teste[AS RAMIFICAÇÕES DE UM DESTINO ALEATÓRIO]

07.28 - coluna

Observar árvores imensas encolhido debaixo da sombra das folhas é um passatempo que ultimamente tenho escolhido para descansar meu passo, ocupar meu tempo. Parece que Deus está lá em cima. Às vezes, Ele é só uma folha que cai no outono. Noutras, é a totalidade, a floresta inteira. Além da beleza poética, há uma beleza filosófica nesse gesto contemplativo. Muitas questões humanas foram decididas ou resolvidas com um simples (e gratuito) ato de olhar a natureza. A queda de uma maçã, por exemplo, levantou uma dúvida na cabeça de Newton. Ali brotou a inspiração para formular a famosa teoria da gravitação. A humanidade inteira colheu esse fruto.

Enraizado feito menino diante de um armário de brinquedos que nunca alcança, imagino histórias. Se essa árvore fosse uma pessoa, será que ali, em cada percurso de madeira, haveria uma estrada de sacrifícios e de amores? E se as árvores mudassem suas ramificações em função de cada um que passa a admirá-las, como se projetassem ao vivo a nossa história? Se fossem como uma espécie de holograma natural dos nossos sentimentos, uma árvore genealógica, mas que não se limitasse aos nossos antepassados, à nossa família? Se não fosse simplesmente uma representação gráfica para mostrar nossas conexões afetivas? É como se as ramificações dos galhos fossem o epicentro de todos os nossos destinos. O esqueleto da nossa vida. Uma parábola da existência humana. A tecnologia da natureza com sua invejável estrutura de dados. Cada galho, uma escolha. Cada bifurcação escolhida, um destino diferente. Lá em cima, na copa, a esperança balança com o vento. Ela pode se desprender a qualquer momento. Uma saudade antiga vai à esquerda. Uma dor boba se enfia à direita. Viver é seguir em frente.

O amor é o caule que permite o bom funcionamento de toda essa estrutura. Alimentado pelos bons modos e pelas gentis lembranças, resiste a tempestades, flexibiliza-se para não quebrar. Quando quebra, descobre-se que não era tão amor assim. Era algo menor: uma pequena paixão, talvez. Ou ainda uma queda por alguém. Uma quedinha, daquelas que machucam só um tiquinho. Mas acho que a gente exagera na dor que sente. Parece aqueles tropeços na hora do recreio: um tombo cinematográfico no meio do pátio lotado. A gente chora muito mais pela vergonha de ser visto cair do que pela dor do próprio tombo. Os amantes choram pela vergonha de não ter sido amor. Os amores verdadeiros não choram por pequenos arranhões. Dizem que quando somos traídos nascem galhos em nossa cabeça. Bobagem. É no coração de quem trai que nascem espinhos.

Nosso destino será sempre um caminho inalcançável. Quando chegamos, descobrimos que já é hora de partir. O importante é aproveitar cada escolha, da primeira folha à última falha. Afinal não é todo dia que uma maçã cai em nossa cabeça.

teste[A revoada da imaginação] PARTE II

OS PARDAIS DA RUA DE TRÁS

30.06

Eu só parava de pedalar perto de um imenso contêiner vermelho, onde os materiais de construção da casa do meu futuro vizinho eram guardados. Eu também estava em construção. Subia, com a ajuda da ousadia que minha pouca idade permitia, até o topo daquele recipiente rubro-enferrujado e, dali, tinha visão privilegiada para a revoada de pássaros migratórios. Era um verdadeiro santuário que só eu conhecia. Será que eles também seguem um destino? É estranho explicar, mas é como se no céu também houvesse avenidas, placas de sinalização, guardas de trânsito, lei seca… Mais tarde, ao lembrar desse dia, anotei de forma espontânea em um caderninho: Os pardais da rua de trás. Daria um belo nome para uma coletânea com os melhores poemas sobre liberdade.

A liberdade é valiosa.

A índia, recentemente, libertou a liberdade. A corte de Nova Délhi decidiu que os pássaros têm direito a viver com dignidade e voar livremente pelo céu que já abençoou Gandhi. As palavras do juiz Manmohan Singh talvez sejam até mais bonitas que a própria decisão: “tenho claro em minha mente que todos os pássaros têm direitos fundamentais de voar nos céus e que os seres humanos não têm o direito de mantê-los presos em gaiolas para satisfazer os seus propósitos egoístas ou o que quer que seja.” Uma notícia que fez meu coração vibrar de esperança. Viva a Índia! Agora é só torcer para que algumas decisões também sejam tomadas para a melhora das condições de vida dos humanos e que a justiça não vire as costas para as castas.

Hoje sei que essa realidade está mudada, mas até o comecinho dos anos 1990 as crianças tinham o hábito cruel de caçar ou engaiolar passarinhos. Existia um prazer macabro em privá-los de liberdade. O desconhecido era nossa aventura. Andávamos com um estilingue no bolso da calça, a camisa amarrada na cintura e toda a marra possível estampada num rosto pueril de quem ainda não completou sete anos idade. Diferente das pesquisas darwinianas, a gente não capturava as aves para fins científicos ou para redigir estudos sérios sobre a evolução das espécies. Sequer sabíamos escrever direito. Armávamos armadilhas, fazíamos arapucas improvisadas. Prendíamos os pássaros porque invejávamos a capacidade que eles têm de voar. Eles podiam ser o super-homem e nós, homens, não. Éramos covardes. Ainda somos. Mas a vida tratou de nos castigar sutilmente. Passamos a vida inteira comendo alpiste industrial em uma gaiola invisível que nós mesmos criamos. Para a alegria dos pardais, a modernidade matou o estilingue. Para a tristeza dos pais, as crianças agora caçam zumbis sem sair de casa.

Um dia quero assistir de novo a uma revoada de cima daquele contêiner vermelho. Mas, no lugar dos pássaros, quero ver a nossa infância bater asas até pousar nas mãos de Darwin para provar cientificamente que a imaginação é a única espécie que já nasceu em extensão.

teste[Volta ÀS ILHAS] PARTE III

[O CORAÇÃO TAMBÉM NÃO PODE SE DESLOCAR]

19 de maio

Essa é a última parte do meu relato sobre Cabo Verde. Encerro, portanto, essa minha volta à infância como quem tem o desejo de nunca ter saído dela. Descobri que as pessoas são ilhas. Isoladas. Independentes. Mas fortes, quase invencíveis. Mesmo quando moram no continente, elas são ilhas. Um pouco egoístas, mas dependentes dos outros. Um pouco desapegadas, mas não vivem sozinhas. As pessoas são ilhas. Cercadas por uma imensa solidão à espera da saudade, que pode atracar a qualquer momento em algum porto de nossas mais belas lembranças.

Revi minhas irmãs e meus pais e os amigos. Elena, minha sobrinha, gosta de pandas. Quem não gosta? Panda é fofura em estado móvel. Como ela cresceu. Ela até fala, meu deus. Eu fico impressionado. Pessoas nascidas em 2001 já caminham sozinhas! Que mundo é esse! Meu sobrinho Diego sonha em ser mergulhador. Ser tio é ser uma espécie de panda-escafandrista para tentar descobrir o que há debaixo do mar. Esse imenso cobertor solúvel que esconde mais do que revela. E amedronta. Não confio na tranquilidade do mar. Ele dá o bote. Não tem veneno, mas sufoca. Será ele a saudade?

Com a ajuda do meu pai e do Centro Cultural do Brasil, consegui organizar uma apresentação na Biblioteca Nacional de Cabo Verde, no dia 8 de abril. Foi uma noite muito especial profissionalmente – afinal, era a primeira vez que os meus livros atravessavam o Oceano Atlântico e na plateia estavam minhas irmãs, meu pai e muitos amigos da minha família da época que ainda morávamos por lá. São eles que carregam nossas lembranças. A gente se constrói pelo olhar do outro também. É como se cada um fosse um pen-drive com milhões de histórias diferentes armazenadas, prontas para serem reveladas quando o dono do arquivo resolver reaparecer. Pedrinho agora está um pouco maior e mais fofo (será que eu realmente me transformei em um panda como diz minha sobrinha?). #ownnnnnnnnnnnnnnnn

O discurso de abertura foi declamado pelo Ministro da Cultura, senhor Mario Lucio de Souza. Palavras que me tocaram profundamente. Ele reforçou a importância da simplicidade e da ingenuidade na hora de qualquer criação. Aproveitou também para me alertar sobre a dificuldade de se manter simples e ingênuo depois do sucesso. Não basta ter a cabeça no lugar. O coração também não pode se deslocar. Esse momento foi uma oportunidade de reencontrar quem eu tinha perdido de vista há anos – lá se vão duas décadas de ausência. Se não fosse o livro talvez eu nunca mais encontrasse o Carlos, por exemplo. Ou o Djair. Os dois não puderem comparecer fisicamente ao lançamento, mas sempre estiveram presentes nas peladas da rua Flor de Brava, na Achada Santo Antônio – ninguém ganhava da gente naquele bairro. Eles deixaram mensagens emocionantes. Carlos agora vive com a família na Alemanha – virou professor de Kizomba. Djair trabalha em um hotel de Sal, uma das dez ilhas de Cabo Verde.

Tive também a honra de participar de um programa de TV ao vivo. Agradeço imensamente à TCV, a maior emissora do país, pelo convite. A Intrínseca doou 100 livros (50 exemplares de Eu me chamo Antônio e 50 de Segundo – Eu me chamo Antônio) para essa minha viagem. Toda verba arrecada foi destinada à compra de livros infantis para completar a biblioteca de uma escola carente, chamada JULIO COSTA – no bairro de São Filipe, na Ilha de Santiago. Por enquanto, foram arrecadados mais de 80 livros para a mesma. Eu participei diretamente da escolha e da entrega dos livros. Um dia para não esquecer.

Coloquei naquelas prateleiras, e naquelas mãozinhas, edições especiais para crianças e jovens de Fernando Pessoa, Mia Couto, Agualusa e tantos outros. O mais especial talvez tenha sido O Pequeno Príncipe em crioulo – uma edição inédita e raríssima. Deixar poesia talvez seja o presente mais bonito que alguém possa oferecer. Ele se desembrulha dentro da gente até que a gente vire futuro. Saint-Exupéry, que agora voa no fundo de algum oceano, sorri como quem diz: “tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas.”

testeRespostas: Entreviste Pedro Gabriel

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Selecionamos dez perguntas sobre o trabalho e as inspirações de Pedro Gabriel, autor de Eu me chamo Antônio e Segundo — Eu me chamo Antônio. Confira abaixo as respostas do autor.

João Vitor (Facebook) Em outra entrevista, você contou que uma de suas influências é o Paulo Leminski. Sabemos que Leminski transitou pela poesia, Haicai, composições de música, romance e até “quadrinhos”. Você se vê trabalhando com outras linguagens também? Tem algum outro projeto em vista que não os versos de guardanapo?

Sim. Os meus guardanapos acabaram por aparecer mais do que as minhas outras manifestações artísticas, mas eu sempre escrevi prosa, sempre gostei de desenhar. Tenho algumas músicas guardadas também. Mas, no momento, estou me dedicando mais à divulgação dos meus dois livros e na criação de novos guardanapos. Esse ano quero começar a projetar algumas exposições para que as pessoas possam ver os guardanapos originais e ver que tudo ali foi feito à mão, com todo cuidado. Para o início do ano que vem, tenho a ideia de transformar alguns guardanapos em pequenas animações de 30 segundos para um canal no YouTube. Estou conversando com uma produtora, mas ainda é um projeto embrionário. Eu tenho muita vontade de dividir mais coisas com o mundo, acredito que a sensibilidade pode se desdobrar em incontáveis plataformas. Basta ser sincero com aquilo que você acredita.

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Karin Carvalho (Facebook) Se pudesse criar uma linha do seu tempo em imagens e escolher um guardanapo para cada etapa da sua vida, quais você escolheria (infância, descobrimento da adolescência, primeiro amor, ingresso no mundo da poesia, primeira grande decepção e fase atual)? Qual outro acontecimento marcante você incluiria?

Infância: Infância é o que lembro quando esqueço de envelhecer.

Descobrimento da adolescência: Sem mais nem menos, eu divido com o mundo o que quero multiplicar.

Primeiro amor: Primeiro, o encanto. Depois, o desencanto. Por fim, cada um pro seu canto.

Ingresso no mundo da poesia: O poeta é um tremendo filho da lua.

Primeira grande decepção: Alguns amores duram mais porque são menos duros.

Fase atual: Respira fundo. Pela frente, ainda tem muito mundo.

Rosianne Couto (Facebook) Pedro, o guardanapo é usado, geralmente, em cantadas, na pré-conquista. Usar seus poemas “à la pé na bunda” foi uma estratégia para chamar a atenção dos leitores?

Muitos usam o guardanapo para anotar ideias imediatas, esboçar canções ou até mesmo para conquistar alguém. No meu caso, eu uso essa plataforma para exteriorizar o que eu sinto. Não acho que sejam “poemas à la pé na bunda” (risos). Mas essa interpretação depende muito mais do leitor ou da leitora do que de mim. O que posso dizer é que os meus guardanapos são reflexos conscientes ou inconscientes de situações que vivenciei. Eles falam de amor no sentido mais amplo (amor à infância, por exemplo), de liberdade, de saudade. Não teve estratégia alguma. Tudo o que faço nasce de forma espontânea. Sempre segui o coração.

Letícia Caroline (Facebook) Você pretende ou já pensou na criação de uma personagem feminina que poderia até mesmo responder as ~indiretas~ do Antônio?

Criar uma personagem feminina só para responder ao Antônio não está nos meus planos. Não seria sincero da minha parte. Eu estaria simplesmente me aproveitando do sucesso do conceito que criei para ter certa vantagem. Mas, por outro lado, criar uma personagem feminina para um projeto novo, começando do zero, seria um desafio e tanto para mim. Esse caminho me parece mais interessante. Por enquanto, ainda tenho que resolver todas as inquietações do Antônio (risos).

Elaine Stanquewicz (Facebook) Pedro, eu já vi algumas perguntas sobre quais eram os poetas que o inspiravam. Contudo, quero saber se existe algum autor/poeta, vivo ou morto, que você gostaria que lesse e opinasse sobre a sua poesia? Se a resposta for sim, qual autor ou poeta seria?

Olha, fui pego de surpresa. Nunca tinha parado para pensar sobre isso. Vamos lá… Vou escolher um autor vivo e um autor que já nos deixou para responder sua pergunta de forma mais completa. Dos vivos, eu amaria ter uma opinião do Arnaldo Antunes. Dos mortos (se é que podemos em falar de poetas mortos – acredito que todos são imortais), eu citaria o Paulo Leminski.

Andre Cefalia (Facebook) As poesias dos seus livros são escritas em um bar, entre um chope e outro. No dia seguinte, rola um arrependimento de ter exposto seus amores e desamores? Como Antônio combate a ressaca? (Espero que seja com mais poesia. hahah)

Eu sempre saio do meu processo criativo com uma baita ressaca de poesia (risos). Acho importante dizer que o meu escritório de trabalho é, de fato, um balcão de bar, mas o meu material de trabalho é a sensibilidade, a simplicidade do cotidiano. Para traduzir tudo isso em poesia é preciso estar sóbrio. Quem expõe sentimentos sinceros não pode se arrepender. Meu arrependimento maior seria não sentir.

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Caroline Menezes (Facebook) Existe uma técnica para a criação dos seus desenhos — que mesmo simples, encantam — ou eles são fruto apenas do seu talento e imaginação fértil?

A técnica é a paciência e a sensibilidade. Saber dosar o que você sente com o seu desejo de representar em imagem ou palavra aquilo que você sente. É preciso ter paciência para desenhar num papel tão frágil, que pode rasgar a qualquer momento. É preciso ter sensibilidade para interpretar o mundo e colocá-lo naquele espaço limitado pelas dimensões do guardanapo (geralmente 9x13cm) e ilimitado pela alma de quem cria.

Carlos Eduardo Rotta (Facebook) “Todo artista tem um ar triste”. Por que você acha que todos que se relacionam diretamente com arte conseguem sentir a nostalgia, a tristeza e a melancolia com mais facilidade?

Acredito que a arte sirva para trazer de volta algo que parte. Pode ser um amor, um cão, um momento. Eu acho impossível criar sem sentir. E a gente só sente o que vive ou vivenciou de fato. Acho que quando a gente está muito feliz, a gente quer dividir essa felicidade com os que nos cercam. Quando a gente está um pouco mais triste, a gente compartilha essa fina melancolia com a arte. Mas isso não quer dizer que o artista só crie em momentos de infelicidade. O artista cria em momentos de incômodo. Acontece que, muitas vezes, esse incômodo é fruto de uma nostalgia.

@mitgrega (Instagram) Você tem todos os guardanapos guardados? Inclusive o primeiro? Quando talvez nem soubesse que iria publicá-los um dia? O que diz esse primeiro?

Sim. Guardo todos, desde o início. Hoje, tenho mais de 2.000 criações. O primeiro é um dos mais compartilhados nas minhas redes sociais até hoje e diz assim: “Primeiro, o encanto. Depois, o desencanto. Por fim, cada um pro seu canto”. É uma espécie de ciranda das relações modernas.

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@nathalha_moreira  (Instagram) Suíço por parte de pai, brasileiro por parte de mãe e nascido na África. Essa mistura de culturas tem alguma relação com seu trabalho ou até mesmo é uma interferência positiva no que você cria?

Sem dúvida. Nós somos a nossa história. Eu tenho certeza que a minha poesia tem a beleza e a neutralidade da Suíça, a criatividade e o carisma do Brasil e a melancolia esperançosa da África. Sou tudo o que vivo.

teste[VOLTA ÀS ILHAS] Parte I

[A SAUDADE É UMA NOTA VERMELHA NO MEU BOLETIM]

coluna pedro

Recentemente, estive de volta a Cabo Verde, um arquipélago de dez ilhas, na África, onde passei boa parte da minha infância. Dessa vez, um pouco mais adulto, coloquei outros olhos em cada nova paisagem, em cada novo cenário que se desenhava à minha frente. Foi como se eu desfilasse novamente por aquelas ruas, onde outrora jogava bola e bolinha de gude, onde corria até a sola dos sapatos se confundir com a sola dos meus pés, onde comprava pombos só para libertá-los.

A lanchonete do Toni, onde eu comprava toda semana uma barra de chocolate Mars, não existe mais. Eu sempre achava que fazia um bom negócio. Afinal, eu dava uma moeda e recebia três moedas de troco. Para a matemática infantil, três é sempre maior do que um. Quando a gente cresce, a vida nos obriga a calcular de outra maneira. A minha primeira casa perdeu a cor rosa da fachada e ganhou novos moradores: franceses de cara fechada. Lembrei quando eu e minhas irmãs nos pendurávamos no terraço do terceiro andar, amarrados apenas por faixas de judô. Tínhamos uma certeza: a faixa amarela era mais resistente que a branca. Afinal, ela enfeitava a cintura de um aprendiz de judoca um bocadinho mais experiente do que um iniciante nessa arte marcial milenar. A faixa preta, então, devia ser mais firme que o Kevlar. Imitávamos paraquedistas sem paraquedas. Sorte nossa que nosso voo era, de certa forma, estático. Vez ou outra, batia um vento forte. Nessas horas, o judoca-aprendiz-de-paraquedista se tornava religioso nato no ato. Quando se é pequeno não se mede a grandeza dos medos. Aquele desespero que me deu, hoje, com 30 anos, ao pensar que eu fazia aquilo tudo sem pensar nas consequências, só comprova que o tempo tira a nossa coragem, nos torna covardes.

