testeUma bailarina presa pelo regime soviético

Em Trilha sonora para o fim dos tempos, Anthony Marra apresenta personagens marcantes, cujas vidas se entrelaçam de maneira comovente e imprevisível. O livro é dividido em nove contos apresentados como faixas de uma fita cassete mostrando diferentes perspectivas de uma mesma história.

Eleito pela revista Granta  como um dos escritores norte-americanos mais promissores da década, o autor explora a beleza das relações humanas nas situações mais improváveis e mostra que os crimes do passado podem causar cicatrizes permanentes.  

Leia a história de Galina:

As netas

Kirovsk, 1937-2013

Melhor começar pelas avós. A avó de Galina era a estrela do campo de trabalhos forçados, enquanto as nossas eram seu público. As nossas tinham sido confeiteiras, datilógrafas, enfermeiras e operárias antes que a polícia secreta batesse a sua porta no meio da noite. Deve ser algum erro, pensaram elas, algum engano burocrático. Como poderia a jurisprudência soviética permanecer infalível, se falhasse em reconhecer a inocência? Algumas se aferravam à descrença enquanto se espremiam nos trens que atravessavam a estepe siberiana rumo ao leste, os nomes de prisioneiras anteriores assombrando em giz borrado as paredes internas dos vagões. Algumas ainda se mantinham descrentes enquanto eram empurradas à força a bordo de barcaças e transportadas para o norte em vapores que singravam o Ienissei. Mas, ao desembarcarem na tundra vitrificada, sua ilusão era consumida pelo brilho intenso do infindável sol de verão. Em cidades distantes, eram expurgadas de suas próprias histórias. Nas fotografias, passavam a ostentar máscaras de nanquim. Nunca as conhecemos, mas somos a prova de que existiram. Cem quilômetros ao norte do Círculo Ártico, elas construíram o nosso lar.

E pronto, já estamos falando de novo sobre nós mesmas. Vamos começar pela avó de Galina, primeira-bailarina do Kirov por cinco temporadas antes de ser presa por envolvimento com uma rede polonesa de sabotadores. Era uma farpa longa e magra de beleza cravada no insípido tom cinzento de qualquer rua movimentada da nossa cidade. Embora tenha percorrido os mesmos trilhos e rios que as nossas avós, seu destino não foi ir às minas. O diretor do campo de trabalhos forçados era um connaisseur de balé, além de ser um sociopata com olhos que brilhavam de malícia. Tinha visto a avó de Galina interpretar Raymonda em Leningrado dois anos antes e fora um dos primeiros espectadores a ficar de pé para ovacioná-la. Quando viu o nome dela na lista de prisioneiros, sorriu — ocorrência rara em sua linha de trabalho. Fez seu copinho de vodca tinir contra o de seu assistente e propôs um brinde:

— Ao poder da arte soviética, que de tão grande chega até o Ártico.

Durante seu primeiro ano no campo de trabalhos forçados, a avó de Galina foi tratada mais como hóspede que como prisioneira. Seu quarto privativo era austero mas limpo, com uma cama de solteira, uma cômoda para suas roupas, uma fornalha a lenha. Várias vezes por semana, o diretor do campo a convidava para um chá em seu escritório. Sentados em lados opostos de uma mesa abarrotada de fichas, papelada relativa a cotas, circulares e diretivas, conversavam sobre o método Vaganova, sobre o comprimento que devia ter o fêmur de uma primeira-bailarina, se Tchaikovsky tivera mesmo tanto medo de perder a cabeça enquanto regia que a segurara com a mão esquerda. Galina definia o diretor do campo como “um leal cidadão da República Popular da Estupidez” por sua insistência em afirmar que O lago dos cisnes continha o mais sofisticado dos pas de deux de Marius Petipa. Ninguém mais, além do sobrinho de seis anos do diretor, atrevia-se a falar com ele de maneira tão brusca, mas nem assim ele reduzia as rações da avó de Galina ou lhe metia nove gramas de chumbo na cabeça. Limitava-se a oferecer-lhe mais chá e sugeria que poderiam chegar a um consenso na semana seguinte, o que a fazia responder que “o consenso é o objetivo dos idiotas”. Não temos como não amar esta mulher, pelo menos um pouco. Assim como também não podia evitar o diretor do campo.

