testePor que visitar Lugar Nenhum

Bem-vindo à Londres de Baixo!

Por Larissa Helena*

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Ilustração de Juliette Arda (Fonte)

Se você está morrendo de vontade de tirar férias e precisa de ideias para uma viagem fantástica, pode parar de procurar: seu próximo destino está aqui! Quer dizer, na livraria mais próxima.

O que dá para garantir: emoção, aventura e surpresas em todas as paradas.

O que não dá para garantir: sua segurança. Ou sua antiga vida de volta.

Acontece que Lugar Nenhum é uma daquelas jornadas sem retorno: depois de passar pelas portas secretas que levam à Londres de Baixo, de conhecer o Mercado Flutuante e descobrir o verdadeiro perigo que se esconde entre o trem e a plataforma do metrô, fica muito, muito difícil voltar à superfície como se nada tivesse acontecido. Mesmo que você se esforce bastante.

Veja o caso de Richard Mayhew. Ele tem um emprego. Um apartamento. Uma noiva. Talvez seja meio esquecido, mas sua vida parece perfeitamente nos eixos: ocasionais visitas indesejadas ao museu para acompanhar sua alma gêmea, cervejas para discutir assuntos burocráticos com os colegas de trabalho… Tudo bem, talvez ele também tenha um coração mole. Mole demais para morar numa capital em que há pedintes em cada esquina, e “se você dá atenção, eles se aproveitam”, como bem lhe lembra a noiva. Mas ele não consegue fazer como todo mundo e simplesmente fingir que não os vê.

Tudo isso é razoavelmente perdoável, até o dia em que uma menina ensanguentada brota de uma parede bem na frente dele, a minutos de um jantar crucial. O que Richard pode fazer senão ajudá-la, contra a vontade da noiva e o próprio bom senso? Para ele, é assim que tudo começa.

Lugar Nenhum Foto 1

Lugar Nenhum, aliás, também começou como uma espécie de rebeldia. Neil Gaiman era jornalista, já publicara algumas histórias em quadrinhos e começava a realizar seu sonho de escrever ficção para várias plataformas quando foi convidado pela BBC para desenvolver o roteiro para uma série para a TV. Só que muitas de suas ideias foram cortadas ou alteradas para caber no orçamento e no formato do programa e ele resolveu escrever este livro, “para manter a sanidade mental”.

O resultado foi uma espécie de “versão do diretor” (só que, no caso, do roteirista). Controle total: quando uma cena não entrava na série, ia parar no livro, e, ao longo de muitos anos, ele ainda pôde cortar e acrescentar informações, até culminar na edição definitiva, que chega pela primeira vez às prateleiras brasileiras — com direito a uma introdução do autor, um prólogo original e um conto inédito. Além disso, parte do motivo para Neil Gaiman gostar bem mais desta versão é que o texto funciona tanto para os que estão familiarizados com o mapa do metrô de Londres quanto para quem não sabe nada sobre a capital.

Eu era justamente do grupo dos novatos quando tudo começou para mim. Uma adolescente fascinada pela Inglaterra, e também obcecada por ordens cronológicas, por isso Lugar Nenhum foi o primeiro livro do Neil Gaiman que li. Eu esperava embarcar num livro, e acabei numa viagem a Londres. Mas não era bem a Londres que eu sonhava conhecer; aquela era excêntrica, sombria e convidativa, e ao mesmo tempo perigosa e fascinante como uma besta.

Tudo começa com portas.

Tudo começa com portas. (Fonte: BBC)

E ficou retida no meu imaginário de um jeito tão vívido que mais tarde, quando fui de fato a Londres (à de cima, afinal, vocês ainda conseguem ler o que eu escrevo… né?), encarava as estações me perguntando o que haveria ali embaixo, por trás e ao redor, invisível sob o nevoeiro da cidade.

Foi quando entendi a dimensão do que o Gaiman tinha feito. Andando por Londres, é difícil não misturar ficção e realidade, caminhar sem evocar fantasmas de Sherlock Holmes, da Alice ou do Doctor Who pairando sobre a paisagem. Em seu primeiro romance, ele chegou já com o pé na porta, inscrevendo seu nome no rol dos notáveis que adicionaram mais uma camada de significado inteirinha, original e fresca (modo de falar, porque a Londres de Baixo é bolorenta e tem cheiro de esgoto) a uma cidade que já parecia saturada de referências. Gaiman provou que sempre há espaço para mais.

