testeLeonardo, o mais humano dos gênios

Por João Carvalho*

Quando pensamos em Leonardo Da Vinci a primeira palavra que nos vêm à cabeça é gênio. Da Vinci era genial, isso é um fato posto. Afinal, estamos falando do cara que pintou a Mona Lisa e A Última Ceia. Um homem que cinco séculos atrás desenhou projetos de helicópteros e escafandros. Um sujeito que era a um só tempo tão versado em pintura e geologia quanto em anatomia e engenharia. Mas o que significa ser um gênio?

A palavra gênio tem sua origem no latim genius, que era o espírito guia ou deidade pessoal que acompanhava cada um de nós, quase uma versão pagã do anjo da guarda. Como aqueles que conseguiam atingir grandes feitos eram considerados possuidores de um grande genius, a palavra passou a significar também inspiração. Em sua acepção moderna o termo bebe de duas fontes latinas. Genius, que já explicamos, e ingenium, que, por sua vez, significa talento, capacidade natural, dom.

Ou seja, genial seria aquele que tem um enorme talento ou dom que se manifesta quase que metafisicamente através de uma dádiva recebida de um espírito guia, ou, após o surgimento da cristandade, de Deus. Assim, o gênio se torna um inspirado, alguém fora do convívio humano, um predestinado que já nasceu preparado para surpreender a todos com seu talento sobrenatural. Se essas são as qualidades de um gênio, ironicamente, Da Vinci foi tudo, menos isso.

A Última Ceia (Fonte)

Da Vinci era acima de tudo um polímata, um homem do Renascimento. Seus interesses eram tão diversos quanto difusos: óptica, perspectiva, anatomia, engenharia hidráulica, arquitetura, engenharia militar, pintura, música, teatro, geologia, botânica, enfim, pense em um ramo da ciência que alguém pode buscar conhecer e você achará alguma página dos inúmeros cadernos de Da Vinci contendo notas a respeito. Mas a genialidade de Da Vinci não era algo inato. Seu maior dom era sua curiosidade infindável e seu desejo de conhecer o ser humano em absolutamente todas as suas facetas.

Estudos de Adoração dos Magos por Leonardo da Vinci (1452-1519), drawing 436E recto.

Da Vinci tinha a curiosidade de uma criança, a obstinação em angariar conhecimento de um Hércules e o foco de um Husky Siberiano, não à toa ele é o “gênio das obras inacabadas”. Muitas de suas descobertas fantásticas tiveram que ser redescobertas após a sua morte porque ele não chegou a divulgá-las, devido ao afã de aprimorá-las, fossem as artísticas, fossem as científicas. E é no fascinante mundo mental do mais humano de todos os gênios que a biografia de Walter Isaacson nos convida a mergulhar.

Isaacson é um dos biógrafos mais renomados de nossa geração. Dele também temos o apanhado da vida de Steve Jobs, de Benjamin Franklin e de Albert Einstein. Talvez o que torne Isaacson um biógrafo tão espetacular seja sua capacidade de a um só tempo apresentar uma pesquisa científica digna de um doutorado em uma linguagem aberta e atraente como se fosse um livro de ficção. Além disso, faz algo que é raro entre os biógrafos: ele se aproxima mais do estilo de um narrador, quase de um jornalista e não de um apologista, e podemos ver o melhor da sua escrita na biografia de Leonardo.

Isaacson nos traz em um livro luxuosamente bem editado um mergulho no universo mental de Leonardo Da Vinci, a partir de uma pesquisa de anos na quase totalidade do corpus de suas obras e, principalmente, de seus escritos que sobreviveram até os nossos dias. Ao final, Isaacson consegue pintar um Da Vinci tão fascinante e misterioso quanto o sorriso da Mona Lisa.

É com enorme prazer que eu te convido a fazer essa jornada fantástica e conhecer mais a fundo um dos homens mais fascinantes que caminhou sobre essa Terra. A biografia de Leonardo é sobretudo um convite ao aprendizado, à observação e à curiosidade. Leonardo desperta em nós perguntas que fazíamos quando éramos crianças e nos convida a olhar o mundo de uma forma mais profunda e ao mesmo tempo mais singela.

Obviamente a grande maioria de nós não pintará uma nova Mona Lisa ou descobrirá a quadratura do círculo ao fim da leitura, mas, certamente, aquele que ler sua biografia perceberá que o mundo a nossa volta se tornou mais colorido, mais encantado e cheio de novas perguntas e descobertas a cada dia.

Quinhentos anos após a sua morte Leonardo continua vivo a cada vez que nos perguntamos acerca da natureza que nos cerca bem como tentamos entender a nossa própria natureza humana. Sua genialidade, forjada no molde da observação e da experimentação, nos convida a nos maravilharmos com o mundo e torna Leonardo o mais humano de todos os gênios.

 

* João Carvalho é podcaster pelo DecrépitosAnticast Revolushow. Formado em História e Letras Clássicas e mestre em História Social, trabalha no Ministério das Relações Exteriores desde 2009.

testePodcast #3 – Leonardo da Vinci, Steve Jobs e lançamentos simultâneos

 

Em nosso terceiro episódio, falamos sobre Leonardo da Vinci, focando menos na imagem quase lendária do artista e mais em seu lado humano. Abordamos o trabalho de produção de lançamentos simultâneos, falamos sobre os colaboradores, como o tradutor André Czarnobai, e conversamos um pouco sobre a carreira do autor Walter Isaacson, que também biografou Steve Jobs e Albert Einstein.

