testePor onde e por que ler Neil Gaiman?

Por Daniel Lameira*

Deuses, crianças e adultos buscando se entender. Para isso vão ao inferno, visitam mundos paralelos, atravessam portas misteriosas. Em cada história de Gaiman, acompanhamos personagens cativantes que partem em jornadas mágicas, muitas vezes para, no fim, descobrir que a resposta estava o tempo todo dentro de si.

Como se fossem artefatos mágicos, os livros do simpático inglês descabelado desapareceram durante anos das livrarias e das mãos dos leitores brasileiros. Um dos maiores autores do mundo acabou se tornando, em nossas terras, conhecido apenas por um nicho, e não pelo grande público. Isso começou a mudar nos últimos anos. Agora, com grande parte de sua obra de volta às prateleiras e uma série de TV estreando, vamos viver em 2017 o ano de Neil Gaiman.

Com dezenas de livros e opções, alguém que ainda não se aventurou nesse universo pode se perguntar qual o melhor caminho a trilhar. Estou aqui para tentar ajudar nessa encruzilhada. Mas antes, uma questão: por que deveríamos ler Neil Gaiman?

Por que ler Gaiman?

Vejo duas palavras entrelaçadas como resposta: mágico e humano. É a relação de ambas que traz, em diversas camadas, a beleza de Gaiman. O resultado é que, ao terminar qualquer obra do autor, vejo a nossa realidade, as pessoas e suas atitudes, com mais magia. E isso acontece não como um escapismo; o fantástico ajuda a enxergar melhor o real.

Gaiman tem essa habilidade rara de se encontrar em outros escritores. Seja o leitor que enveredou pelos lindos caminhos dos clássicos da fantasia, o leitor de quadrinhos, ou o que se emocionou com romances, até o leitor que prefere não ficção ou títulos premiados, todos encontram em Gaiman um ponto de equilíbrio. Talvez isso seja explicado em parte por suas inspirações, que passam pelos fantasiosos Tolkien, Pratchett, Douglas Adams, Lovecraft, Alan Moore, mas também por Jorge Luis Borges, G. K. Chesterton e Bulgákov.

Além de transitar tranquilamente por áreas como criação, romances, quadrinhos, infantis, contos, ensaios, biografias, Gaiman também dirigiu filmes, e se posiciona no cenário cultural de forma exemplar. Ele expôs suas opiniões diversas vezes sobre grandes temas da atualidade: refugiados, política, feminismo. E também é presente nas discussões literárias desde como a fantasia é vista injustamente como uma literatura menor, passando pelas polêmicas envolvendo fascistas em premiações e até defendendo o George R. R. Martin da fúria dos leitores que exigem o próximo livro.

Se não é o bastante, talvez você divida comigo a empolgação de ver um autor no auge da sua criação em atividade. Um escritor que será lembrado na posteridade como um dos gênios e influenciadores culturais de nosso tempo, e que nos ensina a ver mais camadas além da realidade material.

 

Por onde começar ou continuar a ler?

Deuses americanos

Este é o momento certo para você ler esse que é considerado o maior romance de Gaiman. Só porque a nossa edição linda tem trechos inéditos e muito mais? Também, mas principalmente porque enfim a série American Gods acaba de estrear! Está sendo considerada a próxima grande sensação da TV, e essa primeira temporada deve cobrir apenas um terço do romance.

 

Na história, Shadow Moon, dias antes de terminar sua sentença e sair da cadeia, descobre que sua esposa acaba de falecer. Sem rumo, ele começa a encontrar personagens misteriosos e parte em uma road trip fantástica pelos Estados Unidos, tornando-se peça essencial em uma guerra entre deuses.

A mitologia criada para esse livro é excelente: os deuses que estão guerreando se dividem entre deuses antigos (gregos, egípcios, hindus, nórdicos etc.) e novos (como a mídia, a tecnologia e o dinheiro). Mas, mais do que o épico, é nos elementos pequenos, a cada encontro, cada local pelo qual o protagonista passa – os seus encontros com esses seres mitológicos agora personificados – que a escrita de Gaiman cresce e mostra por que é única.

 

O oceano no fim do caminho

Se você quer algo introspectivo e belo, O oceano no fim do caminho talvez seja a pedida certa. Esse romance recente do autor é uma pequena joia.

