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testeFeminista antes do seu tempo: conheça Lee Miller, a primeira fotógrafa de guerra

 

Apesar de ter sido uma figura de vanguarda tanto no meio artístico quando na fotografia, Lee Miler viveu vários anos escondida nas sombras. Muitas de suas obras foram erroneamente creditadas a outros artistas, como Man Ray – o famoso surrealista –, com quem viveu um romance e colaborou por anos. Juntos, inclusive, eles inventaram a técnica fotográfica da solarização.

Apesar das injustiças, Lee fez história ao ser a primeira mulher correspondente de guerra para a revista Vogue. É de sua autoria uma enorme quantidade de fotografias icônicas da Segunda Guerra Mundial, com destaque para a foto em que posa na banheira de Hitler, momentos depois do Führer fugir de Munique.

Whitney Scharer © Sharona Jacobs

Inspirada por sua difícil trajetória – que ainda conversa com os desafios enfrentados por muitas mulheres –, Whitney Scharer percebeu que a história de Lee Miller deveria ser contada em um livro. Certo dia, a escritora foi visitar uma exposição e voltou com uma ideia. Bacharel em História da Arte e Fotografia, professora de escrita criativa em Massachusetts, onde vive com o marido e dois filhos, Scharer já teve contos publicados em revistas especializadas, como a New Flash Fiction Review e Bellevue Literary Review. Mas não imaginava que aquela manhã de 2011 no Peabody Essex Museum lhe daria a melhor das desculpas para pesquisar sobre Paris — além do contrato para a publicação de seu romance de estreia, Tempo de luz.

Confira a entrevista com Whitney Scharer, que revelou seu processo de criação e inspirações:

 

Intrínseca: Por que escrever sobre Lee Miller?

Whitney Scharer: Descobri Lee Miller em 2011, na exposição “Parceiros no Surrealismo”, com obras dela e do Man Ray, no Peabody Essex Museum, em Massachusetts. Conhecia bem o trabalho de Man Ray, mas nunca tinha ouvido falar de Lee Miller, e enquanto caminhava pela exposição fiquei cada vez mais surpresa e incomodada pelo fato de o nome dela não ser tão conhecido. Os dois descobriram juntos a solarização. As fotografias de moda dela estiveram nas páginas da Vogue ao lado de fotógrafos famosos como Cecil Beaton e Edward Steichen. Ela se reinventou como a primeira mulher correspondente durante a Segunda Guerra Mundial e presenciou a abertura de campos de concentração. Quando Hitler fugiu de Munique, ela foi ao apartamento dele e usou sua banheira em uma sessão de fotos.

 

I: O que mais a atraiu nas fotos de Lee?

WS: Suas fotografias eram estranhas e íntimas, e ela própria era fascinante — queria viver como um homem em um mundo de homens, sexual, emocional e artisticamente. Quando saí da exposição já estava fascinada. Acho que fui atraída por sua convicção, ambição, modernidade. Meu maior desejo era fazer justiça ao que ela foi: uma feminista antes do seu tempo.

 

I: Por que escolheu a ficção para contar sua história?

WS: Existem ótimos livros de não ficção sobre a Lee — particularmente, adoro a biografia escrita por Carolyn Burke, Lee Miller: A Life. Sempre fui autora de ficção, e minha força como escritora está no lado visual e imaginativo, então nunca me ocorreu fazer um livro de não ficção sobre ela. Eu sabia que imaginando faria um trabalho melhor do que se usasse apenas os fatos.

 

I: Como foi o processo de pesquisa?

WS: Antes de começar a escrever, passei dois anos lendo e reunindo o que pude. Depois abandonei tudo e escrevi. A ficção precisa de espaço para respirar: ficar muito colada na pesquisa pode enfraquecer uma história.

I: Paris é quase uma personagem do seu livro. O que você descobriu sobre a cidade naquela época?

WS: Ter um motivo para estudar Paris foi um presente. Parece inacreditável o quanto de arte e literatura se desenvolveu ali no período entreguerras. Adorei pesquisar sobre as casas de diferentes artistas. Uma das minhas favoritas foi um prédio chamado La Ruche, em Montparnasse. As pessoas o chamavam de “colmeia” porque era um edifício grande e circular, com pequenos ambientes. Foi construído originalmente para ser uma adega durante a Grande Exposição de 1900, e depois transformado em moradia de baixo custo para artistas. Lá viveram Marc Chagall, Modigliani, Brancusi e Diego Rivera. Consegui incluir a descrição do lugar no livro porque fiquei encantada por ele.

 

I: A relação profissional entre Lee Miller e Man Ray nem sempre foi justa. Como você relaciona os desafios dela aos de mulheres no meio artístico hoje em dia?

WS: Infelizmente as mulheres enfrentam hoje muitos dos mesmos desafios da década de 1930. Eventos recentes nos Estados Unidos me fizeram ter certeza disso, e acho que a ascensão de movimentos como o #metoo serviu para mostrar o quanto ainda precisamos caminhar até alcançar a igualdade. Acho que o livro ressoa hoje por esse motivo: vemos nossas próprias lutas nos esforços de Lee para construir sua carreira e sair da sombra de um homem.

 

I: E quais são as principais contradições da personagem?

WS: Um dos aspectos mais interessantes sobre Lee não é sua confiança, mas a fragilidade. Ela esteve na posição de musa por toda a vida: inicialmente do pai, para quem posou nua ao longo da infância e da vida adulta, depois para todos os fotógrafos da Vogue e, em seguida, em Paris, para Man Ray. Esses homens a objetificaram, provocando traumas. Eles dificultaram sua conexão com outras pessoas e a deixaram emocional e sexualmente mais fechada. Acredito que muitas das decisões de Lee podem ser atribuídas a esses traumas.

