testeSilenciar sentimentos implode a alma

Por Pedro Martins*

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Com mais de 200 mil cópias vendidas e milhões de seguidores on-line, o “desenhador de palavras” Pedro Gabriel lançou no mês passado seu terceiro livro, Ilustre Poesia, fechando a trilogia de pré-romance do seu alter ego, Antônio, personagem que há quatro anos vem sendo “escrito, vivido”.

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Frente a uma pilha enorme de pequenos papéis, usados e depois rasgados, Pedro Gabriel, das profundezas de sua alma, deu à luz Antônio, dando corpo às angústias vivalmas: coragem, rancor, liberdade, amor — e à sua ilustre poesia.

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Com o sucesso inusitado nas redes sociais, veio o primeiro livro: Eu me chamo Antônio, uma antologia do início de sua criação, revelando o boêmio apaixonado que era Antônio a discorrer sobre a vida com o pesado traço a nanquim. Após algum tempo, veio o Segundo, quando o personagem sai dos bares em direção ao mundo dos sonhos, enquanto Pedro se aventura timidamente na prosa, valendo-se de parágrafos curtos e isolados. Por fim, entretanto, algumas palavras simplesmente não cabiam mais dentro das fronteiras dos guardanapos. Nem as ilustrações. E, como na primeira vez em que Antônio viu a luz do dia, o poder de encanto de Ilustre Poesia é único.

Se com os dois livros anteriores Pedro Gabriel já havia mudado a concepção de poesia para muitos — especialmente jovens —, algo que acreditavam ser necessariamente acadêmico, chato e distante demais de si mesmos, desta vez fica ainda mais evidente a importância de sermos poetas, ainda que apenas da nossa própria vida.

Ao longo de pouco mais de duzentas páginas, criador, criatura e leitor dialogam uma prosa filosófica sobre a importância de “usar os olhos da imaginação, interagir com a inconsciência e dialogar com o inexplicável”, pois “quem acredita só no que vê não dá espaço à própria poesia”.

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Como o Universo, todos temos buracos negros nas profundezas da alma. Tolo, porém, é aquele que confunde silenciar com exterminar. Como dizia Lavoisier, no auge do século XVIII: “Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma.” Apesar de serem substantivos abstratos, não seria diferente com os sentimentos: mandá-los para buracos negros não os faz se dissipar. Na vida, basta uma faísca para que eles explodam. Silenciar sentimentos implode a alma. E, para discorrer sobre o assunto, Pedro Gabriel chega a se transformar num metamorfo de profissões.

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Universo, galáxias, planetas, estrelas, o Sol e a Lua. Em “À espera de uma colisão”, primeira parte do livro, Pedro assume o lugar de um ilustre astrônomo. Talvez o de um astronauta, também. E por que não o de um editor de astros?

“No céu poético, a galáxia é o poema; as estrelas são as palavras; os planetas, os versos; os asteroides, as sílabas; e o átomo é a letra.”

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Céu, pássaros, mares, oceanos e o corpo humano. Em “A força de um nó frágil”, capítulo subsequente, o poeta se mostra um talentoso geólogo, oceanógrafo e biólogo refletindo: já que o corpo humano é composto por mais de 70% de água, por que não mergulhar dentro de si mesmo?

“Para muitos, existem cinco oceanos em nosso planeta. A poesia discorda. Ela acredita que, se cada pessoa tem a capacidade de fazer transbordar seus sentidos, o mundo deveria ter, além dos seus grandes mares, mais 7 bilhões de pequenos oceanos.”

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Por fim, a própria Ilustre Poesia — Antônio — nos mostra “O destino das palavras”, personificando sentimentos das angústias anteriores à sua criação, quando era usado para limpar mãos engorduradas e logo após descartado — “ah, se soubessem quanto dói…” —, e à felicidade dos dias atuais, por ter conhecido alguém que mostrasse ao mundo sua capacidade de servir também como tela final para uma obra de arte, e não mais apenas um rascunho.

“Eu me chamo Antônio, mas poderia me chamar Esperança. Eu me chamo Antônio, mas poderia me chamar Saudade. Coragem. Amor. Distância. Na fragilidade da minha pele, qualquer delicadeza deixa marcas.”

E você, como se chama? Já parou para dar voz à sua Ilustre Poesia?

