testeO lado pop de Stephen Hawking

Por Bruno Grandis*

 

“Eu fui bem popular no meu tempo. Alguns até leram meus livros.”

Esse é um trechinho do que se revelou a última participação pública de Stephen Hawking, como a voz do livro que dá título ao Guia do mochileiro das galáxias em uma adaptação de rádio para a BBC, poucos dias antes de sua morte, em março de 2018. Hawking era assim, aparecia nas notícias ora com uma revelação sobre as engrenagens que movem o nosso universo, ora fazendo aparições constantemente surpreendentes na cultura pop –  e dava a mesma importância para ambos.

No lado pop, Hawking era quase um buraco negro para a atenção de qualquer um quando surgia em cena. Foram incontáveis participações surpresa em desenhos como Futurama e Os Simpsons, e comédias como The Big Bang Theory (no qual era um personagem quase recorrente, de tantas vezes que apareceu na série). O primeiro de seus grandes momentos na televisão foi jogando pôquer com Sir Isaac Newton, Albert Einstein e o androide Data em um episódio de Star Trek: A Nova Geração. Infelizmente, Hawking foi o único cientista-celebridade interpretando a si mesmo:

 

 

 

Breves respostas para grandes questões é provavelmente o melhor ponto de partida para conhecer a obra de Hawking fora da cultura pop. Com capítulos curtos, dedicados a responder cada uma das dez grandes perguntas, fica evidente o conhecido senso de humor, as reflexões otimistas, os conselhos para todos nós. Em uma única obra, Hawking parece nos deixar o caminho que ele acreditava ser o melhor para tomarmos coletivamente rumo a um futuro melhor. Como o próprio fala, “somos uma única espécie, um único planeta”. Do lado científico, o que mais pode ser dito sobre a contribuição de Hawking para o mundo? Seu talento para ensinar está exposto em seus livros sobre astrofísica, sua autobiografia ou mesmo em artigos como os de Amâncio Friaça disponíveis aqui no blog da Intrínseca.

Em seu último livro, Hawking estava analisando interrogações que somente ele seria capaz de tornar compreensíveis: Deus existe? A viagem no tempo é possível? Sobreviveremos na Terra? Em sua argumentação, Hawking parecia de certa forma considerar que seu tempo em nosso pálido ponto azul estava chegando ao fim.

É um grande clichê comparar o legado de uma pessoa com um filme. O inspirado na biografia de Hawking não apenas existe como deu um Oscar de melhor ator a seu intérprete, Eddie Redmayne, que após a produção se tornou amigo da família e assina o prefácio deste que se tornou o último livro do astrofísico. Um filme sobre Hawking, entretanto, é pouco para explicar a importância de seu legado.

Hawking transformou o pesadelo de se ver preso no próprio corpo em um castelo de conhecimento, esperança e sabedoria. Sua partida é um acontecimento não apenas para a astrofísica, mas para o entretenimento, e ainda precisaremos de um tempo até outra figura que mescle o carisma e conhecimento de Hawking, Carl Sagan ou Einstein surja para reestabelecer esta ponte entre ciência e cultura pop.

Até mais, Stephen, e obrigado pelos peixes.

 

*Bruno Grandis é uma dessas pessoas que faz de tudo um pouco nesse mundo, entre podcasts, publicidade, música e redes sociais. Oitenta por cento disso aprendido quando era assistente de mídias sociais na Intrínseca.

testeTOP 10 da Intrínseca em 2018

Se todos os anos são especiais por algum motivo, podemos dizer que 2018 foi o ano oficial de ligar o f*da-se. Nenhum dos outros 57 lançamentos ou dos grandes clássicos da editora teve chance: o livro de Mark Manson, A sutil arte de ligar o f*da-se, foi o grande destaque da lista de best-sellers, com mais de 500 mil exemplares vendidos.

