Joaquim Ferreira dos Santos

A boa mesa carioca

29 / dezembro / 2016

O restaurante La Fiorentina (Fonte)

A geografia carioca que percorre as páginas de Enquanto houver champanhe, há esperança já se foi quase toda, infelizmente. A cidade onde Zózimo Barrozo do Amaral nasceu continua linda, embora com as praias mais poluídas e as matas invadidas pelo crescimento das favelas. Mas, os endereços que foram construídos e ajudaram a aumentar o glamour do Rio de Janeiro, esses vão desaparecendo aos poucos.

Num dos capítulos do livro, Zózimo circula por quase três dezenas de restaurantes estrelados na segunda metade da década de 1970. Letreiros de referência da vida noturna, estão todos desaparecidos, caso de Le Bec Fin, Flag, Chiko’s Bar, Nino, Michel, Open, Le Bistrô, Antonino, Concorde, Balaio, Máfia. Sobreviveram monumentos da gastronomia, como La Fiorentina e o Café Lamas, mas é muita perda patrimonial em tão pouco tempo.

Zózimo, um homem cultivado pelas boas mesas internacionais, foi um dos responsáveis, através de suas notas positivas, pela afirmação no Rio de assinaturas nobres, como a de Bocuse, que chegou aqui no final dos anos 1970 e se instalou no antigo hotel Le Méridien. As notas negativas, críticas, ajudaram a antiga capital do país a se civilizar. Zózimo debochava, por exemplo, da mania jeca de o carioca gostar de sobremesas flambadas e criticava esses mesmos restaurantes por não oferecerem em seus cardápios frutas da estação ou, debaixo da canícula insuportável dos trópicos, sorvetes com essas mesmas frutas, tão deliciosas quanto baratas.

Fala-se agora na reabertura do Hippopotamus, um dos ícones da cidade entre as décadas de 1970 e 80, pelos empresários Ricardo Amaral e Omar Catito Peres. Em tempos de crise, quando só se ouvem notícias sobre casas que fecham, seria a confirmação de que estava certa a frase que Zózimo colocou na parede de sua sala, na redação, e que acabou no título de sua biografia: “Enquanto houver champanhe, há esperança.”

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