Sumário: 
02:29 – O Leonardo da Vinci além dos quadros: errático, distraído e extremamente curioso

07:30 – Walter Isaacson, o biógrafo de gênios, e quais as lições Steve Jobs, Albert Einstein e Leonardo da Vinci podem nos ensinar?

20:35 – Como é o processo de produção de um lançamento simultâneo?

25:30 – A futura cinebiografia de Leonardo da Vinci com Leonardo… DiCaprio

 

Assine o podcast!


Participantes:
Bruno Machado
Roberto Jannarelli
Ana Slade
 

Edição:
Manoel Magalhães

teste5 fatos sobre Leonardo da Vinci que você não sabia

Talentoso, gênio e mestre são algumas das palavras que costumamos utilizar para descrever Leonardo da Vinci. Mas o artista era muito mais do que isso. Separamos cinco fatos que você talvez não conheça sobre o pintor da Mona Lisa e de A Última Ceia:

1- Leonardo era filho ilegítimo, e por isso pôde explorar sua criatividade.

Ele foi fruto de um caso do tabelião Piero da Vinci com uma jovem de quem até pouco tempo se conhecia apenas o primeiro nome e cujo passado foi revelado com detalhes apenas neste ano. Ser filho bastardo, entretanto, acabou se provando algo positivo, já que ele não precisou seguir a carreira tradicional da família e pôde explorar e aprender mais sobre temas que lhe agradavam. 

2- Ele era bom em geometria, mas péssimo em aritmética.

Apesar de ter diversos talentos, Leonardo não era excelente em todas as ciências. Um exemplo eram os constantes deslizes na hora de fazer cálculos matemáticos. Não raro algum cálculo não era feito corretamente, inviabilizando o projeto no qual trabalhava. Apesar de não ser muito bom em álgebra nem em aritmética, tinha um talento natural para a geometria, que considerava uma forma de matemática mais aberta para a imaginação.

3- Mesmo após quase 500 anos da morte de Leonardo, seus registros se mantiveram preservados até hoje.

Walter Isaacson é um dos maiores biógrafos contemporâneos. Além de Leonardo da Vinci, o autor escreveu as premiadas biografias de Steve Jobs e Albert Einstein. Mesmo após cinco séculos, a quantidade inacreditável de registros, anotações e cadernos deixada por Leonardo foi preservada em coleções particulares, museus e bibliotecas. Isso mostra o poder do registro impresso, que se mantém por séculos, frente aos registros digitais, mais efêmeros.

Sketch a Flying Machine by Leonardo da Vinci, circa 1495. (Photo by: Universal History Archive/UIG via Getty Images)

4- Leonardo nunca cansava de aprimorar suas obras, mesmo isso gerando problemas com patronos.

Uma das obras de arte mais importantes do mundo, a Mona Lisa foi trabalhada por Leonardo por mais de dezesseis anos, entre 1503, quando a começou, até 1519, ano de sua morte. Incapaz de abandonar suas obras, Leonardo permaneceu aperfeiçoando-as até o dia de sua morte; razão para vários de seus quadros terem sido encontrados aos pés de sua cama e em seu ateliê, como é o caso da Mona Lisa, após seu falecimento.

5- Vai virar filme e será interpretado por Leonardo… DiCaprio.

Leonardo DiCaprio nasceu para interpretar Leonardo da Vinci. O nome do ator foi escolhido por sua mãe, que, quando grávida, em uma galeria de arte, viu uma pintura do gênio italiano e sentiu o primeiro chute do filho. Anos — e um Oscar — depois, o ator vai dar vida ao artista em uma cinebiografia inspirada no livro de Walter Isaacson, ainda sem previsão de estreia.

>> Leia um trecho de Leonardo da Vinci

testeBiografia inédita de Leonardo Da Vinci chegará às livrarias em outubro

A biografia definitiva do mestre Leonardo da Vinci, assinada pelo autor dos best-sellers Steve Jobs: A biografia e Einstein: sua vida, seu universo será lançada em 17 de outubro.

Com base em milhares de páginas dos impressionantes cadernos que Leonardo Da Vinci manteve ao longo de boa parte da vida e nas mais recentes descobertas sobre sua obra e trajetória, Walter Isaacson, biógrafo de algumas das mentes mais inovadoras e influentes de nossa história, como Einstein e Steve Jobs, tece uma narrativa que conecta arte e ciência, revelando momentos inéditos da história de Leonardo. Desfazendo-se da aura de super-humano muitas vezes atribuída ao artista, Isaacson mostra que a genialidade de Leonardo estava fundamentada em características bastante palpáveis, como a curiosidade, uma enorme capacidade de observação e uma imaginação tão fértil que flertava com a fantasia.

Leonardo criou duas das mais famosas obras de arte de todos os tempos, A Última Ceia e Mona Lisa, mas se considerava apenas um homem da ciência e da tecnologia — curiosamente, uma de suas maiores ambições era ser reconhecido como engenheiro militar. Com uma paixão que às vezes se tornava obsessiva, ele elaborou estudos inovadores nas mais diversas áreas, como anatomia, fósseis, o voo dos pássaros, o coração, máquinas voadoras, botânica, geologia, hidráulica e armamentos e fortificações. A habilidade para entrelaçar humanidades e ciência, tornada icônica com o desenho do Homem vitruviano, fez dele o gênio mais criativo da história.

