testeQuem foi Castro Maya

Castro Maya (fonte)

Castro Maya (fonte)

O Museu da Chácara do Céu é um dos lugares mais bonitos do Rio de Janeiro. Fica no alto de Santa Teresa, num terreno de 25 mil metros quadrados com paisagismo assinado por Roberto Burle Marx. De seu pátio, a vista da baía de Guanabara é deslumbrante. Em linha reta, no horizonte ao longe, o Pão de Açúcar fica à direita; a Ponte Rio-Niterói, à esquerda; e, no centro, todo o vaivém de aviões do Aeroporto Santos Dumont. Graças ao bambuzal, que funciona como uma espécie de isolante acústico, o silêncio por ali é absoluto.

A Chácara do Céu, antes de ser um museu federal — e palco do maior roubo de arte do país até hoje —, serviu de residência ao empresário e mecenas franco-brasileiro Raymundo Ottoni de Castro Maya, uma figura igualmente deslumbrante e que também caiu no mais profundo esquecimento. Presto aqui minha homenagem.

Castro Maya nasceu em 1894, em Paris, e foi um dos milionários mais conhecidos do Rio de Janeiro na década de 1920. Era filho do diplomata maranhense Raymundo de Castro Maya e da mineira Theodozia Ottoni e passou os primeiros anos de vida na França. Em 1905, mudou-se para o Rio de Janeiro, ingressou num colégio jesuíta da Zona Sul da cidade (o Santo Inácio, em Botafogo) e, até ficar adulto, morou numa casa erguida no Alto da Boa Vista e batizada de Mansão do Açude.

Castro Maya se formou em direito, mas, apesar do título de bacharel, viveu a vida como empresário. Sustentava todo o seu luxo e os seus gastos vendendo tecidos e óleos que suas empresas fabricavam para uso doméstico e industrial. Segundo anotações deixadas por amigos, Castro Maya era tão vanguardista que pode ter sido a primeira pessoa a praticar esqui aquático no Brasil. Cultivava um gosto especial pela pescaria. Tinha um barco, com o qual gostava de zarpar com amigos em busca de peixes, mas não os comia em hipótese alguma. Também tinha paixão por organizar festas e cuidava com rigor de absolutamente todos os detalhes de cada uma.

Enquanto levantava dados sobre ele para A arte do descaso, encontrei alguns artigos de jornal interessantíssimos. Num deles, publicado no Diário da Noite, o jornalista contava a soirée do dia 8 de janeiro de 1931. Castro Maya e os amigos haviam se reunido para celebrar o Dia dos Reis Magos. O evento foi suntuoso, registrou o jornalista Marcos André: “As mesas […] estavam cobertas de lírios, com uma preciosa peça de prata antiga e um abajur. Perto da fonte, havia um tablado para danças, e a iluminação discreta permitia aos convidados admirar o luar.” No ar, notas de jazz. Nos lábios, champanhe. “Dentro do bolo de reis, a senhorita Helena Guimarães teve a grande sorte de encontrar uma linda pulseira de ouro e platina. Foi aclamada la reine de la soirée.”

Na minha opinião, a maior contribuição de Castro Maya para o Brasil foi o acervo de 22 mil obras de arte, pinturas, esculturas, azulejos, mobílias, pratarias, documentos e livros que ele reuniu e que hoje se dividem entre a Chácara do Céu, atacada em fevereiro de 2006, e o Museu do Açude, no Alto da Boa Vista. Além dos dois Picassos, do Matisse, do Dalí e do Monet roubados há dez anos, a coleção de Castro Maya reúne um material incrível.

É nela que está a maior coleção nacional de obras do francês Jean-Baptiste Debret, que esteve por aqui na primeira metade do século XIX e, com seu traço inigualável, retratou a vida no Brasil daquele tempo. São 451 aquarelas, 58 desenhos e 29 gravuras — material considerado um tesouro da história nacional.

Na coleção da Chácara do Céu há também um grande número de obras do pintor paulista Candido Portinari, que tem trabalhos expostos até no edifício que abriga a Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova York. Portinari era amigo de Castro Maya e chegou a fazer seu autorretrato.

E o acervo vai além. Ao longo de sua vida, Castro Maya montou uma coleção com obras de pintores como Di Cavalcanti, Alfredo Volpi, Iberê Camargo, Antônio Bandeira e Manabu Mabe, além de Modigliani, Georges Seurat, Edgar Degas e Joan Miró. Também adquiriu e manteve louças chinesas, pratarias e móveis setecentistas. Hoje esses objetos estão espalhados pelos três andares da mansão de Santa Teresa. Parece que Castro Maya ainda vive por ali.

testeO detetive que recuperou “O grito”

Grito 1

O grito, de Edvard Munch (fonte)

Charles Hill, o homem que recuperou “O grito”, de Edvard Munch, é um inglês corpulento, de rosto quadrado e franja ondulada. Em 2013, tomamos um café no sofisticado restaurante do The Wallace Collection, um museu de arte britânica que guarda, em suas 25 galerias, pinturas, mobílias e porcelanas do século XVIII. Hill relembrou sua carreira, esmiuçou o dia a dia do trabalho de detetive de arte e falou sobre suas maiores conquistas.

