testeAs oito melhores cenas de despedida do cinema

Há pouco mais de um ano venho escrevendo uma coluna semanal aqui no blog da Intrínseca. Foram 45 textos com reflexões sobre vida, música, cinema e literatura. Adoro fazer isso; é um canal a mais para manter contato com os leitores e falar sobre coisas nas quais acredito. Mas precisarei dar um tempo, pois estou na fase final de escrita do novo romance e, além de o tempo ser curto, a necessidade de foco tem sido cada vez maior. Espero voltar em breve. Aproveito para adiantar que o novo livro está ficando intenso, com boas reviravoltas e surpresas. Uma trama até certo ponto diferente das que já escrevi e com elementos que eu nunca havia utilizado. Estou empolgado.

Ao longo do último ano, algumas colunas de listas que publiquei me deram grande prazer, pois permitiram revisitar o tema do Surpreendente!. Falar de cinema é sempre uma alegria. Então, inspirado pelo clima desta breve despedida da coluna, trago hoje minha lista das oito melhores cenas de despedida do cinema.

1) A morte de Marley, em Marley e eu

 

2) A despedida entre ET e Elliot, em ET – o extraterrestre, em que o primeiro diz “Vem” e o segundo diz “Fica”

 

3) O menino gritando para o pai boxeador, em O campeão. Lembro-me de ter saído completamente arrasado do cinema

 

4) Uma despedida sem palavras em As pontes de Madison

 

5) Aquele “Freedom!” matador, em Coração valente

 

6) Rose deixando Jack, para que o amor entre os dois fosse eterno como o navio no fundo do mar, em Titanic

 

7) “Você precisa vencer”, na despedida entre Rue e Katniss, em Jogos vorazes

 

8) O singelo adeus de Guido a Giosuè, com um leve piscar de olhos e uma doce palhaçada, em A vida é bela

testeO amor segundo Buenos Aires, segundo Maurício

foto_o amor segundo buenos aires

O desejo de ler O amor segundo Buenos Aires, de Fernando Scheller, foi despertado em mim justamente por a história se passar na capital argentina — uma parte pela paixão por seus detalhes, arquitetura, música, dança, livrarias e cafés, e outra pela curiosidade de sentir a textura impressa pelo autor para descrevê-la. Explico a segunda parte: meu novo livro tem um pouco da ação na mesma cidade. Coincidência feliz, pois cheguei até a sentir o “cheiro do lugar”, tal a riqueza da escrita do Fernando, naquele jeito fluido de contar histórias que todo mundo gosta.

Fui brindado por uma trama realmente cativante e que não me fez desgrudar até finalizá-la. São short cuts de uma série de personagens que vivenciam histórias de amor — amor de amante, de amigo, de família, pela música, pela dança, pela comida; amor correspondido, perdido, encontrado e reencontrado — em última instância, por viver e por Buenos Aires. Todas essas histórias tangenciam a vida de Hugo, o personagem principal de um enredo que tem tantos protagonistas bons que todos poderiam tranquilamente ser principais.

Terminei com um sorriso singelo, uma vontade absurda de comprar uma passagem a Buenos Aires. Assim fiz. Irei em breve revê-la, já que preciso pesquisar um pouco mais sobre o que estou escrevendo. Aproveitarei para passar em alguns locais descritos por Fernando. Quem sabe assistir a uma ópera no Colón, conhecer o Lumio Café y Delicias, a Confeitaria Ideal, a Livraria Caligari e tantos locais instigantes. Precisarei voltar mais vezes, certamente.

Destaque para a cena final, digna de filme. Tenho sempre a nítida impressão de que um livro é bom quando merece virar filme. E O amor segundo Buenos Aires daria um filmão.

Um livro para quem conhece Buenos Aires, para quem não conhece, mas tem vontade, para quem sonha viver uma boa história de amor nas esquinas de uma cidade super-romântica. Ou até para quem, como eu, esteja escrevendo um livro que tenha a cidade como cenário. Parafraseando Eduardo, um dos personagens: o livro é uma declaração de amor no meio da rua. É o que todo mundo, bem lá no fundo, sempre espera.

testeRecomeçar

Recomeçar é uma arte, tipo aqueles quadros que não entendemos direito, mas que não conseguimos parar de contemplar. A cada olhar, um novo traço, como se o pintor o tivesse colocado em tempo real, diante de nossos próprios olhos, tornando aquela uma nova história a ser admirada.