Filho ilegítimo, à margem da educação formal, gay, vegetariano, canhoto, distraído e, por vezes, herético, o Leonardo desenhado nesta biografia é uma pessoa real, extraordinária pela pluralidade de interesses e pelo prazer que tinha em combiná-los. Um livro indispensável não só pelo caráter único de representar integralmente o artista, mas como um retrato da capacidade humana de inovar, da importância de não apenas assimilar conhecimento, mas ter a disposição para questioná-lo, ser imaginativo e, como vários desajustados e rebeldes de todas as eras, pensar diferente.

A biografia chega às livrarias brasileiras com lançamento simultâneo ao dos Estados Unidos, em 17 de outubro. A obra será adaptada para o cinema, protagonizada por Leonardo DiCaprio. O ator também produzirá o longa (ainda sem data de estreia) ao lado de Jennifer Davisson, com quem trabalhou em O Regresso, filme que lhe rendeu o Oscar de melhor ator.

testeO que você tem em comum com Steve Jobs

*Por Glauco Madeira

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Steve Jobs, Elon Musk, Sir Ken Robinson, você. Sim, você faz parte desse grupo. Mas o que todas essas personalidades e você, em muitos aspectos tão diferentes entre si, possuem em comum?

Vou explicar.

Steve Jobs, o já falecido ex-CEO da Apple, era um gênio dos palcos. Os famosos lançamentos de produtos da gigante de tecnologia eram sempre eventos superconcorridos. Jobs fazia com que todos na empresa mantivessem um segredo quase doentio até o dia do lançamento.

Nas apresentações, ele utilizava alguns artifícios que sempre se repetiam: além de ser conhecido por ensaiar exaustivamente até que todo o conteúdo fosse perfeitamente gravado, Jobs geralmente exibia apenas uma mensagem poderosa por slide, de modo que essas informações não se dispersassem na memória do público. Além disso, ele elogiava a própria apresentação em momentos estratégicos, orientando os sentimentos da plateia, fazendo com que ela sentisse o que ele gostaria. Fantástico. Uma de suas apresentações mais icônicas é o lançamento do iPhone, em 2007.  Veja como ele guia o público desde a primeira fala:

Elon Musk, o bilionário fundador de empresas como PayPal, Tesla, Solar City e SpaceX, muitas vezes citado como o “novo Steve Jobs”, passa longe de ter a mesma competência e desenvoltura do Jobs original quando sobe ao palco. Muito pelo contrário. Musk aparenta sempre estar nervoso, com as mãos trêmulas, a voz embargada, quase gaguejando — tudo fruto de um passado como alguém tímido e retraído, como mostra sua biografia Elon Musk: Como o CEO bilionário da SpaceX e da Tesla está moldando nosso futuro.

Porém, Musk utiliza outra técnica que faz com que se destaque dos demais e com que o público espere ávido por seus pronunciamentos: apresentar uma ideia de futuro. Suas empresas são conhecidas por revolucionar os seus setores de atuação: pagamentos on-line, carros e baterias elétricas, energia solar e exploração espacial. Musk é capaz de entrar em uma espécie de campo de distorção da realidade, imaginando coisas que ninguém mais imaginaria daquela maneira. Com efeito, consegue convencer os melhores profissionais e diversos investidores a apostar em suas ideias. Perceba, em sua participação no TED, como ele está longe de ser um showman como Jobs, mas sua didática faz com que ideias tão distantes se tornem algo simples, ao alcance de todos:

Ken Robinson, britânico, é escritor, palestrante e consultor internacional em educação. Em 2003, foi nomeado cavaleiro (Sir), pela Coroa britânica, por seus serviços à educação. Sir Ken Robinson também é conhecido por ter a palestra do TED mais vista de todos os tempos: mais de 40 milhões de visualizações. Com um mix de humor e didática, ele apresenta uma estrutura muito simples em suas apresentações:

  1. Introdução — apresentação, o que será exposto
  2. Contexto — por que a questão é relevante
  3. Conceitos principais
  4. Implicações práticas
  5. Conclusão

Claro que Sir Ken vai muito além de uma fórmula estrutural, mas ele sugere que todo mundo adote essa estrutura. Veja a mágica acontecer em seu vídeo do TED:

Por fim, você. Sim, você faz parte desse grupo. Tímido ou extrovertido. Empreendedor de sucesso ou estudante. Bilionário ou correndo atrás do salário do fim do mês. Você possui algo em comum com Steve Jobs, Elon Musk e Sir Ken Robinson.

Você é um vendedor de ideias. O tempo todo.

untitledNo trabalho, nas amizades, nos relacionamentos, com a família. Estamos todos vendendo ideias. Lembra aquele aumento de mesada que você queria dos seus pais? Você teve que lutar por ele. Ou a sugestão que você deu ao seu chefe e a coisa bombou na empresa. Aquela apresentação para o cliente que lhe tirou do sério. Ou mesmo o pedido de casamento que você fez ao amor da sua vida. Em cada um desses e outros tantos momentos, você estava apresentando ideias, mesmo que não soubesse na hora.

E não importa se você não é um rockstar ou um grande piadista quando vai falar em público. Você também pode virar um apresentador eficaz como Jobs, Musk e Robinson.

Com essas e outras preciosas dicas que vão desde a preparação, passando pela construção da ideia e de slides, até a atuação no palco, Chris Anderson, presidente e curador-chefe do TED, explica em TED Talks: O guia oficial do TED para falar em público como alcançar o feito de produzir uma fala marcante. Sem fórmulas, já que nenhum discurso deve ser igual ao outro, mas com ferramentas importantes que podem melhorar o desempenho de qualquer orador (ou vendedor de ideias).

