testeAs memórias afetivas de Neil Gaiman

Por Mário Feijó*

Neil Gaiman

Neil Gaiman (Fonte)

Neil Gaiman é desconcertante, às vezes incômodo. Quem o acompanha desde os anos 1980 sabe disso. Dos quadrinhos para os livros, da fantasia adulta para a literatura infantil, umas poesias aqui, uns roteiros e contos ali, lá vai Gaiman escrevendo sobre a vida, que é imensa e complicada e não dá nenhum alerta antes de nos ferir. De vez em quando, ele reúne algum material disperso, geralmente contos, e procura seu editor. Assim ganhamos Fumaça e espelhos e, depois, Coisas frágeis. Mas Alerta de risco, publicado em agosto deste ano pela Intrínseca, é melhor. E não só porque nessa antologia Gaiman resolveu mostrar toda a sua versatilidade literária… Cara, tem Doctor Who e Sherlock Holmes!
Todos têm histórias guardadas na memória. Nascemos e crescemos imersos em narrativas mesmo antes de sermos alfabetizados ou de conquistarmos autonomia como leitores. Com o tempo, fazemos releituras, reinterpretamos, permitimos dúvidas e perguntas inconvenientes sobre os personagens que conhecemos tão bem, sobre os universos que amamos. Ou seja, nossas narrativas fundamentais se transformam constantemente, desde a infância até a velhice, e essas transformações podem nos enriquecer de múltiplas formas ­– mas são perturbadoras. Assim como nossas lembranças de família.

Nesta nova antologia, o que o criador de Sandman e Coraline faz é compartilhar lembranças afetivas de suas leituras, usando o estilo precioso e preciso que tanto gosto de elogiar. Na introdução do livro, ele explica a origem de cada texto, de onde veio cada inspiração. Como ele mesmo resume, autores moram em casas construídas por outros autores.

Jack Vance, Ray Bradbury, Arthur C. Clarke, Conan Doyle… A lista de influências é ótima. Como estamos falando de Neil Gaiman, claro que os contos de fada estão lá. Malévola, Branca de Neve e Bela Adormecida habitam o mesmo mundo, em reinos vizinhos. Assim sendo, as personagens podem ultrapassar as montanhas e se encontrar. Os eventos que começam em “Respeitando as formalidades” continuam nas páginas seguintes, em “A Bela e a Adormecida”. No primeiro conto, temos o ponto de vista de Malévola sobre a ofensa recebida da família de Aurora. Esqueça que ela é uma bruxa, ou fada má; pense nela como uma de suas tias. Leia com atenção e carinho, pois isso poderá lhe poupar muitos aborrecimentos um dia desses. Lembre-se das pequenas formalidades nos batizados, casamentos, divórcios e funerais.

No conto seguinte, que se passa muito tempo depois, a maldição do sono iniciada por Malévola está se espalhando para além das fronteiras, ameaçando o reino de Branca de Neve. Por ter sobrevivido a um feitiço semelhante, ela goza de imunidade. Como boa heroína, vai com seus melhores anões cumprir o dever de uma rainha e resolver um mistério. Não se assuste com os sonâmbulos envoltos em teias de aranha; zumbis são bem piores. Essa história, aliás, está disponível em edição ilustrada por Chris Riddell. O mesmo ocorre com A verdade é uma caverna nas Montanhas Negras, com ilustrações de Eddie Campbell.