No ano seguinte, ele pediu a avó de Galina que criasse e ensaiasse uma pequena companhia de balé, e dançasse com ela para seu deleite pessoal e para levantar o moral do campo. O conjunto ensaiou três meses antes de estrear. Algumas integrantes tinham feito aulas de balé na infância, e o restante tinha alguma experiência com danças camponesas. Depois de muitas tardes longas, o diretor do campo e a avó de Galina optaram por uma apresentação resumida de O lago dos cisnes. A companhia ensaiou passos designados por um francês questionável até que todas ficassem com os pés tomados por bolhas. A memória muscular ia se reeducando à medida que a avó de Galina, valendo-se de intimidações verbais, forçava aquelas inimigas do povo a incorporar a elegância. Foi ficando cada vez menos claro se ela era uma interna, a captora ou as duas coisas. Depois que músculos distendidos ficaram mais firmes e os dedos inchados dos pés finalmente recuperaram sua forma, depois que a cortina se ergueu e um dos holofotes de vigilância do campo iluminou a extremidade oposta da cantina, ficou evidente para todos que o palco estava armado para algo extraordinário.

Nossas avós se acomodaram nos bancos da cantina que formavam a plateia, e a produção foi, como se pode imaginar, um fiasco. A orquestra mais próxima estava a 1.800km dali, de maneira que a música vinha do cone empoeirado de um gramofone, usado até então para guardar cebolas. A coreografia demandava dezenas de bailarinas; o conjunto formado tinha dez, quatro das quais usavam bigodes pintados a carvão para representar Siegfried, Von Rothbart e os vários lacaios, tutores e cavalheiros da corte.

O lago propriamente dito tinha uma população escassa de aves aquáticas; a piada que surgiria mais tarde é que os caçadores da NKVD tinham chegado antes. Houve erros e passos trocados, e em vários momentos a música avançava deixando as bailarinas perdidas em seu rastro. Mas então a avó de Galina, sozinha no palco, entrava deslizando sob um foco de luz. Os cabelos lavados e adornados de plumas, ombros brancos como o verão polar, pés calçados com sapatilhas de cetim verdadeiro. Na plateia, nossas avós estavam em silêncio. Algumas transportadas de volta às salas de concerto, a comemorações de aniversário e flûtes de champanhe de suas vidas passadas. Outras aproveitaram o alívio do momento para cochilar. Mas a maioria, desconfiamos, ficou atônita. Depois de turnos de quatorze horas de trabalho nas minas, inalando tal quantidade de níquel que as fazia espirrar um muco prateado, nenhuma delas podia esperar uma apresentação particular da primeira-bailarina do Kirov.

A despeito dos muitos contratempos, o diretor do campo ficou extasiado. Nos oito anos seguintes, patrocinou apresentações de balé nos solstícios de verão e de inverno; mas ele não tinha ascendido à atual posição que ocupava dando coisas de graça. Para um homem determinado a extrair máxima produtividade de suas prisioneiras antes que morressem, o balé acabou sendo uma forma muito eficaz de coerção. Os lugares na plateia — e, com eles, rações melhoradas — eram reservados àquelas que excedessem suas cotas de trabalho, as quais não paravam de aumentar. A avó de Galina contribuiu para reduzir em vários anos a expectativa de vida de seu público.