Além de tudo isso, Lugar Nenhum é uma épica fantasia urbana com pitadas de contos de fadas, surpreendentemente adulta e ao mesmo tempo capaz de evocar o sentimento de fascinação infantil de quando fomos apresentados pela primeira vez a histórias fantásticas. Guiados pela história de Richard, conseguimos vislumbres pontuais de um universo de infinitas possibilidades, que se expande para muito além dos limites do livro, na tradição dos clássicos como os de Lewis Carroll ou C. S. Lewis.

No que diz respeito à obra de Gaiman, Lugar Nenhum serve ao mesmo tempo como introdução e relicário. Para quem não conhece outros livros dele, é a oportunidade para desvendar a especialidade do autor: construir um mundo extraordinário curiosamente coerente e sinistramente próximo do nosso, reconhecível através de indícios e que deixa uma impressão clara e duradoura na mente do leitor. Para os que já são fãs do autor, a experiência é gratificante por outros motivos: vasculhando bem, dá para encontrar referências claras a Will Eisner, um humor com gostinho de Douglas Adams e uma infinidade de temas que voltam a aparecer nas histórias de Shadow ou dos Perpétuos, para citar alguns exemplos.

Para mim, quando a Londres de Baixo entrou em cena de novo, muitos anos depois que tudo começou, fiquei tão fascinada quanto da primeira vez. E novamente, na vida real como na história de Richard, foi a cidade de cima que ficou invisível para mim: enquanto eu lia, percorrendo nas páginas os caminhos subterrâneos de Londres, passei reto várias vezes da estação de metrô em que precisava saltar.

>> Leia um trecho de Lugar Nenhum

 

*Larissa Helena teve certeza de que queria trabalhar com literatura há dez anos, quando começou sua pesquisa acadêmica sobre Neil Gaiman. Hoje ela é editora, e já teve o prazer de negociar e editar livros do autor. Também é tradutora e pesquisadora especializada em literatura fantástica ou voltada para o público jovem adulto.

testeMapas afetivos de Buenos Aires

O Mercado Primeira Junta

O Mercado Primeira Junta

Conte os passos (baixe um aplicativo no celular para isso, se quiser), use tênis velhos e laceados, leve uma garrafa d’água e atente aos detalhes para não perder surpresas e encantamentos que só você pode ser capaz de ver. Fones de ouvido são bem-vindos: afinal, às vezes, só uma boa música consegue resumir o que a gente está sentindo.

Eis a primeira parte dos meus mapas afetivos de Buenos Aires. Ah, e se você acabar achando que viu Hugo, Eduardo, Carolina, Daniel, Pedro, Charlotte ou até Leonor, não será miragem ou alucinação. Eu também os vejo por todo canto em Buenos Aires.

 

1. Comece longe do Centro

Bogota, 101, Caballito

Pegue o metrô e vá à estação Rio de Janeiro. Por lá, não será difícil encontrar o caminho até a Livraria Caligari — pode perguntar para as pessoas (sim, elas vão ajudar) ou então usar o serviço de mapas do celular. A livraria preferida de Daniel — você vai conhecê-lo quando ler O amor segundo Buenos Aires — é comandada por Lalo, que, além de amante de livros (tanto dos novos quanto de peças de colecionador), é um senhor jazzista. Se tiver sorte (e bom papo), talvez Lalo faça uma palhinha do seu talento no contrabaixo especialmente para você. Se ele tiver mais o que fazer, não se preocupe: há jam sessions regulares na Caligari.

 

2. O que tem de mais neste mercado?

Metrô Primera Junta

Já me perguntaram o que o Mercado Primera Junta tem de tão especial. À primeira vista, nada. Mas dá para ir andando da Livraria Caligari até essa espécie de minimercado municipal (a caminhada dura uns quinze minutos) e eu sempre gostei, em viagens, de observar como vivem as pessoas que moram nos lugares por onde passo. E o bairro do Caballito é um local muito bacana para fazer isso. Pela manhã, as frutas estão sempre frescas no Primera Junta, e há uma enorme variedade de peixes. Se você achar o mercado meio sem graça, não tem problema: há uma estação de metrô bem em frente. Basta correr para o próximo destino.

 

3. O velho alfaiate

Scalabrini Ortiz

A umas seis quadras da estação Scalabrini Ortiz está a San Martin Confecciones Finas — e conhecer Martín, o proprietário, é um presente. Ele tem opinião sobre tudo — política, futebol, elegância masculina — e não é difícil conversar com ele por uma hora. Olhe em volta: observe os alfaiates fazendo riscas em giz para marcar os tecidos, as fileiras de trajes já prontos (em apenas duas ou três cores básicas) e, sobretudo, admire a elegância de Martín e de suas roupas impecavelmente passadas. Só tome cuidado: ele é um excelente vendedor e, antes que perceba, você pode deixar a loja com dois ternos novinhos em folha. Aconteceu com Hugo e Pedro, em O amor segundo Buenos Aires. E comigo também.

