testeClássico antimilitarista de Kurt Vonnegut ganha edição especial de 50 anos

Matadouro-Cinco chega às livrarias em edição capa dura

“Nada de inteligente pode ser dito sobre a guerra”, sentencia Kurt Vonnegut em sua obra máxima, o clássico Matadouro-Cinco. Publicado originalmente em 1969, em plena guerra do Vietnã, a crítica ácida e bem-humorada ao militarismo e à cultura consumista norte-americana mescla a imaginação prodigiosa de um dos mais importantes escritores da literatura contemporânea a um dos episódios mais cruéis da Segunda Guerra Mundial: o bombardeio da cidade alemã de Dresden — massacre que deixou a mesma quantidade de vítimas que o lançamento da ogiva nuclear em Hiroshima.

Assim como o protagonista da história, Billy Pilgrim, Kurt Vonnegut foi mantido prisioneiro e obrigado a trabalhar em um armazém subterrâneo de carnes durante o conflito. Como Billy, o escritor testemunhou a morte de milhares de civis, vivenciou a maldade humana e todo o absurdo da guerra: um espetáculo sem sentido, sem nada do glamour estampado nos filmes, e, na verdade, travado por garotos.

A edição comemorativa de 50 anos de Matadouro-Cinco, em formato capa dura, com pintura trilateral já está nas livrarias com tradução de Daniel Pellizzari e apresentação de Antônio Xerxenesky. Divisor de águas na carreira do escritor norte-americano, a obra inovadora combina ficção científica e relato autobiográfico com a linguagem sarcástica e simples que o consagrou. Para Kurt Vonnegut a escrita acessível não era, de forma alguma, um demérito. É um ato político.

Na trama, acompanhamos a desvairada trajetória de Billy Pilgrim, um garoto que já nasceu esquisito e que, com o tempo, ficou mais esquisito ainda. De aparência curiosa, alto e magricela, o jovem que se parecia com uma garrafa de Coca-Cola foi enviado para a Segunda Guerra Mundial sem roupas adequadas, sem armas e sem vontade de lutar. Após o massacre de Dresden, Billy é internado, como outros milhares de soldados, em um hospital psiquiátrico. No entanto, Billy passa por uma experiência única: ficar solto no tempo. Capaz de viajar no tempo e no espaço, Billy pode reviver seu passado e seu futuro, além de estar, ao mesmo tempo, em lugares distintos: trancafiado em um vagão de prisioneiros durante o rigoroso inverno europeu durante a guerra e dirigindo seu Cadillac numa ensolarada tarde americana.

Uma obra divertida e necessária, Matadouro-Cinco questiona reiteradamente nossa capacidade de nos acostumarmos com tudo. Qualquer semelhança com a atualidade não é mera coincidência.

Leia um trecho:

testeSeis livros para quem curte romances históricos

A humanidade já passou por duas guerras devastadoras, diversas revoluções, conflitos locais e uma disputa entre dois blocos socioeconômicos. Todos esses acontecimentos em escala global são passados de geração em geração e relatados em incontáveis livros, filmes e séries. Mas, tão impactantes quanto estas histórias, são as narrativas das pessoas comuns que as viveram.

Pensem no Titanic. Um dos maiores navios já construídos naufraga e resulta na morte de milhares de inocentes. Mas foi o romance fictício entre Jack e Rose que chamou atenção para esse terrível incidente e emocionou milhões de corações. O mesmo pode ser dito dos clássicos A lista de Schindler e O resgate do soldado Ryan. Tais experiências podem até ser menos conhecidas, mas são igualmente grandiosas em seus detalhes e nuances, justamente por transportar o leitor para determinada época e local.

Listamos alguns livros que têm como cenário esses períodos históricos para criar tramas inesquecíveis. Confira!

Mulheres sem nome

Cenário: Segunda Guerra Mundial
Local: Alemanha, Estados Unidos e Polônia

Recém-lançado, o romance de estreia de Martha Hall Kelly dá voz a três protagonistas femininas em diferentes lugares do mundo enquanto eclodia a Segunda Guerra. A socialite Caroline Ferraday está em Nova York quando Hitler invade a Polônia, em 1939, enquanto a jovem Kasia Kuzmerick se envolve cada vez mais com o movimento de resistência polonês. Levada ao campo de concentração feminino de Ravensbrück, Kasia conhece a médica alemã Herta Oberheuser, responsável por exercer uma medicina terrivelmente controversa nas prisioneiras.

Uma história que atravessa continentes enquanto Caroline e Kasia persistem no sonho de tornar o mundo um lugar melhor, Mulheres sem nome é um livro que aborda a visão das mulheres de uma guerra cujo protagonismo historicamente é masculino. Conheça mais!

 

Um cavalheiro em Moscou

Cenário: Pós-Revolução Russa
Local: Moscou/União Soviética

O autor Amor Towles se inspirou na Rússia dos anos 1920 (na época, União Soviética) para criar a história de Aleksandr Ilitch Rostov, nobre acusado de escrever uma poesia contra os ideais da Revolução Russa. Conhecido como “O Conde”, ele é condenado à prisão domiciliar no sótão do hotel Metropol, lugar de luxo e sofisticação frequentado por artistas, bons-vivants e pela antiga aristocracia de Moscou.

