testePayasa e os protestos: como uma personagem fictícia me levou a conhecer Los Angeles

Por Ryan Gattis*

slide_421846_5402384_free

Eu não tinha me programado para escrever um livro sobre os protesto de 1992 em Los Angeles. Inclusive, se alguém me falasse que eu escreveria um livro com 17 narradores em primeira pessoa, todos surgindo ao longo dos seis dias de conflitos — de 29 de abril a 4 de maio —, eu teria ficado apavorado diante da enormidade da empreitada e talvez desistisse antes mesmo de começar.

Tudo começou com Payasa. A garota envolvida com gangues crescendo na cidade de Lynwood se revelou um fruto tão persistente de minha imaginação que eu não tinha como tirá-la da cabeça. Na minha experiência, não é comum uma personagem fictícia insistir em existir. É muito raro, e, quando acontece, sei que tenho que segui-la aonde quer que ela vá, ou posso perder aquela voz para sempre.

Talvez eu devesse explicar como ela surgiu.

Em 2011, eu estava trabalhando com a UGLAR (Unified Group of L.A. Residents, União de Residentes de Los Angeles, um grupo de artistas qualificados criando um painel da cidade de Los Angeles) em uma espécie de estágio. Tinha conhecido os integrantes alguns meses antes, e a química foi instantânea. Não demorou para me convidarem, um autor, a participar do grupo. Aceitei.

Todos concordamos que seria um experimento, mas, antes que pudéssemos pensar em como combinar as aptidões artísticas de cada um, eu precisava entender o que eles faziam. Então carreguei tinta para os murais, documentei muros e ajudei com a limpeza. Durante o processo, perambulei por áreas da cidade que nunca tinha visto e nem sequer sabia que existia, já que cresci no Colorado, bem longe dali: Lincoln Heights, Highland Park, Lynwood e muitas outras. E aprendi uma coisa: se podemos chamar Nova York de uma cidade fria e vertical, Los Angeles é quente e horizontal. É enorme e sempre parece prestes a entrar em erupção.

Ao visitar essas áreas, conheci o temperamento e a textura da cidade. Comecei a entender suas diversas culturas e sua população. Conversei com os sem-teto e os desempregados, mas as conversas que mais me atraíam eram com antigos membros de gangue, a maioria de descendência latina. Eles tinham uma visão da cidade diferente de tudo o que eu já tinha ouvido falar, e seu sotaque atiçou meu cérebro.

Eu tenho memória auditiva. Quando as pessoas falam, já visualizo como suas falas se traduziriam na escrita. Sou um “homem das palavras”, como diria Tom Waits. Sou fascinado por gírias. Mapeio estruturas de sentenças mentalmente, enquanto escuto. Visualizo o ritmo da fala e o padrão do discurso, de forma a poder dar vida às palavras no papel. Tijolo por tijolo, essas conversas inocentes sobre tudo, de tatuagens aos deliciosos tacos, foram construindo a fundação de Payasa. Quando entendi como eles falavam, entendi como ela falaria. E foi assim que ela ganhou forma e estilo.

Quando contei ao grupo de ex-membros que estava contemplando escrever sobre uma mulher numa gangue, eles se mostraram resistentes. Disseram que mulheres não se envolviam no cotidiano das gangues da forma que eu imaginava. Isso foi um golpe esmagador no meu processo criativo. Tentei desistir de Payasa em prol da autenticidade, mas ela não permitiu que eu a mandasse embora.

Quando eu estava no ponto de ônibus esperando pelo 720, ela começava a soltar comentários sobre o céu, sobre a pessoa parada ao meu lado ou sobre o que ela queria da vida. Tomei nota de tudo. Isso se estendeu durante dias. Quando vi que ela não ia embora, soube que devia alguma coisa para salvá-la. Tinha que bolar um enredo que desse a ela a liberdade não apenas de ser parte de uma gangue de Los Angeles, mas de criar o próprio destino.

looter-picks-rubble

Os protestos de 1992 eram o enredo.

Quando finalmente compreendi isso, sabia que precisava escrever a história dela. Veio aos bocados: dois, três ou até quatro capítulos por dia. A voz dela fluía, e fiz o possível para digitar tão rápido quanto podia ouvir. Em uma semana, tinha terminado.

Levei a história dela de volta para os camaradas com quem sempre conversava, certos de que eles pensariam que não teria como ela existir no mundo deles, 23 anos antes, e, quando terminei de contar os pontos principais, me preparei para o ataque. Em vez disso, ouvi: “Achei maneiro!” e, o melhor de todos os comentários: “Uau, cara, curti a mina.”

Descobri, aliviado, que isso não apenas a tornava real, mas também acabava com minha maior preocupação. Quando escrevo a respeito de algo distante de minha própria cultura, sinto a necessidade de provar às pessoas que me relatam as coisas que posso fazê-lo de forma honrada e respeitosa, que, não importa a dificuldade, vou me esforçar para escrever cada detalhe o mais verossímil possível. A aprovação deles significava que minha Payasa se encaixava bem no mundo que eles conheciam.

Naquela noite, fui embora orgulhoso, mas, quando cheguei em casa, entendi uma coisa importante:  o livro, seja lá o que fosse se tornar, não era mais só sobre Payasa.