No início, a ideia era que fosse uma novela, mas o texto foi ganhando substância e se tornou um pequeno romance de duzentas páginas. Gaiman o escreveu enquanto passava um tempo distante de sua esposa, Amanda Palmer, e foi colocando elementos que ela gostaria de ler. Como ela não é muito fã de fantasia, os aspectos fantásticos aqui ficam um pouco atenuados. Tem um lado autobiográfico interessantíssimo: o narrador do livro é um adulto que, em um funeral, começa a relembrar sua infância, diversos episódios reais, e sua relação com umas vizinhas estranhas e fantásticas.

 

Sandman

Minha cabeça realmente explodiu quando li Sandman. Já tinha lido diversas outras graphic novels de renome, de Cavaleiro das Trevas e Watchmen a Will Eisner e Spiegelman, mas acho que a história de Morpheus – forma antropomórfica do Sonho – se libertando de sua prisão e reencontrando seus irmãos (Morte, Destino, Destruição, Desejo, Desespero e Delírio) é incomparável.

Aqui também, muito mais do que os grandes arcos, os pontos altos são as pequenas histórias e como esses seres transcendentais e poderosíssimos se relacionam e influenciam os seres humanos, desde o mais desconhecido até Shakespeare.

 

Belas maldições

Gaiman era um grande amigo e admirador desse autor que é ainda menos conhecido por aqui, mas que é um dos mais importantes autores de fantasia: Terry Pratchett, criador da série que mais me fez rir na vida, Discworld. Juntos, eles escreveram esse que é o mais sarcástico e irônico livro desta lista. Perfeito para os fãs de Douglas Adams, por exemplo.

No livro, um demônio e um anjo percebem que nem o céu nem o inferno são tão legais para se passar o tempo todo e se juntam para evitar o Apocalipse. Uma dica: quando ler, tente identificar quais capítulos foram escritos por Gaiman e quais são os do Terry Pratchett.

 

Bônus track

Mitologia nórdica: Assista esse vídeo incrível do próprio Gaiman apresentando o seu mais recente livro.

Lugar nenhum: Primeiro romance do autor, passado em uma Londres subterrânea. Também é uma ótima porta de entrada.

Para os pequenos: Coraline, João & Maria e Livro do Cemitério.

E para os menores ainda: Cabelo Doido, Os lobos dentro das paredes e O dia em que troquei meu pai por dois peixinhos dourados.

E para aqueles que precisam de um pouco de inspiração: Faça boa arte, o discurso de Gaiman aos graduandos da University of the Arts que se transformou nesse livrinho – idealizado pelo designer gráfico Chip Kidd –, traz suas ideias sobre criatividade, bravura e força, encorajando os novos pintores, músicos, escritores e sonhadores a pensar de forma inovadora.

Me obrigaram a encerrar este texto, senão ele se estenderia infinitamente. Eu aprendi a amar literatura com diversos autores e me apaixonei por muitos outros no caminho: R. L. Stevenson me fez navegar os mares de uma literatura empolgante pela primeira vez, J. K. Rowling mudou os rumos da minha vida, Tolkien e Terry Pratchett expandiram o que eu achava possível fazer em livros até então… Depois me empolguei com livros de Brandon Sanderson, Susanna Clarke, Philip Pullman, Ursula K. Le Guin e George R. R. Martin. Mas Gaiman sempre me surpreende com sua leveza e profundidade, por conseguir andar pelos campos mais etéreos da nossa mente, mas falar, ao mesmo tempo, do que há de mais humano dentro de nós.

 

*Daniel Lameira é editor de aquisições da Intrínseca. Ficou muito feliz por ter atendido Gaiman quando trabalhava em uma livraria, mas triste por não ter o livro que ele pediu.

testeDe Sandman à Mitologia Nórdica

Por Bruno Machado*

Sandman, Gaiman e o Martelo de Thor (Fonte)

Não é de hoje que as pessoas procuram explicar o que não compreendem por meio dos deuses. Se os céus demonstravam sua fúria com raios e trovões, os gregos acreditavam ser culpa de Zeus, enquanto os escandinavos apontavam o brutamontes Thor como responsável pela bagunça. Ao longo dos séculos, as divindades que surgiam — ou eram descobertas, dependendo da sua crença — se mostravam seres complexos, com relações e disputas internas, e suas sagas inspiravam pessoas por todo o mundo.

