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Como as empresas de tecnologia estão ameaçando a democracia e o futuro da humanidade

22 / janeiro / 2021

Programas que sabem tudo sobre a nossa vida, capazes de reconhecer rostos de familiares, que organizam nossos afazeres matinais e até monitoram batimentos cardíacos. Dispositivos que nos dão o que queremos na hora que queremos e anúncios que parecem prever nossas necessidades e desejos. Todos esses elementos estão conectados, mas você já parou para se perguntar como isso é feito? E quais são as consequências?

No início dos anos 2000, o Google foi pioneiro ao utilizar dados dos usuários — muitas vezes sem o consentimento destes — para gerar “mercados futuros comportamentais”, essencialmente utilizados para prever o comportamento dos usuários. Essas informações são vendidas para outras empresas, para que possam oferecer bens e serviços direcionados ao nosso perfil, mas também moldar nosso comportamento, manipulando nossos desejos, necessidades e visão de mundo. Shoshana Zuboff, professora emérita de Harvard e um dos destaques do documentário O dilema das redes, propõe um novo nome para a era que surgiu com o advento desse mercado: A era do capitalismo de vigilância.

Cena de O dilema das redes, documentário da Netflix

Esse modelo de negócios que alçou o Google ao patamar de segunda empresa mais rica do mundo também foi adotado pelo Facebook e logo se alastrou, tornando-se a estratégia padrão do capitalismo de informação na internet. Hoje, não é possível dar um clique sem participar dessa máquina de extração de dados e a obra de Zuboff investiga como esse padrão foi construído e as ameaças que oferece.

Com bacharelado em filosofia e doutorado em psicologia social, Shoshana Zuboff é professora emérita na Harvard Business School e ex-docente associada do Centro Berkman Klein para Internet e Sociedade na Escola de Direito de Harvard. Seu livro anterior, lançado em 1988, In the Age of the Smart Machine, foi descrito pelo The New York Times Book Review como “uma obra de rara originalidade”.

No novo livro, ao contrário do que muitos pensam, a autora esclarece que não somos o “produto” das vendas do Google. Na verdade, nosso comportamento serve de matéria-prima, que então é vendida para os verdadeiros clientes da empresa. Ou seja, essa estratégia se apropria de nosso estilo de vida e o condensa em dados comportamentais analisáveis e rastreáveis para fins de aperfeiçoamento do controle de outros sobre nós. E, devido à política institucional de resguardar os métodos e práticas internas dessas empresas, temos apenas uma ínfima noção de como isso é feito e de como somos controlados.

Shoshana Zuboff, autora de A era do capitalismo de vigilância

Para Shoshana, essa arquitetura global de modificação comportamental ameaça impactar a humanidade no século XXI de forma tão radical quanto o capitalismo industrial transfigurou o mundo no século XX. Essa ameaça não é mais representada por um estado totalitário, simbolizado pelo Grande Irmão da literatura de George Orwell, mas por uma arquitetura digital presente em todos os lugares, agindo em prol dos interesses do capital de vigilância.

A análise perturbadora de A era do capitalismo de vigilância escancara a condição econômica, política e social de nosso tempo. Por ser um território novo, e por abranger o planeta inteiro, ainda não dispomos de todas as ferramentas necessárias para nos protegermos. Estamos diante da construção de uma forma de poder inédita, que a todos seduz com a promessa de lucro máximo garantido, mesmo que à custa da democracia, da liberdade e do futuro da humanidade. Enfrentando pouca resistência por parte da lei e da própria sociedade, o capitalismo de vigilância está em vias de dominar a ordem social e moldar o futuro digital — se nós assim permitirmos.

Considerado referência absoluta nas discussões em torno das consequências da revolução digital em nosso cotidiano, economia e saúde, sobretudo entre as crianças e os jovens, A era do capitalismo de vigilância aborda de forma franca, e a partir de ampla pesquisa científica, temas delicados como o aumento de casos de suicídio, depressão e engajamento em grupos extremistas. O livro chega às livrarias e lojas on-line a partir do dia 8 de fevereiro. Garanta em pré-venda.

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