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Contra o feminismo branco e a verdadeira quarta onda do feminismo

2 / dezembro / 2021

*Por Joice Berth

Peço licença para contar uma experiência própria que dialoga muito com a intenção fundamental desse livro: exemplificar a toxicidade das práticas racistas dentro do feminismo.

Costumo ser muito solícita e colaborar com atividades que politizam debates entre mulheres. Digo muito sim, mas os “nãos” não necessários às vezes, e por diversos motivos.

Enquanto disse muitos “sim” para uma renomada feminista branca, fui tratada como amiga e a sororidade esteve presente. Bastou eu dizer um “não” para descobrir que não era sororidade, mas uma encenação. Não houve rechaço ou confronto direto, apenas o boicote sistemático, silencioso, e o distanciamento estratégico.

Uma outra influenciadora feminista e branca me convidou para ministrar uma aula-live para seu grupo de estudos, gratuitamente. Aceitei de pronto para depois descobrir por acaso que ela cobrava das mulheres que iriam participar, mas julgava que eu deveria dar aula sem qualquer remuneração, — afinal, ela supõe que militância seja caridade.

E mais, reparem como as feministas brancas se organizam entre si para tocar projetos, mas oferecem a outras mulheres apenas a participação simbólica ou o lugar do token. E tem também o grupo de feministas brancas que usam as mulheres não brancas quando lhes é favorável ou se silenciam diante dos sinais de racismo como mote para comparações que estabelecem desvalor diante de outras do mesmo grupo racial.

Essas e outras atitudes, digamos, nada nobres ou sororárias são recorrentes na relação entre mulheres brancas e não brancas. E são, sim, uma manifestação da supremacia branca e masculina, ou do racismo estrutural, como prática que invalida qualquer luta por emancipação feminina. Afinal, como já disseram muitas teóricas, sobretudo negras e não brancas, não existe hierarquia das opressões. Quer dizer, ou lutamos contra todas as formas de banimento da liberdade e poder social que existem e estruturam a sociedade, ou não conseguiremos nos livrar apenas daquela que nos vitima.

E é sobre isso e muito mais que a excelente e sagaz Rafia Zakaria fala no livro, cuja ênfase proposital no título coloca a autora, em um primeiro momento, como vilã separatista, ou, como muito foi dito a respeito do ícone do feminismo brasileiro nas décadas de 1970 e 1980, a excepcional Lélia Gonzalez, uma criadora de caso.

Mas basta ler os relatos que exponho aqui para encontrar ressonância direta com tudo que Zakaria traz em sua obra fundamental para autocrítica feminista, que anda tão necessária.

A autora paquistanesa é uma das líderes do levante contra o racismo e a supremacia branca que desviam o real significado emancipatório da luta das mulheres no mundo todo.

O mais produtivo nesse levante — e que serve muito ao status do feminismo no Brasil atualmente — é que não é uma mulher negra que traz essas narrativas e apontamentos preciosos nesse livro com que, corajosamente e destoando da covardia do mercado editorial brasileiro, a Intrínseca teve a brilhante iniciativa de nos presentear em grandiosa tradução.

Isso derruba de uma vez por todas a falácia de que feministas negras são criadoras de caso. Todas as feministas não brancas têm experiências dolorosas da reprodução da supremacia branca no bojo das práticas feministas.

Meu primeiro encontro com a escritora, advogada e jornalista Rafia Zakaria se deu na continuidade das minhas pesquisas sobre empoderamento. Embora ela não tenha entrado na lista de referências do meu livro, foi bastante acolhedor encontrar uma crítica sua publicada no The New York Times chamada “O mito do empoderamento” (em inglês, The myth of empowerment), na qual ela apontava o esvaziamento do conceito e a cooptação promovida por feministas brancas de um instrumento de luta que é vital para o resgate de mulheres não brancas e pobres. A partir daí, passei a me interessar por tudo o que ela produz.

Em Contra o feminismo branco, seu segundo livro, Zakaria traz todas as angústias que mulheres que transitam na linha tênue entre teoria e prática feminista conhecem muito bem.

Por exemplo, ela aborda sabiamente a fetichização da identidade vitimada, esse gosto sádico pelas histórias de sofrimento de mulheres negras, indígenas e não brancas que são ouvidas com uma falsa comoção enquanto são usadas para nos manter em um lugar de subalternidade permanente. Nossas dores são ouvidas sempre, mas nossa intelectualidade não, fazendo com que muitas se tornem dependentes emocionalmente dessas histórias e se limitem a isso enquanto feministas brancas articulam entre si o lenitivo acadêmico para essas “dores incuráveis”. Qual seria esse lenitivo? A mimetização de um comportamento branco como aval para um pertencimento irreal.