Ah, “Um calendário de contos” também faz parte desta seleção. Anos atrás, a BlackBerry convocou artistas para desenvolverem projetos multimídias em parceria com os clientes da empresa. Gaiman entrou no jogo, propondo ideias para microcontos, um para cada mês, a partir das quais os fãs elaboravam frases, que eram retomadas por Gaiman para a construção de sua narrativa. Trabalho colaborativo. Um resultado bastante interessante. E badaladíssimo nos estudos de comunicação e cultura, considerado um marco no uso das mídias sociais para a criação artística.

capa_alertaderisco_webAo mesmo tempo que faz das memórias afetivas sua base de trabalho nesta antologia, o autor não perde a oportunidade para explorar lembranças falhas, imperfeitas ou incompletas. São aquelas histórias guardadas no passado de cada um, ou porque eram segredos ou porque não houve a oportunidade certa para contar. Pode acontecer com seu pai, vide “História de aventura”. Descobrir um pai diferente daquele que você julgava conhecer mudaria sua perspectiva da vida? Nada assustador, veja bem. Ele continuaria a ser o cara legal de sempre, entretanto… Dá para imaginar que o sujeito mais pacato de todos foi um Indiana Jones? Não são os pterodátilos, os astecas ou a garota alemã (que não era alemã) que perturbam o narrador: o impacto é você descobrir que não conhecia o próprio pai, que jamais desconfiou da verdade. De repente, sua vida é uma bolha de ilusões. Os outros sabiam, você não. Uma típica sacanagem de família.

Quanto aos segredos, quanto um garoto pode revelar de verdade sobre sua primeira namorada?  Cassandra é apaixonante, um sonho. Boa demais para ser real? O único jeito de saber é lendo “Detalhes de Cassandra”. Aliás, esta é a prova de que há enredos perfeitos para narrativas curtas.

Quando estiver com Cassandra, lembre que cada um de nós percebe a realidade ao redor de maneira diferente (pois cada um possui uma vivência individual, única e exclusiva). Ainda assim, no entanto, nos esforçamos para construir uma realidade coletiva onde possamos habitar juntos ― quem sabe até ter certa sensação de bem-estar ou alguém a quem amar, alguém que possa corresponder ao nosso amor de preferência. A realidade em que estamos inseridos, portanto, é uma criação coletiva de nossas imaginações, linguagens e narrativas. Criação que começa a ser construída na primeira infância. Ou seja, sacanagens de família importam.

Família sacana é a do Shadow, protagonista do último conto da antologia e também do clássico Deuses americanos (que foi relançado em outubro deste ano, em edição preferida do autor). Se você ainda não leu o romance que mudou a trajetória de Gaiman, tudo bem. “Cão negro” tem unidade de ação, é completo em si mesmo, com início, meio e fim. Aposto que Conan Doyle e Edgar Allan Poe apreciariam, pelo equilíbrio entre mistério, terror e morte. Allan Moore, Stephen King e Clive Barker também. É a única trama inédita da antologia, escrita especialmente para fechar o livro.

Se você ainda não leu Deuses americanos, leia assim que puder. Foi uma revolução em termos de literatura fantástica e quebra de paradigmas. Para os leitores de Sandman, foi a chance de reencontrar o labirinto infinito de mitologias onde todas as divindades coexistem simultaneamente. Para quem descobriu Gaiman nesta obra, Odin e Loki ganharam muito mais significado do que a Marvel pode proporcionar. Pois é, até as famílias de Asgard são sacanas.

É por causa de “Cão negro” que sugiro, ao terminar “Alerta de risco”, aproveitar o embalo e ler (ou reler) “O barril de amontillado”, de Poe. Todo bom escritor remete a outro; estão sempre interligados de alguma maneira. Daí Gaiman fazer questão de Shadow citar Watson ao examinar as pegadas de um gigantesco cão de caça.

Tenho endereço certo em Londres: Baker Street, 221B. Assim sendo, cometi o pecado de não ler a antologia na sequência concebida pelos editores, fui direto para “Caso de morte e mel”, a versão Gaiman para Sherlock Holmes. Foi inevitável imaginar o hilário diálogo entre Mycroft e Sherlock interpretado pelos atores Mark Gatiss e Benedict Cumberbatch. Foi gratificante embarcar na pergunta fundamental: por que Holmes dedicou sua velhice à apicultura? Por que mel seria algo tão importante? Aqui cabe meu próprio alerta: quem leu O último adeus de Sherlock Holmes (His last bow) conhece o desfecho dado por Doyle para a vida de desafios de seu detetive. Gaiman, portanto, começa de onde o cânone parou. Entretanto, aqueles que leram apenas as primeiras aventuras, ou as mais famosas, talvez se surpreendam com as premissas usadas em “Caso de morte e mel”. Desnecessário. Deixem para se surpreender no final.

