testeVerdadeira história de pescador

Estive no médico dia desses. O doutor, mapeando meu passado, quis saber se eu ainda tinha os avós vivos e, se não os tinha mais, qual havia sido o motivo da mortes e em que idade haviam falecido. Fiquei ali alguns minutos rememorando as desditas familiares (meus quatro avôs já se foram), e por instantes me senti traçando as linhas gerais de um romance. Fui embora um pouco pesarosa de saudade.

Meu avô materno morreu aos 65 anos. Minha avó materna, não conheci — morreu antes do casamento dos meus pais e deixou aura de “santa”, como todas as pessoas que morriam cedo antigamente. Minha avó paterna era uma senhora que viu de tudo neste mundo até morrer, por engano, aos 87, quando baixou no hospital para fazer exames e uma enfermeira desatenta ministrou-lhe o remédio da paciente da cama ao lado. Nisso eu já era moça e me lembro bem do desconsolo ¾ a avó Maria certamente chegaria aos 100.

Meu avô paterno era catarinense e tinha um nome que sempre me evocou fantasias: Bertuíno. Apesar do nome que faz lembrar aqueles homens do deserto, nada tinha de brutal ou selvagem. Ao contrário, era calado, custando para cuspir uma palavra, mas olhava o mundo com olhos meio tristes. Gostava mesmo era de pescar, e foi pescando que teve a premonição de que iria morrer no inverno seguinte.

Bertuíno pescava de tarrafa, aquelas redes circulares que se lançam à mão. Todo verão, no fim de março, ele chamava um dos netos e dizia: “Meu filho, pegue esta tarrafa pra ti; o avô está velho e não passa deste inverno.” No verão seguinte, estava o avô outra vez, e sem tarrafa ¾ lá se ia meu pai a comprar-lhe outra para as pescarias. Foi assim durante muitos anos. O avô Bertuíno chamava um neto e passava adiante a rede porque estava velho, e, para ele, tempo de velho morrer era no inverno. Distribuiu fartamente suas tarrafas, pois tinha dezenas de netos dos seis filhos que fez na mulher — eram sete, mas um deles, em criança, afogou-se num açude.

Numa pescaria noturna, no fim de um verão, uma veia se lhe rebentou dentro do nariz e ele prosseguiu pescando, pescando, enquanto seu sangue se esvaía no escuro e tingia o mar. O avô, depois de muito sangue perdido, caiu na água sem sentir e foi levado ao pequeno hospital praiano, onde, já em estado de choque, recebeu precário atendimento. Não iria morrer ali, mas aquele foi o começo de sua morte. Para um velho pescador, tinha lá seu encanto, derramar o sangue no mar… Ele morreu alguns anos depois, num começo de outono. Depois de tantos verões, não teve decerto paciência de esperar a chegada de outro inverno.

testeSubterrâneos

Subterraneos

No fundo, somos todos uma Roma. (fonte)

Somos nossa própria alvenaria.

Horas e dias e anos amontoam-se dentro da gente como peças e recantos de uma casa na qual o único desenho é o destino. Alguns de nós conseguem delimitar um espaço aqui ou ali por vontade própria, afinal sempre existem os estoicos.

Mas a planta geral da nossa existência é aleatória.

E os desabamentos acontecem, grandes ou pequenos. Tragédias íntimas, quem não as tem?

Falências, mortes, divórcios, doenças, sonhos que morrem e afetam profundamente os alicerces da nossa vida, derrubam paredes, interditam caminhos, escondem a vista. Podemos colocar tábuas e construir pontes que nos ajudem a atravessar essas crateras emocionais no dia a dia. Mas o passado que ruiu seguirá em cada um de nós feito uma cicatriz, assim como — oxalá! — as boas surpresas da vida às vezes nos entregam uma inesperada varanda para o mar, um sótão iluminado ou uma escada para novos horizontes.