“Nenhuma atenção será dada a feministas paquistanesas, exceto se elas fizerem algo reconhecível dentro da esfera da experiência das feministas brancas — andar de skate com seu turbante, marchar com cartazes, escrever um livro sobre sexo e fugir para o ocidente.”

Zakaria corajosamente questiona a universalização do modelo de mulher promovida por figuras como Simone de Beauvoir e Betty Friedman, por exemplo. E nos leva a entender que essa dinâmica fortalece a supremacia branca dentro do feminismo, uma vez que, promove apagamentos, não só ao longo da história como na contemporaneidade, da vivência de mulheres não brancas. Isso me lembra muito o que foi levantado por Sujourner Truth em seu brilhante discurso no Congresso de Ohio pelo Direito das Mulheres, onde ela pergunta: E eu, não sou uma mulher?

Esse questionamento é a semente da interseccionalidade.

Beauvoir e Frydman, segundo a crítica de Zakaria, promovem essa dinâmica de fortalecimento do privilégio racial através do fortalecimento de uma epistemologia feminista branca e acadêmica, apresentando-a como único padrão de produção de saberes, enquanto estimula que a produção de saberes de mulheres não brancas seja pautada apenas em histórias tristes e subalternas que servem a um ideal salvacionista presente na vertente racista do feminismo universalista.

Outra crítica extremamente pertinente de Zakaria é quanto à definição branca de feminismo como luta por igualdade. O significado de igualdade proclamado por mulheres brancas difere do modo com que mulheres não brancas definem o mesmo conceito.

E é nessa seara de pensamento que reside o ponto de incompreensão acerca do real significado de empoderamento.

Feministas brancas pensam em ocupar os espaços que os homens brancos ocupam, mas raramente questionam a essência politicamente excludente e segregacionista desse padrão de poder, que só pode funcionar mediante uma hierarquia social.

Não é à toa que feministas brancas vêm colaborando sistematicamente para a “morte” do conceito de empoderamento, como exemplifica Rafia Zakaria. Confrontar a ideia de poder passa por exigir do feminismo uma postura de expulsão da mentalidade supremacista que alimenta o feminismo branco.

Ora, não podemos pensar em um projeto de alternância de poder e acreditar que isso é saudável. Não é saudável, e por motivos diversos, dos quais podemos destacar alguns estruturais: se a supremacia branca é uma ideia vigente a ser confrontada.

Mas se você pensa que em 304 páginas muito assertivas a crítica não caminha para a responsabilização dos meios de comunicação que transformaram o feminismo (branco) como padrão mainstream de luta, errou feio.

Sobra até para o clássico do empoderamento feminino fake e racista norte-americano Sex and the City, que exaltou ao longo de suas seis temporadas uma liberdade sexual acrítica e desconectada da questão de classe e raça.

Se eu for escrever sobre a importância deste livro, teremos outro livro. Cada apontamento preciosamente analisado, o ponto de vista de uma mulher muçulmana, não branca nem ocidental, o potencial de identificação que Ráfia Zakaria traz em sua narrativa sem filtro (de verdade!) e, principalmente, a explicação de que as práticas do feminismo branco, infelizmente, não se restringem a mulheres feministas brancas, mas formam uma “egrégora” de reprodução da supremacia racial e de classe que tem sido expurgada da luta, esvaziando totalmente seu potencial emancipatório, faz desse livro o mais útil e necessário de 2021. Rafia Zakaria e outras feministas que sempre estiveram à margem do mainstream, mas que constroem com as próprias mãos o verdadeiro movimento por emancipação sociopolítica e econômica de mulheres, como negras, indígenas, islâmicas e muçulmanas, nortistas e nordestinas, transgênero, pobres, etc. estão obviamente na dianteira da verdadeira quarta onda do feminismo mundial: o antirracista. E esse livro confirma isso.

*Joice Berth é arquiteta e urbanista de formada pela Universidade Nove de Julho, psicanalista em formação e escritora, autora do terceiro livro da Coleção Feminismos Plurais, Empoderamento. Tem ampla atuação nas redes sociais, onde discute tanto os assuntos que são foco de sua pesquisa acadêmica, como questões relacionadas à autoestima, política e diversidade. Atualmente é colunista mensal da revista Elle Brasil e participa da Coleção Ensaios sobre a Pandemia, da Editora Todavia com o tema Violência de Gênero.


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