Recomeçamos todos os dias e nunca somos os mesmos do dia anterior, pois estamos mais vividos, rodados e calejados. Recomeço não existe sem, e rima com, tropeço. “Tropeçar de novo e contar comigo: vai valer a pena ter amanhecido”, cantaria Ivan Lins. Recomeçar é se dar a chance de tropeçar quantas vezes forem necessárias. “Existe um milagre em cada recomeço”, disse Herman Hesse. Roubo do mestre a ideia: existe um milagre em cada tropeço.

Recomeçamos projetos que eram para ontem ou anteontem. Ideias que chegaram espetaculares e inovadoras, mas que pararam na falta de um recurso natural chamado vontade. Recomeçamos, todos os anos, os planos para uma vida inteira. Esquecemo-nos de que a vida inteira do ano passado era maior do que a vida inteira que hoje nos resta. E o plano perde em relevância.

Recomeçamos a malhação, a dieta, o sonho, a reforma da casa, o estudo, a ajuda aos necessitados, a conversa que ficou no ar, a visita aos pais, o controle dos gastos, o telefonema não atendido, a viagem ao redor do mundo, o trabalho dos sonhos.

Recomeçamos histórias de amor, o maior de todos os desafios. Amar é recomeçar, reaprender e renovar. É tropeçar.

Recomeçar é uma arte. Ser um artista do recomeço, aquele pintor que coloca o traço diante da plateia: isso é viver.

testeOde à alegria

Esplanada murada - Maurício Gomyde

Esplanada murada – Foto por Maurício Gomyde

Não adianta fugir, não adianta fingir que não é comigo, menos ainda tentar tapar o sol com a peneira. Estamos na semana mais importante do Brasil desde o fim do período militar, e é impossível ficar indiferente a tudo o que está acontecendo. Para um escritor em temporada de escrita de livro, é mortal. Semana passada, falei aqui sobre como as redes sociais roubam nossa atenção. Pois a conjuntura política e social tem sido o capo da operação Ladrões de Tempo deflagrada. Para cada parágrafo escrito, dez sites de política acessados. Não sei quanto tempo vai durar, e espero que tudo seja resolvido logo, de um jeito ou de outro, da melhor maneira possível e sem convulsão social, para que voltemos a pensar em todas as outras coisas importantes que fazem parte da vida.

Moro em Brasília e, diariamente, vou para o trabalho pela Esplanada dos Ministérios. Puseram um muro ali, ao longo do enorme gramado. Dividiram-na, literal e ideologicamente, em “lado esquerdo” e “lado direito”. Os pró do lado esquerdo e os contra do lado direito. Ou vice-versa, dependendo do foco que dermos ao tema. Jamais imaginei que veria isso. Para mim, esse muro é uma vergonha, uma tristeza inenarrável. Como chegamos a esse ponto? Não adianta culparmos um ou outro. A culpa é nossa, é de todo mundo. A autocrítica deve ser feita o quanto antes. Olhando para aquele muro, eu me pergunto: “Tem como voltar atrás?” Infelizmente, vai ser difícil. Já houve a ruptura. Mas, ainda que haja para sempre uma cicatriz, o machucado há de ser curado. Temos o mesmo sangue, não nos esqueçamos.

Não estarei em Brasília no domingo, e sim em Belo Horizonte. Quis o destino que minha tarde de autógrafos na Bienal de Minas fosse exatamente durante a votação. Entenderei como uma dica para minha vida: há outras coisas que podem deixá-lo imensamente feliz. Ficar no meio dos leitores, respirar livros, trocar ideias sobre romances, dar risada, reencontrar amigos escritores. Somos muitos, todos empurrando para a frente a roda da vida. Porque é disto que se trata, em última instância: viver.

Somos brasileiros! Não combinamos com muros. Já temos que matar um leão por dia e, agora, derrubar um muro por dia? Tenho fé em que vamos superar as imensas dificuldades, não importa como nem com quem. Só o que desejo, hoje, é que daqui a um ano eu esteja lançando meu novo livro num contexto de paz, esperança e harmonia. E que tudo o que esteja acontecendo agora seja apenas parte de um profundo processo de transformação, principalmente interior.

