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Entre vampiros: do folclore à cultura pop

3 / junho / 2015

Por Alexandre Sayd*

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Como bom nerd e jogador de RPG que sou, acabei desenvolvendo um conjunto de gostos específicos que inclui um carinho especial por histórias de vampiros.

As narrativas, que transbordam na literatura, no cinema e na televisão, fascinam a ponto de suscitarem acaloradas discussões entre fãs do gênero, cada um defendendo que seu vampiro é o mais autêntico — ou o mais assustador, o mais original, e por aí vai. Não há consenso se tais criaturas deveriam ser lascivas ou indiferentes, vulneráveis ou não à luz do sol; e isso para não falar nos poderes que deveriam (ou nunca poderiam) possuir.

Alguns fãs se apegam tanto a determinados tipos de vampiros que passam a torcer o nariz para qualquer obra que não os retrate da forma “correta”. Mas há também os ecléticos, como eu, que gostam da variedade e curtem (quase) tudo. Ao observar uma fauna de mortos-vivos tão diversa, tentei, por um tempo, imaginar como esse vampiro “original” deveria ser. Busquei nas raízes míticas e folclóricas a genealogia do gênero, mas só descobri que elas também são muito heterogêneas e que o estereótipo atual é fruto de uma costura de tradições somada às influências da cultura pop.

A vulnerabilidade à luz do sol, por exemplo, só se tornou uma característica comum após Nosferatu, de F. W. Murnau. No filme de 1922, o Conde Orlok é destruído ao presenciar o nascer do sol — fim até então inédito. O Conde Dráculacriado por Bram Stoker em 1897 e considerado até hoje o maior arquétipo de vampiro, podia andar tranquilamente sob o sol. Embora seus poderes diminuíssem durante o dia, ao meio-dia ficavam mais fortes. Sua grande fraqueza, que acabou culminando em sua ruína, era precisar dormir sobre o solo de sua terra natal, a Transilvânia.

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Dependendo do tipo de vampiro, ele pode precisar de um convite para entrar em uma casa, como o próprio Drácula ou a pequena Eli, de Deixa ela entrar, obra de John Ajvide Lindqvist. Pode ser repelido por alho como Blade, no filme de Marv Wolfman; por crucifixos, caso da série Ser Humano, de Toby Whithouse; por água benta, da mesma maneira que Os Garotos Perdidos do filme de Joel Schumacher… Para não falar na luz do sol, capaz de destruir a maioria deles.

Há também aqueles que não podem atravessar água corrente, debilidade dos vampiros da Trilogia da Escuridão, de Guillermo del Toro, ou sejam particularmente vulneráveis a estacas de madeira (ou uma bala de madeira, como os protagonistas do filme Amantes Eternos, de Jim Jarmusch). Ou talvez sua fraqueza seja o fogo, ou a prata, ou a decapitação… Assim como o Conde original, ou Count von Count, da série Vila Sésamo, muitos sofrem de aritmomania — mania de contar e recontar as coisas. Alguns precisam carregar sempre seu solo nativo, como os Tzimisce, do RPG Vampiro: A Máscara. Outros não possuem reflexo, caso dos vampiros de Buffy: a caça-vampiros, de Fran Rubel Kuzui, ou são horrendos e incapazes de se passar por humanos, como os Strigoi de Del Toro.

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Por outro lado, os vampiros costumam ser imortais, com sentidos, força e velocidade sobre-humanas, como vemos em Crepúsculo, de Stephenie Meyer. Podem usar telepatia e comandar as pessoas, como a maioria dos vampiros de Anne Rice, ou se transformarem em morcegos, lobos ou névoa — caso dos vampiros de Stephen King e do quadrinho 30 dias de noite, de Steve Niles. Há muitos poderes e características, e dificilmente um vampiro terá todos eles.

Nem mesmo ao dormir eles são iguais. No folclore, normalmente habitam cemitérios e mausoléus, pois voltam do mundo dos mortos para se alimentar dos vivos. Sabemos que Drácula dormia em caixões, onde depositava a terra da Transilvânia. Outros preferem caixões simplesmente porque são um ambiente protegido da luz, alguns nunca dormem (como os de Crepúsculo) e outros simplesmente usam camas normais.