Gaiman nos bastidores da série britânica Doctor Who (Fonte)

Quanto ao nosso longevo Doutor Who, este é o décimo primeiro, aquele que foi interpretado por Matt Smith. O autor faz questão de definir em qual momento exato da cronologia do Senhor do Tempo seu conto é ambientado. Como fã desde menino da série da BBC e, mais tarde, um de seus roteiristas, Neil estava em casa, na boa — e se divertindo —, ao escrever “Hora nenhuma”. Embarque na TARDIS, pois é hora de salvar o continuum. Mesmo quem não é britânico ou fã de ficção científica vai curtir a viagem.

Sim, Gaiman é desconcertante, por mexer tanto em memórias e famílias; é incômodo quando perturba nossos afetos, questiona o que sabemos sobre as pessoas que amamos – vivas ou mortas. Mesmo assim, ele nos faz querer confiar, querer acreditar. Viver não é mera existência, embora alguns precisem estar no limite, ou diante do sobrenatural, para entender isso. A vida pede sentido e propósito, o que garante bastante complicação para qualquer um de nós. Para isso, é preciso escolher o que lembrar ou o que esquecer. Eis um dilema fundamental, que fica cada vez mais evidente ao longo da jornada. A literatura de Gaiman pode ser excelente companheira e conselheira, mas não espere encontrar nela um lugar seguro.

 

* Mário Feijó é doutor em Letras e professor da Escola de Comunicação da UFRJ, onde ministra a disciplina complementar “Gaiman: do terror ao infantil”.

testeSolidão e lembranças

Outrora o maior detetive do planeta, Sherlock Holmes encontrou uma aposentadoria incomum. Aos 93 anos, ele abandonou seu lendário endereço na Baker Street, 221b, e passa os dias numa pacata fazenda em Sussex, no sudeste da Inglaterra. Como companhia, apenas a governanta e seu filho. Não há a figura do bom Dr. Watson em sua vida.

untitledA memória de Holmes não é a mesma. Buscando evitar que a idade leve consigo sua capacidade de dedução, o ex-detetive viaja o mundo em busca de qualquer solução que o ajude a equilibrar a inexorável luta contra o tempo. Sabendo das propriedades regeneradoras da geleia real, ele mantém uma criação de abelhas e conta com a ajuda do filho da governanta, Roger.

Holmes também registra em diários algumas de suas histórias, como Watson fazia no passado. É a última delas – o caso final do detetive – que Roger resolve ler para descobrir mais sobre o passado daquele senhor de cabelos brancos e olhos sagazes.

É nessa atmosfera que o autor Mitch Cullin retrata a aposentadoria de Sr. Holmes, que chega aos cinemas com a direção de Bill Condon (Amanhecer partes I e II), e estrelado pelo carismático Ian McKellen (O Hobbit, X-Men). Completam o elenco Laura Linney (O show de Truman), Hattie Morahan (A bússula de ouro) e Hiroyuki Sanada (O último samurai).

Confira o trailer do filme:

 

link-externoLeia um trecho de Sr. Holmes

testeAS VÁRIAS VERSÕES DE SHERLOCK HOLMES

Elementar, caros leitores! O infalível Sherlock Holmes foi apresentado ao público em 1887, quando seu criador, Sir Arthur Conan Doyle, publicou o romance Um estudo em vermelho. De lá pra cá, o detetive transformou-se em um dos personagens fictícios mais conhecidos em todo o mundo e foi retratado em diversas adaptações. Uma delas foi idealizada por Andrew Lane que, apaixonado pelas histórias de mistério desde jovem, começou a desvendar a adolescência do lendário investigador de casos aparentemente insolúveis com a série O jovem Sherlock Holmes. Os quatro primeiros volumes, Nuvem da morte, Parasita vermelho, Gelo negro e Tempestade de fogo estão à venda nas livrarias.