Meu novo livro trata disto: felicidade genuína. Talvez todo esse período seja uma lição e me forneça elementos maravilhosos para incorporar à minha história. Escritores somos assim: tentamos captar as coisas no ar, e, quanto mais “ao vivo e agora”, melhor. No que depender de mim, esse livro será uma ode à alegria, assim como minha vida.

testeConectados anônimos

Ando apavorado com ladrões que invadiram minha vida. Quadrilha organizada, bem armada, treinada nas artes mais sórdidas da ilusão. Dotada de um arsenal ardiloso, de fazer inveja a qualquer gangue que já ousou cruzar meu caminho. Age nas sombras e rouba de forma sub-reptícia meus mais caros valores. Desde o instante em que abro os olhos, pela manhã, ela começa a agir, oprime e me deprime na cama por muito tempo. Medo, é o que tenho sentido.

Malditos ladrões de tempo!

Bandidos qualificados, nos becos escuros, como “redes sociais”. Patifes que têm se apropriado de conversas saudáveis durante cafés da manhã. Vigaristas que têm ocultado o prazer de dirigir olhando a paisagem. Meliantes que vêm bloqueando os outrora impagáveis momentos em família. Traficantes de ideias prontas e rasas, que oferecem seus produtos a incautos e não poupam nem sequer criancinhas inocentes e indefesas. O que será dessa geração de viciados, meu Deus?

A tática de oferecer o produto em doses cavalares, sem que tenhamos tempo para digerir a droga, ou vontade de trocá-la por algo não nocivo, é avassaladora. Um dia quase impensável sem usá-la, e então todo o carregamento já estará ali, novamente à mão, para que não precisemos passar por outras indesejáveis crises de abstinência. A prova de minha dependência: se esqueço o celular em casa, é delirium tremens na certa. Desculpas para voltar não faltam.

Para sair dessa, entretanto, não cabe recorrer a ninguém, senão a mim mesmo. Por isso, fiz uma adaptação do programa dos doze passos para todas as pessoas que, como eu, são conectados anônimos:

  1. Admito que sou impotente perante o WhatsApp.
  2. Acredito que um poder superior a mim vai me livrar do Facebook.
  3. Não vou entregar minha vontade aos cuidados do Messenger.
  4. Farei minucioso e destemido inventário dos livros na minha estante e vou ler todos que comprei e não li.
  5. Admitirei a natureza das minhas falhas e não mais navegarei por sites de notícia quando for hora de escrever uma história.
  6. Voltarei a entender que um filme no cinema é mais prazeroso do que no Netflix.
  7. Humildemente, postarei no Instagram fotos imperfeitas e sem tratamento.
  8. Farei uma relação de todas as pessoas que bloqueei nas redes e as encontrarei pessoalmente para um chope.
  9. Não perderei mais preciosos minutos bolando a frase de efeito demolidora em 140 caracteres no Twitter.
  10. Voltarei a escutar grandes músicas, deitado numa rede, sem precisar assistir ao clipe no YouTube ou procurar a letra no Vagalume.
  11. Por meio da meditação, não vou registrar cada passo meu no Snapchat.
  12. Após experimentar um despertar espiritual, graças a esses passos, procurarei transmitir essa mensagem aos conectados anônimos e praticar esses princípios em todas as minhas atividades.

Só por hoje.

testeOn the road books — para pegar a estrada sem sair de casa

Já fui estradeiro e viajei com minha banda para tudo quanto foi canto do país. Parávamos onde dava, comíamos o que tinha, dormíamos em repúblicas estudantis, em pulgueiros e, eventualmente, até dentro de nossos carros em postos de gasolina. Distâncias intermináveis, cachês duvidosos e equipamentos de som sofríveis sucumbiam ao prazer infinito de estar com os amigos em cima do palco.

O tempo, no entanto, é mestre em dilapidar sonhos do tipo sem lenço, sem documento. Aquela coisa “nem por você nem por ninguém eu me desfaço dos meus planos”, infelizmente, um dia cai por terra, quando a vida lhe cobra um pouco mais de responsabilidade. E, sem que nos demos conta, começamos a achar bom ficar “em casa, guardado por Deus, contando o vil metal”.