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Pedro Martins, viciado em livros, filmes e séries, descobriu a magia por meio dos escritos de J.K. Rowling aos oito anos. Com muita dedicação, essa paixão o tornou webmaster do Potterish.com e o possibilitou escrever sobre literatura para diversos portais, incluindo o britânico The Guardian. Agora, ele tem mais um lugar onde se aventurar: o blog da Intrínseca.

testeNovo livro de Pedro Gabriel

Para onde vão nossos silêncios quando deixamos de dizer o que sentimos?

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Antônio é um personagem de um romance que ainda está para ser escrito e que, entre um chope e outro, despeja frases e desenhos em guardanapos no bar que frequenta. Pedro Gabriel é autor da página Eu me chamo Antônio, no Facebook e no Instagram, que reúne as divagações e os rabiscos de seu alter ego. Antônio pertence à ficção e conquistou mais de 1 milhão de seguidores na internet. Pedro, por sua vez, consolidou seu espaço na literatura com dois best-sellers: Eu me chamo Antônio (2013) e Segundo (2014). Em Ilustre Poesia, seu terceiro livro que chega às livrarias a partir de 23 de agosto, fantasia e realidade colidem. Criador e criatura dialogam por meio de palavras e ilustrações.

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Desta vez, Antônio procura escapulir do confinamento nos quadradinhos de papel dos guardanapos e ganhar a liberdade. Ao mesmo tempo, Pedro Gabriel explora galáxias, as profundezas do mar e os confins da terra em textos de prosa poética que podem ser lidos como uma espécie de correspondência com o personagem. O senso de humor, a irreverência e o gosto pelos trocadilhos são compartilhados pelo personagem e seu poeta.

A relação entre Pedro Gabriel e Antônio começou há quatro anos no balcão do Café Lamas, um dos mais tradicionais do Rio de Janeiro. Pedro costumava passar as noites tomando chope e escrevendo em guardanapos com caneta hidrográfica. Um belo dia, ocorreu-lhe a ideia de fotografar suas criações e compartilhá-las no Facebook. O sucesso foi imediato. Em poucos meses, ele havia se transformado numa verdadeira celebridade da internet.

testeO brilho de escrever poesia em guardanapos

Por Pedro Martins*

Artigo publicado originalmente no jornal The Guardian

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O poeta brasileiro Pedro Gabriel começou a escrever poemas em guardanapos quando estava sem papel. Agora, após dois livros e milhões de seguidores on-line, seus desenhos deslumbrantes estão fadados ao reconhecimento internacional, escreve Pedro Martins, repórter do The Guardian.

Pedro está sempre com a cabeça nas nuvens, fervilhando de ideias numa mistura de palavras que, pelas peripécias do destino, o levou ao estrelato, e seus livros tiveram mais de 200 mil cópias vendidas. Num país onde o hábito da leitura ainda não é tão forte, conseguir ser publicado é algo extremamente difícil.

“Nunca pensei que isso fosse se tornar minha fonte de renda. Hoje em dia, posso dizer que vivo de poesia e de ilustração, mas três anos atrás era impossível pensar nisso”, conta o autor de 32 anos.

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Naturalmente, o que todos se perguntam é de onde veio essa ideia.

“O primeiro guardanapo surgiu quando eu estava voltando do trabalho, certo dia, e tinha esquecido meu caderno de anotações em casa. Você pode ficar parado no trânsito, mas suas ideias não. Eu estava com muita vontade de escrever. Quando desci do ônibus, resolvi ir ao Café Lamas, um tradicional bar no Rio de Janeiro que costumava visitar, e naquele momento a única plataforma que eu tinha para me expressar era a pilha de guardanapos à frente. Então, de uma forma muito natural, comecei a desenhar e me encantei, passei a gostar de me manifestar naqueles pedacinhos de papel tão frágeis.”

Depois disso, Pedro fotografou seu trabalho e criou uma página no Facebook para mostrar sua ideia ao grande público, batizando-a de “Eu me chamo Antônio”. Mas por que Antônio? Por causa de sua timidez.

“Costumo dizer que ele sou eu com um pouco mais de coragem para me expressar. Meu nome é Pedro Antônio Gabriel, mas ninguém me chama de Antônio. Então, ao criar esse alter ego, encontrei uma forma de manter minha identidade sem assinar como Pedro Gabriel.”

