testeQuem preciso ser para ganhar 1 bilhão com uma startup?

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Os geniais Steve Jobs e Steve Wozniak: criaram o padrão de empreendedores do Vale do Silício

Leitores de O clique de 1 bilhão de dólares, meu livro sobre a história da criação do Instagram pelo brasileiro Michel (Mike) Krieger, me mandaram mensagens perguntando: “Qual o segredo por trás desses empreendedores do Vale do Silício?” Como bem colocou um leitor em palestra que dei recentemente em São Paulo: “O que faz alguém ter uma ideia de 1 bilhão de dólares? E como posso ter uma?” Não há fórmula pronta. Mas existe uma série de similaridades que podem inspirar o candidato a empreendedor.

Sobre não ter “fórmula pronta”, entenda-se: não siga a receita dos outros. No caso do Instagram, isso deu errado. De início, o americano Kevin Systrom apresentou a Mike uma ideia bem diferente, o Burbn (de bourbon, um tipo de uísque; bebida preferida de Kevin). O Burbn seguia uma fórmula típica da época: um app de geolocalização similar ao Foursquare (aquele em que se dá check in onde se está) com elementos extras de redes sociais, como o compartilhamento de status e imagens (bem parecido com o Twitter).

Além de ser uma imitação, o Burbn era confuso e mal estruturado, como o próprio Mike, mais entendido em engenharia de software que seu sócio, logo pontuou. Assim, o app afastava usuários, que não viam motivo para ingressar na rede social, sobretudo os que não eram do círculo social dos fundadores. Por isso o projeto estava fadado a desaparecer, conforme a grande maioria das startups.

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Os fundadores do Instagram, o brasileiro Michel (Mike) Krieger e o americano Kevin Systrom: deram certo por acreditar em uma ideia (mesmo quando muitos não achavam que ia dar certo)

Foi preciso então um pivot. No jargão local, pivot (manobra de dança em que o dançarino realiza um giro em torno do próprio eixo) representa uma mudança brusca nos rumos da empresa. No caso do Burbn, o pivot foi mais que uma mudança de planos, já que o app passou a refletir as ideias e as paixões de seus criadores.

Números indicavam que os parcos cadastrados na rede social acessavam o programa basicamente para compartilhar fotos. O mais importante, contudo, é que a dupla percebeu que o que era mais legal era fazer um aplicativo limpo, no estilo do design e da engenharia do brasileiro, focado em realizar apenas uma coisa (tirar e compartilhar fotos, passatempo de Kevin desde a infância) em um dispositivo, o smartphone, no iPhone, o aparelho que mais chamava a atenção dos empreendedores do Vale na época.

Em suma: o que torna uma startup uma criação de bilhões de dólares é a mescla das paixões dos fundadores. Steve Jobs e Steve Wozniak conceberam a Apple nos anos 70 não para ficar milionários do dia para a noite (o que aconteceu), mas, sim, por estarem fixados em uma visão: a de que os computadores pessoais, de mesa, tomariam a vida das pessoas. Tim Berners-Lee desenhou o World Wide Web, o www (ou “a internet tal qual conhecemos”), não para correr atrás de riqueza (o que não conseguiu, já que abriu mão da patente em prol da popularização gratuita ), mas, sim, para conectar todos os colegas cientistas do planeta e, depois, cada indivíduo da Terra em uma única rede.

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Allen e Gates, criadores da Microsoft, em 1981 e 2013: há similaridades entre as duplas de fundadores das grandes empresas da indústria digital?

Foi da persistência de Kevin e Mike na concretização de uma ideia que o Instagram surgiu e deu certo. E esse é um elemento que qualquer um que queira fazer algo novo precisa exibir, seja um empreendedor ou um artista. Acreditar que vale a pena — essa é a gana necessária a qualquer um que deseja ir atrás de seu bilhão de dólares. Em seguida, tem-se de procurar pelos profissionais certos, capazes de criar o que se idealiza.