Nesse ano de intrínsecos, autoajuda, thrillers e adaptações de livros na Netflix, é bom ver o quanto os leitores nos ajudaram a construir mais 365 dias repletos de boas histórias. Por isso, criamos uma lista com os dez livros da Intrínseca mais vendidos de 2018. Confira:

 

  1. A sutil arte de ligar o f*da-se, Mark Manson

Talvez você não lembre, mas em janeiro de 2018 recebemos no Brasil um visitante ilustre: o autor do que viria a ser o livro mais vendido do ano, Mark Manson. Na época, sua antiautoajuda que incentiva o leitor a se desprender dos problemas, regras e padrões que afetam negativamente sua vida havia sido lançada há pouco mais de 2 meses e já causava burburinhos nos meios literários. Hoje, mais de um ano depois, tornou-se mantra de milhares de pessoas e vem contribuindo para tornar o dia a dia mais leve e mentalmente saudável.

Saiba mais sobre o livro.

 

  1. Extraordinário, R. J. Palacio

Lançado pela primeira vez em 2013, a história do Extraordinário na Intrínseca é longa. Mudança de capa, livros complementares, edição especial do filme… Foram vários anos de trabalho, mas finalmente podemos dizer que muita gente por aí já conhece o Auggie e já se emocionou com essa linda história de superação e empatia. O filme, que chegou aos cinemas em dezembro de 2017, deu vida a alguns dos personagens mais adoráveis e inspiradores da literatura e ajudou o livro a encabeçar listas de mais vendidos durante muitos meses. É impossível não se apaixonar pelo Auggie, pela Via, pelo Jack Will (e pela Daisy, é claro) e não terminar a leitura com uma bela lição de vida.

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  1. Ainda sou eu, Jojo Moyes

Não dá para falar de livros mais vendidos da Intrínseca mencionar Jojo Moyes. Ainda sou eu, terceiro e último livro da trilogia Como eu era antes de você, chegou às livrarias em fevereiro para contar um pouco mais da história de Louisa Clark e de seus desafios após os acontecimentos do primeiro livro (nada de spoilers!). Sequência de Depois de você, o livro é um belo presente para todo mundo que se apaixonou pela personagem e não queria se despedir dela de jeito nenhum (embora já estejamos morrendo de saudades <3).

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  1. Tartarugas até lá embaixo, John Green

Outra figura que não poderia faltar nessa lista é nosso querido John Green. O livro mais recente do autor, Tartarugas até lá embaixo, foi publicado em outubro de 2017, mais de seis anos após seu último livro. Dessa vez, Green apresentou aos leitores Aza Holmes e compartilhou um pouco de sua própria trajetória, narrando com sensibilidade os dilemas enfrentados por alguém que tem transtorno obsessivo compulsivo (TOC). Mesclando aventura, psicologia e muitas referências pop, o autor confirmou seu lugar no top 10 e no coração de muitos leitores.

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  1. Mais escuro, E L James

A trilogia Cinquenta tons de cinza chegou ao Brasil em 2012 e imediatamente se tornou uma febre. Milhões de exemplares vendidos, três adaptações cinematográficas e os fãs queriam mais: precisavam saber como seria essa história aos olhos do Christian. Foi daí que nasceram os livros Grey e Mais escuro, narrando os episódios do primeiro e do segundo livros sob outro ponto de vista. Os leitores amaram mergulhar nos pensamentos do Grey e colocaram o livro direto no nosso top 10. (Ainda não sabemos quando será lançado o terceiro livro, mas estamos torcendo para que seja logo!)

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  1. Para todos os garotos que já amei, Jenny Han

Assim como aconteceu com Extraordinário, a história da Intrínseca com Jenny Han começou já faz um tempo. O primeiro volume da série foi publicado em 2015, e logo de cara os leitores se apaixonaram pela Lara Jean, mas o filme lançado em agosto de 2018 levou a história a outro patamar. Os três volumes (Para todos os garotos que já amei, P.S: Ainda amo você e Agora e para sempre, Lara Jean) estão disponíveis nas livrarias e mostram o amadurecimento da doce menina que escrevia cartas secretas para seus amores não correspondidos. É para ler esparramado no sofá e com um prato de cookies ao lado.