On the road - por Junior Aragão (1)

On the road – por Junior Aragão

A literatura me resgatou do limbo e me colocou de novo no jogo. Por longos e prazerosos anos venho pegando a estrada para participar de eventos literários. Distâncias intermináveis, cachês inexistentes e, eventualmente, pouco público também têm sucumbido ao prazer infinito de conversar olho a olho com meus leitores. Por sorte, as estradas têm sido bem mais aéreas do que terrestres. Ainda assim, não evito encarar quinze ou dezesseis horas de ônibus quando o tempo permite e a necessidade financeira exige. Desde a invenção da lanterna no celular, quinze horas num ônibus passaram a significar potenciais quinze horas de escrita, temperadas pela magia que só a estrada tem. Algumas de minhas frases preferidas foram concebidas nas madrugadas, rodando em BRs por aí. Frases que acabaram fazendo parte dos dois road books que escrevi.

Para celebrar as aventuras que certamente ainda virão, segue minha lista de road books que vão lhe deixar cheio de vontade de jogar tudo para o alto, entrar num veículo qualquer e sair sem rumo:

1- On the road, de Jack Kerouac — Sexo, drogas, bebidas e jazz. A viagem de Sal Paradise e Dean Moriarty pelos Estados Unidos é um dos meus livros favoritos. A escrita é como um caminhão rodando pela estrada, no estilo fluxo de consciência. Algo como “o que vim pensando fui escrevendo”. O manuscrito original, sem parágrafos, é de tirar o fôlego.

2- De moto pela América do Sul, diário de viagem de Che Guevara — Nem toda a viagem de Ernesto e Alberto Granado entre a Argentina e a Venezuela foi feita de moto, a chamada La Poderosa. De carona, obtendo a maioria da comida e da hospedagem de graça, o livro é um ótimo relato da transformação dos ideais de um homem.

3- Livre: a jornada de uma mulher em busca do recomeço, de Cheryl Strayed — Li esse livro depois de assistir ao ótimo filme. É o relato da autora sobre uma viagem a pé, de mais de 1.700 km, por uma trilha na costa pacífica dos Estados Unidos. O fato de ser uma história real, ou muito próxima da realidade, torna a leitura mais fascinante. O clássico tema da descoberta do sentido das coisas. Como diz a autora: “Este livro é sobre como suportar o que não podemos suportar.”

4- A máquina de contar histórias, de Maurício Gomyde — Escrevi esse livro como um mea culpa para o tanto que a literatura consome do precioso tempo ao lado das minhas filhas. Um escritor descobre, após a morte da esposa, que as duas filhas o consideram um completo estranho. É uma viagem de reconquista e, principalmente, descoberta de que a coisa mais importante da vida muitas vezes pode estar bem ao nosso lado.

5- Na natureza selvagem, de Jon Krakauer — Livro e filme belíssimos. É a história de Christopher McCandless, ou Alex Supertramp, um jovem que se forma numa prestigiosa faculdade, esfrega o diploma na cara da família, doa seu dinheiro para uma instituição de caridade e parte em direção ao nada para viver uma vida livre. Citações e a alma de grandes escritores como Tolstói, Jack London e Thoreau estão presentes o tempo todo. O fim é trágico, mas não menos belo e poderoso.

6- A garota de papel, de Guillaume Musso — O livro não é muito conhecido e não me lembro como chegou às minhas mãos. Achei a história muito boa e li de uma vez só. Sou suspeito, pois gosto de livros sobre escritores. O clichê da crise criativa abre espaço para uma abordagem fantasiosa e deliciosa, de uma personagem que pula das páginas para a vida real e implora que o escritor termine uma trilogia antes que ela desapareça. Tudo isso acontece na estrada, numa viagem pela costa da Califórnia e do México. É hilário e apaixonante

7- Mosquitolândia, de David Arnold — A viagem da pequena e determinada Mim Malone é cativante. As inúmeras referências pop, de Star Wars a Elvis Presley, enriquecem essa história de descoberta que traz temas fortes, como morte, suicídio e divórcio. Destaque para os personagens Walt e Beck.

