testeElon Musk, o Homem de Ferro que quer viver em Marte

Por Rennan Setti*

Foto: Getty Images /Justin Sullivan

O futuro do automóvel protagonizou o pregão do último 3 de abril em Wall Street. Naquele dia, o valor de mercado na Bolsa da fabricante de carros elétricos Tesla superou o da Ford, que inventou essa indústria há mais de um século. A ultrapassagem foi entendida não apenas como o marco de uma nova era automotiva, mas também como a redenção de Elon Musk face aos céticos que sempre questionaram suas mirabolâncias. Aos 45 anos e dono de uma fortuna de US$ 14,9 bilhões (cerca de R$ 47 bilhões), o executivo-chefe da Tesla é uma espécie de enfant terrible do Vale do Silício, cuja audácia goza de celebridade proporcional ao espanto que provoca. 

Desde que deixou sua África do Sul natal, no início dos anos 1990, Musk estabeleceu reputação de empreendedor em série. Após ter participado do comando do sistema de pagamentos on-line PayPal — cuja venda ao eBay lhe renderia US$ 165 milhões —, Musk decidiu criar startups que desafiam alguns dos setores mais conservadores da economia. Além da Tesla, Musk fundou a SolarCity com o objetivo de popularizar painéis solares como fonte de energia, enquanto a SpaceX tem a ambição de viabilizar a indústria de viagens interplanetárias.  

Mas Musk chama mais atenção pelo que ainda sonha conquistar. Em setembro do ano passado, deixou boquiaberta a plateia do Congresso Internacional de Astronáutica ao anunciar planos concretos de levar humanos a Marte a partir de 2024. É dele também o projeto do Hyperloop, sistema de transporte por meio de um túnel com pressão reduzida capaz de fazer o trajeto entre Los Angeles e São Francisco em meia hora. No fim de março, o The Wall Street Journal revelou que Musk lançou a Neuralink, companhia dedicada à implantação de eletrodos no cérebro de pessoas, o que permitiria aos usuários interagir com máquinas e com a internet por meio de pensamentos.  

Nada mal para alguém que superou o bullying implacável na escola (após surras sucessivas, precisou fazer uma plástica no nariz), a malária e sinais iminentes de falência, como narra o jornalista Ashlee Vance na biografia Elon Musk. É bem verdade que ainda pairam suspeitas sobre seu sucesso. A maioria de suas empresas, apesar de inovadoras, ainda são máquinas de queimar dinheiro, enquanto os críticos duvidam que seus planos mais heterodoxos serão concretizados. Sua personalidade é controversa. Vance conta no livro que Musk questionou o comprometimento de um funcionário que faltou a uma reunião para acompanhar o nascimento do filho (ele nega), e o empreendedor já se divorciou três vezes, duas delas da mesma mulher, o que garantiu presença constante em tabloides. Também causou polêmica o fato de ele atuar no conselho econômico de Donald Trump, que se elegeu afirmando que as mudanças climáticas são uma falácia e prometendo retirar incentivos à energia limpa, o contrário de tudo o que acreditam os donos do Tesla Model S e dos painéis da SolarCity. 

A favor de Musk estão seu endereço (o Vale do Silício é compreensivo com fracassos e paciente com inovações que custam a dar resultados) e a comunidade de fãs que já estabeleceu. Musk inspirou o Tony Stark “Homem de Ferro”, chegando a fazer uma aparição na sequência do filme, e é considerado por admiradores o sucessor natural de Steve Jobs. Para saber se suas apostas vão dar tão certo quanto a Apple, será preciso esperar, mas ter ciência delas é incontornável no universo tecnológico. Conheça a seguir um pouco mais sobre suas iniciativas.     

 

Tesla, de beira do precipício a modelo de futuro

Model S (via Tesla Motors)

Batizada em homenagem ao inventor Nikola Tesla, a companhia de Palo Alto não foi fundada por Musk mas se tornou indissociável dele. A Tesla nasceu em 2003 como um projeto do veterano Martin Eberhard, com o objetivo de criar veículos que utilizem como combustível apenas energia elétrica.