Com sua perspectiva única de prisioneiro de duas realidades distintas, o Conde apresenta ao leitor sua sabedoria e sensibilidade ao abandonar certos hábitos e se abrir para as incertezas de novos tempos que, mesmo com a capacidade de transformar a vida como era conhecida, nunca conseguirão acabar com a nobreza de um verdadeiro cavalheiro.

 

A garota que você deixou para trás

Cenário: Primeira Guerra Mundial
Local: França e Inglaterra

Duas mulheres separadas por um século e unidas pela arte. Na França, durante a Primeira Guerra Mundial, o jovem pintor Édouard Lefèvre é obrigado a se separar de sua esposa, Sophie, para lutar no front. Vivendo com os irmãos e os sobrinhos em sua pequena cidade natal, agora ocupada pelos soldados alemães, Sophie apega-se às lembranças do marido admirando um retrato seu pintado por ele. Quando o quadro chama a atenção do novo comandante alemão, Sophie arrisca tudo, inclusive sua vida, na esperança de rever Édouard, agora prisioneiro de guerra.

Na Londres dos anos 2000, a jovem viúva Liv Halston mora sozinha numa moderna casa, onde destaca-se um retrato de uma bela jovem – presente do seu marido pouco antes de sua morte prematura. Quando Liv finalmente parece disposta a voltar à vida, um encontro inesperado vai revelar o verdadeiro valor daquela pintura e sua tumultuada trajetória. Misturando ficção com realidade, romances de diferentes épocas e a busca por finais felizes, A garota que você deixou para trás é um dos primeiros sucessos de Jojo Moyes. Conheça mais!

 

Toda luz que não podemos ver

Cenário: Segunda Guerra Mundial
Local: França e Alemanha

Vencedor do Pulitzer, o autor Anthony Doerr constrói em Toda luz que não podemos ver um tocante romance sobre o que há além do mundo visível em meio aos horrores da guerra.

Aos seis anos de idade, a jovem Marie-Laure fica cega. Ela vive em Paris, perto do Museu de História Natural, onde seu pai é o chaveiro responsável. Para ajudá-la, ele constrói uma maquete em miniatura do bairro para que Marie seja capaz de memorizar os caminhos. Quando os nazistas ocupam Paris, pai e filha fogem para a cidade de Saint-Malo e levam consigo um dos mais valiosos tesouros do museu.

Em uma região de minas na Alemanha, o órfão Werner cresce com a irmã mais nova, encantado pelo rádio que certo dia encontram no lixo. Com a prática, ele acaba se tornando especialista no aparelho, talento que lhe vale uma vaga em uma escola nazista e, logo depois, em uma missão especial. Cada vez mais consciente das terríveis consequências de seu trabalho, o rapaz é enviado para Saint-Malo. Lá, seu caminho cruza o de Marie-Laure, enquanto ambos tentam sobreviver à Segunda Guerra Mundial. Conheça aqui!

 

A menina que roubava livros

Cenário: O nazismo na Segunda Guerra
Local: Alemanha

Esse livro que dispensa apresentações conta a história da pequena Liesel em meio a uma Alemanha assolada pelo nazismo durante a Segunda Guerra. A jovem é adotada por um casal que vive em um bairro alemão pobre: a mãe, dona de casa e o pai, um pintor de paredes bonachão. Para contornar o medo e a solidão, ela aprender a ler e escrever com o pai e canaliza urgências para a literatura. Em tempos de livros incendiados, ela os furta, ou os lê na biblioteca do prefeito da cidade.

Enquanto eles tentam sobreviver a um cenário nacional conturbado, Liesel assiste à eufórica celebração do aniversário do Führer pela vizinhança, faz amizade com um menino obrigado a integrar a Juventude Hitlerista e ajuda o pai a esconder no porão um judeu que escreve livros artesanais para contar o seu lado da História. Conheça aqui!

 

Breve história de sete assassinatos

Cenário: A Jamaica de 1970 a 1990
Local: Jamaica

Em 3 de dezembro de 1976, às vésperas das eleições na Jamaica e dois dias antes de Bob Marley realizar o show Smile Jamaica para aliviar as tensões políticas em Kingston, sete homens não identificados invadiram a casa do cantor com metralhadoras em punho. O ataque feriu Marley, a esposa e o empresário, entre várias outras pessoas. Poucas informações oficiais foram divulgadas sobre os atiradores. No entanto, muitos boatos circularam a respeito do destino deles.

Breve história de sete assassinatos é uma obra de ficção que explora esse período instável na história da Jamaica e vai muito além. Marlon James cria com magistralidade personagens que andaram pelas ruas de Kingston nos anos 1970, dominaram o submundo das drogas de Nova York na década de 1980 e ressurgiram em uma Jamaica radicalmente transformada nos anos 1990. Um romance épico, brilhante e arrebatador, vencedor do Man Booker Prize de 2015. Conheça aqui!

testeComo a história real de uma mulher esquecida pelo tempo inspirou Mulheres sem nome

É difícil definir de onde vem a inspiração para novas histórias, mas Martha Hall Kelly consegue se lembrar exatamente do momento em que leu uma reportagem sobre Caroline Ferriday, uma ex-atriz da Broadway e socialite americana que trabalhava no Consulado da França em Nova York no ano em que o exército de Hitler invadiu a Polônia, 1939.

