Querido réu deste processo sentimental

Querido réu deste processo sentimental

Acho que você nunca vai ler isso.
Talvez seja melhor assim.
Porque existem sentimentos que nascem para serem escritos, não necessariamente entregues.
E eu escrevo porque já não cabe mais em mim.
É impressionante como tudo, absolutamente tudo, volta para você.
As músicas.
Os livros.
Os corredores.
Os filmes.
As coincidências ridículas.
Até o silêncio.

Principalmente o silêncio.

Sempre que alguma dor sem nome invade meu peito, eu volto para a minha trilogia favorita: Para Todos os Garotos que Já Amei.
É engraçado.
Eu cresço um pouco toda vez que releio aquelas páginas.
Na primeira vez achei que Lara Jean deveria terminar com Josh.
Depois achei Peter Kavinsky o homem perfeito.
Mais tarde passei a enxergar todos os defeitos dele.
E hoje entendo que talvez Jenny Han nunca tenha escrito uma história sobre o amor perfeito.

Ela escreveu sobre pessoas.

E pessoas são difíceis.
São confusas.
São bonitas justamente porque falham.
Talvez seja por isso que você mora tanto naquele livro.
Sou apaixonada por Machado de Assis.
Por Dostoiévski.
Por García Márquez.
Por Clarice.
Por Drummond.
Mesmo assim...
o livro que mais me conhece é justamente aquele que tenho vergonha de admitir.
Porque Lara Jean escreve cartas que nunca envia.
E eu...bem...acho que estou escrevendo mais uma.

Você apareceu sem pedir licença.

Foi ocupando espaço como quem chega para ficar cinco minutos e, quando percebi, já morava em todos os cômodos da minha cabeça.
Você virou meu infinito particular.

Meu desastre favorito.

Minha coincidência preferida.

Minha pergunta sem resposta.

Meu quase.

Sempre o quase.

Depois daquele dia da escada...

eu nunca mais fui a mesma.

Talvez você nem lembre.

Eu lembro de cada detalhe.

Do lugar.

Da distância.

Da professora interrompendo tudo.

Da sensação absurda de que, por um segundo, o universo inteiro tinha prendido a respiração junto comigo.
Foi ali que começou.
Ou talvez tenha sido antes.
Talvez no corredor.
Talvez no primeiro sorriso.

Eu nunca soube exatamente onde me perdi.

Só sei que nunca mais consegui voltar.
Você virou Peter Kavinsky de um jeito assustador.
O ego.

As piadas.

Harry Potter.

Ser chamado pelo sobrenome.
A popularidade.
O jeito absurdo de fazer qualquer pessoa se sentir especial.
Você é tão parecido com ele que às vezes parece que Jenny Han te conheceu antes de mim.
Só existe uma diferença.
No livro, Peter escolhe ficar.

Na vida...

você nunca me escolheu.

E talvez nem soubesse que havia uma escolha.
Depois vieram aquelas mensagens.
Eu contei.
Quando vi quatro notificações já pensei que tinha tirado a sorte grande.
Você poderia ter escrito duas linhas.

Poderia ter dito:

"Foi bom. Conversa com a nossa coordenadora."

Mas não.
Você respondeu perguntas que eu nem tinha feito.

Explicou.

Acolheu.

Compartilhou.

Você desmontou uma ansiedade inteira sem nem perceber.
E talvez seja por isso que eu nunca consegui te colocar no lugar dos caras que machucaram meu coração antes.
Porque você foi gentil.

E eu nunca soube lidar com gentileza.

Sempre esperei o pior de você.

Mas descobri que o pior nunca foi você.

Era eu.

Meu medo.

Minha insegurança.

Minha mania de acreditar que ninguém ficaria tempo suficiente para me ouvir.
Naquele dia você respondeu uma pergunta que eu carregava havia anos.

"Será que eu sou importante o bastante para alguém parar e me escutar?"
Você respondeu sem perceber.
E respondeu que sim.

Só que depois...

veio o silêncio.

E eu tentei fingir.
Meu Deus, como eu finjo bem.
Finjo que não procuro seu sorriso.
Finjo que não travo quando você aparece.
Finjo que meu coração não faz um triplo mortal quando vejo seu nome.
Finjo que te superei.
Às vezes quase acredito.

Quase.

Mas basta você aparecer num corredor qualquer...
num story...
numa festa...
que meu corpo inteiro lembra de você antes da minha razão ter tempo de reagir.
E eu odeio isso.
Odeio porque tentei.
Tentei conhecer outras pessoas.
Beijar outras bocas.
Criar outras histórias.

Mas parece que o universo tem um senso de humor perverso.
Sempre que eu começo a seguir em frente...
você aparece.
Como se dissesse, sem dizer nada:

"ainda não."

E eu continuo aqui.
Presa numa história que talvez só eu tenha vivido desse jeito.
Enquanto você parecia tão leve.
Tão inteiro.
Tão cercado de gente.
E eu...
me desmontando sozinha.
Você tinha prioridades.
Eu tinha sentimentos.
Existe uma diferença enorme entre essas duas coisas.
E ela quase me destruiu.
Às vezes eu sinto raiva.
Muita.
Tenho vontade de gritar:

"Vai se foder."

Vai se foder,
Vai se foder e leva esse sorriso bonito junto.
Leva essa facilidade absurda de existir dentro de mim sem fazer esforço.
Leva essa capacidade de bagunçar tudo só porque resolveu aparecer cinco minutos.
Mas a pior parte...
é que até minha raiva ama você.
Ela só aprendeu outra língua.
Porque, no fundo,
o que eu sempre quis
era viver.

Viver com você.

Não o romance perfeito.
Não o filme.
Não o livro.
Queria o cotidiano.
As manhãs comuns.
As discussões idiotas.
As reconciliações.
Os planos.
Os erros.
As decepções.
Os domingos sem assunto.
Queria descobrir quem você é quando ninguém está olhando.
Queria deixar você descobrir quem eu sou quando finalmente tirasse todas as armaduras.

Eu queria tudo.

Porque metade nunca foi suficiente.
E talvez nunca seja.
Hoje eu entendo uma coisa que demorei muito para aprender.
Amar não basta.

Se bastasse...

você estaria aqui.
Se bastasse...
eu não teria aprendido a conviver com a sua ausência.
Se bastasse...
essa carta não existiria.
Mas amar continua sendo a coisa mais verdadeira que já me aconteceu.
Mesmo quando dói.
Mesmo quando não volta.
Mesmo quando termina antes mesmo de começar.
Então eu guardo tudo isso aqui.
Nessas páginas.
Porque talvez esse seja o lugar onde você sempre pertenceu.
Entre livros.

Entre cartas nunca enviadas.

Entre histórias que ninguém sabe se aconteceram ou se foram apenas inventadas por uma menina dramática demais.
E se algum dia, por um daqueles acasos absurdos que insistem em colocar nossos caminhos na mesma direção, você ler estas palavras...
não peço resposta.
Não peço reciprocidade.
Não peço promessa.

Só espero que, por alguns minutos,

você consiga enxergar o tamanho da pessoa que você foi dentro da minha história.
Porque, gostando ou não...
você mudou a minha.
E isso...
isso ninguém nunca vai conseguir apagar.

Isobel

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