Com o passar dos anos, todos seremos como essas cidades antigas sobre as quais o tempo vai depositando teimosamente suas incontáveis camadas, uma coisa soterrando a outra, e assim por diante, de forma que chegamos a imaginar que conseguimos esquecer certas pessoas, algumas memórias e antigas dores. Mas aí, subitamente, nos vemos obrigados a cavar uma vala, abrir espaço para o futuro, construir o túnel dos nossos dias, e lá está tudo intacto no fundo da gente, como a bela cidade de Roma com suas eternas obras do metrô — seus teimosos túneis acabam sempre topando com um palácio, ou catacumbas, ou termas, ou um anfiteatro. E os engenheiros precisam driblar esses tesouros renascidos das entranhas do tempo, contornando judiciosamente o passado que brota do chão romano por todos os lados.

No fundo, somos todos uma Roma — o passado inexpugnável nos habitará para sempre, oculto no centro palpitante da nossa memória.

Basta cavar.

E, às vezes, nem muito.

testeHistória numa noite de verão

Para fazer meu Tobias dormir, leio-lhe um livro que conta uma história que conheci de perto, sobre uma menina, sua avó e as miraculosas coisas que viveram juntas. É um livrinho curto, de texto delicado, que termino segurando o choro — difícil menino dormir com mamãe chorando no fim da história, né?

Enfim, à propósito do livro, fiquei pensando na minha própria avó. Lá se vão mais de vinte anos desde que ela faleceu. Mas parece que veio aqui hoje, nessa imprevisível noite de verão, dar um “oizinho” para a neta. Deveria eu, talvez, escrever sobre um livro ou um filme. Acontece que o mundo anda cheio de opiniões e gosto mais é de sugerir pessoas, isso, sim.

Sabedora disso, a recordação da minha avó veio me fazer companhia. Teve muitos netos, ela. E bisnetos também — a última conta familiar já alcançava algumas dezenas. Estava sempre em visita, flanando pelas ruas da cidade com seus vestidinhos abotoados, a carteira de mão, seus sorrisos e suas receitas de remédios caseiros. Era humilde e elegante como poucas; bastava que um parente interiorano adoecesse para que ela o trouxesse à sua casa na capital, peregrinando com ele de hospital em hospital. Embora morássemos perto, eu a via menos do que deveria. Foi uma avó como um vinho: para ser compreendida com o tempo. Quando fiquei mocinha, sempre me presenteava com lencinhos brancos de cambraia. Talvez soubesse, pela experiência da vida, que se chora muito pelos anos afora. Por isso dava lencinhos e nada dizia deles… Engraçado é que nunca a vi chorar, mesmo tendo dado adeus a um filho, ao marido e a um neto — era inacabável, a sua doçura. Vivia para atender ao avô, até que uma tarde, já iam ambos bem passados de anos, ele pediu: “Me busca um copo d’água.” “Vá buscar você”, retrucou ela sem altear a voz. Assim, emancipou-se sem alardes, e daquele dia em diante não atrasava visitas nem perdia a hora da manicure por causa dos gostos do marido.

Chamava-se Maria, um nome simples, como toda ela. Morreu por engano ao internar-se para fazer uns exames de rotina; não reclamou do azar supremo durante seus últimos dias. Era uma mulher como um sopro de brisa. Entrou pela minha janela faz pouco, enquanto eu cerrava os vidros para a noite estrelada de verão. “Tantos lencinhos eu te dei”, pareceu ter-me dito. Na vida se chora muito, mas também se ri. Depois sumiu entre as constelações; decerto tinha tantas outras visitas a fazer.

testeO veraneio

Férias: lá vou eu. A partir de hoje, vou deixar as sextas-feiras um pouquinho mais silentes. Volto em fevereiro com meus textos. Um abraço a todos.