8- Surpreendente!, de Maurício Gomyde — Quatro amigos saem pela estrada para fazer um filme antes de um deles ficar completamente cego. Obviamente, sou suspeito para falar sobre o tanto que me envolvi com tudo, sobretudo por conhecer a fundo os cenários onde a história acontece. Costurado pelos clichês do cinema, é meu road book

testeMas esse livro é sobre o quê, mesmo?

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Toda vez que escrevo um livro, a pergunta que mais me ocorre ao longo do processo, muitas vezes até quase o fim, é: “Mas esse livro é sobre o quê, mesmo?” Pode parecer absurdo, e talvez seja, considerando que o simples fato de estar envolvido pela história já deveria pressupor uma resposta “na lata”, como costuma dizer minha filha mais velha. Mas é provável que o leitor se faça a mesma pergunta, e acho importante eu ter plena ciência do que se trata aquilo. Dizem, inclusive, que, se o escritor conseguir responder em apenas uma palavra, tudo estará a bom caminho de ser perfeito.

Surpreendente! é sobre…?”. Minha resposta, na lata: amizade. Poderia ser cinema, mas descobri, ao longo do tempo, que cinema era apenas o pano de fundo. Se fosse somente sobre isso, seria mais eficiente tentar um tratado cheio de dados a respeito de algum aspecto da sétima arte — e adianto aqui minha incompetência para tal.

Em Surpreendente!, eu estava em crise com minhas amizades por culpa de uma ferramenta dos infernos criada supostamente para aproximar as pessoas, mas que tem sido pródiga em afastá-las: as redes sociais. Tentei, então, contar uma história de amizade que fosse além das redes. A amizade da estrada, do projeto conjunto, do sonho sonhado a oito mãos; do curtir com uma risada, não com um clique; do compartilhar a emoção com uma palavra, não com outro clique. Por fim, do comentário olho no olho, não escondido por detrás de uma tela de computador.

A resposta à questão sobre do que trata a nova história, entretanto, não terá a força de uma única palavra, mas de duas: felicidade e tristeza. Como diria Vinicius de Moraes, em seu belo “Samba da Benção”: “É melhor ser alegre que ser triste, a alegria é a melhor coisa que existe. A tristeza tem sempre uma esperança de um dia não ser mais triste, não.”

Nos dias atuais, ando tendo debates profundos — comigo mesmo e entre cada nascer do sol — sobre esta dicotomia felicidade-tristeza. Elas podem ser medidas? Quanto de razão é capaz de influir na certeza de eu dizer que sou feliz ou triste? O que pode me trazer momentos genuínos de felicidade? E de tristeza? São perguntas difíceis.

Acho que ontem vivi momentos felizes e hoje acordei de alma leve: recebi a notícia de um amigo que saiu do hospital depois de dias de luta; fui ao show do Iron Maiden, duas horas cravadas de energia e congregação entre milhares de pessoas que estavam ali só para celebrar a emoção de assistir ao vivo a alguém fazendo aquilo que fez parte de suas vidas; e, ao entrar em casa de madrugada, encontrei minha filha pequena dormindo de boca aberta, vestida com uma de minhas camisas.

Se, em meio a tantos bombardeios de tristeza que têm atingido os territórios que frequento, eu tiver a sorte de ser agraciado com pílulas de felicidade assim, não precisarei me fazer mais tantas vezes aquela pergunta do título. Se Deus quiser, tampouco os leitores.

testeO outro lado

Direita X Esquerda

Imagem: Mundo Estranho (fonte)

Você compartilha nos seus grupos de WhatsApp uma série de piadas, imagens e vídeos “políticos”, montados com o único intuito de denegrir “o outro lado”, sem se importar com o fato de que naquele grupo há pessoas que pensam diferente e podem ficar indomodadas. Em seguida, revolta-se quando alguém do mesmo grupo compartilha algo que vai contra suas convicções. Então, procura novos vídeos e posta. E recebe novas imagens e piadas, num ciclo infinito construído por ideias como “eu sei mais”, “seu pautado”, “ignorante”, “não é possível que alguém tão inteligente não enxergue o óbvio”. Ignora que aquele grupo havia sido criado pelo interesse mútuo pelo trabalho, pela faculdade, por um esporte ou para relembrar velhos amigos de escola.