A história sobre Caroline era até então desconhecida para Martha. Na matéria, as fotos da bela casa com jardim onde a socialite havia morado despertaram sua curiosidade. Mas isso era apenas um pequeno detalhe que levaria a escritora a conhecer melhor a vida dessa mulher que lutou tanto em um dos períodos mais tristes da história.

Anos depois, Martha não conseguia esquecer o que havia lido e decidiu conhecer a casa de Caroline pessoalmente. Durante o tour pelo local, a autora descobriu que Caroline foi uma das responsáveis por denunciar os horrores cometidos em Ravensbrück, campo de concentração exclusivamente feminino localizado no norte de Berlim, durante a Segunda Guerra Mundial.

E foi assim, com um simples passeio, que surgiu a ideia de escrever Mulheres sem nome. Durante dez anos, enquanto ainda trabalhava como publicitária, a autora viajou pelos Estados Unidos e por várias cidades da Europa para entender melhor o que se passou em Ravensbrück. O objetivo de Martha era escrever um relato fictício, mas costurado por fatos históricos, sobre três mulheres muito diferentes que merecem ser lembradas.

Em Mulheres sem nome, Martha constrói um romance baseado em duas protagonistas que existiram de verdade — Caroline Ferriday e Herta Oberheuser — e em Kasia, livremente inspirada nos relatos das sobreviventes de Ravensbrück.  

Caroline Ferriday

A autora entrelaça as trajetórias dessas três personagens femininas fortes com os fatos da Segunda Guerra Mundial. No livro, Caroline Ferriday trabalha como voluntária no Consulado da França, quando, depois de invadir a Polônia, o exército de Hitler ameaça invadir a França, país do homem no qual Caroline está interessada.

Herta Oberheuser

Enquanto isso, a jovem polonesa Kasia Kuzmerick vê sua infância perdida quando é enviada para o campo de concentração de Ravensbrück. E é em Ravensbrück que a ambiciosa Herta Oberheuser encontra a oportunidade de trabalhar como médica- cirurgiã a serviço da Alemanha nazista e faz experiências terríveis com mulheres e crianças.

Com uma narrativa que atravessa várias décadas, lugares e histórias, Martha Hall Kelly escreve um romance capaz de mostrar o poder destrutivo da guerra na vida de todos que a viveram e dar voz a mulheres que foram esquecidas pelo tempo.

testeMussolini, da aliança com Pio XI aos braços de Hitler

Por Bernardo Barbosa*

A última parte da saga conjunta do papa Pio XI e do ditador fascista Benito Mussolini, ricamente contada no livro O papa e Mussolini: a conexão secreta entre Pio XI e a ascensão do fascismo na Europa, de David I. Kertzer, só pode ser entendida a partir da aparição de um terceiro elemento: Adolf Hitler.

O fascismo de Mussolini foi uma das grandes inspirações do líder nazista, mas a criatura engoliu o criador e foi ainda mais longe, com as nefastas consequências que a História não nos deixa esquecer. Para Pio XI, o regime de Hitler surgiu antes como uma ameaça ao poder garantido na sólida aliança com o Duce do que como um governo racista.

Com seus tons idólatras e pagãos, a gana do nazismo pelo poder foi vista com ressalvas por Pio XI quando da ascensão do regime na Alemanha, em 1933. Mas, movido por sua ojeriza ao comunismo, naquele momento o pontífice manifestou certa simpatia por Hitler quando este se posicionou contra o bolchevismo soviético.

Em julho daquele ano, a Igreja e a Alemanha assinaram uma concordata que, em teoria, deixaria o governo nazista fora dos assuntos eclesiásticos no país. Mas não tardou para que Hitler transformasse o acordo em letra morta; nenhum poder deveria competir com o do nazismo.

A resposta da Santa Sé foi a encíclica Mit Brenneder Sorge (“Com Ardente Preocupação”), publicada em março de 1937. Lido aos fiéis nas igrejas alemãs, o documento criticava a idolatria de uma raça e de uma nação, mas não citava explicitamente o nazismo, nem a perseguição aos judeus — que já era política de Estado na Alemanha da época.

Mesmo assim, foi o suficiente para irritar Hitler profundamente. O ditador quis cobrir a Igreja de “desgraças e vergonha”, indo atrás de arquivos eclesiásticos para expor a “imundície” da instituição. Pio XI recomendou aos bispos alemães que queimassem seus arquivos.

O papa, no entanto, ainda tinha no fascismo um fiel aliado. Mas foi justamente Mussolini que deixou a Santa Sé em situação delicada quando deu mais um passo rumo aos braços de Hitler e, em setembro de 1938, instituiu leis antissemitas na Itália.

Um mês antes, o regime de Mussolini conseguira pressionar a Santa Sé a firmar um acordo secreto segundo o qual a Igreja não criticaria publicamente as leis antissemitas do Duce, desde que elas não fossem além das restrições aos judeus existentes nos antigos Estados Papais — apagados do mapa quando a Itália se unificou, no século XIX.

Como se não bastasse o fascismo jogar com a própria História da Igreja para colocá-la contra a parede, Mussolini invadiu prerrogativas que, para Pio XI, eram exclusivas da Igreja, como proibir os casamentos entre judeus convertidos ao catolicismo.

No entanto, Pio XI se viu praticamente isolado na cúpula da Santa Sé na hora de confrontar o fascismo. O papa chegou a se manifestar contra o antissemitismo; mais que isso, encomendou uma encíclica que condenava abertamente a perseguição aos judeus.

Enquanto o nazismo avançava e atraía o fascismo para sua órbita, a saúde do papa se deteriorava. Ele morreu aos 81 anos, em 10 de fevereiro de 1939 — Mussolini não foi ao velório. A Segunda Guerra Mundial estourou em setembro, deixando para o mundo um genocídio e uma Europa arrasada. A denúncia de Pio XI ao antissemitismo só viria a público na íntegra mais de meio século depois de sua morte.

O fim da história de Pio XI e Mussolini pode ter sido soturno, mas isso não diminui a riqueza histórica da trajetória de ambos. Como mostra a obra de Kertzer, os dois líderes foram protagonistas de alguns dos acontecimentos mais importantes do começo do século passado. Agora, com o livro O papa e Mussolini, há a oportunidade de reler a História daquele tempo — que deu origem a muito do que o Ocidente é hoje — sem boa parte dos filtros oficiais.

 

Bernardo Barbosa é jornalista.

testeA troca de favores entre Pio XI e Mussolini

Pietro Gasparri e Mussolini assinam o Tratado de Latrão

Quem acompanha o noticiário da política no Brasil já deve ouvido falar no famoso “toma lá, dá cá” entre nossas excelências. Em resumo, a expressão serve para falar das alianças feitas não em torno de causas comuns, mas com base em trocas de favores, recursos e poderes.

Como vimos no texto anterior sobre o livro O papa e Mussolini: a conexão secreta entre Pio XI e a ascensão do fascismo na Europa, de David I. Kertzer, o papa Pio XI e o ditador Benito Mussolini não tinham, a princípio, muito em comum. No entanto, a obra também expõe com clareza o pragmatismo que empurrou os líderes de encontro um ao outro.

Pio XI queria o que Mussolini tinha, e vice-versa. Autoridade da fé, o papa buscava o poder terreno e cotidiano do fascismo. O Duce, por sua vez, procurava no respaldo da Igreja algo que tornasse os italianos não meros adeptos do fascismo, mas devotos dele como eram do catolicismo — uma vela para a Igreja e outra para o regime.

O acordo mais crucial para a aliança foi o Tratado de Latrão, assinado em 1929. Com ele, a Cidade do Vaticano virou um Estado, sede da Santa Sé; o catolicismo se tornou religião nacional na Itália; o ensino da fé católica passou a ser obrigatório nas escolas; e ficou estabelecido que o governo italiano pagaria uma gorda indenização (US$ 1 bilhão em valores de 2013) para que a Igreja desistisse de qualquer reclamação relativa à perda dos Estados Papais, extintos durante a unificação italiana no século XIX.

O regime de Mussolini ainda aliviou a perseguição aos integrantes da Ação Católica, organização de leigos indispensável às tarefas de evangelização e diretamente ligada à Igreja. O Estado pagava despesas do clero, que passou a ter posição de destaque em todas as cerimônias fascistas.

Não foi por acaso que Mussolini passou a ser citado pelo papa como um homem que teria sido enviado pela Providência divina. Italianos rezavam para Jesus e para o Duce na mesma oração.

A Igreja, por sua vez, deu sua contribuição política ao fascismo ao esvaziar o Partido Popular, legenda católica criada poucos anos antes da ascensão de Mussolini. Apesar de, ao longo do governo do Duce, militantes fascistas terem reduzido a intensidade da perseguição a membros da Ação Católica, confrontos violentos ainda ocorriam, mas a Igreja de Pio XI preferia fazer vista grossa.

Na década de 1930, Mussolini se aproximou do nazismo, que já tinha massacrado a Igreja Católica na Alemanha. O papa também não via com bons olhos o que considerava o “paganismo” de Hitler e seus seguidores. Mas como é comum nas discórdias em alianças pragmáticas, o conflito entre o pontífice e o ditador não ocorreu por uma questão exatamente de princípios.

Quando aderiu à perseguição étnica, o fascismo quis impedir o casamento de judeus convertidos ao catolicismo. Como fica exposto no livro de Kertzer, o problema não foi a caçada fascista aos judeus, mas a intromissão de Mussolini em prerrogativas que, para Pio XI, cabiam somente à Igreja. Assim começavam as turbulências na aliança entre o papa e o Duce.

 
No próximo texto, a adesão de Mussolini ao nazismo racha a aliança e arruína a Europa

 

Bernardo Barbosa é jornalista.

testeA vida de Anthony Doerr antes de Toda luz que não podemos ver

*Por Nina Lua

Ainda me lembro do meu primeiro mês no Rio de Janeiro: era fevereiro, estava quente, eu morava de favor e sentia uma saudade imensa de casa. Vim para o Rio para fazer faculdade, e lá se vão quase dez anos. Quatro estações em Roma se passa no ano da minha vinda para o Rio e também fala de uma mudança de cidade: Anthony Doerr — que à época ainda não era um autor best-seller e famoso mundialmente — ganha uma bolsa para morar um ano em Roma se dedicando à escrita. Nenhuma outra exigência: ele recebe um apartamento e um estúdio na Academia Americana de Artes e Letras, além de uma bolsa mensal, para ficar por lá escrevendo. Mas nem tudo é tão simples… Doerr e a esposa acabaram de ter gêmeos. De qualquer forma, a oportunidade é boa demais para recusar. Assim, lá vão os pais de primeira viagem e os bebês, rumo à Itália.

Crédito: Anthony Doerr

Doerr sente um misto de encanto e estranhamento com a nova vida. Em primeiro lugar, porque sai de Boise, uma cidade nos Estados Unidos com cerca de 200 mil habitantes, fundada em 1862, e vai parar em Roma, que tem quase 3 milhões de habitantes e ninguém sabe ao certo quando foi fundada — estima-se que em 800 a.C., mas até isso dá margem discussão. Eu também saí de uma cidade relativamente pequena (Petrópolis) ao vir para o Rio, então entendo bem quando Doerr fala sobre a estranheza que sente em relação à quantidade de carros nas ruas, à confusão dos pedestres, à mistura geral de coisas que parecem desconexas.

Outros estranhamentos dele são bem americanos: ele acha engraçado que os legumes e as verduras sejam vendidos na feira, e não no supermercado; acha curiosíssimo que os italianos fiquem encantados com seus bebês gêmeos e façam gracinhas para eles; e não entende muito bem a existência de açougue, padaria, mercearia etc., tudo separado.

Talvez todas as novidades sejam um pouco imobilizadoras, ou talvez isso seja comum para os escritores, mas o fato é que, quando se vê sem nada para fazer além de escrever, Doerr acaba não conseguindo escrever muito. Ele chega em Roma já com um esboço do que se tornaria Toda luz que não podemos ver, mas o romance acaba saindo só sete anos depois.

A demora compensa: o livro ganha um dos prêmios literários mais importantes do mundo — o Pulitzer —, vira um best-seller e é lançado em vários países. Entre eles o Brasil, onde foi publicado pela Intrínseca. Com o sucesso de Toda luz que não podemos ver, que já vendeu mais de 130 mil exemplares por aqui, a editora decidiu publicar o livro de memórias do autor em que ele relata o ano que passou em Roma. E foi assim que Quatro estações em Roma me encontrou no Rio de Janeiro, quase dez anos depois de Doerr ter voltado da Itália para os Estados Unidos e quase dez anos depois de eu ter vindo me aventurar por aqui. Não acredito em destino, mas não posso negar que a vida é cheia de coincidências.

* Nina Lua é editora assistente de livros estrangeiros da Intrínseca e ainda está se adaptando à vida na metrópole.

teste10 anos de A menina que roubava livros ou o que aconteceu em 2007

Crédito: Pausa para um café

Enquanto o Rio de Janeiro se organizava para receber os Jogos Pan-Americanos, a dupla Sandy & Junior anunciava o fim de sua carreira, Tropa de Elite estreava nos cinemas e o iPhone chegava às prateleiras, os leitores brasileiros foram apresentados à emocionante história de A menina que roubava livros.  Agora, em 2017, a obra de Marcus Zusak comemora dez anos, e muitos leitores, além de ficarem assustados ao verem como o tempo passou voando, relembraram a importância do livro em suas vidas.

 

 

 

 

 

 

Para comemorar o aniversário, perguntamos aos nossos blogueiros qual é a relação deles com o livro.

Tayná Coelho, do Olhando Por Aí

“Em 2011, eu havia acabado de ler A menina que roubava livros e estava encantada! Não parava de falar sobre o livro para todo mundo no trabalho e uma colega pediu emprestado. Emprestei no último dia de trabalho antes do feriado de Páscoa. Ela, que estava com uma bolsa pequena, deixou o livro na mesa, pretendendo levar para casa na segunda. No domingo de Páscoa, fui acordada por uma outra colega informando que havia tido um incêndio no prédio em que trabalhávamos. Ficamos todos muito tristes, e a empresa ficou uns dez dias sem funcionar até acharmos um local provisório. Pois bem, quando voltamos a trabalhar, já em outro local, minha colega me contou que havia deixado o livro no escritório e tudo o mais. Fiquei triste, mas tudo bem, ela não tinha como saber. Uns dias depois, o pessoal subiu os vinte e três andares do prédio incendiado para buscar as coisas que ficaram para trás. Eu não tinha muitos pertences na minha mesa, então não fui. Ela foi e achou o livro. Por sorte, ela tinha posto um caderno em cima dele. Como nosso andar só foi atingido pela fumaça, nada queimou, mas tudo ficou preto e fedorento. Ela trouxe o livro: estava com uma faixa preta na capa, mas o restante estava perfeito. O caderno era um pouco menor que o livro e só por isso não o protegeu completamente da fuligem. Apesar de ela ter se oferecido para comprar outro, decidi manter o livro que sobreviveu a um incêndio. Depois de limpá-lo, nem dá para dizer que ele passou por essa aventura.”