Em fevereiro de 1994, dois criminosos quebraram a janela do primeiro andar da National Gallery de Oslo, na Noruega, e, numa ação que durou apenas cinquenta segundos, entraram, arrancaram “O grito” da parede e deixaram no local um bilhete sarcástico em que se lia “Thanks for the poor security” (Obrigado pela segurança precária). Avaliada em US$ 72 milhões, a pintura que mostra um homem com as duas mãos ao redor do rosto, gritando de pavor, estava pendurada por um único fio, bem ao lado da janela, e não dispunha de nenhuma conexão com o sistema de alarme do museu. Desesperada com o ataque, a polícia norueguesa pediu ajuda à Scotland Yard, onde Hill trabalhava, e ele foi convidado a entrar em ação.

O primeiro passo de Hill foi elaborar um disfarce. O inglês encarnou Christopher Charles Roberts, um americano que dizia ser funcionário de alto escalão do J. Paul Getty Museum, uma das mais importantes instituições culturais da Califórnia. Na história fictícia armada por Hill, Roberts estaria disposto a pagar um pomposo resgate para que a obra-prima de Munch fosse devolvida a Oslo e, em seguida, exposta nos Estados Unidos. Hill fez com que a informação circulasse nos becos escuros da criminalidade europeia e esperou.

Enquanto isso, caprichou nos detalhes para dar vida a Roberts. Passou até a usar pasta de dentes e creme de barbear americanos. Quando me contou isso, eu ri, mas ele se defendeu:

— Um marchand californiano não pode marcar um encontro com um criminoso em seu quarto de hotel e ter no banheiro uma pasta de dentes e um creme de barbear tipicamente ingleses. O personagem tem que ser americano do início ao fim, e isso não é uma bobagem. É uma questão de segurança.

Três meses depois, Hill já havia se aproximado do grupo de ladrões e chegou à casa de Oslo onde os criminosos guardavam a obra roubada. Teve poucos segundo para ter certeza de que aquele “O grito” não era falso. Só conseguiu isso porque havia estudado absolutamente tudo sobre a obra e sabia, por exemplo, que ela fora pichada anos antes e levava consigo uma frase quase invisível: “Can only have been painted by a madman” (Isso só pode ter sido pintado por um louco). Horas mais tarde, seguindo instruções do detetive, a polícia norueguesa cercou os criminosos e prendeu a quadrilha em flagrante.

testeO roubo de arte e o crime organizado

Quem for ao Google agora e fizer uma busca pela expressão “roubo de arte”, verá surgir na tela do computador nada menos do que 1,4 milhão de resultados. São notícias sobre casos recentes, pesquisas a respeito da atuação dos nazistas nessa área, informações acerca de filmes e livros que tratam do assunto. Perceberá que quanto mais famoso for seu autor e maior o valor de mercado da obra levada e a destreza do criminoso na hora do ataque, mais destaque o caso terá na internet.

artedodescasograndeVocê já reparou que roubo de arte não é um assunto que costuma despertar o interesse das forças policiais? Um homicídio não solucionado tende, em geral, a ser um escândalo. O desaparecimento de uma pintura, por outro lado, jamais passa de um mistério.

Em junho de 2013, enquanto apurava material para A arte do descaso, fui para a Itália. Na pequena cidade medieval de Amelia, situada no coração da Úmbria, eu descobriria que essa sensação de descaso com roubo de arte já tem um nome: foi batizada pelos membros da Association for Research into Crimes against Art (Arca) como Síndrome de Robin Hood.

Numa das aulas que tive em Amelia com o americano Noah Charney, uma das celebridades mundiais no estudo de roubo e falsificação de arte, surpreendi-me com o óbvio: há três motivos relativamente simples para o desdém com que as forças policiais costumam tratar crimes contra a arte.

— O primeiro deles tem a ver com o fato de que é raro haver mortos nesses ataques. Logo, a comoção popular é menor — explicou-me Charney. — O segundo está ligado ao fato de que arte é normalmente tratada como algo supérfluo, dispensável, acessório. Terceiro, por fim, passa pelo perfil da vítima. Em geral, é membro da elite, alguém ou alguma entidade que, de certa forma, parece ter mais do que o necessário para sobreviver. Então o ladrão estranhamente vira uma figura glamorosa, que está tirando um pouco dos ricos para dar aos pobres.

Caros leitores, nos últimos quatro anos de trabalho, descobri que pensar dessa forma revela um desconhecimento total sobre como os roubos de arte acontecem e a que propósito eles realmente servem hoje em dia. Num dos casos mais graves que encontrei e que estão relatados em A arte do descaso, relembro uma reportagem que a revista alemã Der Spiegel publicou em julho de 2005.

Nela, a publicação revela que, em 2000, o terrorista Mohammed Atta, um dos responsáveis pelo ataque ao World Trade Center, procurou um professor da Universidade de Göttingen, na Alemanha, tentando vender arte afegã, peças da Antiguidade visivelmente roubadas. Segundo a Der Spiegel, ao ser questionado sobre sua necessidade de fazer dinheiro, Atta não teria se esquivado: disse, sem hesitar, que queria comprar um avião.