Férias: lá vou eu. A partir de hoje, vou deixar as sextas-feiras um pouquinho mais silentes. Volto em fevereiro com meus textos. Um abraço a todos. (fonte)

O conceito que se tinha de férias e que se encontra no Aurélio sob a definição de “certo número de dias consecutivos destinados ao descanso” mudou bastante, visto que a mania de fazer mil coisas ao mesmo tempo contaminou o período que originalmente era dedicado ao ócio, ao prazer e à contemplação. As férias modernas ganharam conotações quase olímpicas. Viaja-se com um roteiro programado, intenso, encaixadinho. Fazer o Nordeste, passear pelo litoral catarinense, fluminense e paulista. Nem os sagrados dias de descanso de um vivente escaparam dessa absurda mania de organização e bom aproveitamento do tempo que a gente vive hoje em dia.

As férias de verão, por exemplo, deveriam não ser mais do que propriedade do acaso. Acha-se um endereço, de preferência numa praia bonita e relativamente calma, leva-se boa provisão de livros e de filtros solares — e seja o que Deus quiser. De resto, somente a permanência liberta, isso no caso de a meteorologia contribuir, pois estamos evidentemente falando de uma praia com sol. Ficar muitos dias num único lugar, até o tédio das reticências… Isso, sim, é luxo. Desfazer as malas apenas uma vez, estender a rede na varanda e gastar tardes ali.

Quando eu era menina, veraneávamos. Essa era a única regra fixa nos dois meses de vacaciones: estar na praia. Sem planos, sem passeios mirabolantes, sem calendários. As semanas escorriam molemente, alternando dias de sol e chuva, e era uma delícia estar assim, apenas flanando entre as horas, na rotina da praia e da sesta. “Tirar uma torinha”, como dizia meu pai. Duas horas por tarde, de pijamas. Depois, praia outra vez e pão quentinho, de quarto de quilo, de meio quilo, e a gente vinha comendo a pontinha no caminho, porque quem comia a ponta do pão ficava mais bonito. Telefone nem havia. Num caso de urgência, ia-se à central telefônica, tirava-se uma ficha, esperava-se a fila. Era coisa imperdível: todas as crianças enfiadas na cabine minúscula e suarenta para dar no pai o beijo das quartas-feiras. Às sextas, o pai chegava à praia trazendo o carro carregado de frutas, comidas e novidades. Eram exatamente assim nossas férias, multiplicadas por oito. Ninguém precisava de mais; seguíamos salvos para o ano seguinte, livres e leves.

Recuperados de qualquer percalço, fechávamos a casa de praia no último dia de fevereiro. Eram longos aqueles adeuses, a rua inteira se despedindo, rumando para suas casas na cidade. Mesmo morando todo mundo em Porto Alegre, às vezes em bairros vizinhos, jamais nos víamos nos meses de março a dezembro — éramos amigos de verão, e tal lógica nos parecia sagrada e irremediável.

testeO lugar do escritor

A editora Cosac Naify fechou as portas, para grande tristeza de todos nós. Mas as belezas que ela publicou seguem por aí, iluminando nossos dias. Aqui, sobre a mesa, tenho um livro de fotografias cujo título peguei emprestado para este texto (O lugar do escritor, Eder Chiodetto), que mostra vários autores e os locais onde trabalham. Vemos Patrícia Melo, Manoel de Barros, Luis Fernando Verissimo, Nélida Piñon, Adélia Prado, João Ubaldo Ribeiro, Jorge Amado e muitos outros. Vemos Ariano Suassuna deitado numa cama enorme na sua casa no Recife, revisando seus textos, enquanto, diz ele, os netos correm pela sala. É um belo livro, que fica no lugar onde escrevo.

Eder Chiodetto assina um preâmbulo explicando o livro — um texto curto, que diz algo como: o lugar onde o escritor escreve sua história é exatamente onde ele nunca está. Achei lindo, pois esse lugar, esse refúgio entre livros, uma janela talvez para uma paisagem querida, é apenas uma porta para o mundo da ficção. Dali é que o escritor se debruça para o outro lado, em aventuras divertidas, às vezes repletas de sofrimento, de angústia, de incertezas. Nunca estamos onde estamos quando escrevemos. Quando lemos um bom romance, também. A ficção é uma ponte para novos mundos, e a mesa de um escritor, penso eu, é um ancoradouro. Dali, partimos e voltamos das nossas viagens ficcionais.

