A insustentável leveza de ser

Por Pedro Gabriel

17 / novembro / 2020

Quanto pesa um guardanapo em branco? 

Essa pergunta tem me acompanhado nos últimos dias. Semana passada, meu primeiro livro – Eu me chamo Antônio – completou sete anos de lançamento. Existe toda uma mística em torno do número 7. São sete dias da semana, sete cores do arco-íris, sete pecados capitais, sete mares. A gente pula sete ondas, o gato tem sete vidas, dizem que as notas musicais também são sete. Enfim, nesse caso, não há nenhum significado enigmático. É simplesmente meu desejo de deixar marcada essa data e agradecer de todo coração aos e às que me acompanham desde 2011 nas redes e, desde 2013, nos livros. 

Para quem começou a me seguir recentemente, Eu me chamo Antônio é uma história fragmentada de um personagem à espera de um romance. Foi no final de 2011 que eu tive a ideia de criar uma espécie de alter ego da minha sensibilidade, da minha timidez e, principalmente, dos meus silêncios. O Antônio e todos os mais de 2.500 guardanapos ilustrados escaparam das minhas mãos no balcão do Café Lamas, um dos bares mais tradicionais do Rio de Janeiro. Desde então, tenho encontrado a minha força na poesia desses papéis frágeis, na coragem desse personagem híbrido. 

Além de valorizar tanto a sonoridade quanto a grafia das palavras, a estética dos meus guardanapos tem um entendimento popular e, devido a sua simplicidade (não facilidade) proposital, consegue dialogar com todas as pessoas – independente da camada social, econômica, demográfica ou cultural – dispostas a se aproximarem desse lugar sensível onde a delicadeza parece cada vez mais se distanciar.

Boa parte da minha produção criativa é aparentemente – e propositalmente – simples à primeira leitura. A compreensão básica do conteúdo ilustrado e escrito nos meus guardanapos se dá de forma quase imediata para meu público-leitor. Depois, em função do interesse, da curiosidade, da vivência e da bagagem cultural de cada um/uma, o sentido embrionário pode se desdobrar em infinitas sensibilidades e dar à luz outros tantos significados.

Eu lembro que estava no ônibus, voltando para casa. Eram 19h e pouquinho. Era maio. Era 2013. Era a Lívia Almeida, editora da Intrínseca, do outro lado da linha. No dia seguinte, eu estava numa sala de reunião com uma maleta repleta de guardanapos e um sonho ainda tímido, assustado (medo de se realizar?). Acho que não foi à toa que escrevi no guardanapo da página 20: 

Sonhe alto. O máximo que pode acontecer é você realizar um sonho à altura

Alguns meses depois, o livro já estava nas principais livrarias de todo o país. O dia 14 de novembro foi a data oficial da primeira noite de autógrafos. Na Travessa de Ipanema. Momento único. Não se vive duas vezes a primeira vez. Nem na lembrança a repetição é exata. Lembro que havia uma chuva pesada. A mesma chuva que cai sobre São Paulo agora enquanto escrevo este texto. Assinei tantos livros, recebi tantas palavras bonitas. Lembro que saí de lá com uma leveza. A mesma leveza que recai sobre mim agora que termino esta frase. 

Desse dia em diante, viajei para as principais capitais do Brasil e visitei as cidades mais interioranas desse país infinito. Conheci pessoas com histórias que não se encontram nem nos melhores romances já publicados. Troquei ideias com leitores emocionados. Aquelas palavras que escaparam das minhas mãos no balcão do Café Lamas agora estavam em Manaus, em Mossoró, em Campo Grande, em Marechal Rondon, em Brasília, em Presidente Prudente, em Maceió, em Ouro Preto. Muitas delas me disseram que voltaram a escrever, que perderam o medo de desenhar porque viram que uma ideia simples também poderia alcançar essa dimensão. 

Confesso que tenho andado um pouco distante dessa troca afetiva. Muitos acham que eu parei de publicar, de escrever, de existir – ao menos virtualmente. Nada disso. A internet exige um tempo mais acelerado, um tempo que não sei se é o tempo que eu quero acompanhar com tanta intensidade. Preciso reencontrar o ritmo adequado à minha sensibilidade. Tenho tido fobia de toda essa afobação onde tudo é urgente a todo momento; onde o antes, o agora e o depois são o mesmo instante. 

Sim, minhas estatísticas estão em queda. O alcance, o engajamento, os seguidores, as vendas, a presença no feed, nas lives. É preciso vencer o algoritmo para que as minhas palavras nocauteiem esses números. Mas a principal batalha é interna. Sempre foi. Antes de romper essas barreiras numéricas, eu preciso costurar o afeto no meu alfabeto. 

Sou fascinado pela linguagem desses tempos híbridos. Onde a comunicação pode começar numa sessão de autógrafo, continuar no direct, migrar para os comentários de um post, se desdobrar em uma carta escrita à mão e terminar na caixa de entrada de um e-mail. Sei que do outro lado da tela – do celular ou do computador – há uma pessoa, um coração até então desconhecido que se apresenta e se conecta comigo no toque, no touch. Pode ter certeza, sou eu que estou ali: do outro lado desse contato.  

A você que ainda me acompanha, meu muito obrigado. 

Mas, afinal, quanto pesa um guardanapo em branco? 

Quase nada, você deve ter pensado. Um pacote com 50 folhas tem aproximadamente 150g, afirma o texto burocrático da embalagem que pego aleatoriamente no supermercado. Por esse cálculo, podemos dizer que um único guardanapo não alcança os quatro gramas na balança. Mas aí estamos falando dos papéis utilizados para limpar a gordura dos dedos, a sujeira da boca… E quando queremos lavar a alma, quanto pesa esse mesmo guardanapo? Eu posso responder.

Os meus guardanapos são retratos e retratações de instantes. Às vezes, autobiográficos; outras vezes, imaginados (sim, há vivência na imaginação). É na fragilidade desta plataforma descartável que encontrei uma forma – e uma força – poética para carregar quilos e mais quilos dos meus silêncios, toneladas e mais toneladas das minhas saudades. Meus guardanapos, na balança invisível da vida, sustentam o peso e a leveza de todos os meus sentimentos. 

Você também sente? 

Pedro Gabriel nasceu em N’Djamena, capital do Chade, em 1984. Filho de pai suíço e mãe brasileira, chegou ao Brasil aos 12 anos — e até os 13 não formulava uma frase completa em português. A partir da dificuldade na adaptação à língua portuguesa, que lhe exigiu muita observação tanto dos sons quanto da grafia das palavras, Pedro desenvolveu talento e sensibilidade raros para brincar com as letras. É formado em publicidade e propaganda pela ESPM-RJ e autor de Eu me chamo Antônio Segundo – Eu me chamo Antônio e Ilustre Poesia.

VER TODAS AS COLUNAS

Comentários

Uma resposta para “A insustentável leveza de ser

  1. Seus guardanapos foram e são sempre estaram no meu coração.
    Uma luz na escuridão
    Uma respiração
    Lá do começo eu vivi lendo eles, aguardei o 1 livro q ganhei de amigo secreto.
    O 2 eu comprei, o terceiro foi presente.
    Adorei o texto sinto me grata.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *