testeA poesia pode andar de chinelo

21.06 colunapedrogabriel

Quando a caneta encosta na página em branco, não solta somente uma tinta preta; também liberta nossa sensibilidade, deixa fluir nossa história. O que escorre do nanquim a gente não escolhe — nunquinha! O que sentimos simplesmente vem, sem pedir licença (poética?).

Na tinta há um tanto do que lemos. Na tinta há um tanto do que ouvimos. Na tinta há um tanto do que amamos, do que silenciamos. Na tinta há um tanto de abandono, desespero, amparo. A escrita é uma espécie de disfarce revelador. Ela materializa o que tentamos esconder constantemente. A escrita é uma espécie de escuridão transparente: esclarece o que não temos coragem de acordar. Se por um lado nos preserva com nomes de personagens e histórias que supostamente brotaram da imaginação, por outro abre nossa gaveta mais íntima sem que a gente perceba. Ninguém inventa histórias. O que se inventam são mecanismos, processos e formas de contar o que já existe, adormecido, dentro de nós. A imaginação nada mais é do que um despertador de realidades. Cada um sabe a hora que prefere despertar.

Sempre fui mais apegado aos autores e às autoras que descomplicam a poesia. Posso citar Arnaldo Antunes, Mario Quintana, Manoel de Barros, Marcelino Freire. Gosto dos que falam de profundidade com uma aparente superficialidade. Não que sejam de fácil leitura, mas que não tenham a prepotência no discurso, o nariz em pé na palavra ou salto alto nas mãos.

O estereótipo do poeta tradicional nunca me agradou: cabelos grisalhos, óculos redondos, paletó bege com cotoveleira de couro, sofrimento, solidão, e mais sofrimento, e mais solidão. O estereótipo do poeta tradicional parece não combinar com o verão. Aos olhos do mundo, precisa ser inverno: ver neve onde poderia muito bem haver areia. O estereótipo do poeta tradicional parece não ornar com o sol, o calor, o suor, a bermuda. Besteira. Para que tanta pose para escrever poesia? A poesia também pode — e deve — usar chinelo de vez em quando. (Só não se esqueça de cortar as unhas dos pés).

testeMeu best of 2015

Meu best of 2015

Todo escritor deve ler muito. É um chavão, mas daqueles que abrem enormes portas. Tento seguir a dica à risca, mas nem sempre consigo. Este ano, por exemplo, decepcionei: li 27 livros. Uma vergonha para um escritor, admito. Se fosse um campeonato, eu teria caído para a segundona. Ainda mais porque, outro dia, conversando com uma leitora, num dos lançamentos do meu livro, ela contou que já tinha lido 110. Cento e dez vezes trezentas páginas, em média. Isso dá página a dar com pau! E estávamos ainda em novembro!

“Ei, garota, o que a senhora faz da vida? Só lê? Que sorte, a sua!” Mas tenho boas desculpas para minha baixa efetividade. Até maio, eu estava envolvido com o Surpreendente! Desde novembro, estou envolvido com o novo livro. Nesse meio-tempo, eu… Bom, nesse meio-tempo tive que ensaiar minha banda, trabalhar, dar conta da mulher, das crianças, da louça, trocar lâmpadas, responder a e-mails, passear com o cachorro, pendurar roupas, dormir (porque ninguém é de ferro)… É melhor parar por aqui. Vinte e sete está passando de bom!

Enfim, após o parágrafo da mea-culpa, trago os melhores entre os que li em 2015. Se não foi grande a quantidade, ao menos posso dizer que tive bons momentos. E isto é o mais importante: quanto me diverti, me emocionei e, no fim das contas, aprendi. Não farei resenhas. Há muitas delas em blogs ótimos, com críticas profundas e embasadas. É apenas meu best of — dicas para quem, ao contrário de mim, vai tirar merecidas férias e terá tempo de ler tudo o que quiser; a singela contribuição para aqueles que, em 2016, não pretendem ter uma performance tão vexatória quanto a minha. Vamos lá:

1. Caixa de pássarosJosh Malerman: tinha ouvido falar muito bem do livro e estava na minha lista de compras. Quando conheci pessoalmente o Josh, durante a Bienal do Rio, fiquei com mais vontade. O cara é um doce de pessoa, e não dá para entender como, por trás daquele jeito bonachão, existe uma mente tão diabólica. Um thriller original e de arrepiar.

2. Ele está de voltaTimur Vermes: achei a capa perfeita e a premissa instigante. O livro se revelou engraçado e inteligente. Se eu fosse alemão, certamente daria mais risadas. Imaginar o próprio Hitler transportado no tempo, para os dias atuais, foi uma grande sacada. Não consegui deixar de pensar no Inri Cristo…

3. Como eu era antes de vocêJojo Moyes: o primeiro que li, logo após entregar meu livro para a editora. Aliás, ganhei o livro da própria Intrínseca, cheio de boas recomendações. Uma história que eu gostaria de ter escrito.

4. Surpreendente! – por motivos óbvios, o livro que mais me marcou em 2015 e que está me levando a lugares que nunca imaginei.

5. Segundo — Eu me chamo AntônioPedro Gabriel: o Pedro é um poeta raro, criativo, sucinto e profundo, tudo ao mesmo tempo. O trabalho editorial do livro é muito bom. Eventualmente abro numa página qualquer e fico admirando a simplicidade dos poemas. Como sempre digo: o difícil é ser simples.

6. Toda luz que não podemos ver Anthony Doerr: quando a gente acha que o tema da Segunda Guerra já deu, que esgotou e não tem mais como sair algo novo, surge essa belíssima história, muito bem contada e emocionante. Há muito tempo um livro não mexia tanto comigo. Obra-prima.

teste[O ESBOÇO DO INFINITO]

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Quem vê apenas o resultado de um trabalho acha que o processo foi fácil. O esforço geralmente é esquecido. Os bastidores nunca são lembrados. O aplauso é sempre para o palco. Muitos acham que já nasce pronto. Dizem: “Ah, isso aí até eu faria.” Ou ainda: “Até minha sobrinha de 3 anos desenha melhor do que você.” Particularmente, acho isso ótimo. Um ser que consegue desdobrar a sua sensibilidade a ponto de ela ser entendida de forma simples é um ser nu, vestido apenas com a sua verdade — ou aquilo em que acredita.

A maioria pensa que o criador da ideia é o artista. Mentira! Quem cria o artista é a ideia. Sem ela, não há arte. E ter uma ideia não é um parto rápido, como muitos pensam. Criar não é uma atividade mediúnica, nem única, como tantos outros imaginam. As ideias não ficam perambulando por aí no cosmos à espera de uma alma sensível para resgatá-la. Ideia nasce da dor. Não necessariamente da dor física. Pode ser da dor da espera. A espera de uma página que demora a ser preenchida. A espera de uma partitura que custa a receber a chegada de suas notas. A espera de uma tela que não sabe dar boas-vindas às cores. A ideia é tudo o que envolve o processo criativo, do esforço para domá-la até o esboço para mostrá-la. Quem não conhece os bastidores da criação não sabe a dificuldade que é tornar fácil um espetáculo.

Eu gosto dos rascunhos e sempre gostei dos esboços. Acho que eles são a representação mais pura da alma. Quer conhecer alguém a fundo? Peça seus cadernos de ideias ou seus bloquinhos de anotações espontâneas — os famosos sketchbooks. Ali, o artista não tem obrigação alguma com a estética ou com o resultado. Por isso, consegue ser plenamente sincero com o que acredita e sente. Ideias espontâneas são despedidas que não têm a finalidade de chegar. Aliás, o destino dos esboços é justamente se destinar a não ter destino. Nessa relação artista-ideia-ideia-artista, há apenas um exercício – um diálogo entre o criador e a sua sensibilidade.

No meu caso, quando comecei a desenhar em guardanapos, tudo aconteceu de forma natural. Tão natural que a impressão de quem acompanha superficialmente meu trabalho é de que foi tudo muito fácil e não envolveu esforço. Mas meu primeiro guardanapo levou 29 anos para ser desenhado. Foram quase trinta anos de gestação, absorvendo todas as referências que o meu mundo me oferecia grafica ou sonoramente. Até o espontâneo precisa de um planejamento demorado, intrínseco, imperceptível, inconsciente. Enquanto isso a ideia está lá, silenciosa, se alimentando das suas leituras, das suas conversas e dos seus amores. Hoje, consigo exteriorizar uma ideia tão rápido que parece que foi jogada ali sem pensar. Mas é que, por dentro, tenho um acúmulo de sensibilidades querendo aflorar. Uma ideia são dois partos. Primeiro, ela precisa nascer dentro de você. Depois, ela sente necessidade de ganhar o mundo.

Nas minhas criações, a sensação que tenho é de que sempre falta alguma coisa. Há sempre algo de incompleto. Um espaço em branco, um traço a menos, uma letra que escapa. Sei lá. Gosto dessa sensação de inacabado. O inacabado é o esboço (e o esforço) do infinito.

teste[SEU ANTÔNIO, O BIRDMAN TUPINIQUIM]

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Não, prezado leitor, não é nenhuma resenha sobre o premiadíssimo filme Birdman. Não há spoiler nas palavras que virão. É um texto sobre um homem simples que não virou super-herói, muito menos conheceu a glória das estrelas de cinema. Seu brilho está no anonimato. Ali, na garagem do edifício Grace, numa das ruas que cortam o charmoso bairro de Moema, seu Antônio brilha todos os dias, no mesmo horário. Os olhos atentos dos faróis dos carros enfileirados iluminam o palco improvisado. O Fiat Uno parece ser o mais animado dessa plateia motorizada. Dizem os mais antigos moradores que nem o pneu de uma Ferrari teria capacidade de cantar mais afinado do que aquele senhor. Todo dia, logo cedo, ele começa o show. Gratuito. Tem uma alma nobre, não precisa de dinheiro. De noite, responde carinhosamente por seu Antônio, o porteiro-faz-tudo do prédio. De dia, volta à realidade e ganha a fama como o Senhor-Homem-Pássaro da alameda dos Tupiniquins.

Fato é que seu Antônio nasceu muito antes de Riggan Thomson ou de seu intérprete, Michael Keaton. Até os quarenta anos não tinha vocação para soltar a voz. Não tenho dados concretos sobre a data exata do nascimento de sua genialidade sonora, mas é talento nato. Não é algo que se aprenda nas aulas de canto nem em algum workshop promovido pelo reino das aves. É algo que brota do nada. Quando ouvimos, já estamos hipnotizados. Seu Antônio tem um poder que todos gostariam de ter. Talvez o único argumento que o faça entrar algum dia na lista dos grandes heróis da cinematografia seja seu superpoder: o assobio. (Ou seria assovio? Deixo essa dúvida com meu editor). Falo aqui de um herói do cotidiano, um ícone do dia a dia, um gênio sem holofotes, um homem que cantarola suas fraquezas a plenos pulmões. Eis aqui, senhoras e senhores, um pacato cidadão que faz biquinho — será que, além de tudo, também fala francês? — e solta uma encantadora melodia que invade os dez andares do prédio, os quarenta apartamentos, os cento e vinte e três moradores, os duzentos e quarenta e seis ouvidos. Até o síndico seria capaz de derramar uma lágrima e interromper seu espírito ranzinza para pedir um autógrafo ao nosso birdman.

Seu Antônio é um cara (pássaro?) realizado. Recusou um monte de bicos, desculpe o trocadilho, que poderiam mudar sua vida radicalmente. Disse não ao ser convidado para ser o compositor exclusivo da trilha sonora de um jingle fofo de uma marca de celular; negou os pedidos incessantes da equipe de marketing do Metrô Rio para regravar o insuportável canto dos pássaros de algumas estações (era sua chance de brilhar em outro estado, mas ele é feliz com a fiel plateia do edifício Grace); por fim, cagou e voou para o interesse de uma das maiores gravadoras da América Latina — a promessa era lançar um disco que, segundo os especialistas do mercado, venderia mais do que qualquer álbum do Roberto Carlos: Seu Antônio & As Penettes de Ouro. Uma coisa é inegável: seu Antônio não se ilude facilmente e mantém sempre as patas no chão.

Todos os hits dos anos 1980, os maiores sucessos da bossa nova, os grandes êxitos do rockabilly, de Mozart a Mc Melody — tudo, tudo, tudo passa pela traqueia desse nosso homem-pássaro. A única explicação humana para esse fenômeno é que ele tenha engolido uma jukebox quando ainda era passarinho. Tom Jobim ficaria espantado com tamanha afinação da mais nova espécie de pássaro da fauna brasileira. Quantas calopsitas ele levou para o ninho com esse canto sedutor? “Sexual Healing” é pinto perto do talento bucal do nosso Marvin Gaye alado. Mas, apesar de toda a possibilidade de fama, ele prefere brilhar sozinho, sem julgamentos. E, quer saber, ele está certo: algumas coisas ficam mais bonitas quando permanecem intocadas.

 

Encerro meu texto por aqui, querido leitor. Lá embaixo, na garagem, seu Antônio começou a assobiar. (Ou assoviar? Espero que meu editor tenha se decidido).

teste[AS MUITAS VOZES DE BETA D´OZ Y REÁS]

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Quando completei 28 anos, meu grande amigo Chin Chan me presenteou com o clássico Muitas vozes, do poeta Ferreira Gullar. Ele me ofereceu a primeira edição, publicada em 1999, pela José Olympio. Visivelmente, o livro não era novo. A capa já estava um pouco desgastada e as páginas começavam a amarelar — algumas, inclusive, estavam um pouco corroídas por alguma traça intelectual, que hoje deve estar dando oficina de poesia em alguma prateleira dos sebos deste mundo. A temática da morte é muito presente nos 54 poemas apresentados ao leitor e à leitora. Vamos combinar: não é um presente que se dê em um aniversário, data na qual se costuma celebrar a vida, a chegada ao mundo. Mas ele me conhece, sabe que sou apaixonado por qualquer coisa que envolva palavra e sentimento.

O livro ficou esquecido na prateleira da casa da minha mãe. Não que eu não tivesse gostado do presente, mas alguns são feitos para desembrulhar no futuro. Livros de sebo preservam alguns mistérios. Mais do que livros, são enigmas. Histórias dentro da história. Uma parceria involuntária entre o autor original e o último leitor, que coloca ali suas marcas, suas anotações, seus recados, suas indiretas analógicas. Às vezes, somos presenteados por uma poesia escondida. Por isso, gosto de explorar esses livros. Eles sempre vêm com um nome, uma dedicatória, algo a descobrir. Deixo de ser leitor e passo a ser um arqueólogo das palavras. A página passa a ser meu território de estudo, meu campo de exploração. Quem compra um livro num sebo nunca lê somente o autor que estava procurando, mas a história completa daquele exemplar. A gente passa a ler a leitura de quem o leu antes. É uma obra única, mesmo tendo sido republicada incontáveis vezes. Só aquele exemplar carrega no DNA a memória de todas as mãos que ousaram abri-lo. Só aquele exemplar carrega no GPS o endereço de todas as prateleiras onde ficou enfileirado à espera de uma oportunidade de encantar algum humano curioso. (O livro só quer isto: poder encantar). Só aquele exemplar carrega o que o último leitor não quis levar. A poesia, mais do que nas palavras, está nas margens

Sabe aquele livro que fica esquecido por dias e dias, meses e meses, anos e anos, até que, em determinado momento, alguma coisa diz que chegou a hora de encará-lo? Ontem, esse dia chegou para mim. Há três anos, Muitas vozes gritava na gaveta do meu quarto, e só agora me sinto pronto para emprestar-lhe meus ouvidos. Logo na abertura, antes do sumário, um nome escrito a lápis, quase apagado, me salta aos olhos: Beta. Mais embaixo, o valor do livro, R$ 12, também redigido à mão. Pelas mesmas mãos, presumo eu: a caligrafia é idêntica. Se eu demorasse mais alguns anos para lê-lo, talvez essas informações fossem apagadas pela borracha do tempo. O destino me deu ainda uma oportunidade de tentar decifrar ou entender a última leitora daquela obra. Ela agora tem nome: Beta.

Beta marcou um X — aliás, dois X — nos poemas que, suponho eu, mais amava. É apenas uma suposição, porque imagino que ninguém perca tempo marcando aquilo que mais odeia. Acredito também que ninguém tenha tamanha dedicação para destacar o que não aprecia. Leio o livro pelos poemas que ela selecionou. Beta se tornou uma espécie de conselheira editorial, fez um freela por conta própria para organizar os sentimentos alheios. Benevolência, eu diria. Não ganhou nada. Será que brigou com o pai? Com o namorado? Com a namorada? Será que Beta perdeu alguém ou anda triste sozinha?  (Às vezes, a tristeza vem do ganho). Beta me parece melancólica. Escolheu versos que falam de morte e poesia, o que parece ser a mesma coisa. Espero que seja só uma ilusão. Todo mundo merece ser feliz. Até quem desconhecemos. Até você, Beta!

Pelas informações obtidas, imagino que seja uma mulher recentemente apaixonada pela poesia. Ou pelo Gullar. Ou presenteada por alguém que amava. Ou apenas um codinome para esconder seus desejos. E Beta, na verdade, se chama Vinícius. Prefiro acreditar na verdade de quem se confessa. Não há motivo algum para mentir na dedicatória de um livro, ainda mais de poesia (ninguém lê, ninguém lê, ninguém lê).

Li o livro de Beta. Gullar foi só um call-to-action. Uma jogada de marketing para chamar a atenção de quem não quer enxergar a beleza da poesia contemporânea. Viva Beta! O meu exemplar de Muitas vozes é uma obra de Ferreira Gullar e Beta. Beta de quê? Todo poeta precisa de um nome composto para ser lido com respeito acadêmico, ora, ora! Beta Doze Reais? Não, muito pop. Que tal Beta D´Oz y Reás? Um sobrenome gringo. Isso é bom! Isso ajuda a vender! Em breve, algum jornal colocará na manchete: “CONHEÇA TODA A GENIALIDADE DE BETA D´OZ Y REÁS, A MAIOR POETA QUE JÁ EXISTIU”. E ela publicará sua obra completa num único livro, que, obviamente, será sucesso editorial. Ela bombará no Face, no Insta, no Twitter e no Snapchat! Paródias surgirão: Beta dos irreais? Não sei se Beta está viva ou se de fato existiu um dia. Beta agora se silencia. Este é o fim — duplo sentido — da poesia.

teste[O PLÁGIO TEMPORÁRIO]

 

Na imagem: ideias extraídas de uma simples coluna no jornal Rascunho (setembro, 2015)

ideias extraídas de uma simples coluna no jornal Rascunho (setembro, 2015)

Muita gente me pergunta como venço meus bloqueios criativos. Bom, existem infinitas maneiras. Vou apresentar a forma mais comum de se enturmar com o mundo das palavras. Não é uma solução; é apenas uma sugestão. Pode não funcionar para você, mas muitos artistas se inspiram em notícias de jornais para dar um start ao stop de ideias. É um exercício muito simples. Bastam uma caneta, um jornal ou uma página solta de qualquer notícia e, o mais importante, seu olhar sensível e atento. É esse gesto contemplativo que vai diferenciar o resultado da obviedade dessa prática. O importante é criar e deixar sempre o cérebro pronto para captar o que o cotidiano oferece.

Tenho um pequeno ritual. Gosto de sair cedo pelo meu bairro, comprar um jornal impresso (se não sabe o que é isso, sugiro dar um Google) e pedir um café no mesmo restaurante, todos os dias. Tenho mania de velho, como dizem. Quando abro o caderno que mais me agrada, procuro sempre seguir a ordem do texto original. A partir dessa ordem, procuro palavras que se encaixem em uma ou mais frases. Algumas ideias que não estavam naquele texto-base costumam aparecer na minha mente. Nesse momento, anoto nas margens das colunas para não perder nenhuma ideia que possa, futuramente, ser talhada.

O que vou escrever não é nenhuma novidade. Afinal, fuçar as palavras das matérias e das notícias até encontrar uma poesia ou uma frase delicada é um delicioso exercício de escrita que vem sendo praticado há décadas, séculos, desde a invenção do jornal. André Breton, um dos nomes mais importantes do Surrealismo, já brincava com palavras recortadas de jornais para fazer poemas-colagem. No Dadaísmo, podemos encontrar inúmeros exemplos de artistas que se aventuraram nessa bobagem prazerosa de roubar o que é nosso em algo que não pertence a nós. Os mais novos talvez encarem o trabalho de Austin Kleon como algo extremamente original. Para começar, não existe muito esse lance de originalidade. Tudo é um desdobramento de um epicentro original. Inovar é encontrar uma dobra desconhecida do que já existe de alguma forma, em algum momento, em algum lugar, na cabeça de algum ser criativo. Até o que você é e pensa é um desdobramento dos seus pais. Até o que você sente é um desdobramento de outras experiências amorosas. Gênios não existem. Existem pessoas que escondem suas fontes, suas referências, e se vangloriam por serem únicos, deuses, reis da criatividade e da inovação. Genialidade é conseguir encaixar seu sentimento, sua verdade, naquilo que já existe de um jeito diferente.

Mas voltando a Kleon… Ele mesmo esclarece seu processo criativo, numa palestra muito bacana no TED, chamada Roube como um artista (disponível no YouTube para quem se interessar). De forma muito sincera, assume que “roubou” sua forma de fazer poesia de outros artistas que admira ou passou a admirar. Cita Tom Phillips, que se inspirou em William Burroughs, que pegou a ideia de Brion Gysin, que pode ter visto o trabalho de Tristan Tzara, que talvez tenha ouvido falar de um cara lá do século XVIII chamado Caleb Whitford. Ou seja, ele mostra que há mais de 250 anos a humanidade busca poesia em notícias do cotidiano. Desde que existe o jornal impresso, alguém deve ter tido a ideia de procurar palavras e encontrar sentido e sentimento naquelas linhas, colunas ou manchetes. Alguns fazem desenhos em volta, outros usam marcadores pretos para apagar frases e palavras que não acrescentariam nada ao novo texto. Outros recortam as palavras e depois colam numa folha em branco. Tudo é válido para exercitar o cérebro e estar em contato com a criatividade. Fazendo isso com frequência, uma hora você vai encontrar sua originalidade, seu caminho natural. Esses exercícios são plágios temporários. Se você colocar sua história naquilo que faz, terá feito algo único, mesmo carregado de semelhanças. Sim, uma alma aberta consegue se diferenciar no corpo da mesmice.

Antes de conhecer o trabalho de Austin Kleon, eu também já brincava de modificar algumas matérias ou recortar manchetes para formar minha própria visão cotidiana. Acho que todo mundo, em algum momento, já teve essa experiência, o que não pode ser considerado plágio. Existem mais de 7 bilhões de pessoas pensando no mundo — está certo que nem todas usam o cérebro como deveriam, infelizmente. É inevitável que em algum momento — mesmo sem querer — as ideias se pareçam, mas isso não quer dizer que você roubou a ideia do outro. Dizem que Dalton Trevisan, um dos grandes nomes da nossa literatura, tem o hábito de guardar notícias de jornal para se inspirar e, a partir de seu talento, construir personagens e tramas. Moacyr Scliar publicou O imaginário cotidiano com histórias inspiradas em notícias da Folha de S.Paulo. Ou seja, o jornal é um belo ponto de partida para alcançar o porto-seguro da verdade, da poesia. Reconhecer que o que você faz não é algo totalmente seu é tão bonito… A humanidade vive para criar. Faz parte do nosso DNA colocar para fora nossas angústias, nossos medos e nossos silêncios. Tudo nasce de algo que já teve luz. O importante é assumir a paternidade das primeiras ideias e transformá-las, à sua maneira, em algo realmente seu. Desculpe dizer isso, mas você será sempre padrasto das suas ideias.

Sim, torço pelo Botafogo. Sim, leio jornal impresso. Sim, durmo religiosamente às 22h. Meus oitenta anos estão muito bem disfarçados nesse corpinho de trinta e um. Consumo o noticiário com a esperança de, um dia, o amor se tornar a manchete principal. Enquanto isso, fico aqui no Lamas, com meu café, à espera de um novo bloqueio.

 

DOEU IR

a) Para chegar a nós mesmos, certamente, devemos fugir.

b) Ele não compreende. Muitas vezes, encontro palavras de um escritor que não se limitou apenas à realidade.

c) O escritor não existe: ausência.

d) Minha função é não ter medo da liberdade.

e) O escritor deve fugir dos escritores.

f) Siga seu caminho. Isso deve bastar.

teste[saudade e meia]

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Meu pai sempre me dava meias coloridas

Era esse seu jeito de alegrar as nossas despedidas

Quando não estava por perto

Eu me vestia de amarelo

Me senti-adeus

O sol grudadinho na sola

 

A infância é sempre um dia bonito

 

Azul é o mar que nos separa

(do amor que nos aproxima)

Volta e meia a gente se reencontra

Eu, menino

Tu, homem

Eu, homem

Tu, menino

Meu pé direito

Seu pé esquerdo

Seu pé direito

Meu pé esquerdo

 

Esqueço

 

Um pé na Suíça

Um pé no Rio

Um pede silêncio

Um pede poesia

 

Meu pai sempre me dava meias coloridas

Era esse seu jeito de encurtar as nossas despedidas

Se o medo me descobrisse, seriam elas as minhas pequenas e corajosas cobertinhas

Minha segunda pele, 100% algodão

Com meias assim, quem precisa de sapato para tocar o chão?

 

Pedra não pisará em Pedro

Pedro não pisará em pedra

Pedra agora tem corpo

Pedro agora tem coragem

 

a cor da

meia

acorda

minha

memória

inteira

 

Vermelho:

paixão que ainda não veio

Branca:

história que não aconteceu

Laranja-despedida

Turquesa-volta-logo

Púrpura-não-me-abandone

Por pouco não te esqueci

 

(Meus pés cansaram de ir embora)

 

Não existe meia saudade

Eu me visto de saudade e meia

teste[O GRANDE PRINCÍPIO]

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Empolgado com o lançamento de uma animação cinematográfica adaptada de O pequeno príncipe, dias desses reli o clássico da literatura mundial escrito pelo aviador (e poeta!) francês Antoine de Saint-Exupéry. Minha primeira leitura data de muito tempo. Acredito que tenha sido aos nove, dez anos. Confesso que várias vezes senti o desejo de me aventurar novamente nessa história mas, por obrigações cotidianas do mundo adulto, sempre acabava deixando esse sentimento voar longe — talvez pertinho do asteroide B612, onde nosso rapazinho começou sua viagem sensível pelos mais diversos planetas ao seu redor.

Publicado em 1943, O pequeno príncipe é sem dúvida uma obra inclassificável e pode facilmente se encaixar em quase todas as categorias nas prateleiras das livrarias. Autoajuda, filosofia, psicanálise, poesia, design, bem-estar e saúde, religião, fantasia, espiritismo, esoterismo… Todos esses assuntos são discutidos de alguma forma no imenso livrinho. E o principal: tudo é narrado de forma simples e lúdica. Tudo é dito em poucas palavras. Nem tudo precisa ter uma lógica. Nem tudo precisa ser exato. Para o leitor infantil, basta se colocar do jeito que é diante das páginas. Para o leitor mais adulto, será preciso resgatar aquela criança que vive em nós e anda esquecida. Mas ela sempre está lá, pode apostar. A infância é uma menina que nunca morre.

IMG_20150825_144742Mesmo que ninguém saiba, todo mundo tem um pequeno príncipe em casa. Escondido no fundo de uma gaveta, num armário raramente aberto. Tenho certeza de que, em algum desses esconderijos, o nosso pequeno príncipe com seus cabelos dourados, seu traje monarca-fofo e sua espada incapaz de magoar uma rosa sequer espera suas mãos, seus olhos e sua criatividade para embarcar no universo atemporal e para todas as idades. Como diz o autor, o problema não é crescer, é esquecer a criança que somos ou fomos.

Ainda me encanto com os personagens e os simbolismos do livro. O Rei, que vive com a falsa ilusão de que seu reinado é respeitado por todos (mesmo quando está só no seu trono) e se considera maior que o Sol. O Contador, que passa a vida inteira tentando ganhar todas as estrelas do mundo. A Raposa, que, na minha opinião, é a representação da poesia e nos alimenta com palavras bonitas e profundas. A Rosa, que é o amor e o orgulho ao mesmo tempo. Que aprisiona, liberta. Ela é responsável por impulsionar nosso pequeno herói universo afora e fazê-lo entender o coração sentimento adentro. A Serpente, que talvez represente nosso medo ou nossa coragem para enfrentar os asteroides no caminho.

Parece que a vida adulta faz de tudo para enrugar nossa ingenuidade, nossa inocência. O livro justamente lembra que cada um de nós deve cuidar do seu espaço, olhar com seu coração, cultivar sua flor, desenhar seu carneiro, ouvir sua raposa, proteger sua estrela, negar seu rei e ser súdito unicamente do que temos de mais valioso: a imaginação.

teste[DAQUI A POUCO] – parte III

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Rugas, o destino desenhado na sua face. Parecem um rio seco à espera de uma pequena lágrima para irrigar essas infiltrações. Chorar é contar a nossa história em silêncio. Os afluentes da sua trajetória se confundem a cada curva. A memória entra em um barquinho e percorre seu rosto por inteiro. E você relembra tudo. E você se emociona com tudo. A corrente só vai para a frente, marinheiro! Não há mais tempo para perder tempo. Como é bonita a vida de quem viveu cada despedida… Cada retorno. Cada ausência. Cada segundo… O caos ficou para trás. Uma hora a bonança também precisa atracar. Seus 50 anos se despendem no cais.

Aos 60, o coração não bate com o mesmo vigor, mas o amor ainda apanha seus frutos. Hoje, amadurecidos. A diferença é que a colheita agora é feita diretamente da árvore. A mesma árvore que você plantou, podou, molhou, sustentou, protegeu.  Os 60 já ficaram para trás. Parabéns, senhor. Há mais vela do que bolo na sua festa de aniversário. Que belo dia para se lembrar da menina mais bonita do mundo. Aquela a quem você dedicava poemas bobos. Aquela que o fez sentir-se poeta. Aquela que o fez hiperbolizar os sentimentos. Tudo bem, tudo bem. Não se envergonhe. É sempre assim. Quem a gente ama é sempre um pouco maior do que o amor em si. E não é que deu certo? Seu filho a chama de mãe. Seu neto a chama de . Você a chama de amor. De amor. De amor. De amor. De amor…

Agora você tem 80. A idade do arrependimento. Do agradecimento. Do engrandecimento (mesmo quando começamos a encolher). Parece que Deus quer nos acolher do mesmo tamanho que nos deixou. Estamos mais frágeis, mais meninos. Somos crianças enverrugadas. Adultos envergonhados. De quê? De repente, você sente falta de estar nos braços da sua mãe, de ser fotografado pelo seu pai, daquele bolo do primeiro aniversário e até daqueles malditos pelinhos no sovaco. Quer voltar no tempo só para dizer ao professor de matemática que você não precisou usar nenhuma fórmula para ser feliz. E aquele sonho de ser poeta ainda repousa no seu peito. Não tenha pressa, menino, um dia ele desperta.

A cadeira de balanço balança sozinha. Saudade é uma palavra que não se despede.

 

link-externoLeia mais:

[DAQUI A POUCO] – PARTE II

[DAQUI A POUCO] – PARTE I