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Atualmente, não há mais dúvidas de que cada vez mais a internet se mostra um meio de comunicação infinito. Nada passa despercebido pelos internautas, e não seria diferente com Antônio. Seis meses após o primeiro guardanapo, a página começou a atrair um imenso tráfego de usuários, o que chamou a atenção da Intrínseca, que propôs a Pedro a ideia de levar seu trabalho também para a mídia off-line em forma de livro. O resultado são dois best-sellers no Brasil: Eu me chamo Antônio e Segundo — Eu me chamo Antônio. Um terceiro está a caminho.

“Hoje em dia, tenho quase 1 milhão de seguidores on-line, mas não atribuo meu sucesso a números, e sim ao conteúdo que apresento. Independentemente do número de seguidores, desde o primeiro guardanapo que postei mantive um conceito do Antônio em mente. Os leitores sabem que há alguém como eles por trás de tudo aquilo. Obviamente, esse sucesso também está atrelado ao fato de que escrevo sobre sentimentos universais — os mais diversos tipos de amor, saudade, liberdade etc. —, mas de uma forma diferente, usando um jogo de palavras. É como se eu tentasse retratar um pouco da minha própria vida também”, explica o autor.

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Além de inusitado, o processo de criação do autor também é influenciado por uma pluralidade linguística de berço. Filho de brasileira com suíço e nascido no Chade, ex-colônia da França na África, Pedro cresceu falando francês, mas sempre conviveu numa casa onde “a língua em que nos comunicávamos não era a língua de ninguém”. Aos treze anos, quando veio para o Brasil, sua inexperiência com o português o atiçou a prestar atenção à sonoridade, aos processos de formação e às grafias das palavras.

“Só fui perceber a importância desse período que vivi fora do Brasil recentemente, quando encontrei minha voz por meio dos guardanapos. Além da linguagem em si, toda a riqueza com que convivi nesses doze anos na África foram fundamentais para eu desenhar minha poesia; tudo é um reflexo do que vivi em algum momento da vida.”

O interessante é que, mesmo anos após seu primeiro guardanapo, Antônio ainda tem uma necessidade peculiar ao criar: “Já perdi as contas de quantos guardanapos criei até hoje, mas foram mais de 2 mil. Todos desenhados no Café Lamas. Costumo dizer que meu escritório é o bar, um privilégio para poucos.”

E será que, após milhares de guardanapos, Antônio ainda se surpreende?

“Quando a gente se habitua a alguma coisa, parece que ela começa a perder um pouco do brilho. Por incrível que pareça, ainda sinto muito prazer em fazê-los; ainda me surpreendo com o que tenho a dizer. Claro que não vou me forçar a criar guardanapos novos somente para alimentar o grande público que me acompanha; sempre vou criar em função das minhas emoções. Antônio e as manifestações em guardanapos vão durar enquanto eu sentir verdade nisso. Óbvio que não produzo a mesma quantidade dos primeiros meses, mas sempre que sento no Lamas novas ideias vêm à minha cabeça e saio de lá com uma ressaca de poesia.”

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“Falo com um público eclético. Em palestras que ministro, quando os alunos conseguem enxergar que poesia pode ser feita com um simples ‘jogo de palavras’, começam a enxergá-la como algo interessante. Eu me chamo Antônio também serviu de porta para os mais jovens conhecerem a poesia consagrada. Pelas minhas redes sociais, muitos conheceram Drummond, Manuel de Barros, Paulo Leminski, Arnaldo Antunes e outros fantásticos poetas mestres que me inspiram no dia a dia.”

Para todo escritor, o novo e o desafiador deve ser sempre encorajado. Quando perguntado se algum dia pretende dizer adeus a Antônio, Pedro deixou claro que pretende, sim, aventurar-se em outros mundos, mas que ainda tem muitas ideias inovadoras para Antônio apresentar:

“O primeiro livro é inteiro feito de guardanapos fotografados, e nele fica bem claro que Antônio é um boêmio. Há até uma linguagem de bar, alguns trocadilhos. No segundo, já existem alguns parágrafos isolados, tímidos, e algumas ilustrações, como se Antônio tivesse saído dos bares e entrado no mundo dos sonhos. No terceiro, haverá um casamento muito forte entre o guardanapo e a prosa, com textos maiores. Antônio é um personagem de um romance que está sendo escrito e vivido. Minha ideia é que esses três livros formem uma espécie de trilogia de um pré-romance, mantendo o lado visual, claro, que é minha marca. Talvez uma mistura de graphic novel com prosa”, continua o autor.