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  1. Mitologia Nórdica, Neil Gaiman

Nós amamos o Neil Gaiman e vamos gritar para todo mundo ouvir. Após sua chegada espetacular à Intrínseca com O oceano no fim do caminho, relançamento de edições favoritas do autor e HQs, a estrela do ano foi Mitologia nórdica. Narrados com o estilo inconfundível de Gaiman, os contos nórdicos ganham um tom divertido, sarcástico e sombrio, que somados a uma edição lindíssima em capa dura (que inclusive possui uma edição especial de luxo na Amazon!) não tinham como ficar fora dos mais vendidos do ano.

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  1. Leonardo Da Vinci, Walter Isaacson

Os fãs de biografias ganharam um presentão em 2017: Walter Isaacson, um dos maiores biógrafos do mundo, escreveu o livro definitivo sobre o gênio Leonardo Da Vinci. Após anos de pesquisas, o autor preencheu mais de 600 páginas com curiosidades, desenhos, informações pessoais e outros diversos conteúdos sobre o mestre que não colocava barreiras em sua mente. Em 2018, o livro permaneceu entre os favoritos e ganhou uma edição lindíssima em capa dura exclusiva da Amazon!

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  1. Com amor, Simon, Becky Albertalli

Becky Albertalli é uma autora que dá vontade de colocar em um potinho. Ela chegou aqui à Intrínseca em 2015 com o livro Com amor, Simon (que na época se chamava Simon vs. a agenda Homo Sapiens), que conta a história do Simon e do Blue, dois meninos gays que se correspondem anonimamente pela internet e que estão prestes a viver uma grande história de amor. Esse ano, o Simon foi parar no cinema, com um filme super fofo com um elenco incrível! Foi assim que todo mundo ficou conhecendo a Becky e ela finalmente chegou ao lugar que merece: o nosso top 10!

Saiba mais sobre o livro.

 

  1. Uma breve história do tempo, Stephen Hawking

Existem vários livros que nós temos muito orgulho de publicar e os do Stephen Hawking com certeza estão entre eles. O trabalho do físico com a cosmologia, em especial os buracos negros, é mundialmente conhecido e ele ficou eternizado por suas descobertas, pelo bom humor e por ter vivido por muito tempo com uma doença degenerativa que lhe prometia uma baixíssima expectativa de vida. Esse ano, infelizmente vimos Hawking deixar esse planeta e ir viver entre as estrelas, e é um grande privilégio para a gente publicar sua obra, especialmente o novo livro, Breves respostas para grandes questões, no qual ele trabalhou em seus últimos meses de vida.

Saiba mais sobre o livro.

 

Menções honrosas:

 

  1. Me chame pelo seu nome, André Aciman

Quem diria que a história de um adolescente que se apaixona pelo hóspede da família conquistaria tanta gente? Teoricamente, Me chame pelo seu nome não está entre os dez mais vendidos, mas em nossos corações ele é o número um! E quem não amou aquele filme com paisagens lindíssimas da Toscana e uma trilha sonora de tirar o fôlego? Melhor que isso, só vê-lo levar o Oscar de “Melhor roteiro adaptado” para casa. André Aciman sabe mesmo como escrever um livro intenso e maravilhoso.

Saiba mais sobre o livro.

 

  1. O homem de giz, C. J. Tudor

Outro livro que MERECE uma menção honrosa é O homem de giz. Desde o lançamento, é difícil vê-lo fora das listas de mais vendidos e temos certeza de que no ano que vem ele entra no top 10! O thriller sobre um grupo de amigos que encontra um corpo desmembrado fez muita gente ter medo de bonecos de giz.

Saiba mais sobre o livro

testeO que você ainda não sabe sobre Stephen Hawking

Stephen Hawking foi um dos físicos mais importantes do nosso tempo. Além de revolucionar a ciência com sua pesquisa sobre buracos negros e a origem do universo, ele era conhecido pelo seu senso de humor ácido presente em todos os seus livros.

