Notícias

A troca de favores entre Pio XI e Mussolini

12 / maio / 2017

Pietro Gasparri e Mussolini assinam o Tratado de Latrão

Quem acompanha o noticiário da política no Brasil já deve ouvido falar no famoso “toma lá, dá cá” entre nossas excelências. Em resumo, a expressão serve para falar das alianças feitas não em torno de causas comuns, mas com base em trocas de favores, recursos e poderes.

Como vimos no texto anterior sobre o livro O papa e Mussolini: a conexão secreta entre Pio XI e a ascensão do fascismo na Europa, de David I. Kertzer, o papa Pio XI e o ditador Benito Mussolini não tinham, a princípio, muito em comum. No entanto, a obra também expõe com clareza o pragmatismo que empurrou os líderes de encontro um ao outro.

Pio XI queria o que Mussolini tinha, e vice-versa. Autoridade da fé, o papa buscava o poder terreno e cotidiano do fascismo. O Duce, por sua vez, procurava no respaldo da Igreja algo que tornasse os italianos não meros adeptos do fascismo, mas devotos dele como eram do catolicismo — uma vela para a Igreja e outra para o regime.

O acordo mais crucial para a aliança foi o Tratado de Latrão, assinado em 1929. Com ele, a Cidade do Vaticano virou um Estado, sede da Santa Sé; o catolicismo se tornou religião nacional na Itália; o ensino da fé católica passou a ser obrigatório nas escolas; e ficou estabelecido que o governo italiano pagaria uma gorda indenização (US$ 1 bilhão em valores de 2013) para que a Igreja desistisse de qualquer reclamação relativa à perda dos Estados Papais, extintos durante a unificação italiana no século XIX.

O regime de Mussolini ainda aliviou a perseguição aos integrantes da Ação Católica, organização de leigos indispensável às tarefas de evangelização e diretamente ligada à Igreja. O Estado pagava despesas do clero, que passou a ter posição de destaque em todas as cerimônias fascistas.

Não foi por acaso que Mussolini passou a ser citado pelo papa como um homem que teria sido enviado pela Providência divina. Italianos rezavam para Jesus e para o Duce na mesma oração.

A Igreja, por sua vez, deu sua contribuição política ao fascismo ao esvaziar o Partido Popular, legenda católica criada poucos anos antes da ascensão de Mussolini. Apesar de, ao longo do governo do Duce, militantes fascistas terem reduzido a intensidade da perseguição a membros da Ação Católica, confrontos violentos ainda ocorriam, mas a Igreja de Pio XI preferia fazer vista grossa.

Na década de 1930, Mussolini se aproximou do nazismo, que já tinha massacrado a Igreja Católica na Alemanha. O papa também não via com bons olhos o que considerava o “paganismo” de Hitler e seus seguidores. Mas como é comum nas discórdias em alianças pragmáticas, o conflito entre o pontífice e o ditador não ocorreu por uma questão exatamente de princípios.

Quando aderiu à perseguição étnica, o fascismo quis impedir o casamento de judeus convertidos ao catolicismo. Como fica exposto no livro de Kertzer, o problema não foi a caçada fascista aos judeus, mas a intromissão de Mussolini em prerrogativas que, para Pio XI, cabiam somente à Igreja. Assim começavam as turbulências na aliança entre o papa e o Duce.

 
No próximo texto, a adesão de Mussolini ao nazismo racha a aliança e arruína a Europa

 

Bernardo Barbosa é jornalista.

Leia mais Notícias

Pio XI e Mussolini: fé no poder

Pio XI e Mussolini: fé no poder

Mussolini, da aliança com Pio XI aos braços de Hitler

Mussolini, da aliança com Pio XI aos braços de Hitler

Com Natalie Portman no papel principal, filme de Aniquilação chega aos cinemas em 2018!

Com Natalie Portman no papel principal, filme de Aniquilação chega aos cinemas em 2018!

Como funciona a mente dos serial killers

Como funciona a mente dos serial killers

Comentários

3 Respostas para “A troca de favores entre Pio XI e Mussolini

  1. Mas foi o próprio Pio XI que publicou a Encíclica “Non Abbiamo Bisogono” contra o fascismo,eu diria que o Estado do Vaticano foi melhor que ficar nas mãos do governo italiano,ao menos a Igreja poderia desempenhar suas atividades de forma independentes

  2. Na análise, faltou acrescentar que a ascensão do partido fascista ao poder em 1922 na Itália, foi favorecido pela crise do pós guerra com alto índice de desempregados e pela frustração com o tratado de Versalhes de 1919, porque a Itália lutou ao lado dos vencedores (Entente) e não obteve nenhuma compensação territorial, como havia sido prometido. Esse sentimento de derrota política do governo, levou o povo a abraçar o projeto político do partido Fascista, cuja a bandeira era uma Itália forte no cenário mundial, com um líder autoritário e imperialista. Assim Bento Mussolini conquistou o poder e impôs um governo ditatorial centrado na figura do “duce”.

  3. Oi Renato! Vamos publicar um texto exatamente sobre essa Encíclica em breve! 😉

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *