testeA PF deve focar só em corrupção?

 Antônio Cláudio Mariz de Oliveira

O advogado Antônio Cláudio Mariz de Oliveira (fonte)

O jornal Folha de S.Paulo dedica sua manchete de hoje a uma entrevista com o advogado Antônio Cláudio Mariz de Oliveira, que chegou a ser cotado para assumir o ministério da Justiça num possível governo de Michel Temer, mas que já foi “descartado” por suas declarações a respeito da Lava Jato.

Numa de suas respostas, Oliveira é taxativo. Diz que “a Polícia Federal precisa ter outros focos paralelos à corrupção”, que “o crime organizado está tomando conta do país”, e assim por diante.

Há quem veja nesse posicionamento uma perigosa mensagem subliminar de esvaziamento da Operação Lava Jato. Pessoalmente, espero que não. Mas, na posição de quem estuda crimes contra a arte há cinco anos, vejo na entrevista uma brecha para os brasileiros finalmente cobrarem mais atenção, por exemplo, à investigação do roubo do Museu da Chácara do Céu, ocorrido no Rio de Janeiro em fevereiro de 2006.

Há dez anos — dez! — o inquérito está aberto, sofrendo sucessivas ampliações de prazo. Há quem pense que esse é um assunto menor, menos importante, algo que não mereceria destaque no horizonte de um eventual novo ministro. Lembro, no entanto, que roubo de arte movimenta 6 bilhões de dólares por ano em todo o mundo e que só perde em dimensão para o tráfico de drogas e armas.

Não me move o debate sobre se haverá ou não um novo governo, ou se Oliveira ocuparia ou não o cargo de ministro da Justiça. O que me move é lutar para que a investigação do maior roubo de arte do país — um dos dez maiores do mundo, segundo o FBI — avance. Cobre você também.

Para saber mais sobre essa história, leia um trecho de A arte do descaso.

testeA lista dos descasos, em ordem aleatória

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O museu da Chácara do Céu, no Rio de Janeiro (Fonte)

1 – O primeiro comunicado emitido pela Polícia Federal sobre o roubo ao Museu da Chácara do Céu foi destinado aos aeroportos de Rio de Janeiro e São Paulo, ao porto do Rio e à Polícia Federal Rodoviária em Duque de Caxias. Em vez de listar todas as obras levadas pelos criminosos, citou apenas três. O documento não trazia uma descrição minuciosa das obras nem fotos delas.

2 – A perícia técnica feita na Chácara do Céu na noite do crime, em 24 de fevereiro de 2006, colheu impressões digitais em pelo menos dois locais. A conclusão da análise dessas digitais — mesmo que não dessem em nada — jamais foi juntada ao inquérito do roubo, que segue em aberto.

3 – Na noite em que foi atacado, o Museu da Chácara do Céu dispunha de um sistema de vigilância, mas não de um alarme. Em poucos minutos, os criminosos desligaram todas as câmeras instaladas na casa e levaram consigo todas as fitas de VHS que mostravam o vaivém na instituição nos três dias anteriores. Os vigias não puderam reagir. Nos bolsos, tinham apenas apitos.

4 – Ao invadirem a Chácara do Céu, os quatro criminosos fizeram nove reféns: três vigias, o funcionário da bilheteria do museu, dois neozelandeses, duas australianas e um taxista que havia levado as turistas até o local. Os neozelandeses jamais prestaram depoimento, bem como o taxista.

5 – Segundo relato dos reféns, quatro criminosos entraram na mansão de três andares e por lá ficaram por aproximadamente meia hora. A Polícia Federal fez e divulgou o retrato falado de apenas dois.

6 – A primeira delegada responsável pelo caso solicitou que o telefone celular de um dos suspeitos fosse grampeado. A Justiça autorizou, mas, por questões técnicas e por falta de recursos humanos, os áudios não ficaram gravados no sistema de grampos da PF.

7 – O roubo ocorrido em 2006 não foi o primeiro. Em 1989, o museu havia sido invadido por um grupo que acabou sendo preso pouco depois. Entre as obras levadas à época estavam duas que voltariam a ser alvo da cobiça criminosa anos mais tarde: o Matisse e o Dalí. No inquérito da PF sobre o segundo roubo não há qualquer menção a isso.

8 – O ataque à Chácara do Céu ocorreu no fim da tarde de uma sexta-feira, véspera de Carnaval. A diretora do museu havia deixado a instituição mais cedo para evitar o trânsito. Seu superior, o responsável pelo Departamento de Museus, soube do caso, redigiu uma nota para o Jornal Nacional, avisou ao então ministro da Cultura, Gilberto Gil, e passou dias em Porto Alegre. Gil, por sua vez, estava no carnaval baiano. Ao ser acionado, repassou o problema ao ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, que, por sua vez, contatou a Polícia Federal. Naqueles dias, a PF do Rio estava em plantão de Carnaval. Boa parte de seus homens estava alocada no policiamento do Sambódromo.

9 – O Museu da Chácara do Céu nunca teve em seus registros fotos em alta resolução das obras-primas roubadas. Elas também não estavam asseguradas.

10 – A diretora do museu soube do roubo, mas não retornou imediatamente à instituição. No dia seguinte, foi a um churrasco de Carnaval. Ao ser chamada às pressas para dar uma entrevista para o Fantástico, reclamou. Em vídeo, disse que os culpados pelo roubo eram os responsáveis pela segurança pública do Rio de Janeiro. O mal-estar foi geral.

testeO roubo a museu mais badalado do mundo

The empty frame from which thieves cut Rembrandt's The Storm on the Sea of Galilee remains on display at the Isabella Stewart Gardner Museum in Boston. The painting was one of 13 works stolen from the museum in 1990

O roubo do Isabella Stewart Gardner Museum, em Boston. (fonte)

Se você curte museus e obras de arte, se é admirador de Rembrandt, certamente já ouviu falar do roubo ao Isabella Steward Gardner Museum, em Boston, nos Estados Unidos. O que talvez você não saiba é que a lista de semelhanças entre esse caso e o do Museu da Chácara do Céu, no Rio de Janeiro, é gigantesca.

Na noite de 18 de março de 1990, na véspera do feriado de Saint Patrick’s, um dos mais populares de Boston, uma dupla de ladrões chegou ao Isabella Stewart Gardner Museum e, fazendo-se passar por policiais, convenceu os vigias a abrir as portas da instituição. Os homens alegaram que tinham recebido um telefonema informando que criminosos em fuga haviam entrado ali em busca de refúgio. Ao cruzarem os portões do museu, os assaltantes renderam os seguranças, selaram seus lábios com fitas adesivas e os algemaram aos canos do porão, um local sem qualquer contato com o mundo exterior. Naquele dia, o museu perdeu treze obras de relevância mundial. Entre elas, três Rembrandts, um dos 36 Vermeers existentes em todo o planeta e um belíssimo Manet. Desde 1990, o crime é investigado por FBI, Scotland Yard e um batalhão de detetives particulares.

O roubo da Chácara do Céu também aconteceu na véspera de um feriado, na sexta-feira antes do Carnaval. Os vigias do museu carioca também foram facilmente rendidos e encurralados num ambiente fechado. Na Chácara do Céu, ficaram numa salinha de telefone sem janelas. As duas coleções atacadas foram montadas por mecenas que decidiram deixar seus acervos para usufruto público. Tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos, os bandidos deixaram para trás peças que eram tão ou mais valiosas do que as roubadas. E, por fim, em ambos os crimes a investigação continua aberta, sem nenhuma pista.

Agora as diferenças… Enquanto o museu dos Estados Unidos oferece uma recompensa de US$ 5 milhões por informações que levem à recuperação das obras de arte, a entidade brasileira — junto com o Ministério da Cultura — anunciou em 2006 uma recompensa de R$ 10 mil. Enquanto nos Estados Unidos o assunto é relembrado pela imprensa a cada aniversário, no Brasil foi totalmente esquecido. Por fim, enquanto nos Estados Unidos o roubo do Isabella Steward Gardner Museum já rendeu pelo menos cinco livros, no Brasil só há um: A arte do descaso.

testeQuem rouba obras de arte?

Desde que lancei A arte do descaso, escuto de amigos e leitores uma mesma pergunta: “Mas, afinal, quem rouba arte?”

A.J.G. Tijhuis é um advogado holandês que dá aula de criminologia na VU University Amsterdam. É um dos membros fundadores da Association for Research into Crimes against Art (Arca), think-tank que tanto me ajudou na investigação do meu primeiro livro. Tijhuis tem um estudo recente intitulado “Who is Stealing all Those Paintings?”, no qual tenta responder a essa pergunta que todo mundo se faz.

A pesquisa de Tijhuis consiste na análise de cinquenta casos de roubo de arte que foram solucionados na Europa entre 1960 e 2003. Quando iniciou seu trabalho, o objetivo do professor era encontrar um traço em comum entre todos os criminosos, mas ele acabou detectando sete perfis possíveis.

Ao contrário do que se possa imaginar, o número de casos do tipo Dr. No, que envolve um milionário interessado em arte, é pífio. Tijhuis encontrou apenas um, e quem estuda o tema a sério luta para derrubar esse mito de que roubo de arte é algo patrocinado por um grande colecionador milionário. Contra nós, no entanto, está Hollywood, com filmes como 007 contra o satânico Dr. No (1962) e Thomas Crown: a arte do crime (1999), além de ícones da literatura, como Arsène Lupin.

O segundo perfil de ladrão detectado por Tijhuis é bem mundano: cleptomaníacos. Nele estão pessoas que roubam por impulso e pelo simples prazer de fazê-lo. Não há nesse grupo interesse de revender as peças ou obter lucro. A graça é outra.

O terceiro tipo de criminoso revelado por Tijhuis apareceu em 14% dos casos analisados. É o dos narcotraficantes ou criminosos que normalmente atuam em outro setor e que, em determinado momento, resolvem roubar arte. As obras de arte levadas por esses indivíduos não são vistas por eles como bens históricos ou culturais; servem como moeda de troca em negociações travadas no mercado, no modelo de escambo. Há registros policiais de arte roubada sendo trocada por carregamentos de cocaína, heroína e até de plutônio, elemento químico utilizado na fabricação da bomba atômica.

O quarto perfil é aquele que rouba para marcar uma posição política. Em 1974, o IRA roubou da Kenwood House, em Londres, o quadro “The Guitar Player” (A violinista), de Johannes Vermeer. Em troca, exigiu a libertação de diversos integrantes do grupo presos.

O quinto tipo de ladrão é o funcionário da entidade vitimada. Em seu estudo, Tijhuis cita um levantamento feito pelo FBI, em 1998, que conclui que 83% dos casos de roubo de arte por eles solucionados tinham contado com o envolvimento criminoso de empregados da instituição-alvo. Os funcionários geralmente facilitam o acesso dos bandidos em troca de vantagem econômica.

O sexto perfil traçado pelo professor é o do ladrão comum, aquele que não tem qualquer interesse em arte e rouba de tudo. Nessa categoria, enquadram-se os endividados e os viciados em drogas, que precisam fazer dinheiro a qualquer custo. Há casos incríveis que ilustram esse tipo de ladrão. Entre eles o roubo de uma estátua de bronze de Henry Moore que pesava duas toneladas e que foi roubada para ser derretida. Os ladrões queriam seu bronze.

Por fim, o último tipo de ladrão é o mais popular de todos. Com onze exemplos na mostra de cinquenta, refere-se ao sequestrador de obra de arte. Em A arte do descaso explico com detalhes o que os especialistas sugerem que seja feito frente a um pedido de recompensa.

testePrecisamos falar sobre roubo de arte

“Com tanto assunto para você escrever por aí — corrupção, assassinatos, tráfico de drogas, crise econômica — você foi escolher logo roubo de arte?” Foi assim, diante de um comentário ácido sobre o que viria a ser A arte do descaso, que, em 2011, tive a comprovação definitiva da importância daquilo que tanto digitava em meu computador. No Brasil, pouco se sabe — e pouquíssimo se estuda — sobre roubo de arte. Padecemos de uma ignorância que nos compromete. Roubo de arte é um tipo de crime que gira cerca de US$ 6 bilhões por ano em todo o mundo. Só perde em lucratividade para o narcotráfico e o comércio ilegal de armas. Essas estimativas — tidas como conservadoras — não são minhas, mas do Federal Bureau of Investigation (FBI). Não é hora de prestarmos mais atenção ao assunto?

artedodescasograndeA arte do descaso, minha estreia no mercado editorial, pela Intrínseca, reconta minuto a minuto o maior roubo de arte do Brasil. Trata-se do ataque ao Museu da Chácara do Céu, entidade administrada pelo Ministério da Cultura e situada no bairro carioca de Santa Teresa, em fevereiro de 2006. Há dez anos, o caso aparece na lista dos dez maiores crimes cometidos contra a arte em todo o mundo. É o único latino-americano no ranking disponível no site do FBI para quem estiver disposto a conferir. Mas nós, brasileiros, levamos uma década ignorando isso.

Foi no primeiro semestre de 2011, quando o crime completava cinco anos, que resolvi revisitá-lo. Na época, trabalhava como repórter de cultura do jornal O Globo, no Rio de Janeiro, e me causava grande desconforto saber que as tentativas para elucidar o caso haviam sido frustradas. Não me parecia razoável o nível de descaso com o fato de que uma coleção de arte pública perdera para o crime dois Picassos, um Matisse, um Dalí e um Monet, então avaliados em US$ 10 milhões.

Também me causava certa vergonha ler reportagens que apontavam nosso país como um dos territórios mais propícios à ação de quadrilhas que roubam arte. Em 2007, um estudo da empresa americana RCI-First, especializada em análise e gestão de riscos e em contraespionagem, fez circular pela imprensa nacional, com certo alarde, a informação de que o Brasil ficava em quarto lugar na lista de países com mais roubos desse tipo. Entre 1995 e 2007, afirmava o estudo, ao menos 934 peças tombadas haviam sido furtadas, sendo que apenas oitenta delas tinham sido anteriormente catalogadas. Dois terços desse patrimônio, pontuava a análise, jamais foram sequer fotografados.

Debrucei-me sobre os três volumes e as mais de 700 páginas do inquérito referente ao roubo da Chácara do Céu — que segue aberto. E não demorou muito para que eu percebesse que A arte do descaso seria um livro para mostrar por que o Brasil não avança na investigação. Convido você para essa aventura. A partir de agora, todos atrás de “Marine” (Monet), “Les deux balcons” (Dalí), “La danse” (Picasso) e “Le jardin du Luxembourg” (Matisse)!