Em 2008, quando estourou a crise financeira global, a empresa estava à beira da falência, e Musk teve que tirar dinheiro do próprio bolso para sustentá-la. Aquele ano, aliás, seria lembrado por Musk como o pior de sua vida (além da Tesla, a SpaceX e o casamento de Musk também passavam por sérias dificuldades). Mas Musk, que passou a ocupar o cargo de CEO, conseguiu reequilibrar a empresa. Em 2010, ela foi a primeira montadora desde a Ford, em 1956, a lançar ações na Bolsa americana, levantando US$ 226 milhões.

 

Dificuldades em inovação solar

SolarCity (via Forbes)

Criada em 2006, a SolarCity produz e presta serviços de instalação e manutenção de painéis de energia solar. Musk teve a ideia original e ofereceu parte do capital inicial para a companhia, que seria fundada por seus primos Lyndon Rive e Peter Rive. Musk ocuparia o cargo de presidente do conselho de administração.

Hoje, a SolarCity é a maior empresa do segmento nos EUA, com mais de 300 mil clientes, mas continua enfrentando dificuldades para sair do vermelho. Em oito dos últimos 12 trimestres, a firma registrou prejuízo. A dramaticidade da situação levou a Tesla a adquiri-la no fim de 2016, por US$ 2,6 bilhões. 

 

O caminho mais rápido para o planeta vizinho

Nasa/Getty Images

Desde criança, Musk sonhava com o espaço. A SpaceX foi fundada por ele em 2002 para satisfazer esse fascínio. Seu principal objetivo é reduzir drasticamente o custo de viagens espaciais e, em algum momento, permitir a colonização de Marte. Na verdade, Musk sempre condicionou a abertura do capital da SpaceX ao pleno funcionamento de uma espaçonave capaz de levar pessoas àquele planeta.

A companhia se estabeleceu como uma importante prestadora de serviço para a Nasa. Em 2012, a SpaceX se tornou a primeira firma privada a levar uma cápsula à Estação Espacial Internacional. Para o futuro, a companhia tem mais de 70 lançamentos planejados, uma promessa de US$ 10 bilhões em contratos. Apesar de falhas notáveis em alguns lançamentos, a SpaceX obteve um feito em março deste ano: lançou o primeiro foguete reutilizado da história, o Falcon 9. A façanha é a chave para permitir o barateamento das viagens espaciais e, logo, a eventual colonização de Marte.        

Musk estima que um foguete à altura estaria pronto em 2024 — e deseja que a primeira espaçonave se chame “Heart of Gold” em homenagem ao Guia dos Mochileiros da Galáxia. Cada voo poderia levar cem passageiros, e as viagens ocorreriam a cada 26 meses, quando a Terra e Marte estão mais próximos entre si. O empreendedor projeta que o preço por viagem poderia cair para algo entre US$ 100 mil e US$ 200 mil por pessoa e que cerca de 10 mil voos seriam necessários para estabelecer uma colônia autossuficiente no planeta vizinho.  

 

Insurgência contra a distopia da inteligência artificial

Shutterstock

O fascínio de Musk por Marte não é resultado apenas de literatura de ficção científica em excesso. Na verdade, o empresário realmente acredita que a raça humana corre risco de extinção na Terra, e, dessa forma, a colonização de outro planeta poderia ser uma garantia de sobrevivência. Apesar de ser um notório entusiasta de tecnologias futuristas, Musk teme que os computadores exterminem os seres humanos.

Por isso, no fim de 2015, ele fundou a OpenAI, uma organização sem fins lucrativos cujo objetivo é desenvolver uma plataforma de inteligência artificial que não caia na tentação de se virar contra seus criadores e aniquilar a humanidade. O objetivo da organização — que conta com o suporte de outros magnatas, como Peter Thiel (PayPal) e Reid Hoffman (LinkedIn) — é disponibilizar ferramentas de IA de código aberto que atendam esses requisitos. 

Saiba mais sobre a vida e as realizações do homem mais audacioso do Vale do Silício em Elon Musk, um exame profundo do significado da carreira de Musk para a indústria tecnológica.

 

Rennan Setti é jornalista.

testeComo os loucos abrem caminho para a inovação

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Outro dia vi na praia uma figura que alguns ao redor começaram a taxar de louco. Em um sol de quase 40 graus, sem nuvens, o homem de cabelos e barbas compridos caminhava vestindo calça jeans, tênis e uma camiseta estampada na qual se lia: “Os loucos abrem os caminhos que os sábios seguirão.” Não tenho ideia de quem era tal indivíduo, um estrangeiro em todos os sentidos. A cena não saiu de minha mente e me fez refletir sobre nomes das artes, como Ernest Hemingway — um dos meus escritores prediletos — e a dupla Paulo Coelho e Raul Seixas — cujas canções feitas em conjunto marcaram minha infância —, além do mundo da inovação tecnológica e científica, a exemplo de Elon Musk e Steve Jobs, dois dos empreendedores mais admirados da atualidade.

