testeEu quero uma casa no campo

Vargas comary

Getúlio Vargas na Granja Comary


Um tema que tem monopolizado a cena política e a mídia, entre outros, são as propriedades de veraneio de ex-presidentes, com suas intermináveis reformas. Esse é um assunto pouco explorado pelos historiadores, mas é possível contar a História do Brasil a partir do estudo de casas, sítios, fazendas e outros patrimônios de nossos dirigentes.

Lembro que, em 1979, o general Ernesto Geisel, que presidiu o país entre 1974 e 1979, foi morar em Teresópolis, na Região Serrana do Rio de Janeiro. Nessa época eu frequentava a cidade e me hospedava em uma casa vizinha à dele. Um belo dia, pouco antes da chegada do novo – e ilustre – morador, tivemos uma surpresa boa: a rua começava a ser asfaltada.

O mesmo fenômeno, ou seja, o investimento do dinheiro público para favorecer o bem-estar de políticos, aconteceu com seu sucessor (não custa lembrar que todo tipo de benfeitoria, como asfaltamento, colocação de antenas de telefonia, saneamento etc., agregam valor aos imóveis locais). O general João Baptista Figueiredo (1979-1985) era proprietário de um sítio em Nogueira, também na Região Serrana. Figueiredo e a esposa, antes da posse, reformaram o sítio. O casal, que convivia em chalés separados na propriedade, inspecionava pessoalmente as obras da reforma.

Já Getúlio Vargas, bem mais modesto, nunca foi dono de qualquer propriedade secundária. Enquanto morou no Rio de Janeiro, especialmente durante sua primeira passagem pela Presidência (de 1930 e 1945), ia sempre ao palácio Rio Negro, residência oficial de verão do governo brasileiro, em Petrópolis, também na Região Serrana. Apesar de ser um frequentador assíduo do palácio, Vargas usaria muito mais o dinheiro do erário para ajudar o desenvolvimento de Teresópolis, conforme conto no livro Os Guinle. O mais curioso dessa história tem a ver com outra casa de campo na mesma localidade.

Na década de 1930, o milionário Carlos Guinle adquiriu muitas terras em Teresópolis, onde construiu sua sofisticada Granja Comary. Sempre que conseguia, tirava Getúlio de Petrópolis e o levava para lá. Em seu diário pessoal, Vargas fez alguns registros sobre suas visitas à granja, que se tornaria mais tarde sede de treinos da Seleção brasileira. A ligação entre as duas cidades era feita por um caminho de terra, até que Getúlio fez a gentileza de mandar construir a estrada Petrópolis-Teresópolis, inaugurada em 1937. A obra beneficiaria de forma inquestionável o município e, em particular, os negócios de Carlos Guinle.

testeNossos governantes e seus parentes

Getúlio-Vargas familia

Getúlio Vargas e seu pai, Manuel do Nascimento Vargas (fonte)

Em tempos de calorosos debates sobre a vida privada de ex-dirigentes do Brasil, vale lembrar que esse tipo de situação remonta aos primeiros anos de nossa história. D. Pedro I, o homem que nos livrou do julgo do colonizador português, em 1822, vivia cercado de problemas de ordem pessoal.

Nosso primeiro imperador, no ano de 1826, enfrentava uma grave crise de popularidade. Um dos motivos era a guerra de independência da província Cisplatina, atual Uruguai. Além de ter um custo financeiro elevado, o conflito coincidiu com o auge da paixão de Pedro pela amante, Domitila de Castro. O Imperador estava tão envolvido com ela que nem dormia mais no palácio da Quinta da Boa Vista, o que também tinha um reflexo negativo para sua imagem.

Esses fatores levaram Pedro a liderar as tropas do Brasil no Rio Grande do Sul. A tática não deu muito certo, uma vez que perdemos a guerra e a casa de sua amante foi apedrejada após a morte da imperatriz Leopoldina, em 1826.

Já no século XX, o governante que mais sofreu entreveros causados por problemas da vida privada foi Getúlio Vargas. É bem verdade que nenhum outro governante republicano ficou tanto tempo no poder — no total, foram dezoito anos.

Em meu último livro Os Guinle, conto, numa passagem emblemática, como o irmão do presidente, Benjamin Vargas, conhecido como Beijo, se aproveitava do fato. Assíduo frequentador de cassinos, o chefe de segurança do Catete — à época, palácio presidencial — gostava de colocar seu enorme revólver sobre a mesa de jogo para intimidar os crupiês. Beijo fazia isso sem nenhum pudor, pois, entre 1937 e 1945, o país era governado de forma ditatorial e a imprensa não podia noticiar esse tipo de acontecimento.

Situações como essa, no entanto, só serviram para, mais tarde, reforçar a tese de que a família Vargas se locupletava do poder de Getúlio. Algum tempo depois, já no período democrático, em 1954, o Brasil estava mergulhado em uma grave crise. O maior adversário político de Getúlio, Carlos Lacerda, fora vítima de uma tentativa de assassinato ao chegar em casa no episódio conhecido como “O crime da rua Tonelero” e que vitimou seu segurança, o major Vaz.

As investigações logo apontaram para Gregório Fortunato, chefe de segurança da guarda presidencial e gaúcho de São Borja, como Vargas. Havia ainda um agravante: Gregório, homem muito simples, era dono de uma incomensurável fortuna. No entanto, o mais contundente para Vargas foi saber que seu filho Maneco Vargas vendera uma fazenda no Rio Grande do Sul para Gregório. Não fazia muito sentido que Gregório, com salário de apenas 4 mil cruzeiros, adquirisse uma propriedade de 1,32 milhão. Ao se inteirar da situação, Getúlio teria dito: “Debaixo do Catete há um mar de lama.”

Por essa razão, pode-se afirmar que político brasileiro que se defende dizendo que vida privada é uma coisa e vida pública é outra só pode ser visto como um ignorante em termos de história do Brasil.