Logo antes de falecer, o cientista estava trabalhando em seu livro inédito, Breves respostas para grandes questões, no qual traz respostas para dez grandes mistérios da humanidade. Para celebrar o nosso gênio favorito, separamos algumas curiosidades sobre Stephen Hawking. Confira:

 

1. Já deu uma festa para viajantes no tempo

Para provar que a viagem no tempo é impossível, Hawking deu uma festa para viajantes no tempo. Para garantir que apenas esses viajantes compareceriam, ele divulgou o evento somente no dia seguinte à festa. Infelizmente, ninguém apareceu. Hawking até revelou que ficou desapontado, pois adoraria estar errado sobre isso.

 

2. Ele acreditava na existência de seres extraterrestres

 

Algumas das descobertas recentes da astronomia levavam Hawking a acreditar na existência de vida extraterrestre. Entre os locais que, na opinião do físico, poderiam abrigar vida, está o planeta Gliese 832c, a 16 anos-luz da Terra.

 

3. É autor de vários livros, inclusive infantis

 

Stephen Hawking e sua filha Lucy escreveram o livro infantil George’s Secret Key to the Universe, que tinha como objetivo explicar conceitos da ciência para as crianças. Muito fofo, né?

 

4. Viveu muito além da expectativa dos médicos

 

Quando foi diagnosticado com esclerose lateral amiotrófica (ELA), aos 21 anos de idade, os médicos deram a Hawking uma expectativa de vida de mais 2 anos. Contrariando as previsões, o físico viveu até os 76. Ele faleceu em 2018, em Cambridge.

 

Conheça Breves respostas para grandes questões, o último livro escrito por Stephen Hawking.

 

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Vamos sortear 3 kits com livros de Stephen Hawking! Cada kit contém um exemplar de Breves respostas para grandes questões e outro livro de Hawking da sua escolha!

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testeEstá aberta a votação dos melhores livros do ano, segundo o Goodreads

O Goodreads é uma plataforma digital de catálogo que, todos os anos, realiza uma votação entre usuários para premiar os melhores livros lançados nos últimos doze meses. Ao longo de novembro, os leitores poderão votar nos seus livros favoritos nas 21 categorias disponíveis. Já começaram as semifinais, e a Intrínseca tem vários livros na disputa!

Confira os indicados ao Goodreads Choice Awards:

Na categoria Melhor Ficção, tem Ainda sou eu, a conclusão da trilogia Como eu era antes de você, de Jojo Moyes, e Nine perfect strangers, o novo livro de Liane Moriarty, autora de Pequenas grandes mentiras.

Em Melhor Livro Jovem Adulto, tem o recém-contratado Emergency Contact e dose dupla de Becky Albertalli, com Leah fora de sintonia e a grande novidade What if it’s us! Escrito por Albertalli em parceria com Adam Silvera, o livro, ainda sem título em português, será lançado no Brasil em 2019. Ele narra a história de Ben, um menino que, depois de um término difícil, vai ao correio para enviar os pertences do ex-namorado e acaba conhecendo Arthur, que está de férias na cidade. O que poderá sair desse encontro? Os dois terão que se arriscar para descobrir.

Em Ciência & Tecnologia, estão concorrendo Breves respostas para grandes questões, o presente final de Stephen Hawking para a humanidade, e Como mudar sua mente, de Michael Pollan.

Em Infantojuvenil, tem Labirinto de fogo, terceiro livro da série As provações de Apolo, de Rick Riordan, e, na categoria Livro Ilustrado, o fofíssimo Love, a ser publicado.

O homem de giz, de C. J. Tudor, concorre em duas categorias: Mistério & Thrillers e Autor Estreante.

Mais escuro, o segundo livro da trilogia Pelos olhos de Christian, está concorrendo em Romance, e A forma da água, em Fantasia. As obras ainda não publicadas Where the crawdads sing, de Delia Owens, e We sold our souls, de Grady Hendrix, estão concorrendo respectivamente em Romance Histórico e Terror, e o segundo volume de Black Hammer, O evento, em Graphic Novels & Quadrinhos.

