Os olhos também escrevem

Por Pedro Gabriel

14 / julho / 2020

Os olhos também escrevem. São anotações invisíveis, mas eles escrevem. Não há presença de letras, não há possibilidade de compartilhamento, mas eles escrevem. Quando o poeta precisa descansar as mãos, é o olhar quem toma a responsabilidade pela descrição das imagens, das ideias, dos mundos que se desenham ao seu redor. Quando os dedos abandonam a pena, a visão adota o papel da escrita.

O processo é infinito. O artista não deixa de escrever em nenhum instante. Mesmo quando não escreve, ele escreve. Mesmo quando ele parece ter desistido dos versos, eles insistem em manter certa proximidade. Quando não lhe é mais inquilina, a palavra lhe é, ao menos, vizinha.

Todos nós carregamos muitos olhares, muitos termos. Ora, temos uma carga de tinta na vista; outrora, uma carga de vista na tinta. Sinto que é como se houvesse um lápis na ponta da íris ou uma pálpebra na extremidade do lápis. Cada ponto de vista é um encontro com uma narrativa, com uma possibilidade de enxergar uma história. Eis que ver é escrever. Escre-ver, literalmente.

Algumas pessoas depositam sobre o mundo um olhar-lapiseira. Elas veem as coisas com insegurança, fragilidade. São lembranças fáceis de apagar: o almoço de ontem, a ida ao banco no quinto dia útil do mês, um domingo qualquer da adolescência. São relações que podem quebrar a qualquer momento, basta um esforço maior das mãos ou dos olhos. Palavras pesadas não se escrevem a lápis. A grafite 0,3mm não suporta nosso Adeus, a 0,5 não aguenta outra Desavença, a 0,7 se desfaz ao tentar esboçar uma nova Despedida e a ponta 0,9 se desaponta ao enfrentar mais uma vez a sua Ausência.

Outras contemplam a vida com uma mirada-bico-de-pena. Enxergam de forma mais delicada o passar do tempo. No entanto, sabem que tudo pode se desmanchar em milésimos de segundo. Basta um pingo de lágrima, uma gota de mágoa e – plaft! – tudo some: o nanquim se desfaz em fim e, com ele, partem as primeiras paixões, os caprichos infantis, os últimos românticos. São esses olhos tristonhos que escrevem elegias e serestas. É preciso ter mãos leves, porém firmes, para escrever Amor ou Saudade.

Conheço também as que têm uma visão-esferográfica dos acontecimentos. São mais resistentes. Aguentam as situações mais adversas. Deixam marcas mais profundas. Suportam lágrimas, despedidas, ausências, amores. É com esse olhar que devemos escrever Perdão.  

Quando não quero escrever, eu tiro os óculos. Tirar os óculos equivale a colocar as mãos no bolso. É ter os olhos no bolso. Olhos que não seguram canetas, mas escrevem. Olhos que não teclam, não mandam mensagens no WhatsApp, mas escrevem. Quando o poeta precisa descansar os olhos, é a mão quem toma a responsabilidade pela descrição das imagens, das ideias, dos mundos que se desenham ao seu redor. Quando a visão abandona a escrita, os dedos adotam novamente o papel da pena.

Ser míope é minha borracha.

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Pedro Gabriel nasceu em N’Djamena, capital do Chade, em 1984. Filho de pai suíço e mãe brasileira, chegou ao Brasil aos 12 anos — e até os 13 não formulava uma frase completa em português. A partir da dificuldade na adaptação à língua portuguesa, que lhe exigiu muita observação tanto dos sons quanto da grafia das palavras, Pedro desenvolveu talento e sensibilidade raros para brincar com as letras. É formado em publicidade e propaganda pela ESPM-RJ e autor de Eu me chamo Antônio Segundo – Eu me chamo Antônio e Ilustre Poesia.

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