 

4. Surpresa na estação

Metrô Carlos Pellegrini (dentro da estação)

A mais central das estações de metrô de Buenos Aires, a Carlos Pellegrini, é muito movimentada. E conseguir chamar a atenção de qualquer um a caminho de casa, na hora do rush, não é nada fácil. Mas Tom Moore tem esse dom. Com seu repertório de raridades do rock, ele não chama a sua atenção, ele a furta — e tudo o que se pode fazer é sentar, ignorar o vaivém barulhento dos vagões antigos e se render. Fleetwood Mac, Creedence, Elvis, Beatles, Cat Stevens… Tom Moore é todos em um só. E vale comprar seu CD.

 

5. Reconciliação com o passado

Bairro de Mataderos

Um programa para o domingo. A melhor maneira de chegar à Feira de Mataderos é com o ônibus 126, que passa pelo Centro de Buenos Aires (há pontos perto da Casa Rosada e no bairro de San Telmo, por exemplo). A feira é um bom antídoto à Buenos Aires “moderna”: com comida típica e danças folclóricas, o programa acaba sendo um bem-vindo retorno ao passado — para Eduardo, outro personagem de O amor segundo Buenos Aires, a visita à feira marcou uma reconciliação com o próprio pai.

testeEu sou Spartacus: Dalton Trumbo, o começo e o fim da lista negra

Por Ana Maria Bahiana*

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No outono norte-americano de 1998, eu estava dirigindo pela avenida Wilshire, na altura da sede da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, quando notei uma peculiar aglomeração na calçada em frente ao prédio. Um grupo animadíssimo, com cartazes e até um alto-falante, andava metodicamente em círculo, de tempos em tempos gritando palavras de ordem: “Não esqueceremos!” e “Lista negra, jamais!”. Deviam ser, no máximo, umas vinte pessoas. Nenhuma aparentava ter menos que 75 anos.

No dia seguinte a revista Variety explicava tudo: tratava-se de integrantes da academia e alguns amigos protestando contra a escolha de Elia Kazan para receber o prestigioso Oscar honorário pelo conjunto da obra. Em 1952, Kazan, um mestre realizador, responsável por obras-primas como Um Bonde Chamado Desejo, Viva Zapata! e Sindicato de Ladrões, compareceu diante do Comitê de Atividades Antiamericanas do Congresso norte-americano e, sob juramento, denunciou vários colegas de ofício por terem sido (como ele) membros do Partido Comunista dos Estados Unidos. O comitê já tinha conhecimento desses nomes, mas a atitude de Kazan marcou-o até o fim de seus dias.

Num país que preza a liberdade de expressão e se orgulha de oferecer e proteger os direitos de seus cidadãos, as atitudes do Comitê de Atividades Antiamericanas do Congresso entre 1947 e 1959 são uma notável aberração. Criado em 1938 para investigar agentes nazistas possivelmente infiltrados nos Estados Unidos, o comitê assumiu, depois da Segunda Guerra Mundial, um tom paranoico de perseguição ideológica, correndo paralelo à intensificação da Guerra Fria.

Dois fatores tornavam as artes — especialmente o cinema — particularmente vulneráveis à perseguição do comitê: a Grande Depressão dos anos 1930 e o início do movimento sindicalista nos Estados Unidos colocaram as questões sociais no centro do debate intelectual e artístico, levando muitos atores, atrizes, escritores, cineastas e intelectuais a se filiarem ao jovem Partido Comunista dos Estados Unidos; e desde suas origens no início do século XX  a indústria de cinema se mantivera decididamente independente, não aceitando interferências do governo, regulando a si própria e acolhendo tanto artistas e intelectuais europeus progressistas quanto os jovens norte-americanos entusiasmados pelas causas sociais, muitos filiados ao Partido Comunista.

trumbo

Um deles era James Dalton Trumbo. Nascido no Colorado, numa família descendente de imigrantes suíços, Trumbo trabalhou como repórter para jornais locais da cidade de Grand Junction, Colorado, antes de se mudar para Los Angeles a fim de cursar a universidade (para pagar seus estudos, Trumbo trabalhou no turno da noite de uma padaria). Em 1937, depois de alguns anos atuando como jornalista e crítico de cinema, Trumbo começou a escrever para o cinema e rapidamente se tornou um dos roteiristas mais bem pagos da época — sobretudo depois que seu livro Johnny Got His Gun, um libelo antiguerra, recebeu o National Book Award em 1939.