A loucura é marca da arte. Para muitos de seu tempo, o Hemingway de 20 e poucos anos era um maluco. Ao menos aos olhos dos sãos. Tratava-se de um jovem jornalista promissor que abandonara os benefícios de uma carreira certa e lucrativa nos Estados Unidos pela vida de um pobretão em Paris. Tinha, afinal, uma obsessão típica dos doidos: queria ser escritor, mesmo que, para isso, tivesse que passar fome. Aliás, como conta em seu magnífico livro de memórias Paris é uma festa, a fome ajudava na meta, pois impulsionava o cérebro a ter ideias e abrir caminhos. Ele não queria ser um escritor qualquer. Como louco que se preze, o jovem ainda desconhecido, quase desprezado, tinha certeza de que inauguraria um gênero literário no qual cada uma de suas frases exprimiria os mais verdadeiros sentimentos humanos. No fim, sua loucura o levou a tal conquista. E também fez com que desse um tiro de espingarda na cabeça.

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O genial bilionário Elon Musk, que era tido como doido até pela própria mãe

Hemingway me fascinou por sua loucura. Sempre tive, na verdade, asco por artistas que não flertam com doideiras. Quase um desprezo, do tipo que Hemingway alimentava em seu interior pelos colegas menos insanos.

Nas artes, sempre só importaram os malucos. A lista é enorme: de Hunter S. Thompson e seus livros cheios de verdades e mentiras sobre a cultura americana até Alan Moore — que um dia me confidenciou, numa agradável conversa, que é mago de verdade, cuja feitiçaria se dá nas palavras exprimidas em seus quadrinhos e livros —, Guimarães Rosa e João Gilberto.

Loucura nada tem a ver com drogas ou incentivos do tipo — mesmo que muitas vezes essas doses possam ajudar —, mas com a simples observação de que uma figura parece não se encaixar no mundo normal. Muitas vezes pelo perfil caótico, outras pelo extremo ordeiro. E é daí que nascem os novos estilos de arte, os novos caminhos.

A loucura sempre foi saudável também no mundo do empreendedorismo. No entanto, diferentemente do mundo artístico, nos negócios a insanidade foi vista com repulsa por muito tempo, o que fez com que mulheres e homens brilhantes, como Alfred Nobel — dono de várias patentes, como a da dinamite, e fundador da indústria armamentista tal qual a conhecemos hoje —, sofressem. Ele era um gênio que sucumbia à depressão, em muito temperada pela dualidade mental de ser um pacifista e ao mesmo tempo taxado de “mercador da morte”. Antes de morrer, Nobel deixou sua fortuna para a criação do prêmio que levou seu nome e que laureou muitos doidos, cujas mentes abriram atalhos para os que vieram depois.

Hoje, a inventividade tresloucada de Nobel provavelmente seria admirada, e não questionada. O ambiente dos negócios se transformou radicalmente. O responsável por tal mudança: o Vale do Silício e as figuras inovadoras que lá surgiram.

Steve Jobs, fundador da Apple, era um desses loucos. Um dos responsáveis por fazer com que a arte e o empreendedorismo se mesclassem de vez, nos idos dos anos 1970, quando apresentou o computador pessoal que hoje todos usamos. Drogado, viciado em LSD, arrogante, teimoso, do tipo que acreditava que por ser vegetariano não precisava de desodorante — o que só o fazia cheirar mal —, andava descalço, era de estilo hippie, mas também amava acelerar seu conversível pelas estradas nas proximidades de São Francisco. Em Como Steve Jobs virou Steve Jobs, recentemente publicado pela Intrínseca, é possível mergulhar na cabeça dessa figura tresloucada, de cuja mente (e só por faltar parafusos nela) saíram criações fantásticas como o iPhone, o iPad, o iPod e o estúdio de animação Pixar.

