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Pio XI e Mussolini: fé no poder

28 / abril / 2017

Por Bernardo Barbosa*

Se ainda havia alguma dúvida sobre a atuação do papa Pio XI (1857-1939) a favor do fascismo na Itália, ela cai por terra no incrível O papa e Mussolini: a conexão secreta entre Pio XI e a ascensão do fascismo na Europa, de David I. Kertzer. Premiado com o Pulitzer de melhor biografia em 2015, o livro não só coloca os pingos nos is na história do período, como também traz retratos vívidos de seus protagonistas.

O Prêmio Pulitzer não é para menos. Kertzer pesquisou durante sete anos para chegar à façanha de escrever uma biografia “dois em um” sobre tais protagonistas do século XX. Com base nos arquivos do Vaticano e do regime fascista de Benito Mussolini (1883-1945), entre outras dezenas de fontes, o leitor é brindado com um relato eletrizante do período entreguerras na Europa.

À primeira vista, Pio XI e Mussolini não poderiam ser mais diferentes. O primeiro, nascido Achille Ratti, era filho da classe média da região de Milão e dedicou sua vida à Igreja, com nostalgia do auge do poder católico dos tempos pré-Reforma Protestante. O segundo nasceu pobre, na região italiana da Romanha, onde dominavam o anarquismo e o socialismo, e não tinha a menor afinidade com o catolicismo.

Quando os caminhos do papa e do líder fascista se cruzaram, no entanto, ficou claro que ambos tinham devoção ao poder. Pio XI e Mussolini ascenderam praticamente juntos, em 1922, e viram um no outro a possibilidade de serem ainda mais poderosos.

Além disso, a dupla compartilhava o desprezo por tudo que cheirasse a democracia, defendendo abertamente as “virtudes” do totalitarismo. A portas fechadas, tinham em comum também os rompantes de irritação com subordinados, que chegavam a literalmente tremer diante dos chefes. Se “Mussolini tem sempre razão” era um bordão do fascismo, a Santa Sé de Pio XI poderia adotar algo similar para o então pontífice.

Nos momentos de solidão, no entanto, enquanto Pio XI chorava e buscava Deus em suas preces, Mussolini procurava fuga nos encontros com suas inúmeras amantes.

Apesar de dividirem os holofotes durante dezessete anos, os dois líderes só se encontraram uma vez. Trocavam elogios e críticas por meio de discursos publicados pela imprensa ou, nos bastidores, usando seus assessores mais próximos.

Em vez de travarem um conflito aberto na Itália unificada havia apenas meio século e na Europa com feridas ainda abertas da Primeira Guerra Mundial (1914-1918), Pio XI e Mussolini cultivaram uma aliança que quase sempre foi sólida. No entanto, como se viu anos depois, muitos pagaram com a vida pela sede de poder dos protagonistas da parceria entre fascismo e Igreja Católica.

No próximo texto, o “toma lá, dá cá” de Mussolini e Pio XI pelo poder na Itália
 

Bernardo Barbosa é jornalista.

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