Na categoria Best of the Best, que reúne os livros mais votados das últimas edições da premiação, estão concorrendo alguns dos nossos livros favoritos: A culpa é das estrelas, de John Green; Pequenos incêndios por toda parte, de Celeste Ng; O oceano no fim do caminho, de Neil Gaiman; Toda luz que não podemos ver, de Anthony Doerr; e Garota exemplar, de Gillian Flynn.

A votação vai até o dia 26 de novembro, e os vencedores serão anunciados no dia 4 de dezembro. Não esqueça de votar e escolher os seus favoritos!

testeOs deuses nos roubaram Hawking

Por Amâncio Friaça*

 

A morte de Stephen Hawking produziu uma grande comoção no mundo todo. Várias pessoas se apressaram a apontar as coincidências entre a data do seu nascimento (8 de janeiro de 1942) e os 300 anos exatos da morte de Galileu; e da sua morte (14 de março de 2018) e a data de nascimento de Einstein. Outros paralelos já haviam sido traçados anteriormente como aquele entre o ano da morte de Galileu, 1642, e o do nascimento de Newton. Pode-se pensar em uma linha sucessória ao longo de séculos conectando Galileu, Newton, Einstein e Hawking. Assim, em 1979, Hawking assume a Cátedra Lucasiana de Matemática da Universidade de Cambridge, cujo segundo ocupante havia sido Newton.

Essa “linha sucessória” também se refere à popularidade. Em virtude de sua doença, associada à imagem da cadeira de rodas, e de seu poderoso empreendimento de divulgação científica — inaugurado com o best-seller Uma breve história do tempo, de 1988 —, Hawking tornou-se o maior popstar da ciência desde Einstein. Mas Newton já se enquadrava na categoria de celebridade científica. Voltaire estava presente no funeral de Newton em 1727 e ficou profundamente impressionado com o fato de um cientista ser enterrado na Abadia de Westminster, como um rei, algo impensável na França. A cerimônia com regalias reais para um físico foi algo sem precedentes, um sinal de que a ciência tinha impactos diretos na sociedade — algo nunca antes imaginado.

Pouco depois de seu aniversário de 21 anos, Hawking foi diagnosticado como portador de uma doença degenerativa fatal, a esclerose lateral amiotrófica (ELA). Mas, em vez de sucumbir à depressão, ele se voltou para algumas das questões mais fundamentais sobre a natureza do universo, uma tarefa que descreveu claramente: “Meu objetivo é simples. É uma compreensão completa do universo, por que ele é como é e por que ele existe afinal”. Com determinação titânica, desafiando a opinião dos médicos, Hawking conseguiu viver por mais 55 anos.  Porém, há mais do que isso. Tão logo soube da doença, Hawking apressou-se em ter três filhos com a primeira mulher, Jane. Com um enorme carinho pelo pai, eles recordaram o que Hawking dizia: “Um universo não seria muita coisa se não fosse o lar das pessoas que amamos.”

Após concluir a graduação em física na Universidade de Oxford, em 1962, Hawking deu início ao doutorado na Universidade de Cambridge, sob a orientação de Dennis Sciama, um dos fundadores da cosmologia moderna. Foi exatamente nesse período que descobriu a doença e se casou com Jane. Foi também quando conheceu o matemático Roger Penrose, com quem desenvolveu uma fecunda e duradoura parceria. Em 1964, estabeleceram um teorema matemático demonstrando que o colapso de uma estrela de grande massa produziria uma singularidade (uma região onde a densidade e a curvatura do espaço-tempo se tornariam infinitas), ou seja, um “buraco negro”. Ao longo da década de 1960, os dois estabeleceram importantes teoremas sobre buracos negros. Todo o trabalho nessa área resultou em um artigo fundamental publicado em 1970, onde Hawking e Penrose aplicaram a matemática dos buracos negros ao universo, mostrando que uma singularidade era uma implicação necessária da relatividade geral de Einstein para o passado remoto do Universo, resultando naturalmente em um Big Bang.