Lembrei um trecho do livro de memórias do Orhan Pamuk, Istambul, memória e cidade, em que escreve: “Cinquenta anos depois, vejo-me de volta ao mesmo edifício onde as minhas primeiras fotografias foram tiradas […] Mas vivemos numa era definida pela migração em massa e por imigrantes criativos, de maneira que muitas vezes me vejo levado a explicar por que fiquei não só no mesmo lugar, mas no mesmo edifício.”

Pamuk ficou lá exatamente porque uma parte dele nunca esteve lá de verdade. Seu edifício e até mesmo Istambul (ele escreve, o destino de Istambul é o meu destino) são apenas seu ancoradouro, pois, quando o espírito do escritor navega, sua alma precisa ficar em algum lugar.

testeO que era vidro

 

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(Quadro por Jenny Muncaster)

Casamento com festa e presentes enche os armários da casa nova. Sempre gostei de dar taças e cálices para os noivos. Nem costumo olhar as listas nas lojas: taças, quero taças. Que um casamento se inicie com um armário cheio delas! Noivos que não pedem cálices e taças não estão casando para ser felizes. Tive prova disso num casamento para o qual fui convidada alguns anos atrás. Na lista, só havia panelas, pratos, eletrodomésticos e jogos americanos: muita vida real para qualquer começo. Então, dei um jogo de taças. Não adiantou muito. Alguns meses depois, o casal se separou, e elas devem ter ido parar num quarto e sala de solteiro. A vida precisa de brindes! Creio que, no fundo desses delicados bojos cristalinos, habita um eterno convite à alegria — o começo de uma vida nova merece comemoração, e toda vida que se perpetua também pede seu tim-tim, mesmo que simbólico.

Com o passar do tempo, no entanto, as taças vão desaparecendo. Um belo dia, a gente abre o armário de louças e se dá conta de que aquelas taças que a vovó nos deu já não existem mais. Fazer um inventário dessas perdas é uma aventura interessante. Um brinde de Natal e, pum!, uma taça vai-se embora. Aquela noite romântica e um arroubo na semiescuridão da sala: mais um gol. Uma antiga festa de aniversário e sua melhor amiga erra a linha divisória entre o fim da mesa e o começo do caminho que leva ao chão. Assim vão sumindo os cálices e as taças da nossa vida. Mas ficam os momentos. Há algum tempo, estava começando a arrumar a mesa para uma festinha quando vi que meu armário estava bastante desfalcado. Não foi difícil nem triste lembrar como meus cálices foram partindo, um por um. Foi bom. E gostei dos conjuntos desfeitos, da mesa com as taças diferentes, onde tantas vezes confraternizamos com família e amigos queridos, brindando filhos, empregos novos, aniversários, superações e reencontros.

Hoje, arrumo a mesa com um mix de taças dos vários conjuntos que já passaram por aqui. Em cada jantar, há um apanhado dos bons momentos vividos, um recorte da vida codificado pela multiplicidade de cálices e taças. Que venham mais brindes! Porque só com alegria é que se consegue ir em frente. Quebrar os cristais é sempre sinal de boa sorte. Prefiro minhas taças quebradas a escondidas dentro de um armário fechado. Assim é a vida, não é mesmo?

testeO rabo das palavras

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(Fonte: http://bit.ly/1l83yia)

O ano de 2015 está quase acabando, graças a Deus — atrevo-me a dizer. É claro que nem tudo foi ruim. Pequenas alegrias iluminaram meus dias, e é delas que quero me recordar mais adiante, quando fizer a curva e olhar para trás. Houve uma coisa muito legal este ano, que quero levar comigo pela vida: descobri, inusitadamente, que gosto de dar aulas. Nunca pensei em ser “professora”. Nunca mesmo. Meu processo criativo é tão desordenado, tão visceral, que jamais imaginei poder ajudar alguém a enveredar por esse mundo impalpável das palavras e das histórias. Porém, quando criei coragem, lá estava eu em frente a quinze alunos — eu e meus singelos apontamentos, eu e minhas dúvidas, eu e minha paixão pela ficção. E tem sido tão bom compartilhar, multiplicar, iluminar… Tem sido tão bom dividir essa aventura que é escrever um livro!

Sempre admirei os músicos porque, no palco, eles têm a possibilidade de dividir o trabalho. A literatura, com seus mistérios e segredos, é um exercício solitário. O escritor escreve sozinho e o leitor lê sozinho — essa ponte invisível que se forma entre ambos permanece como um campo energético, mas é fluida, secreta, silenciosa. No seu último show em Porto Alegre, Jorge Drexler (sempre iluminado) disse que queria criar ali, no teatro, um ponto cego onde a tristeza não entrasse. “La pena no llega hasta aquí”, cantou ele em “La luna de Rasquí”. É isto que sinto na sala de aula cercada pelos meus “alunos”: nas poucas horas em que permanecemos juntos, a tristeza dá um jeito de desaparecer, e alguma outra coisa, leve, vigorosa, fácil e feliz, se imiscui entre nós. Essa coisa, creio eu, é a ficção, são as histórias — porque sem as histórias a gente não vive.

É como escreveu Guimarães Rosa no seu Grande Sertão: Veredas: “Viver é muito perigoso… Porque aprender a viver é o viver mesmo… O mais difícil não é um ser bom e proceder honesto, dificultoso mesmo, é um saber definido o que quer, e ter o poder de ir até o rabo da palavra.”

Viver é perigoso, mas escrever uma boa história é ir até o rabo da palavra.

testeChegadas e partidas

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Bailar en la cueva, disco de Jorge Drexler. “Todo cae” é a faixa citada neste textinho.

A vida é cheia de partidas, e cada uma delas é um fim e também um começo. Tenho pensado muito nisso a propósito de minha própria história. Não estou falando de mortes físicas, mas da alegoria da morte presente em várias instâncias do cotidiano.

Lembro com euforia alguns começos fundamentais na minha vida — o grande amor, sonhos, o primeiro livro —; lembro detalhes, riscos, ansiedades, esperanças… Algumas dessas lembranças hoje doem em mim. Nem todas chegaram a termo como eu imaginava, mas, olhando para trás, acho que não existe um fim realmente bom, a não ser um recomeço. Quando um filho, já crescido, sai da casa dos pais, por exemplo, reside aí uma dor, uma despedida. Mas mora nisso também uma alegria, pois a partida é um desdobramento, é uma conquista, é a vida seguindo seu inevitável caminho.

A morte está dentro de todas as coisas e faz parte do caminho da vida, já que todos os começos têm seu fim. Porém, é muito difícil dar adeus àquilo que amamos: filho, amor, casa, emprego ou projeto de vida. Quando o final chega, sofremos tanto! Diz a música do genial cantautor uruguaio Jorge Drexler: “Cada corpo, por mais engenhoso, viaja ao encontro do seu repouso.” Assim é. Mas creio que precisamos esquecer isso todos os dias, porque viver com a perspectiva do término é impossível. Preferimos enxotá-la para o breu das coisas não pensadas até a hora em que esse encontro for inadiável. E, a cada despedida, seguimos adiante com mais uma dor; um pouco mais forte, talvez; um pouco mais triste também — afinal, saber lidar com a tristeza é uma força poderosa e bastante menosprezada nos dias atuais.