Para os fãs que já devoraram todos os livros de Sherlock Holmes, o Blog das Séries indica filmes e seriados de TV que trazem novos casos de mistério inspirados na vida do personagem. Se você já assistiu a algum deles, dê a sua opinião nos comentários!

ELEMENTARY

Jonny Lee Miller interpreta, em uma versão moderna, Sherlock Holmes, ex-consultor da Scotland Yard, que se muda de Londres para Nova York depois de passar por uma clínica de reabilitação para drogados. Seu principal companheiro de investigações, originalmente chamado Dr. John Watson, é agora uma mulher, Dra. Joan Watson (Lucy Liu), uma ex-cirurgiã que perdeu sua licença depois da morte de um paciente. Contratada pelo pai de Sherlock para vigiá-lo, Watson não desgruda de seu pé para verificar se Sherlock está se mantendo afastado de substâncias ilícitas.

SHERLOCK

Grandes fãs das histórias de mistério de Sir Arthur Conan Doyle, Steven Moffat e Mark Gatiss, roteiristas da série Doctor Who, imaginaram como seria se o personagem vivesse no mundo de hoje, tendo toda a tecnologia atual ao seu alcance – incluindo adesivos de nicotina no lugar do tradicional cachimbo. Na série, Benedict Cumberbatch dá vida ao lendário Sherlock Holmes e Martin Freeman é Watson, seu fiel companheiro, indispensável para a solução de qualquer enigma. As duas primeiras temporadas foram transmitidas no Brasil pelo canal BBC HD, e a terceira tem data marcada para estrear nos Estados Unidos em 19 de janeiro de 2014. Não se sabe ainda a data de estreia na BBC inglesa.

O ENIGMA DA PIRÂMIDE

Com roteiro escrito por Chris Columbus (diretor dos primeiros dois filmes da série Harry Potter), com Steven Spielberg entre os produtores, o filme de 1985 é estrelado por Nicholas Rowe, que interpreta um jovem Sherlock Holmes. A aventura se passa em Londres, na época em que o famoso detetive conhece seu fiel escudeiro Watson (Alan Cox). No longa, disponível em DVD, Holmes é um aluno exemplar, bom atleta e está aprendendo a tocar violino. Watson acaba de chegar ao colégio e só pensa em conseguir as notas necessárias para um dia se tornar um médico, como sonha seu pai. O grande mistério começa quando uma série de pessoas comete suicídios muito estranhos, e só resta aos dois tentar solucioná-los.

SHERLOCK HOLMES

No filme dirigido por Guy Ritchie, Sherlock Holmes (Robert Downey Jr.) é um detetive conhecido por usar a lógica dedutiva e o método científico para decifrar os casos nos quais trabalha. Dr. John Watson (Jude Law), seu fiel parceiro, sempre o acompanhou em suas aventuras. Porém, essa situação muda quando Watson decide se casar com Mary Morstan (Kelly Reilly). Isso não agrada Holmes, que precisa do colega para suas investigações. O último caso da dupla envolve Lorde Blackwood (Mark Strong), preso por eles ao realizar um ritual macabro que envolvia o assassinato de uma jovem.

SHERLOCK HOLMES – O JOGO DE SOMBRAS

No segundo filme da série, também dirigido por Guy Ritchie, Sherlock Holmes continua desenvolvendo novos disfarces e maneiras de ludibriar seus inimigos, enquanto John Watson está prestes a se casar e sair numa lua de mel dos sonhos com sua amada, Mary Morstan. A única coisa com a qual o caro Watson não contava era que seu amigo Holmes apareceria com uma nova teoria conspiratória: de que o ardiloso Professor Moriarty (Jarred Harris) estaria por trás de uma série de assassinatos, visando desestabilizar a paz mundial.