Tudo se acabou no nono ano. Restavam à avó de Galina menos de três meses a cumprir antes de sua data de soltura, e o diretor do campo estava apaixonado. Uma pessoa como ele poderia de fato amar outro ser humano? Com algum pesar, admitimos que sim, que era capaz de se iludir a ponto de crer que se tratava disso. Temos alguma experiência com esse tipo de homem, não com os demais burocratas envolvidos com assassinatos em massa, é claro, mas namorados alcoólatras, maridos violentos, desconhecidos que cultivam a percepção errônea de que seus avanços devem ser recebidos como uma lisonja. A avó de Galina era a única mulher num raio de milhares de quilômetros que não sentia cem por cento de repulsa ao ver o diretor do campo. Talvez ele tenha confundido a falta de um desprezo absoluto com paixão? Quaisquer que fossem os seus motivos, ele a convocou ao seu escritório 85 dias antes da data prevista para o fim da sua sentença. A porta da sala fechou-se atrás dela e do que aconteceu depois disso só sabemos graças a rumores espalhados pelos guardas. Houve uma declaração de amor seguida de um momento que ainda surpreende, tantas décadas mais tarde, em que a avó de Galina rejeitou a investida do diretor. A essa altura da história, nossa admiração um tanto murcha por ela torna a se inflar, e nos sentimos um pouco mal por tê-la acusado de colaboracionismo. Mas o diretor do campo estava desacostumado à rejeição. Os guardas ouviram o som abafado de uma luta, um grito, roupas se rasgando. Enquanto o restante do campo dormia, o diretor tornava-se avô de Galina.

Ou talvez eles tivessem dormido juntos aquele tempo todo. Quem somos nós para dizer?

Passaram-se anos. A morte de Stálin, seguida da denúncia dos seus crimes, levou ao fechamento da prisão. Os responsáveis pela administração do campo foram transferidos do Ministério do Interior para o Ministério da Siderurgia, sem sequer trocarem de sala. O níquel continuou a ser extraído da terra pelas mesmas pessoas. Nossas avós se casaram com mineiros, técnicos em fundição, até mesmo antigos guardas da prisão. Permaneceram ali por causa do lucro e por motivos de ordem prática: os salários pagos nas minas de níquel do Ártico estavam entre os mais altos do país e os antigos prisioneiros encontravam dificuldades para obter a licença para voltar a suas terras de origem. A avó de Galina foi uma delas. Criou sua filha e lecionava na escola os princípios básicos do comunismo. O diretor do campo foi rebaixado do cargo e substituído por um figurão do partido. Em seu leito de morte, em maio de 1968, a avó de Galina agarrou o braço da enfermeira de plantão e murmurou: “Estou vendo, estou vendo, estou vendo.” E morreu antes de poder contar à enfermeira exatamente o que via.

Mas a história dela é a das nossas avós. A história de Galina é a nossa.

Leia o conto inteiro aqui:

 

Saiba mais sobre o livro

testeSorteio Facebook – Lançamentos de Março [ENCERRADO]

Vamos sortear 3 exemplares dos nossos lançamentos de março! Para participar, compartilhe essa imagem em seu Facebook PUBLICAMENTE e preencha o formulário abaixo!

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testeLançamentos de março

Confira as sinopses dos lançamentos do mês. Qual vocês querem ler?

Ikigai: Os segredos dos japoneses para uma vida longa e feliz, de Héctor Garcia e Francesc Miralles

Qual é o seu propósito na vida? Por que existem pessoas que sabem o que querem, enquanto outras definham na confusão? Segundo os japoneses, o segredo é encontrar seu ikigai, conceito que pode ser traduzido como razão para viver. Ter um ikigai claro e definido proporciona a satisfação e o propósito que justificam nossa existência, sendo, para muitos, também a chave para uma vida mais longa.

Os autores foram até Okinawa, a ilha japonesa de população centenária, e reuniram os hábitos e rotinas que mantém em dia a saúde da mente, do corpo e do espírito daquele povo. [Saiba mais]

 

Com amor, Simon, de Becky Albertalli

 

 

Edição com nova capa e novo título da apaixonante história de Simon, que conquistou milhares de leitores ao tratar com naturalidade e bom humor a afirmação e os dilemas de um adolescente gay. Agora, a adaptação do romance chega às telas de cinema com Nick Robinson, de Jurassic World, no papel de Simon, e Katherine Langford, protagonista de 13 Reasons Why.