Os guardanapos acima fotografados para esta matéria foram retirados dos dois livros já publicados por Pedro, e isso não foi um processo fácil. Não basta escolher um guardanapo qualquer e traduzi-lo; é necessário escolhê-los a dedo, considerando quais são passíveis de tradução, para depois traduzi-los e redesenhá-los, reinterpretá-los.

“Para uma publicação no exterior, eu faria um apanhado de guardanapos dos primeiros livros, como uma antologia, mesclando o que mais gostei dos dois, escolhendo os que são traduzíveis, e adicionaria conteúdos inéditos. Assim acredito que conseguiria entregar um trabalho bacana aos leitores de outros países.”

Para encerrar uma longa conversa por Skype na qual o relógio parecia estar parado, decidi fazer algumas perguntas rápidas que revelam muito sobre uma pessoa:

Um sonho?
Que as pessoas leiam mais e valorizem a literatura, pois aqueles que leem conhecem o infinito.

Um medo?
Que eu perca minha inspiração, a sensibilidade mais bonita que a gente tem.

Em dez anos eu…
Quero ter pelo menos um romance do Antônio publicado e estar mais estabelecido no mercado editorial, com livros fora do Brasil também.

 

Pedro Martins é repórter do jornal britânico The Guardian e webmaster do site Potterish.com.
Redes sociais: Twitter (@ImPedroMartins), Instagram (@ImPedroMartins), Facebook (/ImPedroMartins).

teste[AS RU(G)AS DA INFÂNCIA]

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Não cresci com a presença física dos meus avós. Tanto por parte de mãe quanto por parte de pai, eles sempre foram distantes do meu convívio. Por muito tempo em minha vida, se é que podemos chamar de vida esses primeiros anos de entendimento silencioso da própria existência (sim, a infância é a idade da Filosofia. É o período do espontâneo, no qual nossas ideias ainda não estão corrompidas pelo medo da aprovação. Pena que não nos lembramos de anotar nada, pena que nos esquecemos de registrar tudo. As frases mais bonitas nascem das crianças), em que não se faz nada além de comer e brincar, brincar e comer, meus avós eram espíritos psicografados pela minha imaginação, saídos diretamente dos livros de André Luiz e das mãos de Chico Xavier para o nosso lar, para o meu lar. Ir à rua era, de alguma forma, caminhar até o desconhecido. Era me locomover até o sofá da sala de um apartamento em que eu ainda não vivia. Era ser o gibi da Turma da Mônica de uma banca no Leme que eu ainda não conhecia. Era ser o relógio Swatch com os ponteiros coloridos (o sonho de todo petit suisse!) vendido no quiosque de um país que um dia eu visitaria.

Na avenida Doutor Ênnio, soltávamos pipa até os pés sangrarem e mancharem o chão com a tinta vermelha do esforço da nossa diversão. Só depois de muito tempo é que fui descobrir que as bolhas malcuidadas tinham criado uma cicatriz igualzinha àquela que decora seu nariz, vô.

Na viela Dona Wanda, brincávamos de amarelinha e aos poucos nos convencíamos de que jogar uma pedra no céu é o que a gente passa a fazer eternamente na idade adulta. A brincadeira é exatamente a mesma. As coisas é que mudam de nome. A pedra passa a ser o nosso medo. Tentamos a todo custo evitá-la. O céu agora é o nosso sonho. Só o realiza quem conseguir pular sem perder o equilíbrio (a nossa coragem?) e sem PISAR nos limites das casas (a nossa estrutura?). Ganha quem alcançar o sonho primeiro.

Na estrada Herr Toni quem reinava era o futebol-moleque com a criançada dos bairros vizinhos. O jogo só tinha uma regra: o dono da bola deveria ser paparicado ad aeternum enquanto durasse a partida. Meu time nunca perdeu de sete a um para os alemães, como até hoje são chamados os adversários. A infância não sabe perder porque nela simplesmente não há derrota. Tudo entra na soma de compartilhar a molecagem. Hoje, o Pedrinho me pergunta: será que um dia o Brasil vai voltar a jogar futebol?

Na alameda Frau Lina, uma turma queria ser ladrão, outra desenhava uma estrela dourada no peito e se autoproclamava xerifes do pedaço. Eu sempre ficava do lado da lei. Não sei me esconder e confesso que tenho uma preguiça incalculável de ser perseguido por pequenos agentes de menos de um metro e meio para tomar uma lição de moral. Na moral, o que é moral? E outra coisa: lição se faz na escola. Não na rua. A rua é sagrada. A rua é consagrada aos deuses da brincadeira.