Algumas coisas terminam em si mesmas, dando espaço para outras, completamente novas, nascerem. Coisas, pessoas e eventos queridos apenas se desdobram, transformam-se em outros, como tudo se transforma na sua caminhada para sempre infindável.

testePequeno interlúdio botânico

Acontece que na nossa casa de praia temos um jardinzinho. Não é grande nem tem alamedas — como a definição da palavra que consta do dicionário —, mas seu tamanho é suficiente para que eu me sinta feliz ao ver ali rosas (fingindo talvez ser uma dama de antigamente, tal qual a sra. Ramsay) e, às vezes, quando estou triste, arrastar uma espreguiçadeira até a sombra de uma árvore e ficar pensando na vida. Enfim, nada que espante os olhos, mas o bastante — esse meu jardinzinho — para acalmar o coração.

Acontece que temos um jardineiro que vai lá para tratar a grama, aplicar remédios nas flores, matar as lagartas e nos contar pequenas histórias dos outros grandes jardins de que ele cuida com muito êxito e grande trabalheira. Nosso jardineiro é uma pessoa com absoluto senso prático. Talvez, como diria Vinicius de Moraes, um médico de rosas — foi pelas mãos dele que as rosas brotaram ao pé da janela. Ele sabe muito: basta olhar o céu para nos dizer se fica sol ou se vem a chuva Quase nunca erra, por isso é possível fazer planos se baseando somente em seus juízos.

Às vezes, acontece de viver suas angústias, o nosso jardineiro. Este ano, disse-me que a primavera está tão fria e chuvosa que suas flores e plantas não nasceram ou se atrasaram à espera do verão. Está sendo um grande estresse para ele. Seus patrões imaginam o jardim repleto de lírios, rosas, buganvílias, margaridas, jasmins e lavandas. Mas as flores ainda dormem, desatentas aos cuidados com que ele as cumula, tentando reparar os desatinos imprevisíveis do clima.

Fiquei pensando bastante nisso. Hoje em dia, todo mundo anda tão tenso, sempre tão angustiado com horários, cotações, delações e diagnósticos… Segue aqui nosso jardineiro também com seus problemas — angustia-se com a cor e a saúde das rosas, com os botões que não querem abrir ou com o gramado que precisa de reparos. A competência leva o homem às raias da perfeição. A vida é assim para todos: uma lição que aprendi esses dias, vendo-o correr de uma casa a outra — eu que pensava que cuidar de flores sossegasse a alma. Tentando compensar as plantas pela falta que lhes faz a primavera, o jardineiro trabalhou o dobro. E segue cumulando as rosas de atenção, como um pai amoroso que quer poupar os filhos das inevitáveis agruras desta vida.

testeDos amores

A amizade, um dos amores mais sábios. (via)

A amizade, um dos amores mais sábios. (fonte)

Amar alguém não é entender uma pessoa. A compreensão está bem mais perto da amizade — que é um tipo de amor, claro, mas que não guarda a ânsia do amor.

Existem, porém, amores profundos, atávicos — filhos, amantes, certas pessoas da família a quem queremos especialmente bem —, os quais, por mais fortes que sejam, passam muito longe da compreensão. A gente ama e fim. Temos que lidar com a enormidade abstrata desse afeto.

Passamos a vida cuidando dos nossos amores, daqueles verdadeiramente importantes para nós. Com o correr do tempo, na maioria dos casos, vemos que eles precisam de coisas muitas vezes inalcançáveis, e que estas coisas — sonhos, projetos, ambições — podem não nos dizer absolutamente nada. Porque o amor não nos torna iguais. Existem amores intrínsecos, que levamos pela vida afora, como um fardo, uma alegria, uma dor, uma saudade…

Quase nunca podemos compreender as pessoas mais próximas a nós, assim como o que temos para lhes oferecer nem sempre é o que elas realmente querem. A vida é difícil. As relações sentimentais são cheias de arestas, que espetam aqui e ali. Deveríamos, no entanto, esquecer essa necessidade de satisfazer ao outro, entendê-lo e esmiuçá-lo. Poderíamos então abrir mão de que o objeto amado seja igual a nós.

Seria muito mais bonito querer as pessoas que nos são importantes com um amor mais simples, mais sóbrio, que humildemente dispensasse a necessidade da compreensão.