Boa leitura!

> Leia também: Cinco palestras do TED a que todo mundo deveria assistir
                                Quatro dicas do TED para não cair em armadilhas ao falar em público
                                TED Talks e as boas ideias disseminadas pelo mundo

 

Glauco Madeira é publicitário formado pela ESPM e está cursando MBA em Design Estratégico. Trabalhou em uma startup, onde tomou gosto pelo desenvolvimento de negócios inovadores, e em uma agência de publicidade como estrategista de marcas. Foi gestor da Alumni ESPM Rio. É fundador da consultoria Adapter e planejador estratégico na Artplan.

testeTED Talks e as boas ideias disseminadas pelo mundo

Janet Echelman on stage at TED2014, Session One - Liftoff! - The Next Chapter, March 17-21, 2014, Vancouver Convention Center, Vancouver, Canada. Photo: Ryan Lash/TED

Janet Echelman on stage at TED2014, Session One – Liftoff! – The Next Chapter, March 17-21, 2014, Vancouver Convention Center, Vancouver, Canada. Photo: Ryan Lash/TED

Despertar a atenção de uma plateia em um mundo cheio de informações é uma tarefa difícil. Conseguir falar de forma clara e autêntica, gerando empatia e até convencendo as pessoas em poucos minutos, é mais complicado ainda. Contudo, as conferências promovidas pelo TED Talks têm mostrado que as palestras podem, sim, emocionar e mudar a vida de pessoas de diferentes culturas e países.

O TED Talks começou como um ciclo de conferências anual, com apresentações sobre Tecnologia, Entretenimento e Design. Mas, nos últimos anos, o programa se expandiu e passou a promover palestras de qualquer assunto de interesse público. Sexto sentido, criatividade, economia, feminismo, arquitetura e literatura são apenas alguns exemplos dos temas já abordados nos eventos. Transmitidas ao vivo e disponibilizadas na internet, as conferências do TED se tornaram um fenômeno e contabilizam mais de um bilhão de visualizações por ano.

Mas como explicar tamanho sucesso? Seguindo o conceito de que boas ideias merecem ser espalhadas, a organização compartilha as experiências de vida e o conhecimento de personalidades que vão desde Steve Jobs, Bill Clinton, Bono Vox e Stephen Hawking a pessoas comuns em apresentações curtas. Chris Anderson, presidente e curador da organização, acredita que qualquer um tem algo único a ser dito, só precisa encontrar a melhor maneira de compartilhá-lo.

Chris Anderson, autor de TED Talks: O guia oficial do TED para falar em público, diz também que muitas das melhores conferências do ciclo se baseiam apenas em histórias pessoais e lições simples. No livro, recém-lançado no Brasil, ele mostra os bastidores dessas palestras importantes, fala um pouco sobre a história da organização e divide ainda dicas de como preparar roteiro, não cair em armadilhas e organizar apresentações inesquecíveis.

Confira algumas das conferências mais assistidas do TED Talks:

testeO Regresso recebe 3 indicações ao Globo de Ouro

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O Regresso, novo filme do diretor mexicano Alejandro González Iñárritu  — vencedor do Oscar de melhor filme e direção por Birdman (2014) —  acaba de ser indicado a três Globos de Ouro. Além de concorrer aos prêmios de melhor direção e de filme dramático, a história de vingança de um mercador de peles norte-americano no século XIX rendeu a Leonardo DiCaprio sua 11ª nomeação ao prêmio. O ator, que também foi indicado ao SAG Awards pelo papel, já levou dois Globos de Ouro por O Lobo de Wall Street (2013) e O Aviador (2004).

Com estreia prevista para fevereiro nos cinemas brasileiros, O Regresso é inspirado na história real do caçador de ursos Hugh Glass narrada por Michael Punke no livro homônimo que será lançado pela Intrínseca em janeiro.

Protagonizado por Bryan Cranston, astro da série Breaking Bad, Trumbo é outra história real que chegará aos cinemas e às livrarias em 2016. No filme dirigido por Jay Roach (Virada no Jogo), o ator revive Dalton Trumbo, um dos maiores roteiristas da história do cinema, autor de épicos como Exodus, Spartacus e Papillon, conhecido como o homem que rasgou a Lista Negra de Hollywood — mantida pela indústria de entretenimento para boicotar artistas indiciados pelo Comitê de Atividades Antiamericanas, a caça aos comunistas liderada pelo senador McCarthy na década de 1950.

Helen Mirren concorre ao prêmio de melhor atriz coadjuvante pela interpretação da atriz Hedda Hopper na trama. O filme, que também foi indicado nas categorias de melhor elenco, ator e atriz coadjuvante no SAG Awards, chega ao Brasil em fevereiro. O livro de Bruce Cook que o inspirou será publicado em janeiro pela Intrínseca.

Steve Jobs, cinebiografia do cocriador da Apple, concorre nas categorias de melhor ator (Michael Fassbender), roteiro (Aaron Sorkin) e melhor atriz coadjuvante (Kate Winslet). A transformação do jovem gênio detestável no CEO maduro que revolucionou a indústria de tecnologia é narrada em Como Steve Jobs virou Steve Jobs, única biografia do inventor que teve contribuição dos mais altos executivos da Apple, entre eles o atual CEO Tim Cook.