Dos cruzamentos dos avós nascem pais. Das esquinas dos pais nascem os filhos. Só fui conhecer o alívio de ser neto aos doze anos. Até então, eu era um neto parcelado. Ora nas férias. Outrora aos domingos. Mas fazer o quê? A bonança de ser criança também tem suas consequências. Alguém que vive espalhado no mundo não firma base em lugar algum. E nem por isso os amei menos. E nem por isso fui menos amado. É apenas o destino traçando sua cartografia afetiva. Ora aproxima. Outrora distancia. Talvez por isso não bajule companhias nem idolatre presenças. Sempre escolhi me encolher no meu mundo. Quem se encolhe também colhe coisas bonitas. Dentro da gente existe uma plantação de coisas incríveis. Nossas ruas poderiam estar mais próximas, de fato. Mas pense bem: nossos caminhos também poderiam nunca ter se cruzado. Hoje, tenho a mais absoluta certeza de que minha infância ainda brinca nas ru(g)as de trás dos meus avós.

teste[CARLOS, MEU COMPANHEIRO DE VIAGEM]

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Drummond, o poeta, é a encarnação da paz, do sereno. É a bonança míope que perambula pelo mundo, mundo vasto mundo, com seu par de óculos e suas sete faces. É a calmaria em pessoa (Fernando?). Pelo menos é o que sinto quando vejo suas fotografias antigas, quando releio seus poemas sempre novos. Ele sempre escreveu sobre o hoje. A modernidade não seria tão moderna sem seus versos. Carlos, o homem, devia ter seus problemas como todos nós. Talvez se estressasse de vez em quando ao ler uma crítica. Talvez perdesse a paciência numa manhã de domingo. Talvez se descabelasse, mesmo em meio à calvice, ao ouvir uma notícia horripilante. Não sei. Nunca saberei. E não importa. É bom ser gauche na vida de vez em quando também. Se endireitar nem sempre nos trouxe os melhores frutos.

Quando viajo, gosto das longas distâncias. Percorro-as à luz do dia. Não sou daqueles passageiros que adoram dormir a noite toda para acordar só no fim da estrada, no começo do destino. Eu aproveito a viagem como quem aproveita um filme. As rodas do ônibus parecem também fazer girar um trailer da minha vida. As lembranças mais longínquas se aproximam com velocidade e riqueza de detalhes impressionantes. Parece que a infância resolveu se acomodar na poltrona ao lado. Aperto o cinto e sinto o asfalto conduzir minha história. Aproveito cada pedágio (e pago uma dívida com a memória). Aproveito cada placa (e leio as imposições da vida). O Brasil é mesmo imenso. As recordações são mesmo intensas.

Conheço de cor o trajeto Rio-São Paulo. Poderia me candidatar à vaga de motorista, se tivesse CNH. Eu sei que para muitos é difícil digerir isso, mas nunca aprendi a dirigir. Nada contra os automóveis. Tudo a favor da população. Eu sou demasiado distraído para me concentrar por um longo período em uma única (e exaustiva) tarefa. Não quero causar acidentes. Prefiro transformar possíveis incidentes em palavras. Se for poeta, não dirija. Essa mensagem deveria estar impressa nas latas de cerveja, nos maços de cigarro, nos corações desajeitados, nas contracapas dos livros.

Minha preferência pelas quilometragens mais extensas é que elas possibilitam mais tempo de leitura. Podia existir algum programa de milhas por quilômetro lido. Sei lá, apenas uma ideia. Sempre gostei de ler no ônibus. Nunca me deu dor de cabeça. Minha única enxaqueca é quando esqueço de levar um livro ou quando deixo o livro sem querer na minha poltrona. O último foi a reunião de crônicas Ela me dá capim e eu zurro, do Fabrício Corsaletti. Talvez esteja nos Achados & Perdidos, aquele setor que toda rodoviária grande tem (ou deveria ter), mas que nós, passageiros distraídos, nos perdemos toda vez que tentamos achar o que havíamos perdido. E acabamos desistindo dessa busca inútil pela literatura.