Felizmente, os malucos do empreendedorismo passaram a ser celebrados, o que dá gás para o surgimento de mais exemplos dessa nata da humanidade. Como mostra uma biografia recente — a ser lançada no Brasil pela Intrínseca —, quando criança, em dura infância na África do Sul, Elon Musk — que, após a morte de Jobs, assumiu o posto de mais célebre empreendedor louco da atualidade — era tido como fora da sanidade até pela própria mãe. Mesmo hoje,
bilionário, é difícil distinguir se sua ideia de que salvará a humanidade da extinção com empresas que promovem a popularização do uso de fontes limpas de energia — como a Tesla, de carros elétricos — e a exploração espacial — a SpaceX, que deu início a um novo tipo de corrida pelo domínio do cosmos — é loucura ou visão genial. Na verdade, pouco importa definir uma fronteira entre a sanidade e o inverso. Tomara que Musk continue pinel, pois é assim que dá à luz magníficas ideias.

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Em O Clique de 1 Bilhão de Dólares, mostro não só como se deu a criação do Instagram, mas como o Vale do Silício fundou um mundo de negócios mais receptivo a figuras insanas

Eu, caro leitor, batalho com minhas loucuras. Só que cada vez mais tendo a achar que o melhor é me submeter a elas. Espero que vocês também não consigam vencer a insanidade interior, ainda mais por faltarem empreendedores doidos no Brasil. Como bem pontuou certa vez Nolan Bushnell, outro dos lunáticos do Vale do Silício, fundador da Atari e mentor de Jobs: “No Brasil, os empresários acham que tudo tem que começar dando lucro; não se arriscam na loucura, com ideias arriscadas.” Ou seja, não dão asas à inovação.

 

Leia também:

Por que é tão difícil inovar no Brasil, por Filipe Vilicic

Com quanto suor e lágrimas se faz uma criação de Steve Jobs, por Tatiana Dias

 

testePor que é tão difícil inovar no Brasil

l_img8_instagram_blog_01a_semtextoUm típico empreendedor brasileiro: preso no labirinto da burocracia

Repare que o título desta coluna é uma afirmação, não uma pergunta. Afinal, tal constatação já se tornou praxe. Mas é raro encontrar explicações. Vamos a elas.

Tentei empreender dois projetos: o primeiro com uma startup de impressão 3D e o segundo com uma empresa de mapeamento indoor. Desisti de ambos no meio do caminho. O primeiro foi para a frente, de forma tímida, depois da minha saída. O segundo desapareceu. Independentemente do sucesso ou do fracasso posterior, por que caí fora, sem arrependimentos?


1.

Por um fator simples: é difícil fazer negócios éticos no Brasil. Por exemplo, no meio do caminho para lançar a startup de impressoras 3D, que seriam acopladas à mão, surgiu um problema. Como tudo no país, mesmo para uma empresa tida como startup — logo, como seria no Vale do Silício, algo meio que “de garagem”, que mereceria facilidades —, é preciso, antes de operar, ter aprovações mirabolantes, que passam por contadores, advogados, cartórios… No meu caso, descobrirmos vários obstáculos.

Em teoria, precisaríamos de uma licença específica para instalar uma empresa de fabricação de qualquer coisa, de qualquer escala. E a nossa não poderia ser na região de São Paulo em que estávamos (o Centro!). Tudo isso custaria MUITO para ser superado. Algo que uma startup não conseguiria encarar. Em meio ao papo com outros sócios, surgiram formas de se esquivar da questão. A maioria exigia o “jeitinho brasileiro”. Sou contra “jeitinho” e achava adequado não correr o risco, ainda mais por ser tão apaixonado por escrita e jornalismo — não queria que essas minhas facetas fossem afetadas pelos problemas de empreendedor. Logo, optei por não me meter em qualquer provável futura lama.


2.

Rixas entre os sócios é algo típico em startups, mas que poderia ser superado. Porém, olhando agora com a devida distância temporal, percebi que as brigas tinham muito a ver com o fato de não podermos nos dedicar ao que queríamos, ao nosso trabalho, às nossas ideias. Na maior parte do tempo só discutíamos empecilhos burocráticos, leis e por aí vai. A parte chata. Nada a ver com o core do negócio. Isso não só me desmotivou como fez nascerem as rixas. Esse panorama brasileiro, de 70%, 80%, por vezes 90% do tempo — e da massa cerebral — do empreendedor iniciante ser gasto com cartórios e afins, por meses, destrói vontades e parcerias.

 

3.