 

Raffa Fustagno, do A Menina que Comprava Livros:

“O nome do meu blog, que este ano está completando sete anos, é inspirado no livro de Marcus Zusak. Tive o prazer de conhecer o autor na Bienal de 2007, e ele foi maravilhoso comigo: além de autografar, fez desenhos e perguntou o que eu achava do livro…  Ele também perguntou se eu tinha um blog, e eu disse que não. Só colocaria o A Menina que Comprava Livros no ar três anos depois. Mas virei fã do Marcus Zusak, já li todos os livros e ainda sonho com a volta dele ao Brasil, porque naquele dia o lindo autógrafo foi no livro da minha tia. Me arrependo até hoje de não ter comprado um exemplar para mim e de ter levado o dela.”

Maidy, do Dear Maidy:

A menina que roubava livros foi o primeiro drama que li e o primeiro livro da Intrínseca que comprei! HAHAH Ou seja, amor duplo! Foi um livro que me fez ficar comovida e apaixonada com histórias da Segunda Guerra Mundial, que me fez chorar horrores imaginando toda a dor dos judeus e que me deixou em choque com tantas coisas que aquela garotinha passou! É sem dúvida, até hoje, o melhor drama que já li e é um livro que vou carregar para sempre no coração. A obra me mostrou a importância da leitura em momentos de crise e me ensinou que todos podemos ser fortes, mesmo não sabendo a força que temos!”

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Núbia Esther de Oliveira Miranda, do Blablabla Aleatório:

“Meu primeiro encontro com a Liesel ocorreu da forma mais despretensiosa possível. Em 2008 eu morava em Brasília e dividia o apartamento com mais duas garotas. Em um final de semana que fiquei sozinha em casa e não tinha nada para ler, fui no quarto das meninas ver se tinha algo perdido por lá e encontrei um livro de um autor desconhecido com uma capa minimalista e linda (livro com cheiro e aparência de novo ainda). Comecei a ler ali mesmo. Naquele dia, noite e madrugada, a primeira leitura daquele exemplar de A menina que roubava livros foi roubada por mim, e em troca ela me roubou várias e várias lágrimas e deixou um saudosismo eterno. Anos depois, minha irmã comprou um exemplar para nossa pequena biblioteca e acabamos também tendo nossa Liesel roubada — pena que não foi por apenas um dia, noite, madrugada. O título realmente inspirou uma menina a roubá-lo de nós!”

Crédito: Pausa para um café

Raquel Araujo, do Por uma Boa Leitura:

“Esse foi um dos primeiros livros da minha coleção, que antes só se resumia aos paradidáticos do colégio. Me lembro de ver a capa na livraria e ler na contracapa:  ‘Quando a Morte conta uma história, você deve parar para ler.’ Fiquei tão impressionada com essa frase que precisei comprar. Minha edição é a primeira! A história é tão tocante que devorei o livro. Além do enredo maravilhoso, A menina que roubava livros se passa durante a Segunda Guerra, um período histórico sobre o qual eu adoro ler. Me emocionei com a Liesel, guardei comigo o seu segredo como ‘ladra de livros’ e chorei junto com ela no final. O que mais me chama a atenção na obra é a relação dela com o pai. Simplesmente lindo de ver! Talvez aos dezesseis, dezessete anos eu não tivesse maturidade suficiente para entender toda a dimensão da história. Já reli três vezes e sempre me apaixono um pouquinho mais. LIVRÃO DE RAIZ!!!!!!!!!!!!”

testeO fascínio de um hotel 5 estrelas

Por Vanessa Corrêa*
 
ritz-paris-hotel-suite-imperiale-chambre-marie-antoinette_2

Poucos lugares são capazes de materializar os conceitos de luxo e sofisticação de forma tão eficiente quanto um hotel cinco estrelas. Com ambientes requintados e serviço impecável, esses hotéis exercem um verdadeiro fascínio sobre as pessoas, sejam elas celebridades ricas que têm condições de bancar longas temporadas em endereços caríssimos ou meros mortais que podem apenas suspirar imaginando como seria passar uma noite em meio a tanta opulência.

untitledLocalizado em uma das cidades mais elegantes do mundo, o Ritz, em Paris, é considerado por muitos o símbolo máximo dos hotéis de luxo, com uma fama que, desde sua inauguração, ultrapassou os limites da França, atraindo a nata da sociedade internacional.

A história desse ícone do glamour é contada no livro O hotel da Place Vendôme, escrito por Tilar J. Mazzeo. Na obra, a autora traça um panorama dos principais acontecimentos de Paris na primeira metade do século XX, sobretudo a ocupação nazista da capital francesa durante a Segunda Guerra Mundial, e mostra como o Ritz sempre esteve envolvido nos grandes fatos históricos da cidade, por meio da ação de funcionários e hóspedes ilustres.

Assim como o Ritz marcou a história de Paris, outros hotéis já fazem parte do imaginário popular de importantes cidades, atraindo personagens ricos e famosos e mexendo com a imaginação de turistas do mundo inteiro.

