Bastidores

O editor como artesão

19 / junho / 2015

Por Sheila Louzada*

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É como nas fotografias: dê zoom em um inseto ou em uma flor, e você vai ver cada detalhe ampliado de tal forma que assume proporções gigantescas.

Se você faz um livro de mil páginas, o natural é que seu foco seja mais efêmero. Aquela infinidade de frases se dilui, uma se apoiando na outra em uma espécie de companheirismo literário de maneira a formar um elenco sem protagonistas. Um ou outro trecho com alguma dificuldade vai exigir atenção especial, mas o fluxo de ideias se sobrepõe ao efeito individual de cada bloco de texto.

link-externoLeia também: A diferença entre “ler para” e “ler com” uma criança, por Natalia Klussmann

Em um livro sem figuras de uma única lauda, em que espaços em branco são tão importantes quanto imensas onomatopeias coloridas, cada frase e cada palavra e cada mínima pontuação merece uma atenção desmedida. Dos 2.113 caracteres originais, cada um foi pensado e repensado e invertido e observado e testado, desde a tradutora até a designer que convocamos para ler em voz alta para a equipe. Cada item ali tem uma função; cada cor, um propósito. A pizza de goiaba, por exemplo, era originalmente azul-escura, por ser uma pizza de mirtilo. No entanto, a tradução optou por uma fruta mais comum no Brasil — coerente com a escolha do tamanduá em vez do macaco, por exemplo, e com a própria sonoridade mais abrasileirada dos estranhos sons que inundam as páginas 38 e 39 —, o que nos levou a trocar também a cor das letras. Outro exemplo é o “bip bip”, que, embora esteja ali escondidinho entre um extravagante XABLAU e um cativante BOROGOTONGO, não podia ser esquecido, por remeter ao tamanduá robô.

link-externoConheça O livro sem figuras, de B.J. Novak

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Cada frase tem inúmeras possibilidades de escrita, e cada versão tem inúmeras possibilidades de entonação. Vimos isso com mais clareza na gravação do e-book com áudio, em que passamos horas e horas atentos a versões e mais versões de uma mesma frase e tentando decidir qual transmitia melhor a ideia. Um mero “Jura?” pode ser dito de forma incrédula (“Não acredito que estou lendo essas baboseiras”), debochada (“Aham. Sei.”), impaciente (“Será que estou lendo isso direito?”) ou mesmo feliz (“Concordo inteiramente!”).

link-externoConheça o e-book especial de O livro sem figuras com áudio nas vozes de Maria Clara Gueiros e Lúcio Mauro Filho

Experimente. Duvido você ler esse livro da mesma forma duas vezes. E é essa a graça dele: a cada voz, a cada momento, a leitura muda e se renova, e se a graça de um livro com figuras é repetir o prazer da primeira leitura, a graça é esse prazer ser constantemente renovado e jamais recuperado. Haverá infinitas primeiras leituras.

 


Sheila Louzada
, 30 anos, é editora assistente no setor de ficção infantojuvenil da Editora Intrínseca.

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