Bastidores

Imaginando o pior: o futuro árido de Faca de água pode ser real

7 / outubro / 2016

*Por Josué de Oliveira

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Qualquer ser humano pensa e especula sobre o futuro. Como você se imagina daqui a cinco anos? Onde gostaria de estar trabalhando? Esse futuro pessoal está sempre passeando em nossos pensamentos; fazemos planos, traçamos metas, tentamos nos preparar para os anos à frente.

Ao fazer isso, automaticamente damos algumas coisas como certas. Não imaginamos um cenário apocalíptico onde perdemos o acesso a necessidades básicas, como alimentação e moradia, ou um governo totalitário cerceando nossas liberdades de ação e pensamento. A maioria de nós, acredito, não conta com essas variáveis ao refletir sobre como as coisas serão no tempo que virá.

Mas não tem problema: a literatura faz isso por nós. Faca de água, ficção científica do norte-americano Paolo Bacigalupi, imagina um futuro nada promissor em que uma das coisas mais essenciais para nossa sobrevivência está em perigo: a água. Estados norte-americanos lutam entre si para canalizar as fontes ainda não esgotadas pela seca mais severa que a humanidade já presenciou; nas ruas poeirentas de cidades outrora limpas e desenvolvidas, a luta pela sobrevivência ceifa as vidas dos mais pobres, enquanto aqueles com dinheiro o suficiente se mantêm a salvo no inferno que o território americano se tornou.

facadeaguagrandeA história acompanha três personagens falhos e nada exemplares em suas tentativas de lutar contra essa terrível conjuntura.

A ficção científica de Bacigalupi passa longe das imagens mais comumente associadas ao gênero, como exploração espacial e alienígenas. O assunto de Faca de água é a Terra e sua (possível) degradação futura. Um pouco como em Neuromancer, romance de William Gibson considerado um dos nascedouros do subgênero cyberpunk, a humanidade não está mais com os olhos voltados para o céu conjecturando acerca da vida em outros planetas, mas atenta a qualquer movimento brusco à sua volta, pois o caos urbano ocasionado pelo pesadelo climático gera formas cada vez mais difundidas de violência.

Encontramos paralelos com a obra de Gibson também na maneira como outras organizações tão poderosas quanto os governos (e, por vezes, praticamente integradas a eles) decidem todos os dias o destino de milhares de pessoas, assim como nas descrições vertiginosas tanto das metrópoles sombrias — sobretudo Phoenix, onde grande parte da ação ocorre — como das grandiosas arcologias.

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As arcologias merecem um destaque à parte. Baseadas num conceito real, proposto pelo arquiteto ítalo-americano Paolo Soleri, estas construções titânicas são verdadeiras cidades autocontidas, lugares ecologicamente sustentáveis de grande densidade populacional onde os mais ricos encontram todo o conforto que o dinheiro pode comprar, protegidos da seca e das tempestades de areia que assolam a terra. Os olhos dos personagens voltam-se a todo momento para essas edificações colossais, construídas por impensáveis impressoras 3D, enormes e distantes dos que lutam para chegar vivos ao dia seguinte.

As arcologias são parte de um universo habilmente construído por Bacigalupi, que o apresenta de modo gradual e fluído ao leitor, sem tentar chamar atenção para os detalhes de sua criação de maneira gratuita. À medida que a trama avança, vemos que a energia solar faz carros e casas funcionarem; entendemos que a China tomou o lugar dos Estados Unidos como a grande potência mundial; acompanhamos o drama e as tensões dos refugiados texanos, espalhados por diversos cantos do país após o colapso do estado em que nasceram; presenciamos ataques militares contra estações de água que se recusam a ser vendidas às pessoas que controlam o curso das coisas. Esses e diversos outros elementos compõem o nebuloso e inconvenientemente verossímil futuro de Faca de água.

Bacigalupi nos apresenta um mundo corroído por uma catástrofe natural que ninguém esperava, e consegue ainda mostrar, através da interação entre seus personagens, a forma como as relações humanas são reconfiguradas num ambiente tão hostil. No dia a dia de uma terra devastada, o terrível e o desumano não estão longe nem mesmo dos mais virtuosos. Teria a humanidade secado como os reservatórios? O que aconteceria se um cenário como esse realmente se concretizasse?

E se…? é, por definição, a pergunta da ficção científica. E Bacigalupi tenta fazê-la atento às pistas (climáticas, culturais, tecnológicas) que o presente nos dá. Faca de água é um lembrete de que nossas vidas dependem de coisas que podemos perder. Como você se imagina se a água do mundo acabar?

>> Leia um trecho

*Josué de Oliveira é assistente de edições digitais na Intrínseca. Lê e escreve histórias policiais. Vive papagaiando sobre o assunto, às vezes é até meio chato. Colabora com o Literatura Policial, site totalmente dedicado ao gênero, e com o Colofão, onde fala sobre livros digitais.

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Comentários

Uma resposta para “Imaginando o pior: o futuro árido de Faca de água pode ser real

  1. Temos água porque o ecosistema é assim está funcionando desses jeito. De repente, pode mudar o clima e a água vai ficar, em sua maior parte, nos oceanos, mudando o regime de chuvas etc e tal. O mesmo pode se dar com uma idade do gêlo e ai, a água vai ficar nas geleiras. Mas a água é a mesma, está ai há bilhões de anos. Acho estranho ficção científica sobre esta assunto. Temos oceanos de água pra beber, é só querer e precisar.

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