Você transforma seu perfil no Facebook e sua conta no Twitter num verdadeiro tanque de guerra para atacar o outro lado, como se houvesse mesmo dois exércitos incomunicáveis. “Ou está do meu lado, ou está do outro.” E, com artilharia pesada, ajuda a disseminar a ideia de que não há meio-termo.

Você rotula o outro lado com uma cor e grita, em letras garrafais: “SEU VERDE!” O do outro lado retruca: “LARANJA!” A partir daí, indignado, você se ocupa em tentar provar que a cor laranja é mais digna do que a verde, sem se dar conta de que tanto o verde quanto o laranja têm amarelo. Certamente haverá coisas em comum entre suas opiniões, mas o objetivo não é tentar enxergar o que há de comum e pensar racionalmente no porquê das diferenças. O objetivo é demolir a opinião do outro lado. Pisar, esmagar, esfolar e ir embora com o peito estufado.

Você quer convencer o outro lado. Precisa convencer o outro lado. Tem necessidade de ser o último a dar opinião. Mas não prestou atenção na opinião que veio de lá. É incapaz de se imaginar no lugar do outro, para tentar enxergar o que ela enxerga. Ou, pelo menos, tentar compreender o porquê de ela enxergar daquele jeito. Ela pode até ter dito algo que lhe faria sentido, caso a ideia não tivesse parado num escudo que você criou ao seu redor. E então passa o dia ressentido, sem observar o mal que aquilo lhe faz. Sábio Shakespeare: “Guardar ressentimento é como tomar veneno e esperar que outra pessoa morra.”

O que você não percebeu ainda é que o outro lado é, no fim das contas, o mesmo lado que o seu. Mesmo mundo, mesmo país, muitas vezes a mesma cidade. Cada atitude acolá vai sempre refletir aqui, e vice-versa. Mais cedo ou mais tarde. Cada vez que compartilha, grita, esperneia, tenta convencer o outro lado, um grão de pólvora é colocado no barril, que tem sido enchido diariamente por você e pelo seu “inimigo” — vizinho, parente, colega de trabalho, aquele gente boa da turma do primeiro grau, o melhor amigo da faculdade. Mas você já bloqueou a maioria de seus novos inimigos, muitos de seus inimigos o bloquearam e você nem ficou sabendo. Pessoas com quem, agora, você não consegue sentar para tomar um chope sem pensar “esse aí é um corrupto, safado, burro, ladrão e mal-intencionado”.

Só que aquele barril de pólvora já está cheio até a tampa. Você e seu inimigo enfiaram o pavio. A caixa de fósforos vazia está na sua mão e o palito, na dele. Os dois estão se encarando e o próximo passo é acenderem juntos esse pavio. Porém, a explosão do barril não fará distinção entre um lado e outro. Os estilhaços atingirão você, seus amigos, seus familiares, seu filho. Provavelmente você vai passar a culpar integralmente o inimigo pelo estado a que as coisas chegaram, e vice-versa. Seu filho, para quem você é um espelho, vai repetir esse comportamento. Porque o filho do seu inimigo tem de ser também inimigo dele, claro!

É esse o mundo que você deseja para ele? Um mundo dividido entre dois lados que se odeiam? Saiba que é sua boa parte da culpa pela doença da intolerância e do ódio que assola sua vida e suas relações. Porque você não tem executado, diariamente, o filtro de Sócrates. Um segundo antes de compartilhar, comentar, curtir ou falar, você não tem se perguntado: “O que vou dizer é absolutamente VERDADE? Tenho plena certeza disso?”; “O que vou compartilhar é algo BOM? Não vou ferir ninguém?”; “O que vou comentar é algo ÚTIL e não apenas para arrotar minhas ‘verdades’?”

