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Marlon James e a reinvenção do gênero de fantasia

26 / fevereiro / 2021

Por Gabriel Trigueiro*

Em Leopardo negro, lobo vermelho, quarto livro do autor jamaicano Marlon James, observamos uma crueza e uma brutalidade bem diferentes daquilo que estamos em geral acostumados a encontrar no gênero de fantasia. É claro que é possível argumentar que nos livros de uma série como Game of Thrones havia igualmente algum tipo de crueza, de brutalidade. Mas, repito, em Leopardo negro, lobo vermelho a coisa é diferente. É diferente com relação ao uso da violência, mas também à presença das inúmeras cenas de sexo — sempre descritas com malícia e lascívia atípicas em obras do tipo.                             

Em uma entrevista sobre o livro, James pontuou:

“Na literatura, o realismo tem esse tipo de atitude de filme indie em relação ao sexo. A violência é violenta, mas o sexo não é sexy. É compulsivo; ninguém está feliz; os personagens gostam muito mais do cigarro depois do sexo do que do próprio ato. Às vezes leio esses romances, nenhum dos quais eu vou citar, e penso: não é tão difícil gostar de sexo, gente!”.

A educação formal de Marlon, sob certos aspectos, foi muito britânica (muito sisuda e solene, tradicional). No entanto, repare, ele sempre tratou a chamada cultura pop com a mesma paixão e seriedade que dedicou ao que alguns chamam de “alta cultura”. Ao mesmo tempo em que lia e se apaixonava por Cem anos de solidão, de Gabriel García Márquez, igualmente lia e se apaixonava por Love and Rockets, dos Irmãos Hernandez. Segundo seu argumento, “a ideia de que existe ‘um grande romance americano’ é besteira, uma idiotice. Mas se você torcer meu braço e me obrigar a citar algum, eu certamente responderia Love and Rockets, dos Hernandez, e Tablóide Americano, de James Ellroy”.

O ponto aqui é: a imaginação literária de James foi igualmente informada pelos quadrinhos e pela literatura dita de mais prestígio. Leopardo negro, lobo vermelho é o produto final da cabeça de um autor jamaicano que um dia foi um garoto nerd lendo Liga da Justiça, Super-Homem, Batman e os livros de Júlio Verne (Vinte mil léguas submarinas, Viagem ao centro da Terra etc.).

Não é que James tenha, em algum momento, eleito o realismo literário como seu antagonista, como seu inimigo. Na verdade, autores como Zola, e mesmo Henry James, sempre foram, e ainda são, muito importantes em sua formação. O problema, como Marlon James pontuou algumas vezes, é o fato de que, toda vez que tentou soar como eles em sua escrita, o texto pareceu falso e “pedante”. No entanto, foi lendo Vergonha, terceiro livro de Salman Rushdie, que James atentou para as inúmeras possibilidades narrativas do realismo mágico e para o uso de elementos fantásticos como alegorias para questões sérias e complexas.

 

Destruir para salvar

Um dos muitos elementos que tornam Leopardo negro, lobo vermelho uma obra tão interessante e maravilhosa é o fato de que, ao mesmo tempo em que mimetiza todos os principais clichês da fantasia medieval – gênero do qual sempre foi um ávido leitor –, Marlon conta uma história baseada em mitos e tradições orais de origem africana. Isso significa que boa parte desses clichês, quando surgem, é (ou pode ser) subvertida pela simples obtenção de um alívio cômico ou mesmo de um argumento filosoficamente complexo, sutil.                                                         

Os plot twists ocorrem, sobretudo, porque a mitologia africana brinca com e subverte esses clichês comuns à fantasia medieval europeia. E, neste caso, eles não funcionam como alegorias para qualquer tipo de proselitismo cristão. Como James exemplifica:

“Há um mito africano, que não segue nenhuma das narrativas convencionais, sobre uma bruxa canibal. Mas a bruxa não é punida no fim da história. E a única pessoa que consegue enganá-la é a sua própria filha e melhor amiga. Quando a bruxa percebe que foi enganada, ela diz: ‘Tudo bem, eu vou morrer agora.’ E isso é o que há de tão bom na história”.                                          

Outra importante convenção de gênero lembrada por James é a de que em histórias de fantasia os personagens tendem a se manter fiéis ao objetivo central de sua busca. E se alguém se mostra desleal nesse sentido, a quebra de expectativa importa, é relevante, uma coisa séria para o desenvolvimento do enredo. Nas narrativas de origem africana, por outro lado, com grande frequência quem conta a história é um trickster, um trapaceiro. Já de saída, é algo que nos dá a possibilidade de estarmos lidando com um narrador pouco confiável.  

Muitas vezes Marlon foi comparado com o autor de Game of Thrones, George R.R. Martin. Mas penso que faria muito mais sentido compará-lo a J.R.R. Tolkien (a principal influência de Martin, aliás). Isso se justifica na medida em que, muito embora Tolkien não tenha criado o gênero de fantasia medieval, certamente é seguro argumentar que ele (através de obras como a trilogia O Senhor dos Anéis, O Hobbit, O Silmarillion etc.) foi o responsável por criar os principais traços distintivos modernos do gênero.

Com a trilogia O Senhor dos Anéis, Tolkien não somente cimentou um passado mítico e poético inegavelmente baseado em valores, tradições e em uma linguagem inequivocamente europeia e cristã, mas também se sagrou o rei, por aclamação e direito divino, deste gênero literário. Mas se Tolkien é o rei do gênero, Leopardo negro, lobo vermelho é o machado africano de ponta dupla que James usa em seu regicídio.

Tolkien foi um católico fervoroso, crítico inclusive do Concílio Vaticano II, alguém que chegou a manifestar simpatias pelo general Franco durante a Guerra Civil Espanhola. É difícil, e talvez sequer seja desejável, separar essa visão de mundo mais abrangente de seu universo estético e de suas criações literárias mais imediatas – até porque há uma imbricação muito grande entre essas duas esferas. Marlon James, de alguma forma, se filia à tradição literária sedimentada por Tolkien, mas, como bom iconoclasta e revolucionário, ao mesmo tempo golpeia alguns dos pilares e dos fundamentos mais sólidos desta igreja.

 

>> Confira também o artigo Leopardo negro, lobo vermelho: uma epopeia africana sobre sangue, dever e destino.

 

*Gabriel Trigueiro é doutor em História Comparada pela UFRJ. É ensaísta e escreve sobre política e cultura.

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