Ah, e o principal. Descobri que não queria me dedicar tanto assim a impressoras 3D e mapeamento indoor. Minha praia é comunicação (e contar histórias: escritas, visuais, como forem). Se um dia regressar a esse mundo empreendedor — sobretudo se for para enfrentar as chatices brasileiras —, provavelmente me voltarei a áreas relacionadas a essa paixão. Entre nós, esse foi o fator decisivo. Se não fosse por isso, teria enfrentado, com muita raiva e inveja dos colegas americanos do Vale do Silício — com suas devidas facilidades que fazem de lá o maior polo de inovação do planeta —, as questões 1 e 2.

 

Porém, vamos sair do pessoal

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Graava, uma câmera que edita automaticamente os vídeos feitos: mais uma bela ideia de brasileiros, mas realizada no Vale do Silício

É regra.: todo empreendedor que conheço reclama da estupidez da burocracia brasileira. Municipal, estadual ou federal. Tanto faz. Há burrice em todas as alçadas. E o ecossistema nacional de negócios, principalmente os digitais — que exigem agilidade para se adequar, garantir a inovação e competir de igual para igual com a concorrência —, sofre com isso. Até os gigantes.

Vejamos, por exemplo, o caso do Google. Há dois anos, em papo com Hugo Barra, mineiro de grande renome em sua área e então vice-presidente da marca (hoje está na chinesa Xiaomi), perguntei: “Por que, apesar do interesse das grandes empresas pelo mercado brasileiro, os melhores smartphones e tablets demoram a chegar por aqui?” A resposta: “Queremos entrar no Brasil e vender produtos baratos. Mas é extremamente difícil fazer negócios neste país. A complicada e burocrática legislação brasileira coloca barreiras únicas no mundo para quem quer investir ou empreender. Há práticas fiscais e logísticas, além de leis protecionistas exageradas, que não são vistas em outras nações. Nesses quesitos negativos, o Brasil é incomparável.”

Sim, é de chorar. E a visão cruel sobre o ambiente de empreendedorismo brasileiro é uniforme entre os que aqui batalham para inovar.

Em almoço com Alex Tabor, CEO do Peixe Urbano, ele recordou como foi uma tormenta abrir seu negócio inovador de vendas on-line de cupons de ofertas. “No Brasil, às vezes demora meses só para conseguir o CNPJ (o registro inicial da empresa; ou seja, só para dar o start)”. Agora, quando ele foi abrir uma holding nos Estados Unidos, tudo se mostrou fácil. “Lá são exigidos só os documentos que fazem sentido serem apresentados e o processo leva dias”, completou.

Não é coincidência eu ter ouvido algo similar de Nelson Mattos, brasileiro que foi vice-presidente do Google e que hoje atua como consultor no Vale do Silício, sendo membro da renomada BayBrazil, organização que promove conversas entre inovadores brasileiros e californianos. Para ele, “não faltam mentes criativas em nosso país”. O problema é que “essas cabeças não conseguem trabalhar no Brasil devido a tantos impedimentos governamentais. Muitas vezes, as pessoas precisam se mudar para criar uma empresa inovadora”.

capa_OCliqueDeUmBilhaoDeDolares_WEBEm outras palavras, os labirintos surrealistas à la Franz Kafka à frente de qualquer empresário iniciante acabam expulsando os brasileiros de sua própria nação. Para onde eles levam suas ideias criativas — e, muitas vezes, fonte de milhões de dólares (que poderiam ser reais)? Vão para os Estados Unidos, para Israel, para a Inglaterra, para o Canadá etc. — ambientes que recebem os inovadores de portas abertas.

É para onde foi, por exemplo, Marcelo do Rio, outro brasileiro inovador, que criou em terras tupiniquins a cervejaria Devassa, vendida depois para a Schincariol. Após se admirar com o mundo tecnológico, ele se mudou para o Vale do Silício. Lá, com dois brasileiros, fundou a Graava, que fabrica uma interessante câmera filmadora capaz de editar automaticamente os vídeos feitos. Se for um fracasso, ou um sucesso maior que o da GoPro, pouco importa para o contexto desta coluna. O fato é que o Brasil perdeu Marcelo do Rio e a bela ideia da Graava. Disse ele em conversa que tivemos: “Não tenho a menor dúvida da competência do empreendedor brasileiro, extremamente criativo, habilidade que usa até para compensar a ineficiência do Estado. Não faltam mentes no Brasil. Falta estrutura.”