Recuo, ponderação e análises desprovidas do espírito de confronto são armas que muitas vezes desarmam o “inimigo”. Na verdade, você pode não estar percebendo, mas ele NÃO é seu inimigo. O que não significa que você não deva se expressar. É apenas o exercício diário da expressão gentil, tolerante, calma e parcimoniosa. Sair de seu próprio mundo para observar o mesmo fato por outro ângulo. Não retrucar antes de absorver. Ainda há tempo e dignidade em ser o primeiro a dar o passo para trás, pois, como bem disse o extraordinário Mahatma Gandhi: “Olho por olho, e o mundo acabará cego.”

testeAmy

Após a imersão no universo do cinema para escrever Surpreendente!, dei uma diminuída boa na quantidade de cinema que eu vinha tomando, bebendo e cheirando para me inspirar. Voltei ao normal, fiquei limpo, back to the books. Como bem disse Stephen King: para o escritor, o importante é o livro. Menos TV, menos internet, menos outras mídias, muito mais livros. A Netflix é minha maior ladra de tempo, e juro pela minha alma que não vou assistir a mais nenhuma série enquanto estiver escrevendo um livro. A última levou quase sessenta episódios. Sessenta horas, vezes quatrocentas palavras por hora, isso dá quase meio livro! E o tema da série não tinha nada a ver com nada — por que viciei foi um mistério.

Nessa onda, não consegui assistir a quase nenhum dos indicados ao Oscar 2016. Para não dizer que fui absolutamente ausente, dos que estavam no páreo eu tinha assistido a Divertida mente, What Happened, Miss Simone? e Amy — três filmes: ganhei de você, Glória Pires! De tal forma que demorei a entender a histeria pela importante questão que tomou conta das redes sociais semana passada: “Leonardo DiCaprio vai ganhar ou não?” Não tenho nada contra o Leo DiCaprio. Muito pelo contrário. Acho que ele deveria ter ganhado desde o Diamante de sangue. Passei a gostar dele ainda mais após assistir, no dia seguinte, ao breve discurso que proferiu com a estatueta finalmente em mãos — palmas efusivas. Para finalizar com o Leo, lerei primeiro o livro que inspirou o filme (O regresso, de Michael Punke) e depois partirei para a tela.

Estou aqui, no entanto, não para falar da justiça ou injustiça sobre o melhor ator, e sim sobre a felicidade pela vitória do já premiadíssimo e único filme para o qual eu estava torcendo: o documentário Amy. Quando conheci Amy Winehouse, a reação foi algo do tipo “pu**, ca*****, que voz é essa?”. O primeiro disco, Frank, saiu quando ela tinha recém-completado vinte anos. A voz de uma senhora gorda, negra e de bochechas rechonchudas não podia caber naquele fiapo de menina! Era como passar um camelo pelo buraco de uma agulha. Alguma coisa estava errada. Todo aquele jazz não era coisa de criança. Como ela se atrevia? Bom, o fato é que era a mais pura verdade e nem o fato de ter curtíssima discografia foi capaz de apagar seu imenso brilho como cantora. Tony Bennet, um de seus ídolos, comparou-a a Ella Fitzgerald e Billie Holiday.

O documentário é recheado de imagens caseiras, feitas com celulares e câmeras da própria cantora, das amigas, dos produtores, dos namorados. É possível sentir nas canções a mistura explosiva entre a inquietude artística de uma jovem cheia de opiniões fortes, compositora de mão cheia, e os inúmeros problemas com bebida, drogas pesadas, depressão e bulimia. Cenas lamentáveis de alguém que não conseguiu lidar com o estrondoso sucesso mundial tão cedo. Tristes imagens de uma jovem se autodestruindo. E o trecho mais perturbador do filme: o show em Belgrado, em que ela, completamente chapada, não consegue cantar diante da multidão. No fim das contas, previsível, não aguentou. Foi ser mais um membro do triste Clube dos 27, junto de Hendrix, Brian Jones, Janis Joplin, Kurt Cobain, Jim Morrison, Robert Johnson e outros.

