A página em pranto

Por Pedro Gabriel

28 / julho / 2020

Todo texto deveria ser aceito como documento oficial de identidade. Quando escrevemos, vamos em busca do nosso rosto, da nossa personalidade. As palavras surgem e revelam nosso nariz, nossos olhos, nossa boca silenciada. Orelhas aparecem nas margens. Olha ali nossa alma presente em cada sílaba! Eu comecei a escrever justamente para descrever o que desconhecia em mim. Registrar as ideias num suporte – seja ele físico ou digital – é uma forma de suportar nossos sentimentos e apresentar ao mundo um retrato gráfico do nosso universo interior. 

Mas aí vem a insegurança. A famosa e tão temida página em branco. E a gente também fica branco de medo diante da ausência de inspiração. Ela parece ser o nosso maior vilão. Acho que, no fundo, a página em branco somos nós. Esse medo danado de prosseguir na escrita é o último estágio de uma sucessão de bloqueios que a vida nos dá: julgamento alheio, timidez excessiva, falta de confiança… A página em branco pode ser seu filho antes de pegar no sono. A página em branco pode ser o sonho de uma paixão que ficou perdida na adolescência. A página em branco pode ser essa imensa parede que se ergue nas suas pálpebras e não te faz enxergar o próximo passo. 

A página em branco não deveria assustar tanto assim. Ela é um medo necessário. É uma outra forma de nomear a coragem. Não acredito que vencer o medo seja uma vitória. Não há necessidade alguma em derrotá-lo. Medo, quando não nos paralisa, é pé no chão. É aliado na jornada de todo escritor, de toda autora. A página em branco é a nossa maior ouvinte. Uma espécie de divã em celulose, tamanho A4. 

A página em branco do James Joyce parece estagnada no dia 16 de junho de 1904. A página desacompanhada de frases do Garcia Márquez talvez seja a única capaz de suportar cem anos de solidão. As angústias de Macabéa estão todas escondidas nas páginas ainda não escritas de Clarice Lispector. É possível ver sete faces à espera de poemas nas páginas vazias de Drummond. Sei que as páginas alvas de Conceição Evaristo são alvo constante dos seus olhos d´água. Imagino as páginas ausentes de tinta que passaram por Fernando Pessoa. Seriam elas as mesmas que foram tocadas pelas mãos de Alberto Caeiro, Álvaro de Campos ou Ricardo Reis? Que desassossego! 

Ainda que idênticas na ausência de palavras, toda página em branco é única. Cada uma delas esconde uma história que só será revelada ao futuro ser sensível disposto a perder noites e dias atrás do verso perfeito. A página em branco sabe que ela apenas cede o território para a imaginação. O esforço da criação cabe ao poeta. Escrever é uma micro-conquista desse espaço. É pisar na lua em miniatura. É uma grandiosidade íntima. Por isso alguns bloqueios são maiores do que outros. Por isso algumas dores não são tão fáceis de externar… Nem toda palavra cabe no papel. 

A página em branco pode ser seu pranto.

Pedro Gabriel nasceu em N’Djamena, capital do Chade, em 1984. Filho de pai suíço e mãe brasileira, chegou ao Brasil aos 12 anos — e até os 13 não formulava uma frase completa em português. A partir da dificuldade na adaptação à língua portuguesa, que lhe exigiu muita observação tanto dos sons quanto da grafia das palavras, Pedro desenvolveu talento e sensibilidade raros para brincar com as letras. É formado em publicidade e propaganda pela ESPM-RJ e autor de Eu me chamo Antônio Segundo – Eu me chamo Antônio e Ilustre Poesia.

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Comentários

2 Respostas para “A página em pranto

  1. Senti que as palavras nesse texto encontraram as minhas numa dificuldade particular de extrair o que ando tentando reescrever para um projeto. Muito obrigado.

  2. É mútuo no sentido mais literal possível – li há dias e só agora venho dizer. E escrever é isso, digo eu que ainda sou leiga. Mas acho que o escritor é um eterno leigo, daí os medos. Sensacional!!

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