Não à toa há mãos brasileiras em diversas empreitadas reconhecidas em todo o mundo como de extrema criatividade. Caso do Facebook e do Instagram, sobre o qual escrevi este livro . Pena que esses cérebros não sobreviveriam — ao menos não da mesma forma saudável — em sua terra natal.

link-externoLeia um trecho de O clique de 1 bilhão de dólares

testeQuem preciso ser para ganhar 1 bilhão com uma startup?

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Os geniais Steve Jobs e Steve Wozniak: criaram o padrão de empreendedores do Vale do Silício

Leitores de O clique de 1 bilhão de dólares, meu livro sobre a história da criação do Instagram pelo brasileiro Michel (Mike) Krieger, me mandaram mensagens perguntando: “Qual o segredo por trás desses empreendedores do Vale do Silício?” Como bem colocou um leitor em palestra que dei recentemente em São Paulo: “O que faz alguém ter uma ideia de 1 bilhão de dólares? E como posso ter uma?” Não há fórmula pronta. Mas existe uma série de similaridades que podem inspirar o candidato a empreendedor.

Sobre não ter “fórmula pronta”, entenda-se: não siga a receita dos outros. No caso do Instagram, isso deu errado. De início, o americano Kevin Systrom apresentou a Mike uma ideia bem diferente, o Burbn (de bourbon, um tipo de uísque; bebida preferida de Kevin). O Burbn seguia uma fórmula típica da época: um app de geolocalização similar ao Foursquare (aquele em que se dá check in onde se está) com elementos extras de redes sociais, como o compartilhamento de status e imagens (bem parecido com o Twitter).

Além de ser uma imitação, o Burbn era confuso e mal estruturado, como o próprio Mike, mais entendido em engenharia de software que seu sócio, logo pontuou. Assim, o app afastava usuários, que não viam motivo para ingressar na rede social, sobretudo os que não eram do círculo social dos fundadores. Por isso o projeto estava fadado a desaparecer, conforme a grande maioria das startups.

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Os fundadores do Instagram, o brasileiro Michel (Mike) Krieger e o americano Kevin Systrom: deram certo por acreditar em uma ideia (mesmo quando muitos não achavam que ia dar certo)

Foi preciso então um pivot. No jargão local, pivot (manobra de dança em que o dançarino realiza um giro em torno do próprio eixo) representa uma mudança brusca nos rumos da empresa. No caso do Burbn, o pivot foi mais que uma mudança de planos, já que o app passou a refletir as ideias e as paixões de seus criadores.

Números indicavam que os parcos cadastrados na rede social acessavam o programa basicamente para compartilhar fotos. O mais importante, contudo, é que a dupla percebeu que o que era mais legal era fazer um aplicativo limpo, no estilo do design e da engenharia do brasileiro, focado em realizar apenas uma coisa (tirar e compartilhar fotos, passatempo de Kevin desde a infância) em um dispositivo, o smartphone, no iPhone, o aparelho que mais chamava a atenção dos empreendedores do Vale na época.

Em suma: o que torna uma startup uma criação de bilhões de dólares é a mescla das paixões dos fundadores. Steve Jobs e Steve Wozniak conceberam a Apple nos anos 70 não para ficar milionários do dia para a noite (o que aconteceu), mas, sim, por estarem fixados em uma visão: a de que os computadores pessoais, de mesa, tomariam a vida das pessoas. Tim Berners-Lee desenhou o World Wide Web, o www (ou “a internet tal qual conhecemos”), não para correr atrás de riqueza (o que não conseguiu, já que abriu mão da patente em prol da popularização gratuita ), mas, sim, para conectar todos os colegas cientistas do planeta e, depois, cada indivíduo da Terra em uma única rede.

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Allen e Gates, criadores da Microsoft, em 1981 e 2013: há similaridades entre as duplas de fundadores das grandes empresas da indústria digital?

Foi da persistência de Kevin e Mike na concretização de uma ideia que o Instagram surgiu e deu certo. E esse é um elemento que qualquer um que queira fazer algo novo precisa exibir, seja um empreendedor ou um artista. Acreditar que vale a pena — essa é a gana necessária a qualquer um que deseja ir atrás de seu bilhão de dólares. Em seguida, tem-se de procurar pelos profissionais certos, capazes de criar o que se idealiza.

