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O preço da vitória

30 / junho / 2015

Por Bernardo Barbosa*

Michael Lewis

Michael Lewis

Havia o beisebol, e havia o Moneyball. Pelo menos essa foi a impressão de quem acompanhava o esporte em 2002, quando um time modesto usou as estatísticas do jogo para montar uma equipe com jeitão de Frankenstein, mas que conseguiu uma das maiores sequências de vitórias da história da MLB (a liga profissional americana). O legado desse feito ultrapassou a fronteira do esporte, virou filme indicado ao Oscar e protagonizado por Brad Pitt, e tem no livro Moneyball: O homem que mudou o jogo, de Michael Lewis, seu mais rico relato.

Em resumo, o drama do gerente-geral do Oakland Athletics, Billy Beane, era o seguinte: o clube seguia rumo à temporada de 2002 com o terceiro menor orçamento dos 30 times da MLB, na casa dos US$ 40 milhões. O New York Yankees, com mais de US$ 120 milhões à disposição, era a equipe mais rica daquele ano. Ao fim dos 162 jogos da primeira parte da temporada, Athletics e Yankees foram as melhores franquias, ambas com 103 vitórias, sendo que os atletas de Oakland tinham conseguido uma sequência de 20 triunfos. Na fase de mata-mata, o Athletics perdeu logo na primeira rodada — um prato cheio para a parte da velha guarda do esporte e da imprensa especializada que na época abominava os métodos de Beane. Mas ficara claro que ali havia algo eficiente, que barateava o preço da vitória. O truque? Explorar as ineficiências do mercado e saber quais números realmente importavam.

“OK, mas isso eu vi no filme”, você pode estar pensando agora. O que você não viu no filme e está no livro de Michael Lewis é o detalhamento das trajetórias de Beane, uma ex-promessa do beisebol que enxergou as deficiências de um esporte cujos olheiros selecionavam atletas com uma “cara boa”, e de Bill James, que empunhava quase solitariamente a bandeira de que os números do beisebol deveriam ser estudados mais a fundo isso numa época em que Nate Silver, o atual grande guru da estatística, ainda usava fraldas. Mais ainda, o texto de Lewis conta uma história que torna Moneyball um livro sedutor mesmo para quem não faz ideia do que seja beisebol: um gestor, pressionado pela falta de dinheiro, desafia o senso comum de seus pares, busca especialistas de outras áreas, resgata as ideias de estudiosos discriminados pelo status quo de seu mercado e alcança uma grande façanha. Não por acaso, o conceito de Beane vem desde então sendo aplicado, ou ao menos defendido, também fora do beisebol.

link-externoLeia um trecho de Moneyball: O homem que mudou o jogo, de Michael Lewis

Em Hollywood, o produtor Ryan Kavanaugh se tornou um dos bilionários mais jovens do mundo ao escolher a dedo projetos de filmes de baixo custo com alto retorno financeiro, inspirado nos ensinamentos de Beane. Esses conceitos poderiam ser empregados no mercado de ações? Aplicados em empresas ou no governo, como sugerem livros lançados no rastro do fenômeno? Ou até mesmo utilizados no futebol, talvez o mais rebelde e imprevisível dos esportes de massa? Para todas essas perguntas, há quem responda sim. Mesmo no Brasil, onde imperam as mesas-redondas — as das TVs e as dos bares — frente ao debate sobre as estatísticas do futebol, já há alguns anos os clubes, a seleção brasileira e os veículos de mídia obtêm números por meio de empresas especializadas, como a brasileira Footstats e a inglesa Opta. E Billy Beane, um autodeclarado fanático pelo maior esporte da Terra, está trabalhando atualmente com futebol no clube holandês AZ Alkmaar.

Moneyball - capa 1.inddO livro de Lewis, no entanto, é um retrato de seu tempo — e é com isso em mente que ele deve ser lido. Dez anos depois da façanha do time de Oakland, Nate Silver mostra em O sinal e o ruído que o Athletics e outras franquias da MLB aumentaram seu orçamento para o uso de olheiros, cujo trabalho à época do lançamento de Moneyball acabou sendo tratado como sinônimo de achismo. Por outro lado, noticiou a The Economist, um time da MLB que não quis se revelar comprou um supercomputador para análise de estatísticas. O brinquedo vale US$ 500 mil, montante próximo ao salário mínimo anual de um jogador da elite do esporte, notou a Newsweek. Se estivéssemos falando de futebol, o supercomputador seria um 12º jogador (ou 13º, já que a torcida é tida como o 12º). Tudo isso indica que a mistura entre a experiência dos que vivenciam uma atividade na linha de frente e o conhecimento nerd nos bastidores pode ser a chave para se formar times — ou empresas, governos, produtoras de filmes… — mais vitoriosos e rentáveis.

Mesmo nos Estados Unidos, os méritos e o hype do Moneyball não foram suficientes para tornar o aproveitamento das estatísticas uma unanimidade. O beisebol e o basquete abraçaram os modelos matemáticos com gosto, e as ligas profissionais inclusive subsidiam tal estrutura para equipes menos abastadas. Já a aparente resistência do futebol americano — e das TVs que o transmitem — em adotar esse tipo de análise é assunto recorrente em sites especializados. “Ouve-se falar muito mais sobre estatísticas avançadas no beisebol porque é assim que muitos dos times da MLB, senão a maioria, avaliam seus jogadores. Se os times da NFL (a liga profissional de futebol americano) começarem a usar as estatísticas como os da MLB, não teremos opção a não ser segui-los”, disse John Entz, produtor da Fox Sports nos Estados Unidos, à Sports Illustrated em novembro passado.

A tentação de aplicar a ideia do Moneyball a tudo e a todos parece grande. Ainda hoje, o termo quase sempre surge como sinônimo de eficiência, inovação, precisão; da vitória dos fatos e do estudo sobre a opinião; de ver o que outros não veem e pagar menos por isso. Seja como for, a experiência do beisebol ensina que aplicar o Moneyball a um outro esporte ou mercado pode não ser a solução definitiva para se gastar menos e ser mais eficiente, mas coloca novas perguntas em nossa cabeça. Em entrevista à revista New Republic, Bill James ensina: “A maior barreira para entender as coisas é a convicção de que você já as entende.”

link-externoLeia também: Glossário sobre beisebol

Bernardo Barbosa é jornalista e gostaria de ver mais Moneyball no jornalismo e no Flamengo. Trabalhou no jornal O Globo e na agência de notícias Efe.

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Comentários

3 Respostas para “O preço da vitória

  1. Alguma chance de vocês publicarem The Blind Side do Michael Lewis?

  2. Oi, Tiago. Não tenho informação. 🙁

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