra e de dano à cultura de todos os tempos.

Para descrever o episódio, Kurt preferiu usar sarcasmo e elementos de ficção científica, como viagens no tempo, em vez de optar por uma narrativa mais densa. O livro, publicado pela primeira vez em 1969, marcou a geração paz e amor dos anos 1960 e até hoje é considerado um manifesto anti-guerra, além de um livro “maldito”.

A obra já foi banida ou questionada em pelo menos 18 ocasiões. Foi até protagonista de uma disputa na Suprema Corte americana. O livro incomoda principalmente professores de escolas americanas que classificam o título como “imoral e anti-católico”. O resultado vocês já sabem: décadas depois do seu lançamento, Matadouro-Cinco continua sendo um dos livros mais vendidos e comentados nos EUA e colocou Vonnegut entre os maiores escritores de sua geração. Tudo o que é “proibido” é mais gostoso.

Entre suas peculiaridades, Vonnegut costumava avaliar os livros que lia e escrevia. Dos títulos de sua autoria, apenas Cama de gato e Matadouro-Cinco receberam nota máxima, A+. Após a fama conquistada com Matadouro-Cinco, Vonnegut lançou Café da manhã dos campeões, livro que quase morreu na gaveta devido a um bloqueio criativo.

Café da manhã dos campeões acompanha a vida de Dwayne Hoover, um vendedor de carros de uma cidade pitoresca no meio-oeste americano. Dwayne aparenta ser um cara “normal”, mas começa a levar ao pé da letra tudo que lê nos livros do obscuro autor de ficção científica Kilgore Trout, alter ego de Vonnegut. Dwayne acredita, por exemplo, que todas as pessoas ao seu redor são robôs e somente ele tem livre-arbítrio. Durante um festival de artes, Trout conhece Dwayne e, ao saber dos delírios de uma das raras pessoas a conhecer o seu trabalho, encontra um novo sentido para a sua existência e carreira.

Em Café da manhã dos campeões temos um autor — Vonnegut ou Trout, como separá-los? — que se insere na obra e observa os personagens até o momento em que sente que não precisam mais dele. Vonnegut expressa, via Trout, muitas de suas opiniões políticas e filosóficas sobre questões sociais importantes, como poluição ambiental, superpopulação e o papel e a responsabilidade da arte e seus criadores. O romance também é uma grande sátira crítica sobre as instituições e a sociedade de consumo americana. Escreve Vonnegut: “Nos Estados Unidos, todo mundo precisava pegar o que conseguisse e não soltar mais. Alguns americanos eram muito bons em pegar e não soltar mais, e agora estavam fabulosamente bem de vida. Outros não conseguiram pôr as mãos em bulhufas”.

Vale lembrar que Kilgore Trout aparece em outros livros de Vonnegut. O autor achava interessante “reciclar” personagens. No caso de Trout fica claro como o personagem reflete as diversas fases e humores do autor.

Museu e Biblioteca Kurt Vonnegut, em Indianapolis

A vida de Vonnegut foi tão absurda e intensa quanto a de seus personagens. Além de escapar do massacre de Dresden, ele sobreviveu a uma tentativa de suicídio. O autor tomou um frasco de comprimidos para dormir, repetindo o que sua mãe fizera décadas antes no Dia das Mães. Esse episódio está relatado no livro de ensaios Destinos piores que a morte. Após esse episódio, o autor passou a ser voz ativa sobre a questão dos transtornos mentais e colaborou para a conscientização a respeito desse assunto tabu.

Além dos livros que escreveu, Vonnegut costumava palestrar com frequência para públicos de todas as idades. Na maioria das vezes, o autor exaltava a importância de pensar por si mesmo e era eloquente em comentários afiados contra as instituições, que considerava desumanas. Em uma de suas últimas entrevistas, o autor disse que iria processar a fábrica responsável pelos cigarros que fumava desde os 12 anos de idade. “Poxa, já tenho 83 anos, eles prometeram me matar rápido”, disse em tom de galhofa para a Rolling Stone.

Kurt Vonnegut morreu aos 84 anos, mas continua vivo na memória de seus leitores. E também no Twitter, em uma conta fake, e no asteroide 25399 que leva o seu nome e, claro, como Kilgore Trout e tantos outros personagens que criou. Ler Vonnegut é acessar uma realidade distante na qual o autor está presente em sua obra, sem amarras, vulnerável e despido de qualquer subterfúgio. Vonnegut não se escondia.

 

*João Lourenço é jornalista. Passou pela redação da FFWMAG, colaborou com a Harper’s Bazaar e com a ABD Conceitual, entre outras publicações estrangeiras de moda e design. Atualmente está em Nova York escrevendo seu primeiro romance.

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