“Love Me Like You Do”, interpretada por Ellie Goulding na trilha sonora de Cinquenta tons de cinza, disputa a categoria de melhor canção original. Já Orange Is The New Black concorre pela terceira vez ao prêmio de melhor série de comédia ou musical. Uzo Aduba, a Crazy Eyes, também recebe sua terceira nomeação para a disputa de melhor atriz coadjuvante em série, minissérie ou filme para TV. Joanne Froggatt, a Anna Bates de Downton Abbey, que venceu essa categoria na última edição, disputa pela segunda vez.

A cerimônia da 73ª edição do Globo de Ouro acontece em 10 de janeiro. Confira a lista completa dos indicados.

testeUm futuro longe do digital

Elon Musk quer colonizar Marte, popularizar os carros elétricos e a energia solar — independentemente do que aconteça com a internet

Por Alexandre Matias*

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“As melhores mentes da minha geração estão pensando em como fazer as pessoas clicarem em anúncios.” A frase, dita por um dos primeiros programadores do Facebook, sintetiza o sentimento de frustração com o futuro trazido pelo Vale do Silício: em vez de viagens interplanetárias, teletransporte ou energia sustentável, o futuro que o século XXI nos apresentou foi o de pessoas grudadas em monitores de todos os tamanhos, inflando seus próprios egos em redes sociais.

A promessa de futuro vendida pelo Vale do Silício misturou-se com o mundo de fama e sucesso de Hollywood, e, em pouco tempo, CEOs atingiram status de popstar. Steve Jobs talvez seja o melhor exemplo desse domínio do mundo dos negócios como uma variação do show business. Mas não se engane, filmes sobre Bill Gates e Mark Zuckerberg já foram produzidos e currículos de executivos bem-sucedidos continuarão sendo vendidos como biografias de pessoas incríveis nos próximos anos.

Elon MuskDe lá para cá, a internet mudou. Deixou de ser o reino aberto de trocas de links para se tornar um ambiente de feudos de marcas, clusters de usuários obstinados em reter todos os dados pessoais de seus clientes para vendê-los a outras marcas em forma de publicidade personalizada. Google, Facebook, Microsoft, Apple, Amazon e uma meia dúzia de empresas querem mantê-lo sob seu único guarda-chuva, silos de entretenimento que combinam redes sociais, aplicativos para celulares e tablets, games, serviços de streaming, sites de compras e de armazenamento digital. Todo mundo permanece cada vez mais grudado a uma matrix de distrações, e aquele futuro Jetsons que antevíamos em meados do século passado parece sumir enquanto migramos de uma tela para outra, de uma marca para outra.

Mas para o sul-africano Elon Musk um futuro de viagens interplanetárias e energia sustentável ainda permanece no horizonte. Alheio aos deslumbres do digital, ele preferiu investir seu dinheiro em desafios verdadeiramente transformadores. Ele pertence ao grupo de programadores e engenheiros que ficou conhecido mais tarde como “a Máfia do PayPal” por ter surgido em meio à criação do serviço de transferências financeiras — um grupo de empreendedores que criaram uma espécie de lado B do Vale do Silício mais pop, desenvolvendo aplicativos e redes sociais que orbitam de forma pacífica ao redor das principais, como LinkedIn, Yelp, Reddit e fundos de investimento.

Musk, no entanto, radicalizou. Preferiu investir em outras formas de conexões humanas ao entender que a internet havia se convertido em uma nova corrida do ouro, fazendo todos apostarem alto no ciberespaço como único futuro viável. Após ficar bilionário com a venda do PayPal, dedicou-se às próprias empresas para atingir suas metas futuristas, que incluem a exploração do espaço, viagens interplanetárias, terraformação de Marte, carros elétricos, transportes suspensos, energia solar… E tem dado certo.

Com sua SpaceX, Musk já realizou viagens tripuladas para fora da órbita da Terra e estuda como criar uma biosfera artificial em Marte que suporte a colonização do Planeta Vermelho — empreitada que ele pretende iniciar ainda em vida. Com a Tesla Motors está mostrando que o carro elétrico não apenas é viável como também pode ser criada uma malha de recarga gratuita para seus carros em três continentes. Sua SolarCity já é a segunda maior empresa em vendas de painéis solares nos Estados Unidos. E sua Hyperloop, que cogita o transporte suspenso entre cidades por tubos de ar comprimido, já começa a fazer testes com um tubo que liga Los Angeles a São Francisco.

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CRS 4 Dragon em órbita (Foto: Space X)

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Interior do Dragon V2 (Foto: Space X)

A internet atual vive uma transição drástica que equilibra uma geração que viu a chegada da rede como tábua de salvação de um futuro em colapso (a popularização em massa da internet e o surgimento das redes sociais aconteceram logo após o atentado do 11 de Setembro de 2001) com outra que já nasceu on-line e não percebe a rede como novidade. Ambas se encontrarão quando a esperança reluzente do mundo digital se provar apenas uma forma de manipulação e vigilância das pessoas, quando o futuro brilhante da internet se reduzir apenas a uma rede de monitoramento de dados, seja para uso comercial ou governamental. Quando isso acontecer, Elon Musk estará nos esperando com seu futuro megalomaníaco já em andamento.

link-externoVídeo: Elon Musk apresenta os primeiros SUVs Tesla Model X

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link-externoLeia um trecho da biografia Elon Musk: Como o CEO bilionário da SpaceX e da Tesla está moldando nosso futuro, de Ashlee Vance

link-externoLeia também: Stephen Witt, autor de Como a música ficou grátis, explica como o digital mudará ainda mais nossa relação com a cultura

 