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Além das características dos personagens, as narrativas do gênero divergem também na relação entre os mortos-vivos e a sociedade humana. Na maioria das histórias, os vampiros podem se passar por humanos e fazem isso se misturando ao rebanho, como Eleanor e Clara, em Byzantium, de Neil Jordan. Há algumas tramas, no entanto, que experimentam coisas diferentes, como vampiros que não se misturam e vivem sempre escondidos, agindo nas sombras. Em alguns casos a convivência é sabida e harmoniosa (série True Blood). Por vezes, ela é conhecida, mas extremamente conflituosa (Trilogia da Escuridão).

Essas experiências com estereótipos e cenários nos levam à minha última leitura: A Caçada, e sua sequência, As Presas, de Andrew Fukuda.

AsPresas_Face_lombada_pA obra de Fukuda não apenas inova, como brinca com a tradição, invertendo o papel costumeiro do vampiro como uma minoria em meio aos humanos. Na trilogia, é o humano quem está nesse papel: Gene é o último sobrevivente em um mundo dominado por vampiros. É ele que se esconde, não o contrário.

Gene vive em uma distopia pós-apocalíptica onde os epers (como os humanos são conhecidos) estão extintos, ou quase, e a sociedade é governada por vampiros (que, no livro, são chamados de “pessoas”). Para sobreviver, ele precisa estar sempre atento para não fazer nada que o denuncie. É necessário utilizar presas falsas, aparar cuidadosamente todos os pelos, evitar odores corporais e suor, além de abolir gestos tão simples quanto rir ou cochilar em público.

Os vampiros de Fukuda são fisicamente superiores aos epers. Embora sejam portadores de sentidos, força e velocidade excepcionais, não dispõem de nenhum poder sobrenatural. O sol pode destruí-los em pouco tempo, e, ainda que sejam capazes de atravessar água corrente, não podem afundar a cabeça na água (eles entram em pânico e se afogam). Os vampiros também conseguem comer e beber como humanos, porém a base de sua dieta é exclusivamente carne e sangue.

link-externoConheça a série A caçada

Algumas características — como o fato de dormirem de cabeça para baixo pendurados no teto —, reforçam o tom de brincadeira e ironia de Fukuda em relação a esses estereótipos com os quais estamos acostumados. Isso é especialmente verdadeiro em vista da sociedade bizarra dos vampiros, que possui comportamentos um tanto alienígenas, como coçar os pulsos quando alguma coisa é engraçada ou estalar os ossos do corpo para demonstrar excitação, e, mais ainda, pela ideia completamente equivocada que os vampiros fazem dos epers, dos quais parecem conhecer muito pouco.

A Caçada As Presas são livros carregados de ação e mistério, onde quase nada é o que parece e o medo está sempre presente. O primeiro livro traz uma série de perguntas e charadas que se transformam em descobertas surpreendentes no segundo. O último volume da série (ainda sem data de publicação prevista), promete contar a história definitiva sobre a extinção da humanidade e a origem dos vampiros, mantendo o ritmo acelerado e o clima de tensão que vimos até agora. Assim como acontece do primeiro para o segundo livro, a expectativa é que novos personagens sejam apresentados e vejamos uma mudança radical no cenário da trama.


Alexandre Sayd
é jornalista e leitor voraz de fantasia.

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Comentários

2 Respostas para “Entre vampiros: do folclore à cultura pop

  1. Achei excepcional o texto. Não defende um estereótipo em detrimento de outro, simplesmente demonstra como as diferentes construções da figura emblemática do vampiro contribuem umas com as outras e nos apresentam a varia possibilidades: Podemos optar por vampiros mais amenos e humanos ou escolher aqueles que apresentam-se de formas mais grotesca e horrenda. Alem disse amei a indicação, com certeza procurarei.

  2. Gostei bastante do filme Daybreakers, também uma distopia pós apocalíptica, onde o mundo é governado em sua maioria por vampiros, e os humanos que restaram são mantidos como ‘gados’ para fornecer sangue. A escassez de sangue é o maior problema devido a extinção dos humanos.

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