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As origens do fascismo: violência, descontentamento e medo

6 / fevereiro / 2020

Por Vanessa Corrêa*

 

Não mais do que cem homens participaram da reunião que criou, em 23 de março de 1919, em Milão, os Fasci di Combattimento. Semente do Partido Nacional Fascista, o grupo obteve na ocasião quase o mesmo espaço reservado à notícia de um roubo de sabão no principal jornal da cidade.

Assim como o Corriere della Sera, toda a Itália ainda demoraria a compreender que aquelas dezenas de homens liderados por Benito Mussolini dariam origem ao primeiro governo totalitário da Europa Ocidental. 

A sua transformação de um movimento marginal em um regime opressor é mostrada em detalhes em M, o filho do século, de Antonio Scurati, escritor e professor de Literatura Contemporânea na Universidade de Comunicação e Línguas de Milão.

Focado no período que vai de março de 1919 aos primeiros dias de 1925, o livro se baseia em centenas de documentos oficiais, discursos, cartas e artigos jornalísticos para contar a história da criação e ascensão do fascismo sob a perspectiva de Mussolini, de sua amante, Margherita Sarfatti, e de seus principais aliados e inimigos. 

“Cada acontecimento, personagem, diálogo ou discurso narrado é historicamente documentado e/ou testemunhado por mais de uma fonte”, avisa Scurati no início da obra, que é definida pelo próprio autor como um romance documental. Dessa minuciosa pesquisa surge um retrato do fascismo e a biografia de seu idealizador. 

 

O rancor dos ex-combatentes

Benito Mussolini era um dos mais ativos e respeitados militantes do Partido Socialista italiano, mas foi expulso em 1914 após defender a entrada da Itália na Primeira Guerra Mundial. O país foi um dos vencedores, mas seus soldados não imaginavam que após o fim do conflito armado, em 1918, voltariam para uma Itália empobrecida e preterida nos acordos de paz do pós-guerra. 

O conflito deixou na Itália um rastro de ex-combatentes frustrados: homens de todas as classes sociais que acreditavam ser heróis de guerra e, no entanto, se viram sem rumo após o retorno ao país. No livro, Scurati faz uma vívida descrição dessa massa de descontentes, composta, em sua maior parte, pelos Arditi, integrantes das tropas de assalto do Exército incumbidas de romper as defesas inimigas e permitir o avanço da infantaria. Ousados, corajosos e inventivos são alguns dos significados atribuídos à palavra “arditi” em italiano — que também pode significar insolentes e impertinentes.

Após ser considerado um traidor pelos socialistas, Mussolini não hesitou em aliar-se a esses homens — grupo de onde vieram os principais participantes da fundação dos Fasci di Combattimento. Como relata Scurati, Mussolini sabia que o rancor dos Arditi se acumulava e que eles logo buscariam formas de extravasar tamanho descontentamento.

 

A violenta repressão ao socialismo

Apesar de ter um programa inicial com reivindicações parecidas às dos socialistas revolucionários, concebido por dissidentes do partido para atrair ex-companheiros, o movimento fascista logo aprenderia a usar o medo da ameaça socialista para justificar suas ações rumo ao poder. 

Animados pela Revolução Russa, os socialistas italianos viveram os últimos anos da década de 1910 fortalecidos pela ampla vitória nas eleições de outubro de 1919 e por uma série de greves gerais, em constante conflito com as forças policiais e a elite agrária e industrial.

Se o socialismo foi eleito o maior inimigo do fascismo em seus primeiros anos, o modo escolhido para combatê-lo foi a violência. Não a violência verbal, tão em voga em governos hoje associados às ideias propagadas por Mussolini um século atrás, mas a violência física, manifestada nas frequentes incursões de grupos fascistas em vilarejos italianos.

Marcados por espancamentos, incêndios e execuções, esses ataques intimidavam as ligas camponesas e organizações proletárias ligadas aos socialistas. Também despertavam o temor no governo e na burguesia, que, ainda assim, seguiram subestimando o alcance do fascismo em seus anos iniciais. 

 

A estratégia antipolítica

M, o filho do século retrata também como o movimento fascista não foi criado para ser uma mera oposição ao socialismo. Para Mussolini, o fascismo é algo inédito: um antipartido. E, como tal, queria atingir seus objetivos sem preocupar-se em definir para si uma identidade, percorrendo caminhos diferentes daqueles dos partidos italianos, fazendo o que chamava de antipolítica. Nas palavras de Scurati, “no fim das contas, eles são os Fasci di Combattimento, e seu verdadeiro programa está inteiramente contido na palavra ‘combate’. Por isso, eles podem, e devem, se dar ao luxo de ser reacionários e revolucionários de acordo com as circunstâncias”. 

A estratégia de criar um antipartido e defender a antipolítica deu certo: Mussolini demoraria apenas três anos para levar o fascismo ao poder na Itália, onde permaneceria pelas duas décadas seguintes.

 

No próximo texto, como o fascismo tomou o poder em uma noite, alçando um jovem Mussolini sem qualquer experiência de governo ao posto de primeiro-ministro. Leia a segunda parte.

 

* Vanessa Corrêa é jornalista.

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