Tempos depois, Hawking faz uma das mais extraordinárias descobertas de todos os tempos: os buracos negros não são inteiramente negros porque algo escapa deles, uma emissão de energia que posteriormente passou a ser conhecida com a “radiação de Hawking”. Em 1974, demonstrou que no horizonte de um buraco negro são produzidos pares de partículas e antipartículas. Esse mecanismo provém de uma previsão da mecânica quântica, de que o vácuo apresenta estados microscópicos que se manifestam como partículas virtuais. Além de criar essa conexão com a mecânica quântica, Hawking agregou nesse processo a termodinâmica, que é a ciência do calor. Se os buracos negros possuem uma emissão, eles irradiam calor e isso mostra sua relação com uma quantidade termodinâmica fundamental, a entropia, que é a medida do grau de desordenamento de um sistema. Em termodinâmica, a entropia do universo cresce irreversivelmente. De um modo absolutamente genial, ele relacionou um elemento geométrico do buraco negro, a área do horizonte A, com a entropia do buraco negro, uma identificação resumida na “fórmula de Hawking”:

 

S=πAkc3/2h

 

Essa expressão mostra que há uma conexão profunda e inesperada entre as três teorias fundadoras da física: a Teoria da Relatividade Geral (através das constantes G, a constante gravitacional de Newton, e c, a velocidade da luz), a Mecânica Quântica (através de h, a constante de Planck) e a Termodinâmica (através de S, a entropia, e k, a constante de Boltzmann). Enquanto o buraco negro está absorvendo matéria e energia, a sua área aumenta. A entropia, por sua vez, aumenta proporcionalmente à área, analogamente ao aumento de entropia do universo. Ao final, o buraco negro acabaria por “evaporar”, liberando ainda mais calor para o Universo, que ficaria ainda mais desordenado.

Mas, se escapa uma radiação do buraco negro, será que a informação que havia entrado nele poderia ser transportada para fora por essa mesma emissão? Pelos cálculos realizados por Hawking e seu colaborador Kip Thorne, toda informação engolida pelo buraco negro jamais retornaria ao Universo, mesmo se o buraco negro evaporasse. Em 1997, os dois fizeram uma aposta com o físico norte-americano John Preskill, que defendia a existência de um mecanismo para liberar a informação pela evaporação do buraco negro. Anos depois, Preskill demonstraria que o horizonte do buraco negro apresenta flutuações quânticas que permitem o escape de toda a informação no seu interior. Hawking e Kip Thorne perderam a aposta. Para Hawking, a maior gafe de sua vida foi um dia ter acreditado que os buracos negros destruíam informações.

A luta de Hawking contra a doença é uma expressão particular da luta da vida contra o aumento de entropia. De fato, a vida pode ser vista como uma redução local da entropia: ela cria organismos, que são estruturas ordenadas não repetitivas (um cristal é uma reprodução monótona de unidades mínimas, diferentemente de um organismo, onde há níveis de organização diferentes entre si, em coordenação). Globalmente, a desordem do universo aumenta, mas em “ilhas” nesse vasto oceano entrópico existem formas de organização sempre novas devido à vida e à inteligência. Nessas “ilhas” podemos criar os lares “das pessoas que amamos”.

Em parte por esse motivo, nos últimos tempos Hawking vinha dedicando sua atenção ao papel da vida e da inteligência no Universo e suas implicações para o futuro da humanidade. Houve bastante alarde em torno da sua declaração de que não deveríamos procurar fazer contato com civilizações extraterrestres, mas sim evitar o contato. Ele sugere que a busca por vida extraterrestre deveria antes se concentrar em micróbios. A maioria esmagadora dos astrobiólogos concorda com ele. A posição de Hawking em relação à inteligência extraterrestre baseia-se no princípio da precaução. De fato, na literatura que conjectura há séculos sobre civilizações alienígenas, o outro cósmico é visto como um anjo cósmico até um predador high tech. Hawking propõe como alternativa que o contato com uma civilização extraterrestre pode não ser intencionalmente corrosivo para a humanidade como foram para os povos pré-colombianos as doenças trazidas pelos europeus. Contudo, essa nota de cautela deve ser relativizada, tanto que ele apoiou a Breakthrough Initiative, lançada pelo bilionário russo Yuri Milner em 2015 na presença dos renomados astrônomos Martin Rees, Frank Drake, Geoff Marcy e Pete Worden. Trata-se de um financiamento de 100 milhões de dólares para conduzir a pesquisa científica mais poderosa e abrangente em busca de sinais de vida inteligente fora da Terra.

