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Ler para, ler com

26 / maio / 2015

Por Natalia Klussmann*

o livro sem figuras_2

Filhos, dizem, vêm sem manual de instruções. Mas posso contar um segredo? Não é bem assim! Na verdade, o que parece mesmo é que eles vêm com duzentos manuais. E cada um diz uma coisa diferente: às vezes eles se anulam, noutras, se sobrepõem, mas, invariavelmente, soterram mães e pais com infinitas informações.

Agora, se existe algo unânime na maternidade e na paternidade, para além das óbvias instruções básicas que visam à sobrevivência dos rebentos, tal coisa é a leitura.

Leia para seus filhos. Todas as pesquisas acadêmicas com as quais tive contato defendem e ressaltam a importância da precoce exposição aos livros e às rimas infantis. Ler para crianças desde sempre contribui significativamente para a ampliação de vocabulário, desenvolvimento cognitivo e fonológico, aporte de noções básicas de cálculo, melhoria no desempenho de leitura e escrita quando da época pós-alfabetização e mais. A lista é vasta e bastante convincente. Até mesmo o senso comum ou o bom senso sabem disso, sem teorias ou referências bibliográficas.

No entanto, existe uma coisa ainda melhor e mais eficiente do que ler precocemente para os pequenos. É ler com a criança desde muito cedo. Sim, porque uma coisa é ler para a criança, sentada no sofá ou na cama, tendo o objetivo de distrair, cumprir o ritual do sono ou pensando em desenvolver habilidades. Outra coisa é ler com a criança, interpretando falas, entrando no mundo de fantasia que o livro abre, partilhando emoções, impressões e surpresas. Ler com significa entregar-se ao instante, dividir sentimentos e descobrir novas maneiras de contar as mesmas palavras. O espaço lúdico da literatura e o espaço afetivo do estar presente unem-se e não há mais uma simples leitura: acontece um momento. Um momento (delicioso) de aprendizado.

LIVRO SEM FIGURAS_3dPara ler com, crianças e adultos precisam se engajar no que vai escrito, mesmo que as palavras registradas soem estranhas ou absurdas. Por isso, O livro sem figuras, de B. J. Novak, é genial: ele não deixa alternativa e só é concebível uma leitura interativa da obra. Impossível ser burocrático em meio a borogotongos e uengarengas. Menos ainda se seu filho fizer como o meu e cair na gargalhada já bem no comecinho do livro (e seguir assim não importando quantas vezes você repita tudo).

Esta é a mágica: fazer gostar de ler e de ouvir histórias. Entender que mesmo um livro sem figuras é divertido e envolvente. Porque através das palavras é que as imagens vão se construir, lentamente, no imaginário de quem as lê.

Claro que livros infantis ilustrados são maravilhosos e também muito importantes para as crianças. Não se pode ignorar ou subestimar o poder comunicativo e narrativo de desenhos e imagens. Mas meu ponto, e o genial no livro de Novak, é que, em uma vida mediada pelo audiovisual, crianças conhecem muito bem a potencialidade das imagens coloridas e atraentes.

Contudo, as palavras — talvez, a princípio, letras monocromáticas sobre o papel, porém sempre muito vivas e vívidas conforme a imaginação as vai encadeando — também são poderosas. Elas ganham vida somente com a leitura, mas, a partir de então, as construções são múltiplas e ricas. E quando, em vez de ler para, você lê com uma criança, vive com ela a experiência da imaginação, sonha as histórias, vai ao lado dela nos caminhos que se desdobram. É um momento partilhado, conectado e interativo.

No entanto, sabemos que nem sempre é fácil, depois da cansativa jornada diária da vida adulta, ter pique ou criatividade para inventar vozes, interpretar onomatopeias e conduzir uma contação vivaz. Por isso que, desde a primeira vez que li O livro sem figuras, fiquei encantada. A história é breve e despretensiosa, ótima para mentes e corpos cansados. E o texto é tão bom e a tradução tão bem cuidada que ninguém vai precisar fazer um curso de interpretação para conseguir provocar risadas. Aliás, risadas, não! Gargalhadas. Homéricas, daquelas que levam embora o cansaço, a mesmice e a previsibilidade, mas prendem bem firme a atenção dos filhotes. Isso acontece porque o autor consegue tomar para si a responsabilidade de conduzir a trama e guia o leitor pela mão, em uma narrativa declarada e descaradamente maluca. Isso permite aos adultos relaxar e aproveitar: a conexão vai se estabelecer na risada e no estranhamento partilhados.

Ao mesmo tempo, apesar da leveza e da espontaneidade, a história acaba por resgatar um tempo infantil dentro de nós. A estranheza presente exige atenção e dedicação e, assim, retomamos a fruição, o engajamento com aquilo que é novo, a fascinação com o nunca visto. Mais uma vez a fusão adulto-criança acontece. Estamos lendo com os olhos divertidos de uma criança, saboreando cada sílaba ressonante e cada invencionice surrealista. Reaprendendo o prazer da literatura e, ao mesmo tempo, mostrando aos pequenos como é fascinante uma história bem contada.

Com o firme propósito de fazer rir e de provar que um livro sem figuras é divertido, Novak vai além do que se propõe e cria uma obra inteligente, engraçada e educativa. Sua principal lição? Ler para crianças é bom e faz bem, mas ler com as crianças é o melhor que você pode fazer para você, sua criança e a relação de vocês.

Palavra de tamanduá que aprendeu a ler sozinha!

Confira a leitura de B.J. Novak:

Natalia Klussmann é mestre em literatura brasileira e bacharel em comunicação pela UFRJ, tradutora, mãe e leitora. Gosta dos bons livros, sejam eles com ou sem figuras.

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