O armazém do Seu Careca, onde todos os dias comprava o pão do café da manhã, agora é uma casa residencial. Deu um nó na garganta. O prédio da minha antiga escola virou um estabelecimento comercial, se não me engano. Não tive coragem de entrar. Não quero perder a imagem que se desenha agora na minha imaginação. Raoni leva a bola para o recreio. Maxime me escolhe pro seu time. As meninas também entram no jogo, mas não porque nós, meninos, éramos open mind ou tínhamos um pensamento avançado pro nosso tempo. Simplesmente não havia garotos o suficiente para iniciar a partida. Eu sei, eu sei, os meninos às vezes são cruéis. Será que o professor Santiago, um francês que dava aula de história e sonhava em ser pintor, ainda espera meu dever de casa? Sempre tive dificuldade com deveres de casa. Para mim, deveres devem ser feitos na escola. Em casa, meu único dever deveria ser brincar de inventar brincadeiras. Em vão, tento explicar aos meus pais o meu desempenho escolar.

A saudade é uma nota vermelha no meu boletim.

link-externoLeia também: [O passado é uma cidade esquecida]

testeResultado: Entreviste Pedro Gabriel

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Recebemos centenas de perguntas sobre o trabalho e as inspirações de Pedro Gabriel, autor de Eu me chamo Antônio e Segundo — Eu me chamo Antônio. Confira abaixo as dez perguntas selecionadas que serão respondidas pelo escritor.

João Vitor (Facebook) Em outra entrevista, você contou que uma de suas influências é o Paulo Leminski. Sabemos que Leminski transitou pela poesia, Haicai, composições de música, romance e até “quadrinhos”. Você se vê trabalhando com outras linguagens também? Tem algum outro projeto em vista que não os versos de guardanapo?

Karin Carvalho (Facebook) Se pudesse criar uma linha do seu tempo em imagens e escolher um guardanapo para cada etapa da sua vida, quais você escolheria (infância, descobrimento da adolescência, primeiro amor, ingresso no mundo da poesia, primeira grande decepção e fase atual)? Qual outro acontecimento marcante você incluiria?

Rosianne Couto (Facebook) Pedro, o guardanapo é usado, geralmente, em cantadas, na pré-conquista. Usar seus poemas “à la pé na bunda” foi uma estratégia para chamar a atenção dos leitores?

Letícia Caroline (Facebook) Você pretende ou já pensou na criação de uma personagem feminina que poderia até mesmo responder as ~indiretas~ do Antônio?

Elaine Stanquewicz (Facebook) Pedro, eu já vi algumas perguntas sobre quais eram os poetas que o inspiravam. Contudo, quero saber se existe algum autor/poeta, vivo ou morto, que você gostaria que lesse e opinasse sobre a sua poesia? Se a resposta for sim, qual autor ou poeta seria?

Andre Cefalia (Facebook) As poesias dos seus livros são escritas em um bar, entre um chope e outro. No dia seguinte, rola um arrependimento de ter exposto seus amores e desamores? Como Antônio combate a ressaca? (Espero que seja com mais poesia. hahah)

Caroline Menezes (Facebook) Existe uma técnica para a criação dos seus desenhos — que mesmo simples, encantam — ou eles são fruto apenas do seu talento e imaginação fértil?

Carlos Eduardo Rotta (Facebook) “Todo artista tem um ar triste”. Por que você acha que todos que se relacionam diretamente com arte conseguem sentir a nostalgia, a tristeza e a melancolia com mais facilidade?

@mitgrega (Instagram) Você tem todos os guardanapos guardados? Inclusive o primeiro? Quando talvez nem soubesse que iria publicá-los um dia? O que diz esse primeiro?

@nathalha_moreira  (Instagram) Suíço por parte de pai, brasileiro por parte de mãe e nascido na África. Essa mistura de culturas tem alguma relação com seu trabalho ou até mesmo é uma interferência positiva no que você cria?

link-externoLeia também as colunas de Pedro Gabriel

teste[O PASSADO É UMA CIDADE ESQUECIDA]

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O passado é uma cidade esquecida e, dentro dela, existe uma casa isolada. E, dentro dessa casa isolada, nossas lembranças ficam soltas, perambulando em cada cômodo para lá e para cá. São inquilinas que habitam em nossos incômodos e não pagam aluguel há um tempo. O remorso de não ter vivido cada uma delas intensamente já amortiza qualquer dívida. O IPTU das mais belas lembranças está quitado até dois mil e sempre. 

Dizem que a lembrança mais bonita se chama saudade. Concordo. É a mais difícil de ser alcançada, a menos fácil de ser puxada da memória. Ela fica no topo de um monte com um monte de ideais confusas em sua volta, tentando impedir que o nosso pensamento vá a seu encontro. Ideias confusas sempre prejudicaram o avanço da humanidade. 

Os habitantes, silenciosos e discretos, só aparecem quando alguém, lá no futuro, sente saudade. Quando alguém se lembra de lembrar, a cidade ganha novas cores, a cidade se alegra. Todos vão para a praça principal rememorar, com faixas gigantescas. Eis algumas: Recordar é viver! , Viva a liberdade de memorização!, ou ainda Fora, esquecimento! Um movimento quase político! Nos livros de história das próximas gerações, esse dia será lembrado como O Dia do Lembro. Se é para a o bem de todos e a felicidade geral da nação, diga ao povo que lembro.

A gente tem essa mania de achar que tempo bom é o tempo que ficou para trás. Como se não conseguíssemos carrega-lo o tempo todo conosco. O passado está sempre presente dentro de nós. A meu lado, desolado, o aldeão mais antigo desabafa: “Ninguém mais se lembra de nós. Somos memórias para pessoas que não se preocupam mais em querer lembrar!”

Ele tem razão. A modernidade guarda a memória em pendrives, HD’s externos, nuvens. A modernidade se esquece que temos a capacidade biológica de armazenar as lembranças mais bonitas em nós. A modernidade não quer perder tempo com histórias memoráveis. Viva a nossa futilidade cognitiva!

O passado é uma cidade esquecida e, dentro dela, existe uma casa isolada. E, dentro dessa casa isolada, a nossa lembrança mais antiga – a anfitriã de todas as outras lembranças – recepciona cada novo morador com palavras saudosistas: “Seja bem-vindo. Por favor, não se esqueça.”

teste[POR QUE JOGAMOS TÊNIS NOS FIOS DE ALTA TENSÃO?]

 

24.03 foto coluna alterada

Calma! Talvez a imagem que tenha se formado na sua cabeça ao ler o título seja a de mais uma disputa histórica entre Nadal e Federer em algum Grand Slam da vida. Infelizmente, eu não tenho conhecimento técnico sobre tênis, o esporte, por isso prefiro desenvolver minha ideia sobre tênis, o calçado. Com o perdão do trocadilho, eu fico em choque quando vejo sapatos pendurados nos cabos elétricos que iluminam os nossos caminhos. O que leva um ser humano provido da capacidade de raciocínio, diante de tantas opções, escolher logo a que parece mais ilógica?

Minha curiosidade sobre esse tema sempre foi grande, mas não a ponto de buscar em livros ou palestras motivacionais respostas plausíveis. Muitos menos mergulhei em teses psicanalíticas que, a meu ver, concluiriam mais ou menos assim: esse fenômeno social está enraizado em nós desde a nossa primeira infância. Nele, o fenômeno, podemos observar claramente a ausência da figura paterna. É um reflexo da própria vida. O cidadão, querendo se ausentar de si mesmo na busca pela presença do pai, se projeta nesse objeto masculino concebido para andar e correr atrás. No fundo, ele decreta sua inércia, sua incapacidade de vivenciar a própria realidade. Vamos deixar Freud e companhia de lado. Fui preguiçoso, confesso. Entrei no Google, li dois ou três blogs, algumas matérias isoladas e, principalmente, caminhei para dentro do meu ser em busca de palavras que pudessem exteriorizar a resposta à pergunta do título desta coluna.

Quem nunca roubou o tênis do coleguinha na hora do recreio que atire a primeira palmilha. Ali, escondidos da censura da idade adulta, estávamos formando futuros jogadores-de-tênis-de-rua. Atletas profissionais, que entrariam facilmente no Top 10 da ATP se tivessem recebido um olhar atento dos nossos educadores desde cedo. É um absurdo a falta de investimento dos nossos governantes com essas jovens promessas! Quem sabe não teríamos uma nova modalidade olímpica para 2016?!

Em muitos bairros do Rio, esse fenômeno tem um lado marginal. Muitas vezes serve para marcar território de gangues rivais ou anunciar algum ponto de venda de substâncias ilegais. Em outras cidades, o fato de amarrar (e não jogar) o sapato de alguém em algum poste de luz tem um valor simbólico. Serve para celebrar alguma conquista importante para o (ex-)dono daqueles sapatos. Às vezes, vale se deparar com a realidade de perder um velho sapato para ganhar um novo fôlego na caminhada dos sonhos.

