testeOs afetos, as memórias

Por Elisa Menezes*blogafetos

“Ser pago para ler”, como costuma ser simplificado o ofício de fazer livros, nem sempre é tão divertido quanto pode parecer à primeira vista. Muitas vezes não se tem o privilégio ou a sorte de trabalhar com o seu gênero ou autor favorito, e às vezes é impossível conjugar desejo e realidade: a vontade é de poesia, mas o que nos cabe é ficção científica, ou vice-versa.

Quando a Rebeca Bolite me perguntou se eu toparia fazer o copidesque de espanhol [língua adorada] de um livro de literatura contemporânea [fome com vontade de comer] chamado Os afetos [que título lindo], de um autor latino-americano [sempre bom ler os vizinhos] inédito no Brasil e eleito pela revista Granta, em 2010, um dos 22 melhores escritores de língua espanhola [¡la hostia!], traduzido pelo José Geraldo Couto [craque], com um prazo bastante confortável para a entrega [Rebeca, te amo], é claro que eu disse sim. De antemão o trabalho parecia ser dos melhores.

Assim que comecei a trabalhar no material de Os afetos, editora e leitora comemoraram dentro de mim, pois esse é um daqueles casos em que é possível se sentir privilegiado por ser pago para ler. E como a produção de um livro leva tempo, passei meses comentando com os mais próximos como havia gostado da escrita elegante e concisa de Rodrigo Hasbún, o quanto adoraria ler outras obras suas, como ele merecia ser descoberto por mais gente, ser convidado para a Flip.

Os afetos é um romance curto, narrado por diferentes vozes, que acompanha durante cinquenta anos a família Ertl, formada pelo documentarista e explorador Hans, sua mulher, Aurelia, e as três filhas: Monika, Heidi e Trixi. Por meio de seus relatos, assim como os de outros personagens relacionados a eles, como maridos e amantes, Rodrigo Hasbún cria um mosaico de memórias desbotadas que aos poucos revela ao leitor a saga da família de origem alemã radicada na Bolívia a partir de 1955. Uma combinação improvável e irresistível como as tortilhas com chucrute que os personagens comem durante uma expedição andina.

Quando acaba um capítulo, uma memória, sentimo-nos órfãos, queremos seguir com aqueles personagens, mas logo vem a recompensa, passamos então a enxergar pelos olhos de outro narrador, outro ponto de vista, só que agora imbuídos de sentimentos e recordações. E, assim, de relato em relato, Hasbún vai construindo a história dos Ertl e da Bolívia, com as suas desigualdades sociais, a ditadura e a guerrilha.

A escrita concisa e elegante de Hasbún, aquela que me conquistou, consegue condensar em 128 páginas características de um romance de formação, dados biográficos e fatos históricos – os Ertl realmente existiram, embora o autor advirta que ele apenas se inspirou na família e na história de seu país natal. Tudo isso em uma ficção envolvente, que mantém o leitor submerso nos pensamentos dos personagens.

A ausência de travessões e aspas para falas, diálogos e pensamentos contribui para essa imersão e também para a sensação de estarmos vivenciando um fluxo de ideias e de sentimentos que, claro, nem sempre são precisos, e sim sorrateiros como costumam ser as lembranças que guardamos e reinventamos ao longo da vida. “Não é certo que a memória seja um lugar seguro. Nela também as coisas se desfiguram e se perdem. Nela também terminamos nos afastando das pessoas que mais amamos.”

Assim, acompanhamos o crescimento das filhas, a descoberta do primeiro amor, o despertar para o outro, para a vida adulta, a deterioração das relações e como memória e sentimentos vão sendo corroídos pelo tempo. A desintegração dos laços familiares, a distância gigantesca que podemos sentir em relação àqueles que são mais próximos e também os elos que construímos com estranhos e com o mundo permeiam toda a história.

Contar tanto em um espaço tão curto é antes uma tentativa – muito bem realizada – de demonstrar como a memória é construída e ressignificada do que uma escolha arbitrária de alguém que não quis se aventurar em um romance de maior fôlego. As memórias desbotadas que Hasbún nos apresenta são valiosas tanto por aquilo que revelam quanto pelas lacunas que oferecem.

É muito simbólico que justo esses exploradores que viveram anos às voltas com câmeras e registros, preparando e documentando expedições, sejam incapazes de precisar ou entender suas próprias trajetórias. Há filmes que se perdem durante a história e há também a decisão voluntária de uma das personagens, “que nunca foi nostálgica”, de deixar para trás fotografias, cartas e diários. Para outra, no entanto, que possui uma extrema dificuldade em se “ancorar à realidade”, a nostalgia servia “para sentir que havia valido a pena viver e para dar maior densidade ao presente”.

Nesse jogo de imprecisões, a nostalgia e a melancolia dos narradores vão amarelando as páginas do livro, lembrando-nos o tempo inteiro que aqueles relatos não são totalmente confiáveis. “Disse a mim mesma que era natural deixar de amar. Disse a mim mesma que na realidade o que era pouco natural era continuar amando. Ou talvez não, talvez eu tenha me dito isso muito depois.”

Dessa forma, Os afetos oferece diferentes camadas de leitura, e, ao final do livro, nos sentimos “manchados” – para usar uma das expressões tão bonitas e precisas que o autor emprega – por aqueles personagens, levamos conosco suas lembranças e esquecimentos.

*Elisa Menezes é editora e em 2015 publicou Oceanário, pela Pipoca Press. É autora ainda do blog bissexto O céu do Tejo.

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Confira sinopses e trechos dos livros que publicaremos neste mês:

 

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Destinos e Fúrias, de Lauren Groff — Aos 22 anos, Lotto e Mathilde são jovens, perdidamente apaixonados e destinados ao sucesso. Eles se conhecem nos últimos meses da faculdade e antes da formatura já estão casados. Seguem-se anos difíceis, mas românticos. Uma década depois, o caminho tornou-se mais sólido. Ele é um dramaturgo famoso e ela se dedica integralmente ao sucesso do marido. A vida dos dois é invejada como a verdadeira definição de parceria bem-sucedida.

Porém, nem tudo é o que parece, e em um casamento essa máxima se faz ainda mais verdadeira. Se em “Destinos” somos seduzidos pela imagem do casal perfeito, em “Fúrias” a tempestuosa raiva de Mathilde se revela fervendo sob a superfície. Em uma reviravolta complexa e emocional, o que começou como uma ode a uma união extraordinária se torna muito mais. [Leia +]

 

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Como eu era antes de você (capa filme), de Jojo Moyes — Depois de emocionar milhares de leitores no mundo todo, o irresistível romance de Jojo Moyes chega aos cinemas com roteiro adaptado pela própria autora e com Emilia Clarke (Game of Thrones) e Sam Claflin (Jogos Vorazes) nos papéis de Lou e Will.

Lou Clark, uma jovem cheia de vida e espontaneidade, perde o emprego e é obrigada a repensar toda sua vida. Will Traynor sabe que o acidente com a motocicleta tirou dele a vontade de viver. O que Will não sabe é que a chegada de Lou vai trazer de volta a cor à sua vida. E nenhum deles desconfia de que esse encontro irá mudar para sempre a história dos dois. [Leia +] >> Ouça a trilha sonora de Como eu era antes de você

 

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A última carta de amor, de Jojo Moyes Londres, 1960. Ao acordar em um hospital após um acidente de carro, Jennifer Stirling não consegue se lembrar de nada. De volta a sua casa com o marido, descobre uma série de cartas de amor escondidas, endereçadas a ela e assinadas apenas por “B”, e percebe que não só estava vivendo um romance fora do casamento como também parecia disposta a arriscar tudo para ficar com o amante.

Quatro décadas depois, a jornalista Ellie Haworth encontra uma dessas cartas durante uma pesquisa nos arquivos do jornal em que trabalha. Envolvida com um homem casado, Ellie fica obcecada em reunir os protagonistas desse amor proibido.

Com personagens realisticamente complexos e uma trama bem-elaborada, A última carta de amor, primeiro livro de Jojo Moyes publicado pela Intrínseca, entrelaça as histórias de paixão, adultério e perda das personagens Ellie e Jennifer. [Leia +] >> Nossa editora Rebeca Bolite conta os bastidores da publicação do livro

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O oráculo oculto, de Rick Riordan — Como você pune um deus imortal? Transformando-o em humano, claro! Depois de despertar a fúria de Zeus por causa da guerra com Gaia, Apolo é expulso do Olimpo e vai parar na Terra, mais precisamente em uma caçamba de lixo em um beco sujo de Nova York.

Fraco e desorientado, ele agora é Lester Papadopoulos, um adolescente mortal com cabelo encaracolado, espinhas e sem abdome tanquinho. Sem seus poderes, a divindade de quatro mil anos terá que descobrir como sobreviver no mundo moderno e o que fazer para cair novamente nas graças de Zeus. [Leia +]

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Porcelain, de Moby — Havia diversas razões para Moby jamais deslanchar como DJ e músico na cena club nova-iorquina. Aquela era a Nova York das boates Palladium, Mars, Limelight e Twilo, a cidade do hedonismo desenfreado regado a drogas, e lá estava Richard Melville Hall, descendente distante do autor de Moby Dick, um garoto branco, pobre e magrelo de Connecticut, cristão devoto, vegano e totalmente careta. Ele encontrou seu espaço e alcançou o sucesso, que logo se mostrou efêmero e cheio de complicações. No desfecho da década de 1990, frente a um fim iminente, acabou criando o álbum que viria a ser o início de uma nova fase espetacular: Play, que vendeu milhões de cópias no mundo todo. [Leia +] >> Moby apresenta sua autobiografia para os leitores

 

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Garoto21, de Matthew Quick Finley utiliza o basquete para aliviar suas preocupações, enquanto Russ não quer mais se aproximar de uma bola. Depois de sofrer um grande trauma, ele fica em estado de negação e passa a se considerar um alienígena de passagem pela Terra.

Com a missão de ajudar Russ a se recuperar, Finley tenta convencer o garoto a voltar a jogar, mesmo que isso signifique perder o próprio lugar na equipe. Uma emocionante história sobre esperança, amizade e redenção, com a prosa sensível e inteligente de Matthew Quick. [Leia +] >> Qual personagem de Matthew Quick você é? 

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Como mentir com estatística, de Darrel Huff — Publicado pela primeira vez em 1954, o livro de Darrell Huff foi saudado como pioneiro em conjugar linguagem simples e ilustrações para explicar de que maneira o mau uso da estatística pode maquiar dados e abalizar opiniões. Indispensável para quem se vê bombardeado diariamente, seja pela mídia ou pela timeline do Facebook, por infográficos e estatísticas que se pretendem verdades incontestáveis.

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Os afetos, de Rodrigo Hasbún — Com elementos biográficos, históricos e ficcionais e narrado por diferentes personagens, Os afetos compreende um período de cinquenta anos da vida dos integrantes da família Ertl. Na polifonia da qual participam não apenas pai, mãe, filhas, mas também amantes e maridos, Rodrigo Hasbún reconta, à margem do idealismo, a convulsão política que abalou a América Latina na década de 1960, explorando as dificuldades que surgem ao se tentar conciliar as consequências das próprias decisões, tanto políticas quanto sentimentais. [Leia +]

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Ted Talks — O guia oficial do TED para falar em público, de Chris AndersonPalestras perfeitas, inspiradoras e de grande alcance. Um orador que sobe no palco e acerta no alvo. Assim são as Conferências TED, e este é o guia definitivo do TED para que você também possa fazer palestras inesquecíveis.

Desde que assumiu o comando do TED em 2001, Chris Anderson tem mostrado o poder que as palestras curtas, francas e cuidadosamente elaboradas do programa têm de compartilhar conhecimento, despertar empatia, gerar empolgação e promover sonhos. Feita da maneira certa, uma apresentação é capaz de eletrizar um auditório e transformar a visão de mundo da plateia — seu impacto pode ser mais poderoso que o de qualquer informação escrita. [Leia +]

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Frank Einstein e o turbocérebro, de Jon Scieszka — No terceiro livro da série Frank Einstein, Frank (um gênio mirim, cientista e inventor), Klink (uma inteligência artificial automontada) e Klank (uma inteligência artificial praticamente automontada) constroem um artefato inédito: um mecanismo capaz de turbocarregar as ondas cerebrais, potencializando a velocidade, a força e até mesmo a memória de qualquer pessoa. Tudo isso porque uma grande amiga, Janegoodall, precisa de uma forcinha para entrar no time de beisebol da cidade. [Leia +]