Kevin, por exemplo, foi compelido por investidores a arranjar um parceiro capaz de desenhar o app, algo que ele não fazia com eficiência. Isso o levou ao brasileiro Mike. E juntos eles formaram a clássica dupla do Vale. Kevin é até hoje visto como “metido”, “irascível”, “bom de lábia”, com “ótimas ideias”, mas “péssimo executor”, assim como Jobs, na Apple, ou Bill Gates, na Microsoft.  Mike é o “trabalhador”, “tímido, avesso a holofotes”, “melhor em criação”, tal como Wozniak na Apple ou, em certa medida, Paul Allen na Microsoft.

Sim, os adjetivos são exagerados e estereotipados. Mas a imagem criada para o público trata-se de uma mescla de perfis típicos do Vale que costuma dar certo justamente por corresponderem às habilidades esperadas dos empreendedores na região. Entre elas, é preciso saber como arranjar dinheiro e clientes e como lidar com os embrulhos do mundo burocrático. Fora isso, é investir tempo, ou melhor, a vida, no projeto. Essa é a lógica que dá certo no maior polo de inovação do planeta, o Vale do Silício californiano. Porém, como se costuma dizer na região, “o dinheiro vem apenas como consequência”. E muitas vezes não vem. É duro? Sim, mais do que imaginam os olhares distantes.

testeTrês anos de cerco ao Instagram

 

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Uma série de coincidências despertou meu interesse pela história do Instagram, a rede social agora mundialmente famosa. Sim, Michel Krieger, um de seus fundadores, é brasileiro. O fato, por si só, já chamaria a atenção de qualquer jornalista conterrâneo. Mas houve outros acasos.

A startup de Michel começou a testar o Burbn, o confuso app que antecedeu o Instagram, no mesmo ano em que iniciei minha carreira no mundo digital: 2010. Desde pequeno me interesso por ciência e tecnologia e sou aficionado por revistas como Superinteressante e National Geographic. Comecei a sonhar ser jornalista com uns 10 anos de idade, inspirado por personagens como Homem-Aranha, Superman e Spider Jerusalem. Via-me na redação de uma National ou de uma Wired. Assim, enquanto Michel Krieger virava Mike nos Estados Unidos, formava-se em Stanford e corria atrás do sonho de fundar uma startup, do outro lado do continente americano eu perseguia o desejo de testemunhar, como jornalista, descobertas científicas impressionantes, inovações e, em especial, a ascensão do mundo digital.

Em 6 de outubro de 2010, Mike e seu sócio americano, Kevin Systrom, lançavam o Instagram. No mesmo dia, eu completei 25 anos. Na época, batalhava para me firmar na editoria Ciência e Tecnologia da revista de maior circulação do país. Lutávamos por nossas aspirações, embora do meu lado as ambições fossem bem mais modestas — ao menos não envolviam cifras milionárias.

Working late into the night to make Instagram even better. All we require: little heaters. It’s freezing in here!

Uma foto publicada por Kevin Systrom (@kevin) em

O brasileiro Michel e seu sócio, Kevin Systrom, no começo do Instagram

Passei a viajar com constância para o Vale do Silício, na Califórnia, a fim de visitar empresas como Google, Twitter e Facebook. À época, boa parcela de minhas fontes na região mencionava Michel como o brasileiro que se destacava no universo das redes sociais. Já me sentia atraído por sua trajetória, mas aguardei um pouco, uma vez que os comentários davam conta de que talvez o Instagram fosse apenas “modinha passageira”. Aos poucos, porém, constatei que a startup se tornava cada vez mais sólida. Em um ano de existência, eram 12 milhões de usuários. Esse sucesso meteórico culminaria na Páscoa de 2012, momento em que mais uma coincidência me aproximaria dessa saga.