Eu vejo um lado mais melancólico, o que não deixa de ser bonito. Será que eles se lembram dos seus antigos donos? Será que choram sozinhos ao recordar da simpatia do dedão do pé direito ou da ousadia do pé esquerdo ao chutar uma lata de refrigerante amassada na calçada? Quantas histórias ficaram penduradas nesses cadarços? Eles parecem pássaros aposentados, que esperam para sempre o desejo de poder voar novamente. Se os pombos tivessem pés, já estariam equipados para qualquer maratona de alto nível. Penso logo numa propaganda de um novo tênis de corrida com a etiqueta “made in light” e o slogan-clichê: corra na velocidade da luz! Usain Bolt não curtiu isso.

Imagino a solidão de um tamanho 42 ao se distrair com uma sandália abandonada tamanho 37. Formaríamos um lindo par, pensou ele. A distância é sempre cruel, disse ela. Penso também em um filho perguntando para mãe ao olhar para o fio calçado: poste tem chulé? Às vezes, tenho quase certeza que esses tênis são simplesmente equilibristas invisíveis que trafegam pelo mundo em busca de visibilidade.

Enfim, tudo isso para dizer que a minha conta da Light poderia muito bem se inspirar nessa história, pegar carona em alguns desses tênis abandonados e sumir na velocidade da luz. Antes que ela apareça pendurada no próximo poste da minha rua.

teste[A SENSIBILIDADE NÃO TEM CONCORRÊNCIA]

17.03 -colunapedro

No mundo, a cada segundo, alguém cria algo novo ou dá uma nova roupagem à uma velha ideia. O ser humano nasceu para dar forma aos sentimentos, às sensações, ao inconsciente. Quando falo em criar, não falo necessariamente em obras históricas de artistas consagrados expostas em museus mundo afora. Não falo somente de poetas, músicos, pintores, escritores, roteiristas. Falo também de pessoas que existem mundo adentro. No mundo corporativo, na civilização do terno e gravata, os criativos também estão revolucionando o método de trabalho das empresas. Sim, existe alma nas corporações!

A criatividade sempre salvou o mundo. Desde o Período Paleolítico, com o uso de ferramentas simples usadas para a caça e a defesa, para produzir roupas ou dar luz ao fogo para enfrentar os longos invernos, as mentes criativas sempre movimentaram o avanço da humanidade. Hoje pode até parecer bobo, mas, para a época, uma simples pedra talhada era uma tecnologia de ponta, comparável à popularização da Internet. Foram elas que desenharam o início da inovação. Foram elas que criaram as primeiras possibilidades de globalização. Eu ainda acho as pedras afiadas mais úteis que as redes sociais. Mas, sem a Internet, você não leria essa afirmação: as pedras afiadas foram mais importantes que a Internet. Depois, a invenção da roda permitiu que o mundo pudesse andar para frente, desenvolver qualquer nova experiência humana. A fotografia, a luz elétrica, o ar-condicionado (santificado seja Willis Carrier!) e tantas outras criações humanas permitiram que a humanidade sempre encontrasse uma forma de se manter viva (não necessariamente evoluindo).

Acredito que, hoje, depois de milhões de anos de downloads de ideias, o grande desafio do ser criativo é saber como se diferenciar nessa multidão de mentes criativas que nascem diariamente; como sobreviver a esse bombardeio de informações; enfim, como dar uma luz à uma ideia mais bacana do que as milhões de outras ideias que estão em gestação na mente do seu vizinho, da sua amiga, daquele senhor que lê o jornal no metrô. A grande pergunta que você deve se fazer é: qual é o seu diferencial? Falar inglês? Dominar o pacote office? Quinze anos fazendo as mesmas tarefas no mesmo cargo? Isso tudo é muito igual à maioria dos seus concorrentes criativos. Quase todo mundo que teve as mesmas condições de vida que você sabe falar mais de um idioma. Quase todo mundo que estudou nas mesmas condições que você tem o domínio dos mesmos diferenciais. Quase todo mundo que convive no mesmo cerco cultural que o seu tem as mesmas condições de ter acesso às mesmas informações. Isso é ótimo para nosso enriquecimento pessoal. Mas não é nada bom quando o mundo busca cada vez mais características cada vez menos presentes nos seres humanos: a sensibilidade, a percepção e, principalmente, a originalidade. Seja original. Olhe para dentro de si. O mundo inteiro pede para pensar fora da caixa; eu digo pense dentro da sua caixa: ela é o seu mundo. Lamento informar: pensar fora da caixa já virou mesmice.

