[Volta ÀS ILHAS] PARTE III

Por Pedro Gabriel

19 / maio / 2015

[O CORAÇÃO TAMBÉM NÃO PODE SE DESLOCAR]

19 de maio

Essa é a última parte do meu relato sobre Cabo Verde. Encerro, portanto, essa minha volta à infância como quem tem o desejo de nunca ter saído dela. Descobri que as pessoas são ilhas. Isoladas. Independentes. Mas fortes, quase invencíveis. Mesmo quando moram no continente, elas são ilhas. Um pouco egoístas, mas dependentes dos outros. Um pouco desapegadas, mas não vivem sozinhas. As pessoas são ilhas. Cercadas por uma imensa solidão à espera da saudade, que pode atracar a qualquer momento em algum porto de nossas mais belas lembranças.

Revi minhas irmãs e meus pais e os amigos. Elena, minha sobrinha, gosta de pandas. Quem não gosta? Panda é fofura em estado móvel. Como ela cresceu. Ela até fala, meu deus. Eu fico impressionado. Pessoas nascidas em 2001 já caminham sozinhas! Que mundo é esse! Meu sobrinho Diego sonha em ser mergulhador. Ser tio é ser uma espécie de panda-escafandrista para tentar descobrir o que há debaixo do mar. Esse imenso cobertor solúvel que esconde mais do que revela. E amedronta. Não confio na tranquilidade do mar. Ele dá o bote. Não tem veneno, mas sufoca. Será ele a saudade?

Com a ajuda do meu pai e do Centro Cultural do Brasil, consegui organizar uma apresentação na Biblioteca Nacional de Cabo Verde, no dia 8 de abril. Foi uma noite muito especial profissionalmente – afinal, era a primeira vez que os meus livros atravessavam o Oceano Atlântico e na plateia estavam minhas irmãs, meu pai e muitos amigos da minha família da época que ainda morávamos por lá. São eles que carregam nossas lembranças. A gente se constrói pelo olhar do outro também. É como se cada um fosse um pen-drive com milhões de histórias diferentes armazenadas, prontas para serem reveladas quando o dono do arquivo resolver reaparecer. Pedrinho agora está um pouco maior e mais fofo (será que eu realmente me transformei em um panda como diz minha sobrinha?). #ownnnnnnnnnnnnnnnn

O discurso de abertura foi declamado pelo Ministro da Cultura, senhor Mario Lucio de Souza. Palavras que me tocaram profundamente. Ele reforçou a importância da simplicidade e da ingenuidade na hora de qualquer criação. Aproveitou também para me alertar sobre a dificuldade de se manter simples e ingênuo depois do sucesso. Não basta ter a cabeça no lugar. O coração também não pode se deslocar. Esse momento foi uma oportunidade de reencontrar quem eu tinha perdido de vista há anos – lá se vão duas décadas de ausência. Se não fosse o livro talvez eu nunca mais encontrasse o Carlos, por exemplo. Ou o Djair. Os dois não puderem comparecer fisicamente ao lançamento, mas sempre estiveram presentes nas peladas da rua Flor de Brava, na Achada Santo Antônio – ninguém ganhava da gente naquele bairro. Eles deixaram mensagens emocionantes. Carlos agora vive com a família na Alemanha – virou professor de Kizomba. Djair trabalha em um hotel de Sal, uma das dez ilhas de Cabo Verde.

Tive também a honra de participar de um programa de TV ao vivo. Agradeço imensamente à TCV, a maior emissora do país, pelo convite. A Intrínseca doou 100 livros (50 exemplares de Eu me chamo Antônio e 50 de Segundo – Eu me chamo Antônio) para essa minha viagem. Toda verba arrecada foi destinada à compra de livros infantis para completar a biblioteca de uma escola carente, chamada JULIO COSTA – no bairro de São Filipe, na Ilha de Santiago. Por enquanto, foram arrecadados mais de 80 livros para a mesma. Eu participei diretamente da escolha e da entrega dos livros. Um dia para não esquecer.

Coloquei naquelas prateleiras, e naquelas mãozinhas, edições especiais para crianças e jovens de Fernando Pessoa, Mia Couto, Agualusa e tantos outros. O mais especial talvez tenha sido O Pequeno Príncipe em crioulo – uma edição inédita e raríssima. Deixar poesia talvez seja o presente mais bonito que alguém possa oferecer. Ele se desembrulha dentro da gente até que a gente vire futuro. Saint-Exupéry, que agora voa no fundo de algum oceano, sorri como quem diz: “tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas.”

Pedro Gabriel nasceu em N’Djamena, capital do Chade, em 1984. Filho de pai suíço e mãe brasileira, chegou ao Brasil aos 12 anos — e até os 13 não formulava uma frase completa em português. A partir da dificuldade na adaptação à língua portuguesa, que lhe exigiu muita observação tanto dos sons quanto da grafia das palavras, Pedro desenvolveu talento e sensibilidade raros para brincar com as letras. É formado em publicidade e propaganda pela ESPM-RJ e autor de Eu me chamo Antônio Segundo – Eu me chamo Antônio e Ilustre Poesia.

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Comentários

2 Respostas para “[Volta ÀS ILHAS] PARTE III

  1. Es increíble la capacidad que tenés para poetizar de una forma tan contemporánea. Un placer inmenso leer tus textos. Saludos desde Paraguay

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