testeSimulacro

Três horas da tarde, as pedras coruscam na rua. Na seção de história natural, os dinossauros ressonam. Entre os livros infantis, uma menina sonha castelos e fadas. Na contabilidade, no fundo do corredor acarpetado de verde, até os números bocejam de tédio enquanto os romances escondem longas tardes numa praia remota e a brisa, presa entre a capa e a contracapa, não leva o perfume do mar até ela.

Ela olha o relógio, três horas da tarde. Dentro do shopping, o ar-condicionado engana o verão. As estações estão nas páginas dos livros, não nesse emaranhado de caminhos ladrilhados, de vitrines e objetos inúteis.

Dentro da livraria, no corredor dedicado aos autores franceses, ela estica sua mão e tira um livro da prateleira. Sursis. Uma velha edição de Sartre que havia muito não se achava. Nessa livraria moderna e informatizada, entre os lançamentos da semana e os mais vendidos, aquele exemplar distoa. Mas como foi parar ali? De que gaveta se furtou, de que prateleira caiu? De que sala, de que biblioteca, de que mãos? Ela folheia o livro. Também na história de Sartre faz calor e alguém espera seu destino. Assim como Mathieu está à beira de um horrível futuro, o que a aguardará?

Três e dez e ele não veio. Marcou numa livraria para esperá-lo com calma — em que outro lugar teria tão agradável companhia? Na seção de culinária, alguém procura uma receita de creme brullé; entre os norte-americanos, Philip Roth disseca Newark; não há uma seção para literatura polonesa, mas ela encontra Singer nas edições de bolso.

Três e dezoito, pensa em sua mãe. Talvez tivesse sido melhor combinar o encontro num bar. Seria mais fácil. Duas taças de vinho branco e meia dúzia de frases. Se ele queria ir embora, que fosse. Não haveria de ser ela a segurá-lo ali naquela cidade, naquele casamento.

Três horas e vinte e cinco, e no almoxarifado chegam caixas vindas de São Paulo. Um homem paga com seu cartão Visa os dois volumes de Dom Quixote.

Três horas e trinta e oito, para além das paredes, dos carpetes e dos livros de autoajuda, a metrópole faísca sobre o sol. Ali dentro, um senhor busca por Borges, seção literatura latino-americana. Ela volta pelos corredores. Onde estava mesmo? Ah, autores franceses. Seus dedos correm pelas lombadas coloridas. Por fim, encontra o velho Sursis, o exemplar surrado. No caixa, dizem-lhe: “Este livro não está catalogado, senhora, alguém deixou-o por aí, perdeu-o…”.

Ela recorda que ele costumava ser bastante pontual, mas muita coisa mudou desde então. Talvez devesse ter marcado num parque. Numa boutique. Num sinal de trânsito. Mas de qualquer modo, ele não viria. Olhou o livro órfão e sorriu: há sempre alguém perdendo alguma coisa em algum lugar deste mundo.