LA_riots_rexfeatures

O livro tinha se tornado sobre os protestos, e havia uma responsabilidade imensa de não errar ao escrever sobre aquela época. Só havia uma solução: pesquisar. Assisti a cada documentário que encontrei. Mergulhei nos arquivos de microfilme do L.A. Times. Li todos os livros em que consegui botar as mãos, como Twilight: Los Angeles, 1992, de Anna Deveare Smith, e Fires & Furies, do Major General James Delk. Enquanto me envolvia com esses dois livros, descobri uma coisa muito interessante: muito se escreveu sobre os protestos, e em muitos meios diferentes, mas nunca na ficção — ou seja, nunca no meio que mais exploraria a natureza do evento e geraria empatia. Inclusive, os últimos capítulos de The Tattooed Soldier, de Héctor Tobar, são o único registro do universo da ficção de que me lembro agora, embora eu tenha certeza de que existem mais.

211319todosenvolvidosIsso tudo me deu coragem para escrever uma história mais ampla. Assisti várias vezes aos noticiários da época no YouTube, até encontrei algumas horas de filmagem sem edição que alguém tinha disponibilizado. E, o mais importante, sempre conversava com pessoas que conheciam a cidade melhor do que eu. Com elas, conseguia descobrir a sensação de estar em meio aos acontecimentos, o que mais as assustava a respeito dos protestos e o que elas mais queriam que acontecesse, na época. Com a generosidade delas, pude entender não apenas o estado psicológico da época, mas o estado psicológico de alguém que sobreviveu.

E, com toda essa pesquisa, os fatos foram surgindo. Fatos tão pesados que não apenas faziam pressão no meu coração, mas também me inspiravam a explorá-los através dos olhos de novos personagens. Descobri a existência dos Vikings — um grupo, que na época era secreto, dentro do Departamento de  Polícia de Los Angeles, proclamado por um juiz como uma “gangue neonazista defensora da supremacia branca”. Descobri que os médicos do SEAL da Marinha fizeram treinamento de combate junto ao Corpo de Bombeiros de Los Angeles devido à enorme quantidade de feridos na época. Descobri mais sobre Koreatown, onde imigrantes e nativos se uniram para defender suas propriedades e uns aos outros de um jeito que me lembrou Paul Revere. Descobri que os assassinatos que ocorreram em áreas afastadas dos protestos não foram considerados relacionados às revoltas, mesmo que talvez tenham acontecido por causa da falta de policiamento e de atendimento emergencial. Descobri sobre a existência dos necrotérios portáteis, veículos refrigerados usados para abrigar temporariamente os mortos. Descobri que mais de 3 mil armas foram roubadas durante os protestos e que, até hoje, apenas uma pequena parcela foi recuperada.

Ao longo dessa jornada, meus olhos se abriram para a história recente de Los Angeles, com sua profundidade e suas dificuldades, e acho que, ao menos em parte, descobri uma cidade escondida por baixo da que eu já conhecia. O que vi emergir da pesquisa que fiz foi uma cidade nova, que, ao mesmo tempo, explicava e obscurecia o presente, colorindo com tons de cinza coisas que antes pareciam preto e branco. E isso nunca teria acontecido sem a insistência de Payasa em existir no papel. Sem ela, não haveria livro.

Foi ela quem deu início a tudo.

*Ryan Gattis é autor de Todos envolvidos, fundador da organização sem fins lucrativos 1888, que tem como objetivo a preservação, a divulgação e a promoção da herança cultural e da literatura na Califórnia, e integrante do coletivo de arte de rua UGLARworks.

testeMergulhe no caos como se fosse 1992

Por Pablo Rebello*

A California Highway patrolman directs raffic around a shopping center engulfed in flames in Los Angeles, 30 April 1992. Riots broke out in Los Angeles, 29 April 1992, after a jury acquitted four police officers accused of beating a black youth, Rodney King, in 1991, hours after the verdict was announced. (Photo credit should read CARLOS SCHIEBECK/AFP/Getty Images)

A primeira vez que ouvi falar em Todos envolvidos foi numa conversa de bar com o pessoal do trabalho. Um amigo me recomendou a leitura, dizendo que o livro era a minha cara, seja lá o que isso quer dizer. Dei corda para saber um pouco mais sobre a trama. Ele me contou que a história se baseava em fatos reais, nas revoltas que tomaram as ruas de Los Angeles após a Justiça absolver três policiais que espancaram um taxista negro no início dos anos 1990, com foco nas gangues que se aproveitaram do caos para realizarem os próprios acertos de contas. Pedi mais uma cerveja ao garçom. O assunto parecia interessante.

Naturalmente, quis saber mais sobre o livro, então perguntei detalhes da história, momento em que meu amigo se embolou um pouco. Primeiro, por não querer me dar spoilers, o que acho muito justo. Aproveito para dizer que também não farei isso aqui. Afinal, não quero estragar a diversão de ninguém. Segundo, pelo livro não ter uma narrativa tradicional, mas podemos falar disso daqui a pouco. O que importa é que a conversa me deixou intrigado.

Eu me lembrava vagamente das revoltas de 1992 em Los Angeles. Na época, eu não passava de um pré-adolescente que ainda estava descobrindo o mundo e não compreendia bem a relevância daquelas notícias bombásticas. Tudo que eu via na televisão eram cenas de violência, lojas pegando fogo e nuvens de fumaça enormes. Podia ser um filme, se não estivesse passando no Jornal Nacional (ainda assistíamos a TV aberta naqueles tempos). Se fiquei preocupado foi só por ver o impacto que tais matérias provocavam em meus pais. Seja como for, as imagens ficaram gravadas na minha cabeça. Talvez até tenham influenciado, de forma subliminar, a minha decisão por cursar jornalismo, embora até eu admita que esteja forçando um pouco a barra nesse ponto.