Como muitos de seus amigos e companheiros de trabalho — inclusive Elia Kazan —, foi nessa época que Trumbo se filiou ao Partido Comunista. A Segunda Guerra Mundial, alinhando Estados Unidos e União Soviética contra Alemanha, Itália e Japão, permitiu um momento de paz à esquerda norte-americana. Na verdade, Hollywood produziu vários filmes pró-URSS durante a guerra, com títulos como Canção da Rússia e Missão em Moscou.

Tudo mudaria nos anos seguintes, com Estados Unidos e União Soviética polarizados na tensa Guerra Fria, e o Congresso norte-americano dominado por conservadores apavorados com a ideia de uma “infiltração vermelha” no próprio coração da América do Norte. Especialmente na indústria de cinema, agora a maior fonte de entretenimento do país — e, cada vez mais, do mundo.

Em julho de 1946, uma coluna na revista Hollywood Reporter, escrita e assinada por seu fundador, William Wilkerson, bradava contra a presença de “discípulos de Stalin” entre os profissionais da indústria de cinema e mencionava explicitamente Dalton Trumbo e nove outros profissionais. Um ano depois, o Comitê de Atividades Antiamericanas do Congresso intimou os “10 de Hollywood” a depor — ou seja, delatar outros. Eles se recusaram, alegando seus direitos constitucionais à liberdade de expressão. Foram presos por desacato à autoridade.

Washington, DC, USA --- Original caption: 10/27/47-Washington, DC: The group of Hollywood writers and producers summoned to appear before the House Un-American Activities Committee in probe of communism in the film city, are shown as they left the investigation late today. Front row: Lewis Milestone, Dalton Trumbo, John H. Lawson, who was cited for contempt, and Bartley Crum, attorney for witnesses. Center row: Gordon Kahn, Irving Pichel, Edward Dmytryk, Robert Rossen. Top row: Waldo Salt, Richard Collins, Howard Koch and Albert Maltz; Herbert Biberman; Lester Cole and Ring Lardner, Jr., writers and Martin Popper, another attorney for the group. Photo by G.B. Kress --- Image by © Bettmann/CORBIS

Image by © Bettmann/CORBIS

Começava ali um longo período de obscurantismo. Outros foram intimados e, como Kazan, compareceram para depor. Os estúdios prepararam uma “lista negra” contendo os nomes citados pelo comitê — profissionais que, a partir daquele momento, eram “indesejáveis”. Muitos, entre eles Charles Chaplin, Orson Welles e a roteirista Norma Barzman (que conheci na passeata em frente à academia…), optaram por sair do país, indo trabalhar na Europa e na América Latina. Outros, como o compositor Elmer Bernstein, foram obrigados a aceitar salários de fome e trabalhos anônimos. Outros ainda, como Trumbo, passaram a usar pseudônimos em suas obras (dois roteiros de Trumbo com nomes alheios ganhariam o Oscar — A Princesa e o Plebeu, em 1954, e Arenas Sangrentas, em 1957).

No final da década de 1950, com a ala liberal em ascensão, o Comitê de Atividades Antiamericanas do Congresso já havia perdido muito de sua força política. O golpe mortal na lista negra veio em 1960, com um simples gesto de um profissional: Kirk Douglas, estrela e produtor de Spartacus, dirigido por Stanley Kubrick, recusou-se a ocultar o nome de seu roteirista nos créditos — Dalton Trumbo.

untitledNuma das cenas mais eloquentes de Spartacus, o general romano vivido por Laurence Olivier oferece misericórdia aos escravos derrotados em seu levante em troca da delação de seu líder, Spartacus (Kirk Douglas). Todos se recusam, bradando, um a um: Eu sou Spartacus!

PS: Flash-forward para 1999. Apesar do apoio de gente mais jovem e mais poderosa, o boicote do pessoal na frente da academia não deu resultado. Aos noventa anos, Elia Kazan recebeu seu Oscar honorário, apresentado por Francis Ford Coppola e Robert De Niro. Em seu discurso, agradeceu à academia “por sua coragem e generosidade”. E eu conheci Norma Barzman e a turma mais sensacional de octogenários de Hollywood.

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Leia um trecho de Trumbo: a vida do roteirista ganhador do Oscar que derrubou a lista negra de Hollywood

 

 

*Ana Maria Bahiana é jornalista, autora, pesquisadora, produtora e tem uma longa e prestigiosa carreira no Brasil e no exterior, em imprensa, rádio, televisão e internet. Residente de Los Angeles há duas décadas, é editora associada do site goldenglobes.com e já entrevistou nomes como Kathryn Bigelow e Francis Ford Coppola.