Numa dessas viagens, tive a pior experiência da minha vida. Sim, mesmo com 30 anos, acredito que daqui para frente nada será mais desgastante, invasivo e deselegante do que o que aconteceu no dia 14 de junho de 2015. Eu estava voltando da Feira do Livro de Resende e pronto para pegar quatro horinhas de estrada até São Paulo. Coloquei na mochila, como sempre, um livro. O escolhido da vez foi a coletânea A rosa do povo, do poeta mais que brasileiro, mineiro; do mineiro mais que mineiro, itabirano; do itabirano mais que itabirano, Carlos Drummond de Andrade. Até aí tudo bem. Acompanhado de poesia nada é capaz de estragar o meu dia. Era o que eu achava até ouvir os primeiros sons vindos da fileira ao lado. Para ser mais preciso: entre 11h e 15h de um domingo ensolarado. Para ser ainda mais preciso: poltronas 27 e 28 da viação Cometa. Para ser ainda mais e mais e mais e mais e mais preciso: placa LN-3133. Olha, eu já conheci muita gente insuportável, mas acredito ter feito um intensivão de tortura mental com as meninas mais chatas do trajeto Resende-São Paulo. Minto. Do trajeto Resende-São Paulo não, de todo o sistema rodoviário da América Latina. De todo o sistema rodoviário da América Latina não, do mundo. Do mundo não, da galáxia. Da galáxia não, do universo. Do universo não, de algo que ainda não existe e que sem dúvida algum cientista descobrirá e será maior que o universo. Dizem que o Big Bang não foi uma explosão involuntária. Ele foi uma espécie de suicídio do mundo antes do mundo em si existir. Foi um ato de resistência, um gesto proativo de libertação, uma tentativa de escapar dessas duas criaturas humanas que atordoariam o planeta Terra alguns bilhões de anos mais tarde.

Essas damas falaram alto a viagem inteirinha: 440 minutos. Não tiveram nem a dignidade de descer no posto GRAAL, naquela parada de meia hora, e aliviar meus ouvidos por alguns instantes. Tenho raivinha de quem não respeita o ambiente coletivo. Dessas que pessoas acham que o mundo é o quintal da própria casa. E acreditam que podem plantar um pé de fofoca com megafone embutido. Por causa delas, a roleta da esperança de uma sociedade melhor não anda. O mundo pede play; elas são a tecla pause. Espero que futuramente elas encontrem Jesus, Maomé, Buda ou qualquer outra personalidade que pregue o mergulho para dentro de si, em silêncio.

Dizem que ninguém mais lê. Eu até tento. Mas vejo que estamos trocando a contemplação silenciosa das palavras escritas pelo arroto estridente da fala desnecessária. Falar é bom nos lugares certos e no tom certo, evidentemente. Ouvi de tudo (e os outros passageiros também, e o motorista também, e o policial rodoviário também, e as malas no bagageiro também, e a orelha do meu livro, agora vermelha, também): tragédia, traição, religião, maternidade, política, desemprego, sonho, desejo… Parecia spoiler da última temporada de Games of Thrones. Nem nas aulas de matemática do terceiro ano eu me lembro de ter escutado tanto blá-blá-blá. Eu juro por tudo o que há de mais sagrado (um poema do Drummond?) que se eu tivesse uma galinha, uma farofa e uma cachaça barata na minha bagagem de mão, teria feito uma macumbinha de leve para restaurar a paz celestial naquele ambiente ambulante.

Tentei esquecer o meu redor.

A rosa do povo brotou em minhas mãos. Cada verso, uma nova pétala de esperança desabrochava. A Segunda Guerra Mundial e a modernidade do novo Rio de Janeiro, com seus bondes e comércios, nasciam em cada página. Canadá, Moscou, Estados Unidos, Rio de Janeiro. Um pedaço do mundo se escreve ali. Drummond foi (ainda é) nosso melhor professor de história. Não seria essa a função da poesia? Ensinar a realidade do seu tempo com uma camada lírica de esperança?

Drummond diz que a literatura estragou suas melhores horas de amor. Pois eu digo que aquelas meninas trucidaram a leitura dos seus melhores poemas, Carlos. Tenho certeza que Ontem teria me emocionado ainda mais sem o diálogo daquelas duas. Aposto que Consolo na praia teria mil vezes mais significados se não me fosse tirada a concentração. O outro Carlos, o eterno Carlitos, homenageado no último poema do livro, não suportou tanto desaforo e partiu com seu passo característico e carismático rumo aos tempos modernos. Se elas soubessem da existência de sua poesia, talvez a calmaria reinaria nas poltronas 27 e 28 e elas se petrificariam exatamente como aquela sua estátua na orla de Copacabana para contemplar o mar, o mundo, o bonde que não existe mais. Eu até deixaria que elas roubassem seus óculos em troca de silêncio. Me perdoe. É o desespero.