1335481139943.cached

Menciono isso pelo fato de, quando estava na faculdade, ter flertado com a ideia de me tornar correspondente de guerra. Não lembro exatamente por quê. Pode ser que estivesse apenas atrás do lado com mais adrenalina da minha profissão. Acabou que o destino me levou a conhecer outra zona de guerra muito mais próxima da minha realidade: o jornalismo policial. Por anos, frequentei delegacias, cenas de crimes, subi morros, entrei em favelas, entrevistei policiais e bandidos, recebi uma dúzia de ameaças e conheci famílias devastadas pela violência urbana. Não sinto saudades de nada daquilo. Mas reconheço a importância que tais experiências tiveram na minha formação. E acabo me interessando por livros, filmes e séries que se aprofundam nesse universo criminal.

211319todosenvolvidosLogo, mesmo sem o título cair nas minhas mãos quando chegou ao departamento de comunicação, fui atrás para descobrir do que se tratava. E bastou ler o primeiro capítulo para perceber que devoraria o livro em bem pouco tempo. A narrativa de Ryan Gattis me pegou de jeito. Além de ser crua e visceral, tem um tom confessional, como se os personagens estivessem me contando seus segredos mais íntimos enquanto reagiam ao caos que se espalhou por Los Angeles. De repente, me vi embrenhado naquela realidade violenta e assustadora, compreendendo a revolta de uns e me indignando com o oportunismo de outros.

Também compreendi a dificuldade do meu amigo em me passar uma sinopse do livro. Não é fácil resumir uma experiência como a que Ryan Gattis oferece em Todos envolvidos. A história segue uma cronologia linear, no sentido de que cobre seis dias de revoltas e tumultos, mostrando tanto a instalação do caos como a sua inevitável extinção (e isso não é spoiler, antes que apontem o dedo para mim). Só que isso não é feito seguindo os passos de um protagonista específico ou por meio de histórias que apenas utilizam o mesmo cenário e momento para se desenvolverem. Isso é feito conectando todos os personagens, de modo que tenham o seu lugar ao sol e vejamos como cada um influencia a vida do outro. Dizer mais do que isso seria flertar com a zona de spoilers.

Demorei uns quatro dias para terminar a leitura porque decidi ler sem muita pressa, saboreando os detalhes e as conexões entre os capítulos. Quando virei a última página e fechei o livro, contemplei a capa mais uma vez, pensando em todos os pontos de vista que me foram apresentados naquela jornada por uma Los Angeles em pé de guerra, e fiz algo que não faço com frequência: suspirei. Eu sentiria falta daqueles personagens, de suas histórias, suas perdas e suas dores. Eu refletiria sobre as desigualdades sociais e econômicas que criam barreiras entre as pessoas não só em L.A., mas em qualquer cidade que já tive oportunidade de conhecer. Eu pensaria sobre o Brasil e tudo pelo que passamos nos últimos anos.

Eu me conectei com o livro. No fundo, acho que isso é tudo que importa. Por se basear num evento real, por não se apoiar em nenhum protagonista específico, por me colocar na pele de cada um dos seus 17 personagens principais, por tudo isso e muito mais, tiro meu chapéu para Ryan Gattis e sua prosa provocadora, imersiva e iluminada pelas chamas de coquetéis molotov jogados em vidraças de consciências desavisadas. Obrigado por me envolver nessa armadilha literária montada com tanto cuidado. E boa leitura para aqueles que se arriscarem por essas perigosas páginas.

Pablo Rebello é assistente de Comunicação na Intrínseca e escritor nas horas vagas. Participou das coletâneas Contos da Confraria (Ed. Bookmakers) e Dragões (Ed. Draco) e é autor do e-book Deserto dos desejos (disponível na Amazon).

testeA revolta que incendiou Los Angeles

A história real que inspirou Todos envolvidos faz 24 anos

infografico_TodosEnvolvidos

Há 24 anos a internet ainda não era o principal meio de comunicação entre as pessoas. As notícias demoravam mais para serem espalhadas e era impossível enviar vídeos por grupo de Whatsapp, mas as imagens registradas por um cinegrafista amador mostrando um taxista negro sendo espancado foram capazes de gerar uma série de revoltas em Los Angeles. No dia 29 de abril de 1992, um júri inocentou os três policiais acusados de usarem força excessiva para controlar Rodney King.

O caso rapidamente gerou uma série de revoltas na cidade. O vídeo de 80 segundos mostrava cada detalhe da ação dos policiais e revelava como Rodney tinha sido violentamente espancado em uma blitz. O taxista foi algemado, jogado no chão, teve o rosto esmurrado e apanhou severamente com cassetetes.

211319todosenvolvidosIndignada com tamanha impunidade, a população não se calou e foi às ruas. A decisão do júri deixou a cidade de Los Angeles, literalmente, em chamas. Foram seis dias ininterruptos de caos. Carros e ônibus foram incendiados, propriedades foram depredadas e gangues aproveitaram a confusão para acertar as contas com os rivais. A situação foi tão grave que a Guarda Nacional e o Exército foram acionados para tentar controlá-la.

