[O ÁRABE DO FUTURO: A LEITURA DO PRESENTE]

Por Pedro Gabriel

3 / junho / 2015

Foto_arabe do futuro_blog

Um livro nunca é só um livro. Muitas vezes vem acompanhado por um sopro de liberdade, um desabafo, um ato político, uma forma de escapar à censura. É um desdobramento de mundos, visões, histórias. Quem lê perde fronteiras e ganha criatividade. A imaginação é um território livre, independente, que recusa a presença de interferências externas. Não há poços de petróleo dentro das nossas ideias. Nenhuma “grande” potência vai querer invadir o que a gente pensa (pelo menos até o fechamento deste texto).

Quando a Intrínseca anunciou que publicaria o primeiro volume da trilogia O árabe do futuro, do quadrinista sírio-francês Riad Sattouf, fiquei muito feliz. Sabia que os leitores brasileiros teriam em mãos uma belíssima graphic novel, que pode muito bem ser classificada como livro de história, pois retrata com olhar infantil uma realidade adulta do mundo árabe entre 1978-1984. E, infelizmente, essa visão do menino Riad está mais atual do que nunca. A tragédia no periódico Charlie Hebdo em janeiro desse ano, onde o próprio autor chegou a trabalhar como ilustrador, e as sucessivas guerras estão aí para provar que o mundo está seguindo em frente andando para trás.

link-externoLeia um trecho de O árabe do futuro

Eu li em poucas horas. O encantamento faz a gente avançar nas páginas, mergulhar em cada quadro, esquecer todo o nosso redor. Muito já foi escrito sobre esse livro. Para isso existem artigos muito mais interessantes e completos escritos por críticos muito mais gabaritados sobre geopolítica ou sobre conflitos no mundo árabe. Minha leitura é puramente sentimental. Me prendi aos fatores sensíveis e deixei livres os fatos históricos da obra, riquíssimos por sinal. Enquanto lia, eu anotava. Um livro pode nos captar por um diálogo, uma imagem, uma cena, um diálogo, ou pelo todo. Esse livro foi pelo todo.

A França é uma maravilha. Aqui todo mundo pode fazer o que tem vontade” (p.9). As falas do pai do menino Riad norteiam as páginas do livro, que pode ser considerado uma espécie de autobiografia ilustrada. Nessa graphic novel, talvez o traço mais marcante seja a ilusão de que as “grandes” potências econômicas ditam o que é liberdade. As pessoas esquecem que ser livre é um ponto de vista, ou um ponto de fuga. A definição de liberdade muitas vezes bate asas até pousar em outra interpretação. O pai de Riad, e outros imigrantes, acredita que a França é uma pátria onde se pode fazer de tudo. Onde se é inteiramente livre. Bobagem. São as grades que mudam de formato. Nós nos prendemos a outras coisas. E outras coisas nos prendem. Todos somos livres de alguma forma. Todos somos condenados de algum jeito. O banho de sol pode ser no deserto na Síria ou uma quitinete em Paris.

link-externoLeia também: Revivendo o passado através de O árabe do futuro, por José Messias

[Continua na próxima semana.]
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Pedro Gabriel nasceu em N’Djamena, capital do Chade, em 1984. Filho de pai suíço e mãe brasileira, chegou ao Brasil aos 12 anos — e até os 13 não formulava uma frase completa em português. A partir da dificuldade na adaptação à língua portuguesa, que lhe exigiu muita observação tanto dos sons quanto da grafia das palavras, Pedro desenvolveu talento e sensibilidade raros para brincar com as letras. É formado em publicidade e propaganda pela ESPM-RJ e autor de Eu me chamo Antônio Segundo – Eu me chamo Antônio.
Pedro escreve às terças.

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