Mas, então, o que você tem de fato de diferente? A sua história! Originalidade, na minha opinião, é entender tudo o que já foi criado, é absorver o que o mundo nos dá e associar todas essas informações com o seu banco de memória, com sua dose de sensibilidade, com sua percepção de mundo. Ninguém pode plagiar a sua vida. Ela não é uma camisa preta, vendida a R$19,90 em um shopping center. Ninguém pode copiar a sua infância. Ela não é um pote de plástico com tampa roxa, onde a humanidade guarda o arroz de ontem. Ninguém pode imitar a sua memória. Ela não é um pendrive de 64G, nem pode ser encontrada em qualquer caixa de supermercado a preço acessível. Sua vivência não tem preço. Sua experiência tem um custo imensurável.  Ninguém pode dar ctrl c + ctrl v no que você sente. A sua sensibilidade não tem concorrência.

teste[O ÚLTIMO HABITANTE]

10.03- pedro gabriel

Encontrei um novo lugar para passear com as minhas ideias, para papear com meus silêncios. Um lugar não muito longe de casa. Gosto de lugares assim: distantes do meu quarto, pertinhos de mim. Na exata distância entre a vontade de fugir para sempre e o desejo de nunca abandonar o meu lar. Se por ventura enjoar dessa aventura, volto para o meu refúgio. Se por acaso me encantar por lá, fico por ali horas e dias e meses e anos e séculos. Confesso: é um pouco covarde fugir para perto de si, para perto de um lugar seguro. Mas seria bem pior fugir de outra maneira. A pior fuga é para dentro da gente. A gente esconde até da gente que está indo embora…

Meus domingos têm sido assim. Antes das dez, já ocupo meu lugar no banco mais bonito do jardim do Museu da República. São todos iguais, mas ele é mais bonito. Ele é verde-militar, como os outros (continências!). Ele tem o mesmo comprimento que seus vizinhos estáticos. Mas ele tem cara de ser o morador mais bacana do prédio. Ele também descasca, talvez até mais que os demais. Sua madeira deve ter mais cupins do que a democracia tem inimigos. Mas ali encontrei meu conforto. É bom saber que existe um canto de paz ao lado de tantos conflitos. Seus parafusos já estão enferrujados, sinto que ele pode quebrar a qualquer momento. Belíssima tradução da vida. Se existisse uma exposição onde se pudesse entrar sem indicação, colocaria esse mesmo banco no final de um imenso corredor de sei lá quantos quilômetros, com o título: A DUREZA DA FRAGILIDADE DA VIDA. Todo mundo que conseguisse chegar até o último centímetro desse caminho sentaria neste banco apodrecido, mesmo sabendo que ele poderia romper a qualquer momento. Mesmo com um aviso bem grande: “FRÁGIL”. A preguiça é sempre maior que o medo. Quantas ideias não foram realizadas hoje pelo susto que dá não saber do amanhã? Quantas?

Um senhor lê seu livro para tapar a solidão. Minha miopia não conseguiu descobrir qual autor lhe fazia companhia. Pela tristeza do seu olhar, aposto que nem lia o livro. Ele lia sua vida. Na página 17, se formou em engenharia mecânica numa universidade federal. Na página 35, jurou amor eterno à sua noiva em uma igreja católica. Na página 48, salvou um menino de afogamento na praia do Leme. Na página 72, seus netos já chegam por osmose para o almoço de domingo. Na página 92, ele caminha com duas enfermeiras – a partir de uma certa idade, nossos parentes mais próximos se vestem de branco – e uma cadeira de rodas. Depois da página 100, ele só consegue entender o mundo com a ajuda de aparelhos. A vida é assim: um livro de, no máximo, 107 páginas. No posfácio seremos todos esquecidos. Os direitos autorais irão para um autor desconhecido.

Uma senhora com a voz desafinada pelo tempo e pelo cigarro (duas companhias que não costumam perdoar), entona os versos melancólicos de “Fascinação”. Ela deve ter aprendido a cantar com a versão original de 1943, do saudoso Carlos Galhardo. “Os sonhos mais lindos, sonhei”… Tenho certeza que, na sua existência, ela também ergueu um castelo, e que o seu olhar, tonto de emoção, viu amanhecer muita sofreguidão. Eu chorei. Para me alegar, gansos tentam ler o que escrevo. Os patos parecem rir enquanto conversam. Será que são felizes? A felicidade não compreendida é uma ilusão. Ele pode estar triste, triste, tristinho esse patinho! No lago, peixes vermelhos e carpas fazem mais sucesso do que em qualquer cardápio nipônico. Que fome!

Sei que aqui, onde hoje é o museu, as principais decisões políticas do país foram tomadas na década de cinquenta. Sei que muitas leis andaram nesses corredores; sei que muitos interesses se enfiaram nessas salas; sei que muitas pressões se apoiaram nessas mesas; sei que muitos escândalos dormiram nesses quartos; sei que hoje tudo isso é museu. Infelizmente, sei também que tudo isso continua a habitar outros palácios.

De que adianta se deslocar para tão longe sem querer mudar o que está tão perto? Às vezes, buscamos a liberdade em lugares cada vez mais distantes. Às vezes, esquecemos que nós mesmos temos fronteiras imensuráveis. Que não precisamos de visto para nos enxergarmos melhor. Que não precisamos passar pela alfândega para entrar dentro do nosso próprio território. Tem gente que insiste em pedir impeachment dos próprios sonhos, mas esquece que sonhar ainda é a mais bela democracia.

No andar de cima, a mancha de sangue no pijama listrado se nega em admitir o suicídio do seu último habitante.