Simon Spier tem dezesseis anos e é gay, mas não conversa sobre isso com ninguém. Enquanto troca e-mails com um garoto misterioso que se identifica como Blue, Simon vai ter que enfrentar, além de suas dúvidas e inseguranças, uma chantagem inesperada.

 

Bruce Dickinson: Uma autobiografia, de Bruce Dickinson

 

Vocalista e líder do Iron Maiden há mais de 30 anos, Bruce Dickinson é um homem de muitos talentos. Muito mais do que um ícone do rock, ele é piloto e empreendedor da aviação, cervejeiro, palestrante, roteirista, escritor com dois livros publicados, apresentador de rádio, ator de TV e exímio esgrimista.

Conhecido por não falar da sua vida pessoal, ele compartilha as memórias desde a sua infância, eventos marcantes e até a recente batalha contra um câncer na garganta. A obra contém ainda fotos incríveis da carreira e da vida pessoal de Bruce.

 

O Homem de Giz, de C. J. Tudor

 

Os fãs de Stephen King e Stranger Things vão curtir o thriller que revisita toda a nostalgia dos anos 1980 em uma história sobre assassinato e sinais misteriosos!

Em 1986, Eddie e os amigos passam a maior parte dos dias andando de bicicleta pela vizinhança em busca de aventuras. Os desenhos a giz são seu código secreto: homenzinhos rabiscados no asfalto; mensagens que só eles entendem. Mas um desenho misterioso leva o grupo de crianças até um corpo desmembrado e espalhado em um bosque. Depois disso, nada mais é como antes.

Em 2016, Eddie se esforça para superar o passado, até que um dia ele e os amigos de infância recebem um mesmo aviso: o desenho de um homem de giz enforcado. Quando um dos amigos aparece morto, Eddie tem certeza de que precisa descobrir o que de fato aconteceu trinta anos atrás. [Leia um trecho]

 

Trilha sonora para o fim dos tempos, de Anthony Marra

 

Nesta coletânea de contos, Anthony Marra, aclamado pela imprensa internacional e eleito pela Granta como um dos mais promissores autores da década, reúne histórias que mostram a vida sob o impacto causado pelos regimes brutais que dominaram a Rússia — desde a Leningrado da década de 1930 até a São Petersburgo do século XXI.

Aclamado pela imprensa internacional e eleito pela Granta como um dos mais promissores autores da década, Marra é autor de Uma Constelação de Fenômenos Vitais.

 

Five Nights at Freddy’ (vol.2): Os distorcidos, de  Scott Cawthon e Kira Breed-Wrisley

Em Olhos prateados, primeiro volume da série Five Nights at Freddy’s, Charlie e seus amigos desvendam misteriosos assassinatos que aconteceram na pizzaria Freddy Fazbear’s, um lugar tomado por perigosos animatrônicos.

Em Os distorcidos, um ano se passou e Charlie continua assombrada por pesadelos. Para piorar, uma nova onda de assassinatos começa a acontecer e ela se pergunta: mas se todo o terror foi destruído junto com o que sobrou da pizzaria, o que estará por trás dessas mortes?

 

Segredos do Acampamento Meio-Sangue: O verdadeiro guia do acampamento para semideuses, de Rick Riordan

Neste livro extra da série As provações de Apolo, o leitor será guiado por Percy Jackson e outros residentes do acampamento para sentir na pele como é a vida de um semideus e conhecer curiosidades, segredos e a rotina do acampamento e seus chalés mágicos.

 O livro reúne diversas histórias de feitos heroicos de semideuses que moraram no acampamento ou apenas o visitaram de seguirem seu destino, além das palavras de sabedoria divina do deus Apolo e uma imperdível sessão de perguntas e respostas.