Quando dois quadrinistas, Jack Kirby e Stan Lee, decidiram que as brigas, birras e dramas de Valhala dariam um excelente quadrinho capitaneado pelo agora loiro, musculoso e usuário de capacete com asinhas Thor, não faziam a menor ideia do impacto que essas histórias fariam na vida de um menino de sete anos que morava no interior da Inglaterra: Neil Gaiman. Um voraz consumidor de literatura fantástica e quadrinhos desde criança, Gaiman viu que a carreira no jornalismo não era exatamente o que buscava, e começou a trabalhar como roteirista das histórias em quadrinhos que tanto lia na juventude.

Se Lee e Kirby reimaginaram os deuses nórdicos, ele faria o mesmo com Sandman, e alcançaria o sucesso ao repensar como o Sonho e as demais entidades conhecidas por Eternos interagiam com os mundos e personagens das mais diversas origens. Lúcifer, por exemplo, é um príncipe frustrado, que quer abdicar de seu domínio no submundo. Interessados dos mais diversos lugares aparecem, e entre eles uma comitiva um tanto peculiar: as divindades nórdicas, que querem o inferno como território para usar de barganha e evitar o Ragnarök, o fim do mundo nórdico. O estranhamento se dá quando percebemos que os deuses de Gaiman não são como a cultura pop nos mostrava: Thor não é um paladino da justiça, loiro e eloquente, e sim  uma divindade ruiva e grosseira; Odin não é apenas sábio, e sim uma criatura soturna e estranha. Loki é o mais próximo da ideia que tínhamos do personagem, ardiloso e egoísta, mas é curioso ver o deus da traição como parte dos deuses, e não seu inimigo.

Os Deuses Nórdicos na visão da Marvel e como eles são retratados em Sandman.

Esse relacionamento de Gaiman com os deuses nórdicos foi fundamental para a sua obra. Em seu livro mais conhecido, Deuses americanos, Odin continua como líder e responsável por arquitetar seus planos por trás dos panos. Ao se mudar para os Estados Unidos, o escritor começou a imaginar um universo no qual divindades tivessem ido para o país junto dos primeiros colonos, divindades que só permaneceriam vivas enquanto houvesse gente que as louvasse.

No livro, o grande plano de Odin é vencer novas divindades, como a Tecnologia e Mídia, e manter os deuses antigos relevantes em um mundo que aparentemente os esqueceu. Para ajuda-lo nessa batalha entre os deuses, Odin conta com a ajuda de um humano comum, que é trazido para uma jornada épica pela América e testemunha o maior conflito da história. Falar mais sobre a participação das divindades nórdicas em Deuses americanos é entrar na zona de spoilers, mas os leitores mais atentos descobrirão que nomes podem esconder mais do que se imagina.

Uma carreira de sucessos literários depois, era hora de o autor prestar tributo aos mitos escandinavos em uma obra exclusiva. Em Mitologia nórdica, os heróis e a fantasia dão lugar à pesquisa histórica.

Alternando histórias sombrias e divertidas, Neil Gaiman mostra por que os mitos escandinavos são tão fascinantes. Com histórias que variam do casual ao épico, os contos vão desde a criação do martelo Mjolnir — e a “culpa” que Loki teve na criação da arma mais poderosa dos nove mundos –, à origem absurda da poesia, ou ao dia que Thor se vestiu de noiva para fingir ser a deusa Freya.

Segundo Gaiman, porque têm um final no Ragnarök e um recomeço, os mitos nórdicos são, de certa forma, mais vivos: os mitos gregos e romanos são estáticos, sempre no mesmo ponto, sem nunca se desenvolverem ou terem um fim.  É possível se perguntar se o crepúsculo dos deuses já aconteceu, ou se Thor ainda está martelando gigantes por aí. E é essa peculiaridade que chamou a atenção de um menininho de sete anos, que levou consigo essa paixão até que pudesse, quase quarenta anos depois, prestar a devida homenagem aos mitos nórdicos.

Deixe-se encantar pelos deuses nórdicos de Gaiman você também.

 

*Bruno Machado é assistente de Marketing, Nerdices e Redes Sociais na Intrínseca

testeNeil Gaiman na Intrínseca

Novo livro adulto do inglês Neil Gaiman, The Ocean at the End of the Lane, previsto para publicação na Inglaterra e nos Estados Unidos em junho de 2013, acaba de ter os direitos adquiridos pela Intrínseca.

Famoso por Sandman, Stardust, American Gods e Coraline, entre outros livros, Gaiman anunciou o novo título em agosto em seu Twitter (@neilhimself) sem divulgar mais detalhes sobre a trama. A edição brasileira será publicada no ano que vem.