 

 

HOTEL CHELSEA

 hotelchelsea_9548596679

O hotel Chelsea, em Nova York, não era exatamente um cinco estrelas, mas ficou conhecido por abrigar diversas celebridades ao longo dos anos. O prédio de tijolos avermelhados localizado na rua 23, entre a 7ª e a 8ª avenidas, foi residência de nomes como Stanley Kubrick, Iggy Pop, Madonna, Janis Joplin, Jimi Hendrix, Uma Thurman, Tennessee Williams, Gore Vidal e Jack Kerouac, que teria escrito seu livro mais famoso, On the Road, em uma suíte do Chelsea.

Construído entre 1883 e 1885, o hotel aparece ou é citado em dezenas de filmes, livros e músicas e foi o cenário de alguns finais infelizes no mundo artístico. Em 1953, o escritor Dylan Thomas morreu de pneumonia no quarto em que morava e, em 1978, Nancy Spungen, namorada de Sid Vicious, dos Sex Pistols, foi encontrada morta a facadas em uma das 250 suítes do Chelsea.  

O Chelsea foi fechado para reformas em 2011 e não retomou as atividades desde então.

 

COPACABANA PALACE

 copacabana_1366x650_exterior08

Diferente do Ritz em seus tempos áureos, o hotel mais famoso do Brasil não costuma ter muitos moradores ilustres, mas recebe hóspedes renomados desde a inauguração, em 1923.

Além de ser um dos locais de hospedagem preferidos de celebridades internacionais em visita ao Brasil, o hotel é o sonho de consumo de noivas, que adorariam fazer suas festas de casamento em um dos luxuosos salões do Copa. Localizado na avenida Atlântica, em Copacabana, o hotel também é palco de caras e concorridas festas de Ano-Novo, com vista mais do que privilegiada para os fogos de artifício do maior réveillon do Brasil.

O hotel foi construído pelo empresário Octávio Guinle, membro da rica família de empreendedores que foi tema do livro Os Guinle: a história de uma dinastia, de Clóvis Bulcão. Viveu sua época mais glamorosa até a década de 1960, quando começou a ser preterido por hotéis mais modernos.

Na década de 1980, cogitou-se até mesmo a demolição do Copacabana Palace, mas o hotel foi declarado patrimônio histórico e cultural e, em 1989, foi vendido pela família Guinle para um grande grupo hoteleiro internacional.

 

THE DORCHESTER

the-dorchester-720x360

Inaugurado em Londres em 1931, o Dorchester continua sendo um dos mais sofisticados e caros hotéis do mundo, e sua história também está ligada a hóspedes ricos e famosos.

Por conta de sua sólida construção, durante a Segunda Guerra Mundial o hotel ficou conhecido como um dos prédios mais seguros de Londres, capaz de resistir aos frequentes bombardeios enfrentados pela capital britânica. A fama fez com que o Dorchester fosse escolhido como residência por diversas autoridades políticas e militares naquele período.

Nas décadas seguintes, o Dorchester se tornou um dos preferidos de celebridades como Elizabeth Taylor e Richard Burton, que se hospedaram numerosas vezes no endereço da Park Lane entre os anos 1960 e 1970.

 

BEVERLY HILLS HOTEL 

 beverly-hills-hotel

Construído em 1912, o hotel é tão glamoroso quanto os hóspedes que o frequentavam. A lista de habitués inclui nomes como Marilyn Monroe, John Wayne, Grace Kelly e Elizabeth Taylor.

Localizado no famoso Sunset Boulevard, o hotel leva o nome da rica cidade de Beverly Hills, em Los Angeles, Califórnia, e foi erguido na região antes que a cidade sequer existisse (Beverly Hills foi fundada somente em 1914). Entre as décadas de 1930 e 1960, o Beverly Hills Hotel foi o endereço preferido de grandes estrelas de Hollywood, que gostavam de aproveitar o clima ensolarado da Califórnia à beira da piscina do hotel.

Além de seus 208 quartos e suítes, o hotel possui 23 luxuosos bangalôs. Na década de 1940, o famoso diretor Howard Hughes comprou seis bangalôs e passou boa parte das décadas seguintes vivendo ocasionalmente nessas propriedades. A fama do Beverly Hills Hotel era tão grande que, em 1976, seu famoso edifício cor-de-rosa estampou a capa do disco Hotel California, da banda Eagles.

 

 

Vanessa Corrêa é jornalista, já trabalhou na Folha de S.Paulo e no portal UOL e é apaixonada por livros, cinema e fotografia.

testeTrecho de O navio das noivas

CapaWide_Loney_600x450

Jojo Moyes é mestre em criar personagens femininas fortes, cativantes e apaixonadas.  Em O navio das noivas não é diferente! A obra, inspirada na história real vivida pela avó da autora, conta a trajetória de quatro mulheres que saem da Austrália depois da Segunda Guerra Mundial em um porta-aviões que as levará até a Inglaterra para encontrar os soldados com quem se casaram durante o conflito.