Kevin, por exemplo, foi compelido por investidores a arranjar um parceiro capaz de desenhar o app, algo que ele não fazia com eficiência. Isso o levou ao brasileiro Mike. E juntos eles formaram a clássica dupla do Vale. Kevin é até hoje visto como “metido”, “irascível”, “bom de lábia”, com “ótimas ideias”, mas “péssimo executor”, assim como Jobs, na Apple, ou Bill Gates, na Microsoft.  Mike é o “trabalhador”, “tímido, avesso a holofotes”, “melhor em criação”, tal como Wozniak na Apple ou, em certa medida, Paul Allen na Microsoft.

Sim, os adjetivos são exagerados e estereotipados. Mas a imagem criada para o público trata-se de uma mescla de perfis típicos do Vale que costuma dar certo justamente por corresponderem às habilidades esperadas dos empreendedores na região. Entre elas, é preciso saber como arranjar dinheiro e clientes e como lidar com os embrulhos do mundo burocrático. Fora isso, é investir tempo, ou melhor, a vida, no projeto. Essa é a lógica que dá certo no maior polo de inovação do planeta, o Vale do Silício californiano. Porém, como se costuma dizer na região, “o dinheiro vem apenas como consequência”. E muitas vezes não vem. É duro? Sim, mais do que imaginam os olhares distantes.

testeComo as redes sociais estão canibalizando a internet

E onde o Instagram se situa nesse novo mundo virtual

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Mark Zuckerberg, o poderoso do Facebook, que quer comer todo o tráfego de dados on-line com sua rede social

Sim, Instagram, Twitter e, sobretudo (e majoritariamente), Facebook estão consumindo a internet tal qual a conhecemos. E isso é perigosíssimo.

Hoje, um quarto de todo o tráfego da rede mundial, a www, é dominado pelo Facebook. Se somadas apenas as dez principais redes sociais, entre elas o Instagram, quase 40% dos dados criados ou que rondam pela web surgem dessas mídias. Em 2014, pela primeira vez, esses sites superaram as páginas de buscas, como o google.com, como principal meio de tráfego pela internet. Os números apontam que cada vez mais a experiência virtual tem se resumido — ao menos para a maioria dos mais de 3 bilhões de indivíduos on-line (quase metade da população global) — a acessar o Facebook e o Google. Com isso, vê-se uma derrocada da importância de outros sites, como as homepages de portais de notícias e os blogs, que compõem a concorrência.

O físico inglês Tim Berners-Lee, criador da World Wide Web (o www, ou, em resumo, a internet contemporânea), admitiu a ameaça que esse cenário pode representar ao desafiar a maior das redes sociais: “Não ouse fazer com que celulares só acessem o facebook.com.” A que ele se referia? Dotado de tamanho poder de controle do universo digital, o Facebook cogita hoje um plano nomeado como internet.org. Na cortina estabelecida pelo marketing, Mark Zuckerberg, o mandachuva da empresa, apresenta o projeto com a postura de bom-mocismo típica do ambiente do Vale do Silício — no qual todos os garotos candidatos a empreendedores, assim como os que já se consolidaram, imaginam que mudarão o mundo com cada app que lançam. Em seu discurso, o que a empresa quer com o projeto é oferecer acesso gratuito à rede para populações pobres. Na prática, o que se pretende é garantir o almoço grátis apenas para quem entra no Facebook. Ou seja, o público que se pretende atingir e alguns parceiros terão direito a entrar no Facebook. Para o resto, tem de pagar: pelo wi-fi ou pelo 3G/4G. Qual é o problema?

Imagine que é dada a oportunidade a uma família brasileira com renda mensal inferior a 800 reais de entrar no Facebook de graça… Só que para entrar em outros sites tem de pagar! O que pode ocorrer: as pessoas começam a entrar só no Facebook, a explorá-lo, sem ver o restante do mundo virtual, composto por 970 milhões de sites. É como se uma parte da população começasse a ver apenas um canal de TV. Melhor, a só poder ver esse canal, por não ter verba para bancar o restante da experiência. Esse poder do Facebook aumentou quando ele adquiriu, por 1 bilhão de dólares, o Instagram, em 2012. Por quê? Por, assim, estabelecer que gostaria de dominar o que as pessoas sabem do mundo — os posts — e também o que enxergam — as fotos e os vídeos do Instagram. Mais: com a compra, provou que tem força para adquirir qualquer candidato a concorrente que apareça no mercado e continuar a reinar absoluto entre as redes sociais por meio das quais nos comunicamos.