Alexandre Matias, 40, é jornalista há vinte anos e cobre música, cultura e tecnologia para diversos veículos, com base em seu site pessoal, o Trabalho Sujo.

testeComo os loucos abrem caminho para a inovação

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Outro dia vi na praia uma figura que alguns ao redor começaram a taxar de louco. Em um sol de quase 40 graus, sem nuvens, o homem de cabelos e barbas compridos caminhava vestindo calça jeans, tênis e uma camiseta estampada na qual se lia: “Os loucos abrem os caminhos que os sábios seguirão.” Não tenho ideia de quem era tal indivíduo, um estrangeiro em todos os sentidos. A cena não saiu de minha mente e me fez refletir sobre nomes das artes, como Ernest Hemingway — um dos meus escritores prediletos — e a dupla Paulo Coelho e Raul Seixas — cujas canções feitas em conjunto marcaram minha infância —, além do mundo da inovação tecnológica e científica, a exemplo de Elon Musk e Steve Jobs, dois dos empreendedores mais admirados da atualidade.

A loucura é marca da arte. Para muitos de seu tempo, o Hemingway de 20 e poucos anos era um maluco. Ao menos aos olhos dos sãos. Tratava-se de um jovem jornalista promissor que abandonara os benefícios de uma carreira certa e lucrativa nos Estados Unidos pela vida de um pobretão em Paris. Tinha, afinal, uma obsessão típica dos doidos: queria ser escritor, mesmo que, para isso, tivesse que passar fome. Aliás, como conta em seu magnífico livro de memórias Paris é uma festa, a fome ajudava na meta, pois impulsionava o cérebro a ter ideias e abrir caminhos. Ele não queria ser um escritor qualquer. Como louco que se preze, o jovem ainda desconhecido, quase desprezado, tinha certeza de que inauguraria um gênero literário no qual cada uma de suas frases exprimiria os mais verdadeiros sentimentos humanos. No fim, sua loucura o levou a tal conquista. E também fez com que desse um tiro de espingarda na cabeça.

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O genial bilionário Elon Musk, que era tido como doido até pela própria mãe

Hemingway me fascinou por sua loucura. Sempre tive, na verdade, asco por artistas que não flertam com doideiras. Quase um desprezo, do tipo que Hemingway alimentava em seu interior pelos colegas menos insanos.

Nas artes, sempre só importaram os malucos. A lista é enorme: de Hunter S. Thompson e seus livros cheios de verdades e mentiras sobre a cultura americana até Alan Moore — que um dia me confidenciou, numa agradável conversa, que é mago de verdade, cuja feitiçaria se dá nas palavras exprimidas em seus quadrinhos e livros —, Guimarães Rosa e João Gilberto.

Loucura nada tem a ver com drogas ou incentivos do tipo — mesmo que muitas vezes essas doses possam ajudar —, mas com a simples observação de que uma figura parece não se encaixar no mundo normal. Muitas vezes pelo perfil caótico, outras pelo extremo ordeiro. E é daí que nascem os novos estilos de arte, os novos caminhos.

A loucura sempre foi saudável também no mundo do empreendedorismo. No entanto, diferentemente do mundo artístico, nos negócios a insanidade foi vista com repulsa por muito tempo, o que fez com que mulheres e homens brilhantes, como Alfred Nobel — dono de várias patentes, como a da dinamite, e fundador da indústria armamentista tal qual a conhecemos hoje —, sofressem. Ele era um gênio que sucumbia à depressão, em muito temperada pela dualidade mental de ser um pacifista e ao mesmo tempo taxado de “mercador da morte”. Antes de morrer, Nobel deixou sua fortuna para a criação do prêmio que levou seu nome e que laureou muitos doidos, cujas mentes abriram atalhos para os que vieram depois.

Hoje, a inventividade tresloucada de Nobel provavelmente seria admirada, e não questionada. O ambiente dos negócios se transformou radicalmente. O responsável por tal mudança: o Vale do Silício e as figuras inovadoras que lá surgiram.

Steve Jobs, fundador da Apple, era um desses loucos. Um dos responsáveis por fazer com que a arte e o empreendedorismo se mesclassem de vez, nos idos dos anos 1970, quando apresentou o computador pessoal que hoje todos usamos. Drogado, viciado em LSD, arrogante, teimoso, do tipo que acreditava que por ser vegetariano não precisava de desodorante — o que só o fazia cheirar mal —, andava descalço, era de estilo hippie, mas também amava acelerar seu conversível pelas estradas nas proximidades de São Francisco. Em Como Steve Jobs virou Steve Jobs, recentemente publicado pela Intrínseca, é possível mergulhar na cabeça dessa figura tresloucada, de cuja mente (e só por faltar parafusos nela) saíram criações fantásticas como o iPhone, o iPad, o iPod e o estúdio de animação Pixar.

Felizmente, os malucos do empreendedorismo passaram a ser celebrados, o que dá gás para o surgimento de mais exemplos dessa nata da humanidade. Como mostra uma biografia recente — a ser lançada no Brasil pela Intrínseca —, quando criança, em dura infância na África do Sul, Elon Musk — que, após a morte de Jobs, assumiu o posto de mais célebre empreendedor louco da atualidade — era tido como fora da sanidade até pela própria mãe. Mesmo hoje,
bilionário, é difícil distinguir se sua ideia de que salvará a humanidade da extinção com empresas que promovem a popularização do uso de fontes limpas de energia — como a Tesla, de carros elétricos — e a exploração espacial — a SpaceX, que deu início a um novo tipo de corrida pelo domínio do cosmos — é loucura ou visão genial. Na verdade, pouco importa definir uma fronteira entre a sanidade e o inverso. Tomara que Musk continue pinel, pois é assim que dá à luz magníficas ideias.