O episódio ganhou as páginas dos jornais de vários lugares do mundo e serviu de inspiração para o romance Todos envolvidos. No livro, o autor Ryan Gattis cria 17 personagens verossímeis com perfis diferentes: imigrantes coreanos, traficantes, grafiteiro, enfermeiro, bombeiro, entre outros, narram a história de seus pontos de vista. Todos ligados direta ou indiretamente ao mundo das gangues em Los Angeles. No clima de filmes como Uma Noite de Crime, Cidade de Deus, Pulp Fiction e séries como The Wire, Todos envolvidos revela, de forma eletrizante, a complexidade dos crimes e como a cidade ficou destruída após a semana de revoltas.

Ouça a playlist inspirada no livro:

 

testeA outra revolta

Por Roberto Jannarelli*

6a00d8341bf8f353ef016765914ec3970b-800wi-710x417

No dia 29 de abril de 1992, três policiais de Los Angeles foram absolvidos em um polêmico julgamento no qual foram acusados de subjugar com violência um taxista negro chamado Rodney King. O júri não considerou o ato como abuso de força. Há provas claras. Hoje podemos encontrar o vídeo do espancamento com uma busca no Google. São imagens fortes, não recomendo a visualização. Mas na época parte do vídeo foi exibida na mídia, e, como resposta à absolvição, as pessoas foram à rua e a cidade implodiu em uma das mais violentas revoltas populares já vistas. Durante seis dias, Los Angeles ardeu em chamas. Literalmente.

Esta revolta é o cenário de Todos envolvidos, lançamento de ficção da Intrínseca do mês de março. O autor, Ryan Gattis, usou esta história como inspiração para falar não sobre esta, mas outra revolta. Ao pesquisar sobre o assunto, ele descobriu que gangues latinas da Califórnia aproveitaram o momento em que as atenções estariam voltadas para a luta do povo contra a força policial e que não haveria policiamento suficiente em todos os lugares ao mesmo tempo. Algumas áreas inevitavelmente ficariam sem nenhuma assistência, e isso era o contexto perfeito para uma série de acertos de contas entre os membros das gangues. Eles perceberam enfim que durante a revolta do caso Roney King não haveria lei em Los Angeles.

211319todosenvolvidosRyan Gattis analisou as estatísticas: 10.904 prisões, mais de 2.383 pessoas feridas, 11.113 incêndios, mais de 1 bilhão de dólares em danos a propriedades e sessenta mortes foram atribuídas às revoltas. Estudando mais a fundo, o autor descobriu que o número de mortes não levava em conta vários assassinatos ocorridos em regiões periféricas às dos conflitos. Ou seja, possivelmente os acertos de contas das gangues foram negligenciados pelo status quo (vamos guardar esse termo). Eles foram considerados “normais”, como se não fizessem parte de todo o contexto de ódio que tomava a cidade. Essa é a história de Todos envolvidos.

Ryan Gattis criou uma obra de ficção inspirada em acontecimentos reais. Este é um recurso na ficção que, curiosamente, anda ocupando bastante espaço na minha rotina de trabalho. Antes de Todos envolvidos eu havia trabalhado em O regresso , ficção inspirada na história de um caçador americano em 1822. Em geral, quando trabalho em livros desse tipo, a primeira coisa que faço é estudar um pouco o contexto histórico a que se refere.

Posso dizer que me senti mais próximo do livro de Gattis, já que, por mais que às vezes me sinta com 600 anos de idade, pouco sabia sobre as caçadas no oeste norte-americano no século 19. Me lembrar de 1992, quando tinha sete anos, foi bem mais fácil. Recordei, por exemplo, que 1992 foi o ano em que Bill Clinton foi eleito dono do mundo, quero dizer, presidente dos Estados Unidos, vencendo nas urnas George H. W. Bush, quem o meu exagero adolescente consideraria alguns anos mais tarde o pior presidente americano de todos os tempos. O jovem Roberto claramente não fazia ideia do que a família Bush ainda poderia fazer.

Aqui no Brasil, 1992 foi o ano do impeachment do presidente Fernando Collor, e o jovem Roberto com muita inocência achou que não viveria o suficiente para ouvir falar nessa palavra de novo (mas por favor não vamos entrar nesse assunto). O referido ano também tem uma lembrança muito particular para mim, pois foi nele que o astro de basquete Magic Johnson, um dos ídolos do jovem Roberto, disse ao mundo que tinha contraído o vírus HIV, o que por si só já poderia ser traumático para uma criança, mas o que veio a traumatizar de fato o garoto foi a conversa sobre o assunto que ele teve com a Dona Lúcia, sua mãe, que, coitada, teve de responder a muitas perguntas sobre como as pessoas pegavam essa doença. Posso dizer que nem todas as respostas resultaram em boas lembranças.

Mas vamos deixar minhas memórias de lado e nos concentrar no livro.

Depois de estudar um pouco sobre o mundo das gangues e a Califórnia em 1992, mergulhei de cabeça no livro. No caso deste, é conveniente mergulhar com colete à prova de balas, capacete de chumbo e qualquer outro tipo de proteção em que você acredite. Gattis descreve a guerrilha urbana de modo que o leitor se sinta nela. Ouvindo o estouro de bombas e o zunido de balas. É assustador e ao mesmo tempo incrível.

