Artigos, Bastidores

A presença feminina no girar da Roda do Tempo

25 / novembro / 2016

Por Flora Pinheiro e Rayssa Galvão*

Como amantes da literatura de fantasia, para nós é sempre um prazer trabalhar com esse gênero, sobretudo com um clássico como A Roda do Tempo. Como editoras, é sempre muito gratificante trabalhar com livros realmente bons, com uma base de fãs tão envolvida e envolvente. E, por fim, como mulheres, é sempre um momento de alegria encontrar livros com personagens femininas bem-construídas.

Em muitas das histórias de fantasia mais tradicionais (estamos falando com você, O Senhor dos Anéis!), a mulher é relegada a um papel secundário, como a donzela elfa que decide esperar pelo marido humano, a feiticeira poderosa que só aparece para resolver um pequeno enigma sobrenatural e depois desaparece ou a mulher figurante que só dá as caras no final da trama para se casar com um dos protagonistas depois que ele retorna de suas aventuras.

Esse, felizmente, não é o caso de A Roda do Tempo – algo tão revolucionário para a época que, no começo da publicação da série, corria o boato de que Robert Jordan era o pseudônimo de uma escritora. Em entrevistas, o próprio autor declarou ter feito o possível para criar mulheres realistas e de personalidade forte, como as que o cercavam. Sua esposa, Harriet, foi editora da série e teve um papel fundamental na publicação, pois Jordan sempre ouvia seus conselhos. (Ao contrário de certos personagens masculinos de A Roda do Tempo…)

Jordan não teve medo de dar protagonismo às personagens femininas fortes, que aparecem como narradoras em todos os livros e têm sempre falas maravilhosas. Um de nossos momentos favoritos é quando um dos personagens principais vem pedir conselhos para a amiga, Egwene, e comenta que nunca conversou sobre qual era o papel do homem com seus amigos, e ela logo responde: “Então é por isso que vocês fazem um péssimo trabalho”.

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(Ba dum tsss – Fonte)

Mas não basta ter meia dúzia de personagens bacanas para nos impressionar, não. Nós já discutimos um pouco sobre a riqueza de culturas e variedade nos povos de A Roda do Tempo, mas, ao construir seu mundo, Jordan fez mais do que apenas basear os costumes dos povos em um mashup interessante do mundo real: ele criou novas dinâmicas sociais que, no mínimo, nos fazem refletir sobre o mundo em que vivemos. Ou seja, não só não faltam personagens femininas fortes na série como também, logo no começo, somos surpreendidos por algo ainda mais incomum: uma sociedade em que as mulheres não são vistas como inferiores aos homens. Muitos leitores aceitam com facilidade dragões, magia e personagens que vivem centenas de anos, mas um mundo no qual as mulheres não são “cidadãs” de segunda classe parece ser automaticamente descartado como inverossímil. Não tomar o machismo como “natural” e explorar os papéis sociais torna a obra de Jordan mais rica.

O primeiro exemplo começa logo no início da história, quando somos apresentados a uma pequena vila rural onde, como tantas outras, além da figura de prefeito há uma mulher conhecida como Sabedoria, uma espécie de guia e curandeira. O poder nessas pequenas cidades é dividido entre dois conselhos: o de homens, que cuida de assuntos muitas vezes secundários, e o círculo das mulheres, que resolve tudo o que há para ser resolvido e, de vez em quando, passa por cima do conselho dos homens.

Isso mostra que, além de incluir sociedades matriarcais (não vamos entrar em mais detalhes sobre elas para não dar spoilers), Jordan também criou inversões interessantes nas culturas tradicionais do livro: em vez de privilégio masculino, há privilégio feminino. Mesmo no caso dos Aiel, uma cultura guerreira em que os clãs estão sempre em conflito, com pilhagens frequentes, as mulheres têm uma sensação de segurança maior do que os homens. Elas não são as mais vulneráveis da sociedade e não precisam temer andar desacompanhadas, pois não correm um risco maior de sofrer violência sexual. Ou seja: exatamente o oposto do que vivemos.

É claro que Jordan criou uma explicação para que mesmo as sociedades tradicionais tenham “privilégio feminino”. Centenas de anos antes de a narrativa principal começar, os homens capazes de canalizar o Poder Único (ou seja, “fazer magia”) enlouqueceram e quase destruíram o mundo. As mulheres continuaram sãs. Isso repercute até o momento atual da história, no reino de Andor, governado sempre por rainhas. Em todo o universo, as mulheres são mais ouvidas, dominam as conversas e a política. Não é possível ter Aes Sedai, figuras poderosas que manipulam o destino das nações, sem que se crie um preconceito velado contra os homens dessa sociedade, fazendo com que as mulheres sejam consideradas mais confiáveis, competentes e perigosas. Alguns leitores se irritam com as personagens “mandonas” do livro por falta de costume, mas, para nós, qualquer obra em que as mulheres não ocupem apenas um papel submisso na trama é muito bem-vinda.

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(“Acha que tem direito de dizer como eu devo me vestir? Homem nenhum tem esse direito, nem sobre mim e nem sobre qualquer outra mulher! Se eu decidisse sair nua, isso não seria da sua conta!” Nynaeve, arrasando no quinto livro, As Chamas do Paraíso.” – Fonte)

* Flora e Rayssa são amigas, amantes de fantasia, feministas de carteirinha e fãs de A Roda do Tempo

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Comentários

7 Respostas para “A presença feminina no girar da Roda do Tempo

  1. “Acha que tem direito de dizer como eu devo me vestir? Homem nenhum tem esse direito, nem sobre mim e nem sobre qualquer outra mulher! Se eu decidisse sair nua, isso não seria da sua conta!” Nynaeve, arrasando no sexto livro, As Chamas do Paraíso.” chamas do paraíso é o 5º livro

  2. Frank Hebert, na série Duna, muitos anos atras, já havia explorado um maior protagonismo feminino através das Bene Geserit. O poder político delas era tão grande que eram capazes de influenciar na linha sucessória do Império. Alias, ha uma clara influência desse autor na série Roda do Tempo. Um abraço a todos.

  3. Parece que esqueceram da princesa que queria ir pra batalha e se disfarçou de soldado em Senhor dos anéis, ou do jeito que a mesma elfa que esperou o marido humano conseguiu fazer os monstros comerem poeira e depois se afogaram no rio pra salvar o protagonista…

  4. Não sou machista. Tanto que uma das personagens de que mais gosto é a Moiraine. Mas a Nynaeve é chata demais. O que conta como um elogio ao autor, que cria personagens diferentes e que agradam diferentes leitores.

  5. Muito bom! No inicio eu também achei estranho essa inversão de conceitos, mas hj essa é uma das coisas que eu mais gosto na série. Aprendi a gostar dos personagens femininos tanto quanto eu gosto dos masculinos.

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