Hawking também enfatizou a necessidade da humanidade em acelerar a sua caminhada para fora da Terra, sempre tomando os cuidados necessários para evitar danos a formas simples de vida extraterrestre. Segundo ele, a sobrevivência de nossa espécie depende criticamente de nos estabelecermos em outros planetas. Não é coincidência, portanto, que a Breakthrough Initiatives tenha assinado em 2017 um acordo com o ESO (Observatório Europeu do Sul, European Southern Observatory, na sigla em inglês) para adaptar instrumentos do Very Large Telescope no Chile a fim de realizar uma busca de planetas em Alpha Centauri, estrela a mais próxima do Sol. Esses planetas poderiam ser alvos de um eventual lançamento de microssondas. De fato, Alpha Centauri é um sistema estelar triplo, cuja estrela mais próxima de nós, a anã vermelha Proxima Centauri, abriga Proxima Centauri B, um planeta com características muito similares às da Terra e que orbita dentro da zona habitável da estrela, onde pode haver água no estado líquido. Esse planeta está no nosso “quintal cósmico”, a apenas 4,2 anos-luz de nós. Num primeiro momento seria alvo de telescópios, depois de sondas espaciais, e, finalmente, da humanidade.

Ao ser perguntado sobre a morte, Hawking respondeu: “Não tenho medo da morte, mas não tenho pressa de morrer. Há tantas coisas que quero fazer primeiro”. Que possamos ser herdeiros dignos das grandiosas tarefas de Hawking.

*Amâncio Friaça é astrônomo do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo (USP). Trabalha em astrobiologia, cosmologia, evolução química do universo e nas relações entre astronomia, cultura e educação. Foi o responsável pela revisão técnica da edição revista de Uma breve história do tempo, lançada em 2015 pela Intrínseca, e Breves respostas para grandes questões, lançado em 2018.

teste5 livros para (re)descobrir seu amor pela ciência

Cientistas geralmente não são os primeiros da lista quando pensamos nos principais personagens de histórias incríveis. Quase sempre imersos em pesquisas e estudos, não imaginamos que essas mentes brilhantes possam ter histórias incríveis para contar.

Pensando nisso, separamos livros que vão fazer até mesmo o pior aluno de ciências se apaixonar pelos mistérios do Universo. Confira:

 

Uma breve história do tempo, de Stephen Hawking

Como falar de cientistas fantásticos sem mencionar Stephen Hawking? Considerado um dos mais importantes cientistas da atualidade, ele fez descobertas sobre a natureza do tempo e o funcionamento dos buracos negros. Suas teorias revolucionárias também elevaram seu nome ao patamar de gênios como Galileu, Newton e Einstein. Mesmo sofrendo de esclerose lateral amiotrófica, que o prendeu a uma cadeira de rodas e o privou de todos os movimentos, nada o impediu de se tornar um dos maiores cientistas da história.

Em Uma breve história do tempo, um clássico da divulgação científica, Hawking apresenta ilustrações criativas e bom humor ao desvendar desde os mistérios da física de partículas até a dinâmica que movimenta centenas de milhões de galáxias por todo o Universo.

 

Endurance: Um ano no espaço, de Scott Kelly

Muita coisa pode acontecer em um ano no espaço. Após retornar de um dos maiores períodos a bordo da Estação Espacial Internacional, o astronauta americano Scott Kelly trouxe consigo uma mensagem de esperança que inspirará as próximas gerações.