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Em O Clique de 1 Bilhão de Dólares, mostro não só como se deu a criação do Instagram, mas como o Vale do Silício fundou um mundo de negócios mais receptivo a figuras insanas

Eu, caro leitor, batalho com minhas loucuras. Só que cada vez mais tendo a achar que o melhor é me submeter a elas. Espero que vocês também não consigam vencer a insanidade interior, ainda mais por faltarem empreendedores doidos no Brasil. Como bem pontuou certa vez Nolan Bushnell, outro dos lunáticos do Vale do Silício, fundador da Atari e mentor de Jobs: “No Brasil, os empresários acham que tudo tem que começar dando lucro; não se arriscam na loucura, com ideias arriscadas.” Ou seja, não dão asas à inovação.

 

Leia também:

Por que é tão difícil inovar no Brasil, por Filipe Vilicic

Com quanto suor e lágrimas se faz uma criação de Steve Jobs, por Tatiana Dias

 

testeCom quanto suor e lágrimas se faz uma criação de Steve Jobs

Por Tatiana Dias*

Steve Jobs e Steve Wozniak

Eu cobria tecnologia em um dos maiores jornais do país e estava relativamente tranquila com a rotina de lançamentos e inovações. A agenda era quase sempre previsível. “A única emergência”, nós pensávamos, “vai ser se Jobs morrer”. Esse dia chegou. Repórteres voltaram correndo e, naquela semana, o jornal rodou um caderno especial com a íntegra do famoso discurso em Stanford, aquele em que ele disse aos formandos para “continuarem famintos, continuarem tolos”. Que discurso. Que gênio. Gênio? Não demoraram para surgir análises relativizando a genialidade de Jobs e mostrando seu lado egocêntrico, perverso e babaca. Metade gênio, metade babaca.

Mas como foi que um babaca capaz de erros grotescos — como negar a paternidade da própria filha, destratar funcionários e afundar projetos a ponto de ser chutado da própria empresa — conseguiu se tornar um ícone de uma indústria e inspiração para gerações? Mais: como alguém de personalidade tão controversa chegou a receber de um funcionário — ninguém menos do que Tim Cook, atual CEO da Apple — a oferta de um pedaço do fígado para tentar salvar sua vida enquanto esperava na fila do transplante?

Como Steve Jobs virou Steve Jobs CAPA E LOMBADA.inddA oferta de Cook, narrada pela primeira vez na biografia  Como Steve Jobs virou Steve Jobs, dos jornalistas Rick Tetzeli e Brent Schlender, ajuda a colocar em perspectiva a complexidade do fundador da Apple. Jobs é mesmo tudo aquilo que sua biografia autorizada e posterior adaptação cinematográfica contaram. Mas é muito mais. O veterano Schneler conheceu Jobs em 1986 e, desde então, criou com ele aquela relação jornalista-fonte que quase chega à amizade (mas que, quando chega perto, é colocada em seu devido lugar pelo dominante na história que é, óbvio, Jobs). Tetzeli é editor da Fast Company. Todo o trabalho de pesquisa e escrita do livro foi realizado anos após a morte do personagem principal — por isso é de se esperar mais liberdade editorial neste livro do que na biografia oficial escrita por Walter Isaacson. A experiência de Tetzeli e Schlender também oferece ao leitor um rico panorama para além do protagonista: o da indústria de inovação e tecnologia que ele ajudou a criar e a formatar.

É fascinante percorrer a trajetória de Jobs e ver que seu próprio amadurecimento coincide com o amadurecimento da indústria. Os hackers pioneiros do Homebrew Computer Club (onde Jobs conheceu seu parceiro Steve Wozniak) tinham interesse e inteligência, mas não tinham a menor ideia de como transformar o hobby de programar e mexer em computadores (até então estranhas máquinas) em um negócio. Jobs também era um jovem brilhante — foi ele quem pensou em vender os computadores junto com Woz —, mas não tinha a menor ideia sobre como gerir uma empresa. E cometeu erros gravíssimos, no aspecto pessoal e no profissional, que o lapidaram e o fizeram amadurecer passadas mais de três longas décadas.

Jobs foi um babaca do tipo que nega a paternidade da filha. Do tipo que destratava funcionários, gritava em reuniões e, se julgasse que alguém não era intelectualmente do seu nível, batia os pés, mostrava impaciência e fazia questão de ostentar sua superioridade. Quando a Apple deixou a garagem e virou uma empresa de verdade, sua imaturidade e arrogância o fizeram colecionar fracassos nos projetos que liderou, além, é claro, de lhe terem criado desafetos. Ele sabia pressionar os subordinados até conseguir que um projeto saísse do jeito que queria — mesmo que isso resultasse em um fracasso comercial, como aconteceu com o Apple III. Todo esse processo de criação e desenvolvimento é narrado em detalhes no livro — o leitor consegue contar com quanto suor e lágrimas se fazia uma criação de Steve Jobs.  E Tetzeli e Schlender não poupam críticas à primeira fase de Jobs como gestor.