Deveria ser crime hediondo interromper a leitura de um poema. Espero que o STJ leve em consideração esse meu texto e coloque em discussão nas próximas decisões legais. Não podemos mais viver com tamanha brutalidade sentimental. O que será dos nossos filhos? Dos nossos pais? Do nosso país? Não podemos deixar que a rosa e o povo murchem. A rosa e o povo devem marchar para o futuro. Eles vieram ao mundo para florir.

Chegando na Rodoviária do Tietê, num ato deliberado de rebeldia momentânea, li um poema em voz alta. Os passageiros mandaram eu me silenciar.  Em pleno século XXI, a leitura de um poema incomoda mais do que as fofocas em looping de duas meninas insuportáveis. É quase uma heresia. Os deuses da insensibilidade um dia me perdoarão. Enquanto o juízo final não chega, entrego um papel esverdeado e numérico (a modernidade idolatra os números) ao moço uniformizado e, em troca, ele me devolve minha mala, que sufocava no bagageiro. Até a próxima, Carlos. Desculpa ter te colocado nessa enrascada.

A poesia é uma belíssima viagem. Pena que algumas pessoas colocam pedras bem no meio do nosso caminho. Boa estrada, Drummond!

teste[O ÁRABE DO FUTURO: A LEITURA DO PRESENTE]

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Um livro nunca é só um livro. Muitas vezes vem acompanhado por um sopro de liberdade, um desabafo, um ato político, uma forma de escapar à censura. É um desdobramento de mundos, visões, histórias. Quem lê perde fronteiras e ganha criatividade. A imaginação é um território livre, independente, que recusa a presença de interferências externas. Não há poços de petróleo dentro das nossas ideias. Nenhuma “grande” potência vai querer invadir o que a gente pensa (pelo menos até o fechamento deste texto).

Quando a Intrínseca anunciou que publicaria o primeiro volume da trilogia O árabe do futuro, do quadrinista sírio-francês Riad Sattouf, fiquei muito feliz. Sabia que os leitores brasileiros teriam em mãos uma belíssima graphic novel, que pode muito bem ser classificada como livro de história, pois retrata com olhar infantil uma realidade adulta do mundo árabe entre 1978-1984. E, infelizmente, essa visão do menino Riad está mais atual do que nunca. A tragédia no periódico Charlie Hebdo em janeiro desse ano, onde o próprio autor chegou a trabalhar como ilustrador, e as sucessivas guerras estão aí para provar que o mundo está seguindo em frente andando para trás.

link-externoLeia um trecho de O árabe do futuro

Eu li em poucas horas. O encantamento faz a gente avançar nas páginas, mergulhar em cada quadro, esquecer todo o nosso redor. Muito já foi escrito sobre esse livro. Para isso existem artigos muito mais interessantes e completos escritos por críticos muito mais gabaritados sobre geopolítica ou sobre conflitos no mundo árabe. Minha leitura é puramente sentimental. Me prendi aos fatores sensíveis e deixei livres os fatos históricos da obra, riquíssimos por sinal. Enquanto lia, eu anotava. Um livro pode nos captar por um diálogo, uma imagem, uma cena, um diálogo, ou pelo todo. Esse livro foi pelo todo.

A França é uma maravilha. Aqui todo mundo pode fazer o que tem vontade” (p.9). As falas do pai do menino Riad norteiam as páginas do livro, que pode ser considerado uma espécie de autobiografia ilustrada. Nessa graphic novel, talvez o traço mais marcante seja a ilusão de que as “grandes” potências econômicas ditam o que é liberdade. As pessoas esquecem que ser livre é um ponto de vista, ou um ponto de fuga. A definição de liberdade muitas vezes bate asas até pousar em outra interpretação. O pai de Riad, e outros imigrantes, acredita que a França é uma pátria onde se pode fazer de tudo. Onde se é inteiramente livre. Bobagem. São as grades que mudam de formato. Nós nos prendemos a outras coisas. E outras coisas nos prendem. Todos somos livres de alguma forma. Todos somos condenados de algum jeito. O banho de sol pode ser no deserto na Síria ou uma quitinete em Paris.

link-externoLeia também: Revivendo o passado através de O árabe do futuro, por José Messias

[Continua na próxima semana.]