A pesquisa ajudou na construção da linguagem dos personagens, dando ao livro um estilo muito peculiar. O próprio original estrangeiro tem um glossário no final com muitas das gírias usadas pelos personagens para orientar o leitor em caso de dúvida. Então, o que fizemos na nossa edição foi adaptar o glossário para a nossa realidade. Traduzimos algumas dessas expressões, mas em outras optamos pelo termo em espanhol ou inglês para não perdermos a ambientação criada pelo autor. Algumas delas, como “original gangster”, eu já conhecia de filmes e séries, e também de uma música do Ice T. Mas, por mais que compreendesse a ideia, só pude entender o real sentido da expressão ao trabalhar no livro e lançar mão do glossário.

Outro ponto interessante são os personagens, que são muito fortes. Em outro texto de bastidores do blog da editora, a extraordinária Nina Lopes escreveu que quando trabalhamos com livros os personagens são muitas vezes nossos amigos mais próximos por um determinado tempo e também que somos muito exigentes quanto a isso. A Nina está certíssima e eu acho que nunca conseguiria dizer isso tão bem quanto ela.

No caso de Todos envolvidos, são 17 narradores contando a história, cada capítulo por um ponto de vista. E o autor entrelaça muito bem esses relatos, fazendo com que o narrador de um capítulo apareça despretensiosamente na história de outro. Uma mistura de Sin City e Pulp Fiction, com um clima meio Cidade de Deus.

STL1038RIOT_1147717k

Bem, é verdade que desses 17 amigos-narradores alguns acabaram me decepcionando quando, bem, dirigiram jogando coquetéis molotov pela janela e incendiando a cidade, ou quando armaram uma cilada para pegar o Ernesto, um cara legal que só queria viver sossegado e perseguir seu sonho, que era ser chef de cozinha. Pobre Ernesto. A irmã dele, Payasa, está envolvida no mundo das gangues e também é uma personagem fascinante. Ela é forte e carismática como as grandes personagens femininas da literatura. O bombeiro Anthony também se tornou um amigo, e, sem dar spoiler, posso dizer que torci para que ele e a enfermeira Gloria se entendessem. Gloria é muito sensível e passa uns maus bocados no hospital em que trabalha. Também levei comigo o brother Termite, um cara que ama música e fica o tempo inteiro com seu walkman tentando não ouvir os ruídos da guerra. Sobre isso, pensei duas coisas:

Primeiro, walkman — obrigado por essa lembrança Ryan Gattis. Segundo, quando o Termite opta por andar pela rua com os fones no ouvido, sua mixtape girando na bobina do walkman, eu penso que isso é uma bela representação do que nós fazemos na vida real. Metaforicamente, colocamos nosso fone para não ouvir e fingir que a guerrilha urbana não está acontecendo, não é verdade?

Não sei se o autor pensou nessa alegoria, mas arriscaria dizer que sim, porque construindo esse personagem ele mostra com maestria como uma pessoa que está inserida nesse sistema, que está envolvida, pode ter o ímpeto de ignorar a guerrilha, como nós fazemos, mas simplesmente não pode. Não existe essa opção. A guerrilha urbana não é uma linha traçada paralela à vida do Termite; ela é uma linha vermelha de sangue traçada sobre a vida dele.

Por causa desse personagem eu também criei minhas mixtapes em casa. Ouvi bastante Rage Against the Machine, banda que gosto tanto e tem tudo a ver com o clima de Todos envolvidos. Engajada, bruta, grave e com sotaque mexicano. Em outros momentos me dei conta de que estava com “Gangsta’s Paradise”, do rapper Coolio, na cabeça e morri de rir quando percebi que sabia boa parte da letra de cor.

Me lembrei de alguns rappers que fizeram sucesso na década de 90, como Ice T e Tupac (ou 2pac, até hoje não sei como esse cara assinava). Descobri que “April, 29th, 1992 (Miami)”, do Sublime, outra banda que já ouvi muito, é inspirada nas revoltas do caso Rodney King. E, apesar de a letra ser bem clara, eu não sabia até ler esse livro, e gostaria de agradecer ao Termite por isso.

Bem, retomando o que a Nina falou no texto dela, queria acrescentar uma coisa. Quando falamos em personagens dos livros, não falamos só de pessoas. Claro, pode ser um gato, um cachorro. Ou até mesmo um lugar, como em Todos envolvidos. A cidade em chamas é o principal personagem da história, mesmo caótica e totalmente subvertida. Lembra daquela expressão que pedi para guardarmos lá no início do texto? Status quo. A cidade em chamas é a força do povo contra esse status quo opressivo. E o livro de Ryan Gattis é uma incrível manifestação de como é bom quando a literatura também se realiza como essa força subversiva.

*Roberto Jannarelli é editor assistente de ficção e não ficção estrangeiras da Intrínseca, adora música e joga basquete nos finais de semana, mesmo que hoje em dia os finais de semana aconteçam de 365 em 365 dias.

testeLivros que não conseguimos parar de ler

IMG_5502

Existem alguns livros que nos fascinam tanto que é impossível parar de ler até chegarmos à última página. Seja pelo suspense que despertam, pela vontade de saber o que vai acontecer com os personagens ou por querer desvendar mistérios, algumas obras nos encantam e nos deixam vidrados de uma maneira única.