Jobs falhou, mas persistiu. Ele poderia ter se aposentado milionário ao deixar a Apple em 1984 (e ele nem tinha 30 anos), mas sua personalidade o impeliu a fundar uma nova empresa: a NeXT, voltada para a criação de supercomputadores para fins educacionais. A lábia de Jobs lhe propiciou investimentos e boa recepção do mercado — embora ele nunca tenha entregado as máquinas de US$ 3 mil que havia prometido; elas saíram por US$ 10 mil. A graça é que, depois da incrível apresentação de Jobs, todo mundo acreditou que aquilo era genial. O próprio Schlender confessa que, no lançamento, publicou no Wall Street Journal que a máquina era “deslumbrante” e “relativamente barata”. No livro, em perspectiva, ele reconhece: o produto estava longe de estar pronto. Mas vendeu.

Na NeXT, porém, o lado gestor de Jobs degringolou. Não havia um CEO ou um conselho para segurar seus ataques de fúria; ele estava solto. Sua capacidade de ouvir e gerir só amadureceu com outra empreitada, comprada por US$ 5 milhões de George Lucas: a Pixar. Mas até a transação foi conturbada: ao negociar o valor, Jobs não poupou um “vai se foder” a um membro da equipe de Lucas. Ouviu de volta: “você não pode falar assim com um de nossos vice-presidentes”. E respondeu: “vai se foder você também”. Mesmo assim a transação foi bem-sucedida e a maneira como ele viu a equipe competente e coesa da Pixar trabalhar lhe ensinou muito sobre gestão (e a sua habilidade levou a Pixar a ser o enorme estúdio de animação que é hoje). Lá ele aprendeu a resistir à pressão, a confiar nos outros e a ceder responsabilidades — competências necessárias para o seu triunfal retorno à Apple.

A NeXT foi comprada pela Apple (combinando a produção de hardware e software), e, voltando para lá, Jobs selou a paz com a Microsoft (deu fim a um processo que a Apple movia por violação de propriedade intelectual, claro, mediante um bom pagamento de Bill Gates e o lançamento do Office para o Mac). Mas a volta foi mesmo marcada pelo enxugamento dos produtos, uma genial campanha de marketing (“Think Different”) e um lançamento que mudou tudo: o iMac, o computador pessoal com design inovador que se tornou sonho de consumo de uma geração.

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Brent Schlender, Bill Gates e Steve Jobs na histórica entrevista realizada em 1991 para a Fortune, na casa de Jobs © George Lange

Jobs não pensava em tecnologia: ele queria criar “o produto”. E foi assim também com o iPod, o iPhone, o iPad. Grandes produtos que combinaram uma série de tecnologias pré-existentes em uma bela embalagem, com design inovador e um sensacional apelo de marketing — sempre capitaneado pelo próprio Jobs. Essa, aliás, foi a função que ele não soube delegar: Jobs fazia questão de ser o único a apresentar os produtos, além de falar apenas com veículos de imprensa selecionados.

Essa preocupação com a imagem foi fundamental também quando ele topou o convite para ser o orador na turma de formandos de 2005 em Stanford. Ele não frequentava conferências (preferia jantar em casa, como Tim Cook conta). Topou o convite, mas falaria apenas em uma formatura: e seria em Stanford. E seria inesquecível. Ele contou até com a ajuda de um roteirista para escrever o famoso discurso. Jobs ficou nervoso. Mas a emocionante apresentação, combinada a sua habilidade como showman, levou uma geração inteira a se curvar a seus pés. Jobs falou sobre sua história, seus fracassos e seus recomeços. Ele falou que é preciso confiar: “de alguma forma, os pontos vão se ligar no futuro”. Em Como Steve Jobs virou Steve Jobs, Rick Tetzeli e Brent Schlender têm razão quando dizem que o jovem Jobs, ansioso e arrogante, jamais teria pensado nisso. As criações de Jobs são reflexo de muitas experiências, muitos fracassos, muitas tecnologias alheais e, sobretudo, muito trabalho de outras pessoas geniais.

E é por isso que o livro é tão rico e importante, principalmente para complementar a visão clássica do “metade gênio, metade babaca”, que todos nós ouvimos falar, e entender os contextos das criações de Jobs. A revista do MIT publicou um artigo recente sobre como o culto à grandes personalidades de tecnologia é potencialmente danoso para a indústria — além de injusto com as outras pessoas que trabalharam duro para inovar, o que pode ajudar a minar a estrutura necessária para a inovação futura. Afinal, toda inovação é uma combinação de uma ideia, um contexto, financiamento e um time capacitado para colocá-la em prática. O iPhone é uma combinação de diversas tecnologias pré-existentes. Jobs as empacotou e transformou em um produto útil e bonito. A inovação não está presa apenas aos grandes gênios — eles são apenas uma peça na engrenagem.

Como Steve Jobs se tornou Steve Jobs é uma obra que vai além do personagem principal — é muito rica para entender como o mercado de tecnologia se tornou o que é hoje. E também para tirar o gênio de seu pedestal — ao ler um jornalista veterano escrevendo sobre as jogadas de mestre e fracassos de Jobs narrados de forma sincera, e em uma perspectiva histórica, o leitor aprende muito sobre o contexto e sobre todos os pontos que o levaram a ser como era. E também sobre por que ele foi a maior personalidade da indústria da tecnologia — aquela que fez todos os jornais pararem no dia de sua morte, e cuja trajetória ainda é relevante para quem quer entender como chegamos até aqui.

Leia um trecho de Como Steve Jobs se tornou Steve Jobs
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Tatiana Dias, jornalista, cobre tecnologia e cultura digital desde 2007. Passou pelas redações da revista IstoÉ, do Estado de S. Paulo e da revista Galileu e editou os blogs no Brasil Post.