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A estratégia fascista: a violência como caminho para o progresso

13 / fevereiro / 2020

Por Vanessa Corrêa*

Leia a primeira parte desse texto, revelando as origens do fascismo.

Os acontecimentos que levaram ao golpe de Estado fascista na Itália ganham ritmo de thriller nas mãos de Antonio Scurati no livro M, o filho do século. Primeiro volume de uma trilogia, o romance mostra a ascensão do fascismo no país europeu contada sob a perspectiva de Benito Mussolini e outros personagens da política italiana do início dos anos 1920.

Aproveitando-se do descontentamento dos veteranos da Primeira Guerra Mundial e do temor de uma revolução socialista, o fascismo abriu caminho até o governo apoiado em uma série de ações violentas e um discurso focado no repúdio ao Parlamento italiano e à política em geral. Com essa estratégia, Mussolini foi um dos deputados mais votados nas eleições de maio de 1921 e iniciou seu mandato com um discurso no qual afirmava que defenderia teses reacionárias, antidemocráticas e antissocialistas.

A narrativa do livro torna-se ainda mais vertiginosa ao abordar os quatro dias que antecederam a tomada do poder pelo Partido Nacional Fascista, fazendo de Mussolini o político mais jovem a assumir o posto de primeiro-ministro na história do país até aquele momento. 

 

Suscitar a desordem em nome da ordem

O golpe de Estado fascista começou a tomar corpo em 24 de outubro de 1922, com a visita de Mussolini a Nápoles, onde discursou para as principais autoridades da região, com demonstrações de apoio de milhares de camisas negras (como ficaram conhecidos os adeptos do fascismo).

“Não menos do que 20 mil fascistas — alguns chegam a estimar 40 mil — foram a Nápoles, sem oposição, provenientes de toda a Itália, viajando em trens especiais colocados à disposição pelas ferrovias daquele Estado que eles querem dominar”, descreve Scurati.

Ao discurso em Nápoles seguem-se negociações de Mussolini com as principais figuras da política italiana, dentro e fora do governo, com o objetivo de levar a crise política a um ponto irreversível, em que não reste solução alternativa a não ser um governo fascista. Como explica Scurati, desde a criação do movimento, a tática de Mussolini é suscitar a desordem para mostrar que só ele pode restabelecer a ordem.

 

A Marcha sobre Roma

Ao mesmo tempo em que negociava com políticos e grandes empresários, Mussolini recebia notícias sobre a movimentação das esquadras fascistas pelo país. Em diversas províncias, as sedes dos governos eram ocupadas, agências telegráficas eram invadidas, quartéis eram dominados pelos camisas negras. Liderados pelos principais expoentes do movimento, milhares de apoiadores do fascismo se dirigiram para a capital italiana, para exigir a entrega do governo ao Partido Nacional Fascista.

A manifestação armada organizada pelo partido ficou conhecida como a Marcha sobre Roma e marcou o início da era fascista e da derrocada da democracia parlamentar italiana.

Entre os diversos documentos e relatos sobre a Marcha sobre Roma reunidos em M, o filho do século, o autor destaca as palavras de Luigi Albertini, então editor do jornal Corriere della Sera:

Há quatro anos, os italianos se habituaram a ver na violência o caminho para o progresso ou o encontro de soluções, e a considerar um partido tão mais forte quanto mais ameaçador fosse […] é o que demonstra a indiferença com que o grande público assistiu à insurreição fascista, à queda sem dignidade das autoridades do Estado e à humilhação de todos os poderes do Estado, sem exceções.

 

Morte à oposição

A violência a que se refere Albertini era denunciada de forma mais veemente pelo deputado Giacomo Matteotti. No papel de antagonista de Mussolini, Matteotti se torna um dos principais personagens do livro. Filho de um grande proprietário de terras, mas que abraçou desde a juventude a causa dos camponeses, Matteotti foi um dos expoentes do socialismo na Itália e um dos maiores opositores do fascismo.

Giacomo Matteotti, opositor socialista de Mussolini, foi assassinado pelos fascistas em 1924.

Ao longo do primeiro ano de governo de Mussolini, o deputado socialista se empenhou em denunciar continuamente as violências fascistas, seja em discursos no Parlamento, seja em um livro no qual documentou todos os assassinatos, espancamentos, agressões, destruições e incêndios cometidos pelas esquadras de camisas negras nas províncias italianas naquele período.  

Representando um incômodo cada vez maior para o regime, Matteotti vê-se isolado e perseguido e acaba sendo sequestrado e morto em 10 de junho de 1924.

Se antes de subir ao poder o fascismo usava a violência de forma despreocupada, depois de ascender ao governo o partido aprendeu que não poderia manter os antigos métodos impunemente. O assassinato de Matteotti desencadeou uma onda de revolta na população e na oposição, levando à queda de importantes colaboradores de Mussolini e lançando o governo fascista em sua maior crise até então. 

Cobrindo os anos que vão de 1919 a 1925, o livro traça o panorama político da Itália e da Europa no período e mostra como Mussolini deixou suas origens humildes para subir à mais alta esfera do país – e como descobriu que manter-se nesse posto não seria uma tarefa fácil.

 

* Vanessa Corrêa é jornalista.

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