Durante três meses me dediquei a uma reportagem sobre jovens brasileiros que despontavam na indústria digital. Assim, fui incumbido de conversar com o fundador do Instagram. Discreto quanto à vida pessoal, Mike me deu alguns dribles antes de, finalmente, me conceder uma entrevista graças à intervenção de um amigo comum. Tivemos quatro longas conversas. Para minha matéria, eu precisava de poucas informações, apenas algumas linhas sobre a aventura que o havia levado de São Paulo a São Francisco. A história, porém, era tão inusitada que me senti compelido a saber mais. Em um período de sete dias, Mike lançara o Instagram para o Android (o sistema operacional do Google, concorrente de iPhones e iPads), negara ofertas tentadoras de aquisição vindas do Twitter e do Facebook, captara mais 50 milhões de dólares em investimentos. E ainda se preparava para a visita da irmã, vinda de Nova York, com quem passaria a Semana Santa — feriado que Mike esperava fosse que “tranquilo”, conforme me confidenciou. Mas não foi bem assim. Minha suada reportagem foi publicada um dia antes de me avisarem, em pleno domingo de Páscoa, que o Instagram havia sido vendido, repentinamente, por 1 bilhão de dólares ao Facebook. Talvez tenha sido a maior coincidência de todas. A impressionante negociação entre Kevin Systrom, CEO da empresa, e Mark Zuckerberg, mandachuva do Facebook, dobrou o valor do Instagram. Poucos dias antes, Mike acreditava – e parecia sincero – que a startup talvez nem valesse “os 500 milhões de dólares que tanto falam por aí”. Verdade, não vali 500 milhões de dólares. Valia o dobro. Na semana seguinte, procurei Mike. Ele alegou estar preso a um contrato de confidencialidade e frustrou minha abordagem. Não desanimei. Em São Paulo, em visitas à escola que ele frequentou, ou em São Francisco, onde ele morava, eu fazia perguntas sobre Mike a todos que tinham ou haviam tido contato com ele. Não sabia ainda o destino de minha apuração, mas não me preocupava com isso.

Uma foto publicada por Kevin Systrom (@kevin) em

Primeira foto publicada no Instagram

Em 2013, outra coincidência: a Intrínseca me sugeriu escrever um livro sobre a criação do Instagram. Para meu espanto, os editores se interessavam pela mesma história que despertava havia tempos minha atenção. Procurei por Mike. Ele tinha uma entrevista agendada comigo sobre as novas ferramentas que lançaria no app e eu aproveitei o papo para lhe apresentar o projeto. Mike foi conciso: “Sim, vamos falar mais, mande e-mails explicando.” Enviei várias mensagens, e nada. Sem esmorecer, prossegui com a apuração.

Fosse por medo de se expor (Mike mencionara a pessoas próximas que tinha receio de que sua família, no Brasil, fosse alvo de sequestro), pelo contrato de confidencialidade firmado com o Facebook (declarações erradas à imprensa poderiam lhe tirar ações da empresa), ou por razões que desconheço, o fundador do Instagram não respondia às minhas investidas. Ainda que ele tenha impedido algumas fontes de me conceder entrevistas, percebi que não se opunha formalmente ao trabalho. Fui em frente, sempre esperando que respondesse a, pelo menos, um dos meus e-mails, ainda que a resposta fosse negativa.

Após quase três anos de pesquisas e entrevistas, com viagens ao Vale do Silício e visitas (oficiais ou não) às várias sedes do Instagram, comecei a ficar preocupado. Finalmente, obtive uma resposta, extraoficial. Um “não”. Pensei em desistir, mas voltei a me entusiasmar quando, dias depois, o empreendedor israelense Itay Adam aceitou conversar comigo sobre um conflito ocorrido entre ele e Mike, relatado em seu blog com o seguinte título: “Como Mike Krieger, fundador do Instagram, matou minha startup”.

Segundo Adam, Mike havia dado aval para o desenvolvimento de um app cuja existência só valia se coligada ao Instagram. O empreendedor conseguiu investimento, contratou equipe, abriu escritório. Quando tudo estava finalizado, porém, foi impedido de linkar o programa ao Instagram. Desesperado, escreveu diversas vezes a Mike cobrando explicações, sem resposta. “Tive de demitir funcionários, pais de família que passaram a enfrentar o desemprego, perdi dinheiro, sendo que o Mike poderia muito bem ter dado um retorno negativo logo de início”, lamenta Adam.

Decidi que não passaria pelo mesmo infortúnio. Ninguém mataria meu trabalho. Apurei mais, e melhor, fui fundo e escrevi O clique de 1 bilhão de dólares. Acredito que o fato de ser um texto “não autorizado” só o valoriza, pois isso permitiu que o resultado ficasse isento, com pontos de vista diversos.

link-externoLeia um trecho de O clique de 1 bilhão de dólares

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Michelle Obama recebe Mike na Sala Azul da Casa Branca