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Zuckerberg e a presidente Dilma Rousseff: tentativa de parceria para oferecer o Facebook (só ele) de graça para populações pobres

A ideia vai contra um conceito chamado “neutralidade da rede”, pelo qual, numa brevíssima simplificação, se estabelece que todos os endereços.com têm de competir de igual para igual: se a internet é rápida, os sites, de maneira equivalente, ficam velozes; se é lerda, ficam vagarosos; se está sem acesso, nada se vê. No Brasil, que tem uma legislação própria para garantir a “neutralidade” (o Marco Civil), o internet.org do Facebook seria ilegal. Por isso, até a tentativa de estabelecê-lo, em parceria com o governo federal, continua fadada ao fracasso. Ou assim se espera.

Fornecer apenas um ponto de vista (ou poucos pontos) aos que acessam a internet pode dar poder demasiado a uma empresa (ou a um pequeno conjunto delas). Explico. Se a internet começa a se resumir ao Facebook e a outras redes sociais e sites de buscas, essas companhias podem impor suas visões de mundo. Como? Atualmente, o Facebook conta com um algoritmo que organiza a timeline para que nela apareça o que a companhia julga como relevante para usuários. Esse algoritmo já foi manipulado, em várias situações, para realizar testes, muitas vezes sem o consentimento das cobaias. Num deles, o Facebook fez com que notícias mais alegres aparecessem para uns, enquanto as mais depressivas apareciam para outros. O que se queria provar? Que, ao ver posts “para cima”, pessoas ficam felizes; ao ver posts “para baixo”, caminham para a tristeza. Isso foi feito sem pedir licença. Ou seja, manipularam as emoções das pessoas sem que elas fossem avisadas. E se for feito o mesmo para influenciar alguém a votar em certo candidato à presidência, e não em outro? Ou a simpatizar com uma ideologia, e não com outra? Está aí o perigo.

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Para o físico DeGrasse Tyson, a internet dos anos 90 era um amontado de livros jogados no chão, sem ordem. Hoje, a rede é ordeira, mas dominada por poucos.

Numa conversa recente com o popular físico Neil deGrasse Tyson (que virou um famoso meme na rede; o da imagem acima), ele me disse: “A internet dos anos 1990 era como uma biblioteca com todo o conhecimento do mundo, onde os livros estavam jogados no chão e eram difíceis de serem encontrados.” Como é a de agora? Temos o Google e o Facebook para organizar esse caos. As vantagens são óbvias e celebradas. Então, destaco a maior desvantagem: o mundo virtual pode começar a se resumir ao que a primeira página de buscas do Google (raramente se passa para a segunda) e a timeline do Facebook mostram. Em efeito contínuo, diminui-se a diversidade de opiniões, de vontades, de ambições e da vida on-line. Em consequência, também do nosso mundo off-line.

David Baker, que foi redator-chefe da Wired UK — revista e site que é uma das principais referências mundiais na cobertura do universo tecnológico —, uma vez resumiu assim esse cenário, num almoço que tive com ele: “Isso pode transformar o planeta em um enorme Vale do Silício, uma Califórnia para todos.” Em outras palavras, às favas com a diversidade cultural! Europeus, asiáticos, brasileiros, que em pouco se assemelham à identidade do típico habitante do Vale — vinte e quatro horas por dia dedicado à profissão, em busca de criar startups bilionárias, avesso ao conceito de Estado —, começariam a se comportar e a falar como o povo da indústria digital. O mundo pertenceria ao Facebook, ao Instagram, ao Google… E paramos mais ou menos por aí. É o que queremos?

Nota: este tema, entre tantos outros, despertou interesse no público de uma palestra que dei ontem, dia 15, no auditório da sede da Editora Abril, em São Paulo, sobre o livro O clique de 1 bilhão de dólares. A conversa completa pode ser assistida aqui.

link-externoLeia também a coluna anterior de Filipe Vilicic: Três anos de cerco ao Instagram

Conheça O clique de 1 bilhão de dólares, livro de Filipe Vilicic