 

I: Qual foi a reação dos primeiros leitores às personagens do livro?

WS: Os leitores se identificam com Lee e entendem a complexidade de seu relacionamento com Man Ray. Também tem sido interessante ouvir a reação dos que passaram a conhecer figuras históricas como Kiki de Montparnasse e Claude Cahun. Adoraria que Cahun se tornasse mais conhecida. Ela era lésbica e preferia usar pronomes sem inflexão de gênero, foi presa por fazer resistência aos nazistas e seus autorretratos influenciaram fotógrafas como Francesca Woodman e Cindy Sherman. Ficaria feliz se meus leitores procurassem saber mais sobre essas mulheres.

testeTornar-se artista

Foto Letrux: Sillas Henrique

No romance Tempo de luz, Whitney Scharer ficcionaliza a história real de Lee Miller, uma das artistas mais interessantes da geração de modernistas que viveu em Paris nos anos 1930. O livro acompanha a trajetória de Lee desde quando era modelo da Vogue americana, passando pelo turbulento relacionamento com o artista surrealista Man Ray, até se tornar uma artista visual e fotógrafa.

A cantora e compositora Letícia Novaes – a Letrux – divide suas experiências em um texto pessoal e emocionante, inspirado no angustiante processo de transformação e entendimento do que é tornar-se artista pelo qual Lee Miller passa ao longo do livro. Confira:

Tornar-se artista

Por Letrux*

Foto: Antonio Brasiliano

“Letícia é maluquinha” era uma frase constante na infância. Só sabia ser daquele jeito e cedo entendi que ser espontânea significava ser uma “figura”. Com 13 anos já tinha um metro e oitenta, e ser figura se expandiu como minha altura. Percebendo isso, a professora de artes me convidou para fazer seu curso de teatro, fora do colégio. Me senti adulta. Uma figura adulta. Marina, minha única prima mais velha, minha musa (tão à frente de seu tempo que nem pertence mais a esse plano terrestre), me viu numa das peças que fizemos. Ao final, disse: “Você vai fazer isso pro resto da vida.” Não sabia que podia. Mãe professora de francês, pai bancário. Lá em casa nunca faltaram instrumentos musicais e festas. Domingo era dia de Bethânia no almoço, Raça Negra à tarde, Barry White à noite e talvez “Bolero” de Ravel antes de dormir. Mas ser artista era outra história.

Sou ansiosa, mas não tenho pressa. Arrisco uma explicação: tenho urgência de que a vida não seja em vão, mas não tenho pressa de que as coisas aconteçam. E aí entra toda uma formação espiritual e mística que devo a meu pai e principalmente a minha mãe. Eu contemplava artistas no cinema (pirava com Harry & Sally e Os Incompreendidos), na literatura (delirava com Pessoa, Drummond, mas já sentia arrepios que confirmavam que Ana Cristina Cesar e Sylvia Plath sacudiriam minha cabeça sem volta), no teatro (ficava maravilhada vendo Marieta Severo em A dona da história e achava que iria morrer com Mariana Lima fazendo Tchekhov em A gaivota). A arte já me emocionava muito mas nada d’eu dizer “é isso então”.

Sentia e escrevia muito, mas não sabia que aquilo era um embrião da artista que eu viria a ser. Minha mãe me dava diários e eu oscilava da Turma da Mônica para “Meu querido diário” em minutos. Essa prática de escrever todo dia foi muito importante. Não era pra ninguém (tinha até cadeado!), era pra mim mesma. Me entendo muito mais escrevendo do que falando, queria até fazer análise por escrito. “Uma figura.” Risos. Entrei na faculdade de Letras, mas achava que seria um clima Sociedade dos Poetas Mortos. Ledo engano. Percebendo minha tristeza, minha mãe me matriculou no teatro, sensível que só. Durante o teatro, inventei de pegar o violão e entender seu corpo e seu funcionamento. O mundo dos diários foi ganhando som e melodia. Simples, quatro acordes, rimas pobres, aquela coisa. Mas era uma maneira de sentir e de transformar. Dor, paixão, sono, tédio, graça, era todo o caldeirão de emoções que qualquer jovem sente, e eu ali, não me cabendo e sentindo aquela onda ancestral de abrir a boca e emitir som. Inventar letras com melodia, que terapia. Então pode? Não parei. Transformava tudo. Sentava com o violão e os diários e me resolvia. Montei banda, fiz showzinhos. Tomei gosto. Com 25, conheci Lucas, um profissional da música, enquanto eu era só uma especuladora de sensações. Nos apaixonamos e durante anos fizemos um bocado de canções lindas, com a banda Letuce. Geralmente eu chegava com as letras e ele me oferecia a música, mas era o famoso processo “não sei onde começa um e termina o outro”, tamanha a fusão. Foi uma fase muito rica de criatividade. Com pausas para lavar a louça, mas, sem dúvida, que fertilidade musical. Não é fácil viver e trabalhar com a pessoa amada. A fusão pode ser fatal. Em algum momento quisemos seguir sozinhos. Muitos risos e choros depois, estou prestes a completar 37 voltas ao sol, viajando o Brasil inteiro e me apresentando com meu primeiro disco “solo”: Letrux em Noite de Climão. Me emociona saber que minha emoção emociona as pessoas. Roda da fortuna curiosa, essa. “Obrigada por entender os símbolos e passar para a gente” é uma frase que os fãs me dizem. Acho que só sei ser artista assim: figura mesmo.

 

Letrux é a Letícia Novaes pós-Letuce. Atriz, escritora, cantora, compositora e instrumentista. Fênix Tijucana. Caçula e estabanada. @leticialetrux  

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