Em seu relato, a humanidade, a compaixão, o bom humor e a determinação ficam visíveis à medida que ele conta sobre a infância nos Estados Unidos e a inspiração durante a juventude que culminou em sua surpreendente carreira, além da certeza de que Marte é o próximo grande desafio dos Estados Unidos no que se refere ao espaço.

 

História da sua vida e outros contos, de Ted Chiang

Como a ciência pode nos emocionar? Em sua coletânea de contos, Ted Chiang apresenta histórias que vão da Torre de Babel à chegada de alienígenas na Terra. São narrativas incríveis que nos fazem refletir sobre a cultura, a tecnologia, nossos relacionamentos e a sociedade.

O conto “História da sua vida” inspirou o emocionante filme A chegada, com Amy Adams e Jeremy Renner, e é apenas uma das diversas histórias que vão fazer você se apaixonar por esse livro.

 

Matéria escura, de Blake Crouch

Das mais simples às mais complexas, a vida é uma sucessão de escolhas. De bobagens como “Onde vamos almoçar?” até os grandes questionamentos como “Qual curso fazer na faculdade?”, as escolhas alteram nosso futuro. Mas e se a cada vez que tomamos uma decisão, o universo se dividisse: um no qual tomamos a decisão A e outro no qual tomamos a decisão B? Esse é o conceito que o premiado cientista Jason Dessen busca explicar em sua pesquisa secreta.

Em Matéria escura, Blake Crouch, autor da trilogia Wayward Pines, explora as inúmeras possibilidades que a vida pode nos apresentar. No livro, Jason é raptado e se vê em uma realidade que parece outra versão da sua vida. Preso em um laboratório, ele precisa descobrir como recuperar a família que tanto ama.

 

Aniquilação, de Jeff VanderMeer

Na série Comando Sul, um lugar inóspito conhecido como Área X entra em um silêncio misterioso após um incidente. Cabe a uma organização governamental enviar expedições para a região — mas a natureza começa a agir de formas estranhas. Mesclando ficção científica e terror, Aniquilação, o primeiro volume da série, é o relato da décima primeira expedição, na qual nada sai como o esperado. A história chegará aos cinemas em 2018, com Natalie Portman no papel principal.

testeDe onde John Green tirou o título Tartarugas até lá embaixo?

Tartarugas até lá embaixo? De onde John Green tirou esse nome para o seu novo livro? É piada interna? Pegadinha? Um livro sobre tartarugas? Também ficamos surpresos por aqui, mas o Sr. Green tem sempre tudo bem pensado e amarradinho, e com certeza não escolheu esse título à toa.

Circula na comunidade científica – Stephen Hawking conta isso no primeiro capítulo do livro Uma breve história do tempo – uma história sobre um renomado cientista que certa vez dava uma palestra sobre astronomia. Ele falava do modo como a Terra orbita o Sol e como o Sol, por sua vez, orbita o centro de uma vasta coleção de estrelas que chamamos de galáxia. Quando a palestra terminou, uma senhorinha se levantou e disse: “O que o senhor acabou de falar é bobagem. Na verdade, o mundo é um prato achatado apoiado no dorso de uma tartaruga gigante.” O cientista então perguntou em que a tal tartaruga gigante estaria apoiada e a senhorinha respondeu: “Em outra tartaruga. Uma tartaruga abaixo da outra. Há tartarugas até lá embaixo.”

Essa é a explicação para o título. Mas é preciso ter só mais um pouquinho de paciência, porque isso tudo só vai fazer sentido mesmo quando vocês conhecerem a história da Aza Holmes, protagonista de Tartarugas até lá embaixo. Aza é uma menina que sofre de transtorno obsessivo-compulsivo, um distúrbio que se caracteriza por uma espiral de pensamentos que parece não ter fim (como o próprio John Green explica neste vídeo). O que podemos garantir é que não é uma história sobre tartarugas, mas uma emocionante jornada de uma garota que vê o mundo de um jeito diferente. Dia 10 de outubro vocês vão descobrir.