A travessia é feita ao lado de outras noivas, armas, aeronaves e oficiais da Marinha. Com um espírito de aventura, a viagem mudará para sempre a vida dessas mulheres que ficaram distantes dos seus amores no período da guerra.

Segundo Jojo Moyes, a obra exigiu uma grande pesquisa. A autora leu os diários de bordo dos viajantes e estudou materiais da época para deixar a história mais verossímil. Os diários serviram como base para as citações não ficcionais das esposas e dos oficiais que estão no livro.

O navio das noivas, publicado originalmente em 2005, chega às livrarias brasileiras nas próximas semanas. Leia um trecho exclusivo:

“A primeira vez que o reencontrei, senti como se eu tivesse levado um soco. Eu já havia escutado essa expressão milhares de vezes, mas até então nunca entendera seu verdadeiro significado: demorou um pouco até minha memória estabelecer um vínculo com o que meus olhos estavam vendo, depois um choque percorreu meu corpo, como se eu tivesse acabado de levar um forte golpe. Não sou uma pessoa fantasiosa. Não embelezo minhas palavras. Mas, com toda a sinceridade, posso dizer que cheguei a ficar sem fôlego. Nunca imaginei que fosse revê-lo. Não em um lugar como aquele. Há muito tempo eu o enterrara bem no fundo da minha memória. Não apenas fisicamente, mas tudo o que ele significara para mim. Tudo pelo que ele me fizera passar. Porque só depois de muito tempo — uma eternidade — entendi o que ele tinha feito. De inúmeras maneiras, era ao mesmo tempo a melhor e a pior coisa que já acontecera comigo. Não foi, no entanto, apenas o choque da sua presença física. Havia tristeza também. Acho que na minha memória ele continuava igual ao que era naquela época, tantos anos atrás. Ao vê-lo agora, rodeado por todas aquelas pessoas, de algum modo parecendo tão envelhecido, tão diminuído… A única coisa em que consegui pensar foi que aquele era o lugar errado para ele. Eu sofria ao ver o que havia sido tão bonito, deslumbrante até, reduzido a… Não sei. Talvez não seja muito justo pensar assim. Nenhum de nós dura para sempre, não é mesmo? Para ser sincera, vê-lo naquele estado era um lembrete desagradável da minha própria mortalidade. Do que eu havia sido. Do que todos nós temos que nos tornar. Independentemente do que fosse, ali, onde eu nunca estivera, onde não havia motivo para estar, eu o reencontrara. Ou talvez ele tenha me encontrado. Acho que até aquele momento eu não acreditava em destino. Mas é difícil não acreditar, quando paramos para pensar em como nós dois tínhamos chegado longe. Difícil não acreditar quando se pensa que não havia como, depois de separados por milhares de quilômetros, continentes e vastos oceanos, estarmos destinados a nos encontrar de novo.”

testeComo um caramujo

Por Vanessa Corrêa* 

toda_luz_sem_fundo

 

Resolver um quebra-cabeça sem conseguir enxergar as peças parece uma tarefa impossível? Não para Marie-Laure LeBlanc, que perdeu completamente a visão aos seis anos e se acostumou a ser desafiada pelos intrincados mecanismos que seu pai construía em peças de madeira.

No mundo de Marie-Laure as distâncias são calculadas em passos e os caminhos são memorizados por meio de esquinas, bueiros, ralos nas calçadas e cruzamentos de ruas. É assim que a menina aprende a voltar para casa após passar mais um dia entre os corredores do Museu Nacional de História Natural de Paris, onde seu pai trabalha. E é assim também que ela vencerá a distância entre a Rue Vauborel até a padaria de Saint-Malo, quando o caos da Segunda Guerra tornar necessária sua ajuda para a resistência francesa.

As ruas e os edifícios de Paris que não podem ser vistos pelos olhos de Marie-Laure são reconhecidos por seus dedos em uma detalhada maquete de madeira construída por seu pai. É também por meio das pontas dos dedos que a menina absorve as histórias de Júlio Verne nos livros que ganha de presente. Tendo como únicos amigos o pai e os funcionários do museu, ela encontra no capitão Nemo e no professor Aronnax, do livro 20 mil léguas submarinas, novos companheiros, que despertam sua paixão pelos mistérios das criaturas marinhas.

É no mar que Marie-Laure acaba encontrando consolo após ter sua vida virada de cabeça para baixo pela guerra. Fugindo da ocupação nazista em Paris, ela acaba se refugiando com o pai na pequena cidade de Saint-Malo, no norte da França, e em poucos meses perde todas as referências de sua antiga existência, até restarem somente lembranças e tristezas.

Ajudada pela corajosa governanta Madame Manec, a garota encontra forças no contato com a areia, com conchas, moluscos, algas e as águas geladas do oceano Atlântico. Marie-Laure sonha em ser um caramujo. Mas a menina não quer viver encolhida e escondida de todos. O que ela quer, e o que inveja no caramujo com sua concha, é um refúgio, onde possa estar protegida dos horrores que já enfrentou e dos que ainda estão por vir.

>> Leia um trecho de Toda luz que não podemos ver

 

Vanessa Corrêa é jornalista, já trabalhou na Folha de S.Paulo e no portal UOL e é apaixonada por livros, cinema e fotografia.