Nas palavras do pianista Sam Beste, com quem ela tocou durante toda a carreira: “A música, para Amy, era como uma pessoa de quem ela precisava e por quem ela daria a vida.” Em dias de “Tá tranquilo, tá favorável”, recomendo fortemente a discografia da menina. De volta ao luto. É uma canção melhor do que a outra. E, ainda que com final triste e conhecido, o Oscar foi merecidíssimo.

testeEcos de uma pesquisa no sul do Brasil

O Nome da Rosa e Vinho - por Maurício Gomyde

O Nome da Rosa e Vinho – por Maurício Gomyde

Fiz, semana passada, uma viagem de pesquisa para o novo romance que estou escrevendo. Como um diário de bordo, levei o notebook para registrar sutilezas e impressões acerca das descobertas. Tinha mais de vinte perguntas anotadas e tentaria responder a todas, com observações e entrevistas, algumas agendadas. Quarta-feira era dia de mandar a coluna, e eu já tinha boas coisas anotadas sobre sons, imagens e cheiros da viagem. Mas, bendita e maldita tecnologia, fui traído por uma placa de memória fajuta, que resolveu parar de funcionar. Sou uma pessoa tecnológica, mas escrever e revisar um texto no celular está muito além da minha paciência e habilidade. E, ainda que eu tenha perdido os relatos iniciais e não tenha conseguido escrever a coluna, pensando bem, não foi de todo mal. Enquanto houver papel, caneta e minha memória ainda funcionar — chore, memória RAM: um a zero para mim —, nenhum fato ficará esquecido.

Estive na Serra Gaúcha, região de vinhedos. Na verdade, a história vai se passar num lugarejo fictício, minúsculo e isolado. Como um dos protagonistas é recluso, achei necessário ambientar a trama num local onde as possibilidades de interação fossem reduzidas. Saí de Brasília com boa parte da história pronta (acho que uns 70%), certo de que minhas pesquisas pela internet já haviam suprido muito das dúvidas que surgiram ao longo do caminho. Era uma questão apenas de confirmar o que eu já sabia.

Ledo engano.

A primeira pessoa que entrevistei, enóloga de uma das gigantes do setor de vinhos e espumantes, me disse: “Ainda bem que você veio, porque está cheio de bobagem na internet. Tem que ver para não errar.”

Como ouvi isso logo no primeiro dia, fiquei animado pela decisão de ter ido até lá. E ela tinha toda a razão: muito do que eu havia pesquisado não era exatamente como “na vida real”. Tentei ser o mais minucioso possível, daqueles que perguntam três vezes a mesma coisa só para ter certeza de ter entendido. Provei tanto espumante que devo ter extrapolado o nível mínimo de chatice em alguns momentos. O que se há de fazer? Se escolhi que meu personagem é dono de uma vinícola e se a pesquisa deve ir às entranhas do tema, um porre a mais ou a menos não fará grande diferença. Tratemos como brainstorming.

Ainda durante a viagem, acabei tomando um porre em homenagem à passagem de Umberto Eco para o plano superior, no dia 19, em jantar com um grupo num restaurante em frente a um vinhedo, daqueles saídos das páginas de um livro. Decidimos, ali, tomar uma garrafa para cada um dos sete romances dele. Do que me lembro, no Baudolino eu já estava chamando Jesus de Genésio e gritando no vale para ver se voltava algum eco. Vexame total.

Mais um dos grandes escritores que se vai, um dos últimos da safra do século XX. Como um bom vinho, sua escrita era refinada, com textura, aroma pronunciado e cheia de surpresas. Um teórico da comunicação de massa, das técnicas de escrita e dos que aplicavam com absoluta propriedade o hábito da pesquisa em seus livros. Lembrei-me, ali, da primeira experiência que tive com O nome da rosa, no fim dos anos 1980. Tenho um exemplar da primeira edição do livro, de 1983: as minuciosas descrições do monastério, na Itália medieval, onde aconteciam os crimes; as citações em latim, que eu pulava (ah, se houvesse internet nos anos 1980…); a argúcia de Guilherme de Baskerville para resolver os enigmas; a riqueza da descrição dos costumes, do linguajar e dos posicionamentos da Igreja; a envolvente e poderosa escrita, daquelas que a gente aprende algo novo a cada parágrafo…

Assim que cheguei de viagem, resgatei da minha estante o velho exemplar e comecei a reler. Obviamente, essa releitura foi completamente diferente da leitura daquele jovem que não sabia de nada — e que se tornou o adulto que sabe só um pouco mais. O sabor é outro; as percepções, também. A raiva que senti das longas descrições, à época, hoje saboreio com vontade e pedindo mais.

Pesquisando, vivendo e aprendendo… Um brinde a Eco. Tim-tim.