Selecionamos alguns títulos publicados pela Intrínseca que podem ser lidos de uma vez só:

Para quem curte terror psicológico:

Caixa de pássaros — Romance de estreia de Josh Malerman, Caixa de Pássaros é um thriller tenso e aterrorizante que explora a essência do medo. Cinco anos depois de um surto sem explicação ter começado, restaram poucos sobreviventes, entre eles Malorie e dois filhos pequenos. Ninguém sabe o que causa, mas basta uma olhadinha para fora para desencadear um impulso violento e incontrolável que acabará em suicídio. Malorie sonha em fugir para um local onde a família possa ficar em segurança, mas terá que enfrentar o medo de encarar o mundo fora da casa em que está trancada.

Para quem curte suspense:

Garota exemplarGillian Flynn cria um retrato cruel sobre como as mentiras podem construir um casamento. E também destruí-lo. O livro se alterna entre duas perspectivas opostas e conflitantes, estabelecendo uma atmosfera capaz de fazer o leitor mudar de opinião a cada capítulo. Na manhã do quinto aniversário de casamento, Amy desaparece da nova casa, às margens do rio Mississippi. Tudo indica se tratar de um sequestro, e Nick imediatamente chama a polícia, mas logo as suspeitas recaem sobre ele. Exibindo uma estranha calma e contando uma história bem diferente da relatada por Amy em seu diário, ele parece cada dia mais culpado, embora continue a alegar inocência. À medida que as revelações sobre o caso se desenrolam, porém, fica claro que a verdade não é o forte do casal.

Para quem curte ficção científica:

Aniquilação — No primeiro livro da trilogia Comando Sul, somos apresentados a um grupo de quatro mulheres enviado para a Área X, um lugar incompreensível e isolado do restante do mundo há décadas, onde a natureza tomou para si os últimos vestígios da presença humana. Elas fazem parte da décima segunda expedição, cujos objetivos são explorar o terreno desconhecido, tomar nota de todas as mudanças ambientais, monitorar as relações entre elas próprias e, acima de tudo, não serem contaminadas pela Área X.

Para quem gosta de histórias de amor e de desvendar a identidade dos personagens:

Simon vs. a agenda Homo Sapiens — Simon troca e-mails anônimos com Blue. Eles são dois garotos gays que só confiam um no outro para se abrir e discutir sobre suas identidades, desejos e medos mais íntimos. Durante a troca de mensagens os dois acabam se apaixonando. O livro discute também o que deve ser o padrão. Por que a heterossexualidade é o padrão?  Por que ser branco é o padrão? Simon discute todos esses estereótipos de um jeito muito fofo.

Para quem ama mistério:

S. — Projeto de J.J. Abrams, criador de Lost, S. está longe de ser um livro convencional. Com ao menos quatro histórias que se desdobram ao mesmo tempo, S. é um livro-jogo com várias possibilidades de leitura, que instiga o leitor a decifrar os mistérios, códigos e pistas contidos em toda a obra. Seja nas notas, nas margens ou nos outros itens da caixa, há sempre algo além do que se vê aguardando para ser descoberto.

Para quem gosta de livros com reviravoltas:

A verdade sobre o caso Harry Quebert — Marcus Goldman, um jovem escritor americano que está sofrendo com bloqueio criativo, procura o renomado romancista e seu ex-professor de faculdade Harry Quebert. Surpreendido por um mistério que envolve seu mentor na morte de uma jovem de quinze anos, Marcus precisa correr contra o tempo para tentar inocentar o amigo, descobrir quem matou Nola Kellergan e escrever um livro bem-sucedido.

Para quem gosta de histórias que envolvam crimes:

Todos envolvidos — A obra é inspirada na semana de protestos, assaltos e saques ocorrida em 1992, em Los Angeles, depois do julgamento que absolveu três policiais acusados de agir com violência contra um taxista negro. O livro narra como gangues latinas, imigrantes e traficantes se aproveitaram da situação para acertarem as contas com seus rivais.

Para quem curte thriller com espionagem e conspiração:

O nadador — Livro de estreia de Joakim Zander, O nadador é um thriller de suspense que percorre diversos pontos do planeta. O autor, que já viveu em diversos lugares do mundo como representante do Parlamento Europeu, utiliza sua experiência pessoal para tornar ainda mais rica a ambientação dos diversos países retratados no livro.

Para quem gosta de histórias com segredos:

Temporada de acidentes — Todo mês de outubro, inexplicavelmente, Cara e sua família se tornam vulneráveis a acidentes. Algumas vezes, são apenas cortes e arranhões — em outras, acontecem coisas horríveis. A temporada de acidentes faz parte da vida de Cara desde que ela se entende por gente. E esta promete ser uma das piores. No meio de tudo, ainda há segredos de família e verdades dolorosas, que Cara está prestes a descobrir. Neste outubro, ela vai se apaixonar perdidamente e mergulhar fundo na origem sombria da temporada de acidentes.

Para quem tem interesse em histórias com conflitos entre culturas:

O árabe do futuro Riad Sattouf, um consagrado quadrinista filho de mãe francesa e de pai sírio, conta o choque cultural que viveu quando, ainda criança, foi para a Síria e a Líbia. E também do retorno da família à França. Depois de viver em lugares tão diferentes, Riad se tornou um completo estrangeiro, com uma visão crítica, afiada e muito bem-humorada sobre o mundo. Um livro de memórias contado em quadrinhos.

testeLançamentos de março


EstanteIntrinsecaMar16_511x396

 

Tudo tem uma primeira vez, de Vitória Moraes (Viih Tube) — Como foi o seu primeiro beijo? E a primeira vez que teve coragem de dizer “eu te amo” para alguém? Ou que vacilou feio com uma amiga? Em Tudo tem uma primeira vez, Vitória Moraes, a Viih Tube, fala abertamente e com muito bom humor sobre os grandes (e primeiros) momentos da adolescência.

