testeO que Extraordinário e Pax têm em comum?

Por Sheila Louzada*

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A gente já sabia que ia amar Pax desde que o título surgiu aqui na editora, mas, confesso, eu não esperava que fosse tão bom assim. A história do menino e sua raposa de estimação que se veem separados por uma guerra vai além do conto de amizade e lealdade, permitindo momentos de fofura e leveza mas também levantando vários questionamentos.

A sensação de encantamento com doses de aperto no coração nos lembrou muito um outro queridinho nosso, Extraordinário. (Se você ainda não leu, sério, vai logo providenciar o seu.) Auggie Pullman, o menino com grave deformidade facial que vai frequentar a escola pela primeira vez, tem muitas coisas em comum com Peter, o menino que sai em busca de sua raposa (o Pax) em uma jornada de quase quinhentos quilômetros.

Embora, ao contrário de Pax, Extraordinário tenha recortes temporal e espacial bem definidos, ambos são histórias universais, que mostram crianças diante de grandes desafios. Vou aproveitar a temática e comparar os dois no melhor estilo Charlotte (um conto fofíssimo de Auggie & eu): com uns diagramas de Venn.

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Segundo Charlotte, diagramas de Venn “são muito úteis para explicar muitas coisas”.

Em Pax, Peter é obrigado a devolver sua raposa de estimação à natureza quando o pai vai lutar na guerra e o deixa na casa do avô. Mas, chegando lá, ele repensa o que fez e decide voltar em busca do amigo, custe o que custar. O livro alterna as perspectivas dos dois. Nos capítulos do Pax, ele se vê na natureza pela primeira vez e começa a descobrir coisas fantásticas. Eu posso correr! Eu posso nadar! Caramba, existem outras raposas no mundo! Nos capítulos do Peter, às vezes dava vontade de virar para ele e falar: Você e o Auggie deviam ser amigos! Trocar experiências, jogar videogame… E o Auggie ia adorar mais um amigo, porque o Auggie é muito simpático e aberto a novas amizades.

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Reparem que Peter e Pax também têm muito em comum, não é à toa que eles se dão bem!

É interessante notar as diferenças entre os desafios que os dois personagens enfrentam: enquanto Auggie sofre com algo totalmente externo — a questão da aparência —, Peter lida com um pequeno vulcão que está dentro de si mesmo, uma luta que só ele sabe que está acontecendo.

É claro, o problema do Auggie envolve questões mais graves, já que ele passou por diversas cirurgias e ainda sofre com algumas limitações motoras, mas, deixando de lado por ora a questão da proporção, os “obstáculos externos” proporcionam a vantagem e a desvantagem da percepção imediata. Logo que o vê, a pessoa é levada a uma reação, seja de empatia ou repulsa (é raro ser indiferente). Ela entende que tem alguma coisa acontecendo ali. Auggie sabe que em todo ambiente novo ele vai se deparar com olhares de surpresa, desconforto ou piedade; em boa parte do tempo, ele vai ser tratado de forma diferente, e não há como evitar isso.

E Peter? Peter não tem mãe, mas, fugindo ao óbvio, não é essa a questão que a autora mais explora na formação da personalidade dele, e sim a luta que ele trava internamente contra a própria natureza. Peter herdou do pai a ferocidade. “As mãos estavam sempre fechadas com força, como se ele torcesse para que alguma coisa o fizesse explodir.” O menino reconhece em si mesmo esse risco constante de, como diz, “entrar em curto-circuito”; de entrar em erupção e acabar ferindo as pessoas à sua volta. Mas ele se recusa a tomar posse dessa herança. Por ter crescido sofrendo as dores de ter que estar sempre pisando em ovos, ele tem medo de ferir as pessoas que ama como o pai o feriu. E, nessa luta invisível, o único que vai reconhecer seu esforço é ele mesmo. O mundo lá fora precisa de explicações, e explicar o que acontece dentro da gente não é tarefa fácil.

Por isso, a cada dia precisamos nos lembrar daquele velho preceito:

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>> Leia um trecho de Pax

 

Sheila Louzada faz parte da equipe de literatura infantojuvenil da Intrínseca e nunca teve raposas nem gatos nem cachorros. Tem um pato de borracha chamado Tofu.

testeO editor como artesão

Por Sheila Louzada*

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É como nas fotografias: dê zoom em um inseto ou em uma flor, e você vai ver cada detalhe ampliado de tal forma que assume proporções gigantescas.

Se você faz um livro de mil páginas, o natural é que seu foco seja mais efêmero. Aquela infinidade de frases se dilui, uma se apoiando na outra em uma espécie de companheirismo literário de maneira a formar um elenco sem protagonistas. Um ou outro trecho com alguma dificuldade vai exigir atenção especial, mas o fluxo de ideias se sobrepõe ao efeito individual de cada bloco de texto.

link-externoLeia também: A diferença entre “ler para” e “ler com” uma criança, por Natalia Klussmann

Em um livro sem figuras de uma única lauda, em que espaços em branco são tão importantes quanto imensas onomatopeias coloridas, cada frase e cada palavra e cada mínima pontuação merece uma atenção desmedida. Dos 2.113 caracteres originais, cada um foi pensado e repensado e invertido e observado e testado, desde a tradutora até a designer que convocamos para ler em voz alta para a equipe. Cada item ali tem uma função; cada cor, um propósito. A pizza de goiaba, por exemplo, era originalmente azul-escura, por ser uma pizza de mirtilo. No entanto, a tradução optou por uma fruta mais comum no Brasil — coerente com a escolha do tamanduá em vez do macaco, por exemplo, e com a própria sonoridade mais abrasileirada dos estranhos sons que inundam as páginas 38 e 39 —, o que nos levou a trocar também a cor das letras. Outro exemplo é o “bip bip”, que, embora esteja ali escondidinho entre um extravagante XABLAU e um cativante BOROGOTONGO, não podia ser esquecido, por remeter ao tamanduá robô.

link-externoConheça O livro sem figuras, de B.J. Novak

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Cada frase tem inúmeras possibilidades de escrita, e cada versão tem inúmeras possibilidades de entonação. Vimos isso com mais clareza na gravação do e-book com áudio, em que passamos horas e horas atentos a versões e mais versões de uma mesma frase e tentando decidir qual transmitia melhor a ideia. Um mero “Jura?” pode ser dito de forma incrédula (“Não acredito que estou lendo essas baboseiras”), debochada (“Aham. Sei.”), impaciente (“Será que estou lendo isso direito?”) ou mesmo feliz (“Concordo inteiramente!”).

link-externoConheça o e-book especial de O livro sem figuras com áudio nas vozes de Maria Clara Gueiros e Lúcio Mauro Filho

Experimente. Duvido você ler esse livro da mesma forma duas vezes. E é essa a graça dele: a cada voz, a cada momento, a leitura muda e se renova, e se a graça de um livro com figuras é repetir o prazer da primeira leitura, a graça é esse prazer ser constantemente renovado e jamais recuperado. Haverá infinitas primeiras leituras.

 


Sheila Louzada
, 30 anos, é editora assistente no setor de ficção infantojuvenil da Editora Intrínseca.