Viih tem posições firmes e um jeito só seu de contar histórias de meninos e meninas que estão conectados à internet 24 horas por dia e usam as redes sociais para tudo. Com suas palavras, faz um retrato divertido de quem é o adolescente da atualidade. [Leia +]

Todos envolvidos, de Ryan Gattis Na tarde de 29 de abril de 1992, um júri absolveu três policiais brancos do Departamento de Polícia de Los Angeles acusados de usarem força excessiva para controlar um civil negro chamado Rodney King. Menos de duas horas depois, a cidade explodiu em violência. Em seis dias, sessenta pessoas morreram. Mas muitas mortes não foram contabilizadas: fora da zona principal de protestos, algumas gangues se aproveitaram dos tumultos para acertar as próprias contas.

Inspirado nesse momento e narrado do ponto de vista de dezessete personagens, o romance de Ryan Gattis apaga as fronteiras entre vítimas e criminosos e transforma a história dos protestos em uma vívida e eletrizante obra de ficção. Uma narrativa ambiciosa e arrebatadora, um épico sobre crime e oportunismo, vingança e lealdade. [Leia +]

Temporada de acidentes, de Moïra Fowley-Doyle — Acontece todo ano, na mesma época. Todo mês de outubro, inexplicavelmente, Cara e sua família se tornam vulneráveis a acidentes. Algumas vezes, são apenas cortes e arranhões — em outras, acontecem coisas horríveis.  A temporada de acidentes faz parte da vida de Cara desde que ela se entende por gente. E esta promete ser uma das piores.

No meio de tudo, ainda há segredos de família e verdades dolorosas, que Cara está prestes a descobrir. Neste outubro, ela vai se apaixonar perdidamente e mergulhar fundo na origem sombria da temporada de acidentes. Por quê, afinal, sua família foi amaldiçoada? E por que eles não conseguem se livrar desse mal? [Leia +]

 

EstanteIntrinseca_Mar16_BLOG_Livros3D

Uma chance de lutar, de Elizabeth Warren — Um dos nomes mais relevantes na corrida presidencial dos Estados Unidos em 2016, a senadora Elizabeth Warren é um retrato perfeito da realização do sonho americano: filha de um zelador e uma telefonista, venceu as dificuldades da família e o lugar-comum da época de que o principal objetivo de toda mulher era conseguir um bom casamento. Ela tornou-se professora em Harvard, atuou como consultora do Congresso americano e assistente do presidente Barack Obama.

Neste relato, Elizabeth deixa transparecer a fibra que a fez chegar aonde está e expõe a abrangência de seus conceitos sobre o endividamento e o sistema financeiro, que extrapolam o cenário norte-americano. [Leia +]

Os irmãos Tapper declaram guerra (um contra o outro), de Geoff RodkeyOs gêmeos Claudia e Reese, de 12 anos, não poderiam ser mais diferentes, mas em uma coisa eles são realmente idênticos: a determinação em sair ganhando na terrível guerra travada entre os dois! No primeiro volume da série, tudo começa com uma polêmica no refeitório da escola, quando Claudia sofreu um ataque cruel e covarde do próprio irmão. Aos poucos, a guerra se acirra e, das ruas de Nova York, passa para o universo ficcional de um jogo on-line.

Com uma narrativa totalmente original, incluindo fotos, capturas de tela dos jogos, registros de chats e muitas mensagens trocadas pelo celular entre os pobres pais dos beligerantes, Os irmãos Tapper declaram guerra (um contra o outro) mostra, de forma autêntica e hilária, os conflitos entre dois irmãos adolescentes numa era saturada de recursos visuais e digitais. [Leia +]

EstanteIntrinseca_Mar16_BLOG_Livros3D2

O árabe do futuro 2: Uma juventude no Oriente médio (1984-1985), de Riad Sattouf — Segundo volume da trilogia que narra o choque cultural vivido por uma criança nascida na França que passou os primeiros anos de vida dividida entre a Líbia, a Bretanha e a Síria. Nessa sequência, o premiado quadrinista Riad Sattouf, ex-colaborador do jornal Charlie Hebdo e que participou da última edição da Flip, relata seu primeiro ano como aluno de uma escola síria, onde enfim aprendeu a ler e escrever em árabe enquanto enfrentava um ambiente rígido e violento.

Comparado aos aclamados Maus e PersépolisO árabe do futuro exibe uma visão reveladora sobre o conflito entre culturas que está definindo o século XXI. Com traço simples e narrativa fluida e divertida, Riad fornece ao mesmo tempo uma análise do embate entre o Ocidente e o mundo árabe e um autorretrato de uma infância tão plural e de cores tão fortes. [Leia +]

Aceitação, de Jeff VanderMeer —  É inverno na Área X, a misteriosa região selvagem que há trinta anos desafia explicações e repele pesquisadores de expedição após expedição, recusando-se a revelar seus segredos. Enquanto sua geografia impenetrável se expande, a agência responsável por investigar e supervisionar a área — o Comando Sul — entra em colapso. Uma última e desesperada equipe atravessa a fronteira, determinada a alcançar uma remota ilha que pode conter as respostas que eles tanto procuram.

Último livro da trilogia de ficção científica Comando Sul, Aceitação conecta os dois livros anteriores, Aniquilação e Autoridade, em capítulos breves e acelerados, narrados da perspectiva de personagens cruciais. Página após página, os mistérios são aos poucos solucionados, mas as consequências e as implicações dos acontecimentos passados jamais serão menos profundas ou aterrorizantes. [Leia +]

EstanteIntrinseca_Mar16_BLOG_Livros3D3

 

 

testeTodos envolvidos

Em abril de 1992, um júri absolveu três policiais brancos do Departamento de Polícia de Los Angeles acusados de usarem força excessiva para controlar um taxista negro chamado Rodney King. Havia provas irrefutáveis de que Rodney tinha sido severamente espancado. Poucas horas depois do julgamento, a cidade ardeu em chamas. A população se revoltou com um sistema que mais uma vez se mostrara injusto. O caos durou seis dias, e protestos, saques e assassinatos tomaram conta da cidade.

O episódio serviu de inspiração para Todos envolvidos, romance de Ryan Gattis que narra como gangues latinas se aproveitaram da situação para acertarem as contas com seus rivais. Uma narrativa verossímil e eletrizante com o ponto de vista de 17 personagens que direta ou indiretamente estão envolvidos com o mundo das gangues.

O livro chega às livrarias a partir de 15 de março.

Leia um trecho:

Ernesto Vera

29 de abril de 1992

20h14

CAPA_TodosEnvolvidos_300dpiEstou em Lynwood, South Central, perto do cruzamento da Atlantic com a Olanda, em uma festinha de aniversário de criança, embrulhando em papel-alumínio as bandejas com os feijões que ninguém comeu, então me dizem para ir para casa mais cedo e que talvez eu nem precise trabalhar amanhã. Talvez nem por uma semana. Meu chefe está preocupado que o que está acontecendo na 110 Street chegue aqui. Ele não fala de confusão nem revolta nem nada. Apenas fala “essa coisa mais ao norte”, mas está se referindo ao lugar onde as pessoas estão queimando coisas, quebrando vitrines e levando porrada. Penso em discutir com ele, porque preciso do dinheiro, mas isso não ia dar em nada, daí nem gasto minha saliva. Guardo os feijões na geladeira da van, pego meu casaco e vou embora.

Quando chegamos lá, no começo da tarde, eu e o Termite — um cara que trabalha comigo —vimos fumaça, quatro colunas pretas se erguendo igual às torres de petróleo pegando fogo no Kuwait. Talvez não tão grandes, mas grandes. O pai do aniversariante, já meio bêbado, viu que tínhamos reparado na fumaça enquanto arrumávamos as mesas, e disse que era porque os policiais que espancaram o Rodney King não iam ser presos, e o que é que nós achávamos disso? Cara, você sabe que a gente não achou legal, mas não vamos dizer isso para o cliente do nosso chefe! Além do mais, foi uma grande injustiça e tal, mas o que a gente tem a ver com isso? Estava estourando em outro lugar. Aqui, a gente só precisa calar a boca e fazer o serviço.

Estou trabalhando na van dos Tacos El Unico faz quase três anos. É só falar que eu faço. Al pastor. Asada. Tranquilo. Também rola um ótimo cabeza, se bater a vontade. Senão tem lengua, pollo, é você que manda. Tem para todo mundo, sabe como é. Geralmente estacionamos do lado do nosso quiosque na Atlantic com a Rosecrans, mas às vezes fazemos festas de aniversário, bodas, qualquer coisa, na verdade. Não recebemos por hora nesses eventos, por isso fico feliz quando acabam mais cedo. Dou tchau para o Termite, digo que da próxima vez é melhor ele lavar bem as mãos antes de aparecer e caio fora.

Andando depressa, são vinte minutos a pé para casa, quinze se eu pegar a Boardwalk, a rua de pedestres entre as casas. Não é um calçadão como em Atlantic City nem nada. É só uma viela estreita de concreto no meio das casas, que serve como ligação entre a avenida principal e o bairro. É o nosso atalho. Como diria minha irmã: “Desde sempre é o lugar onde os malucos correm da polícia.” Descendo, ela leva você direto para a Atlantic. Subindo, leva para as casas, rua após rua. É essa direção que eu pego. Subindo.

A maioria das varandas está com a luz apagada. Os quintais também. Ninguém do lado de fora. Nenhum dos ruídos de sempre. Nenhum rádio tocando velhos hits do Art Laboe. Ninguém consertando carros. Passando pelas casas, ouço apenas TVs ligadas, os âncoras falando de saques e incêndios e Rodney King e negros e revolta e eu acho tranquilo, tanto faz, porque estou concentrado em outra coisa.

Não me entenda mal. Não é que eu esteja sendo frio, estou apenas resolvendo o que precisa ser resolvido. Cresça no mesmo bairro que eu, com uma loja de armas que vende balas avulsas por vinte e cinco centavos para qualquer um que tiver uma ideia ruim na cabeça e uma moeda no bolso, e talvez você acabe como eu. Não abatido, nem irado nem nada, apenas concentrado. E nesse momento, estou contando os meses até conseguir cair fora.