testeBruce Dickinson: muito além do Iron Maiden

Por Marcelo Costa*

Bruce Dickinson: Vocalista, Esgrimista e Piloto de Avião (Fonte)

Você conhece Bruce Dickinson, certo? Bruce, o vocalista da fase de maior sucesso do Iron Maiden, uma das maiores bandas de metal de todos os tempos? Bem, o público do metal costuma ser fiel e detalhista. Certa vez, Ronnie James Dio, um dos maiores nomes do rock mundial, comentou numa entrevista: “O fã de metal é aquele que sabe tudo sobre a banda, até o nome do cachorro da namorada do roadie.” Se você se encaixa nessa categoria, seus conhecimentos sobre Bruce Dickinson e Iron Maiden serão colocados à prova com a autobiografia que acaba de chegar às livrarias porque, além de vocalista do Iron Maiden, Bruce também é escritor, roteirista, aviador, esgrimista, cervejeiro, empresário e, bem, muitas outras coisas.

Por outro lado, se você não é lá muito chegado em metal, a leitura pode se provar uma enorme surpresa. A rigor, a obra é sustentada por cinco pilares: Iron Maiden, esgrima, carreira solo, aviação e câncer. Yep, isso mesmo. Como toda boa biografia, Bruce esclarece situações ocorridas na infância que ajudaram a construir sua personalidade, fala da adolescência (quando optou por um internato para “fugir” dos pais e da família) e de como o rock o atraiu. Daí, é a sequência básica: montar uma banda, tocar, quebrar a cara, acabar com a banda, montar outra banda, tocar, quebrar a cara, acabar com a banda… até, no caso de Bruce, que era do Samson e foi roubado pelo o Iron Maiden, um momento contado com riqueza de detalhes e histórias. Conforme a narrativa segue, os discos novos do Iron Maiden precisam dividir espaço com uma de suas grandes paixões: a esgrima.

Quem diria, esgrima, aquele esporte de combate em que os competidores utilizam armas brancas (florete, sabre ou espada) para atacar e defender. Bruce ostenta diversas medalhas e troféus nesse desporto, que ele conheceu no colégio e que usou como “droga” durante dezenas de turnês pelo mundo com a banda: enquanto um ou outro integrante enchia a cara no bar e outros roqueiros estariam se drogando, Bruce estava… esgrimando. Isso em qualquer cidade! Bastava o Iron Maiden pousar para que Bruce saísse atrás da academia de esgrima mais próxima. O esporte não só manteve sua sanidade como também protegeu suas cordas vocais dos excessos da vida de rock star. Ou você acha que é possível detonar toda noite e continuar cantando e gritando por mais de 30 anos?

O gosto pela aviação começa cedo, influenciado pelo tio, e ressurge mais tarde, quando a idade bate e o corpo fica mais lento, favorecendo os outros competidores de esgrima. Bruce então se joga de corpo e alma nesse projeto, um dos que mais rende momentos emocionantes para o livro, afinal, pássaros se chocando contra o vidro à frente do piloto, suspeitas de fogo na turbina a milhares de metros de altura e pousar com um veículo de quatrocentas toneladas quase sem gasolina em meio a uma tempestade são histórias que prendem o leitor. E Bruce, que não é um escritor de primeira viagem — ele já escreveu os romances The Adventures of Lord Iffy Boatrace (1990) e The Missionary Position (1992), além do roteiro de Chemical Wedding (2008), um filme sobre Aleister Crowley—, domina a narrativa de maneira leve, como se estivesse ao seu lado num pub inglês contando tudo enquanto bebe pints de Fullers ESB, sua cerveja favorita.

Ok, talvez hoje a Fullers ocupe um lugar secundário na paixão cervejeira do vocalista do Iron Maiden, já que, como ele lembra no livro, “enquanto escrevo estas linhas, 18 milhões de pints de The Trooper, a cerveja do Iron Maiden, já foram bebidos mundo afora”. Aliás, quem viu o Iron Maiden ao vivo no Rock in Rio nunca se esquecerá da provocação do vocalista: “A cerveja servida aqui é tão ruim que tive que trazer a minha”, disse, aos risos. Como um bom empreendedor, Bruce conta o que buscava com a cerveja: “A ideia era uma cerveja para o homem comum, que bebesse a Trooper no dia a dia e sempre retornasse a ela, como uma velha amiga. Há várias cervejas exóticas no mercado, e a maioria tem vida curta. Os Robinson e eu queríamos criar algo clássico, e creio que conseguimos.”

A narrativa dos acasos que levam Bruce à carreira solo, e os guitarristas Janick Gers e Adrian Smith ao Iron Maiden (em períodos diferentes), também é outro ponto alto livro, que culmina no câncer na garganta e na língua descoberto em 2015. Assim como tudo no livro, Dickinson narra sua luta contra o câncer nos mínimos detalhes (em trechos que poderiam até integrar uma campanha contra o cigarro: “Você fuma? — perguntou ele (o médico). — Não. Por quê? Faz muita diferença? — São 20% a mais de chances de cura e 20% a menos de probabilidade de retorno”). Depois de 31 sessões de radiação, com o corpo em frangalhos, Bruce Dickinson vê Mick Jagger passando do lado de fora da janela de sua casa, em King’s Road. “Estou quase tão magro quanto você, pensei, sorrindo”, conta.

Um dos caras mais gente boa do metal, Bruce Dickinson consegue fisgar o leitor tanto com histórias escabrosas (tipo urinar na sopa dos professores do colégio — e ser pego depois) quanto por momentos emocionantes (como uma visita a uma creche em Sarajevo no meio da guerra ou outra a Auschwitz: “Chorei muito depois da visita. Senti raiva e fiquei em silêncio”, conta). Sua autobiografia vai além da história de uma celebridade relembrando momentos de sua vida. É um passatempo divertidíssimo (“No espírito do rock’n’roll, que outra justificativa seria necessária?”, pergunta Bruce) que consegue contar a vida de Bruce e também soa como um apêndice importante à obra da Donzela de Ferro.

 

* Marcelo Costa é editor do site Scream & Yell, um dos principais veículos independentes de cultura pop do país. Já passou pelas redações do jornal Notícias Populares e dos portais Zip.NetUOLTerra e iG, além de ter colaborado com as revistas Billboard BrasilRolling Stone e GQ Brasil, entre outras. Participou da Academia do VMB MTV, do júri do Prêmio Multishow e do júri do Prêmio Bravo. Desde 2012 integra a APCA (Associação Paulista dos Críticos de Arte).

testeSons Alucinadamente Felizes!

AF 1

Jenny Lawson vive com uma série de transtornos mentais. É uma condição de sua vida e algo que tem o poder de provocar um quadro de depressão grave, impedindo-a de fazer qualquer coisa.

Mas, em vez de ceder aos perigos da doença, a autora decide pelo exato oposto: viver todos os momentos de forma intensa, o que tem como resultado uma série de histórias estranhas e incríveis. Em Alucinadamente feliz, ela relata alguns dos casos mais absurdos e alterna histórias engraçadas com reflexões sobre sua vida.

Inspirados na vida de Jenny e em sua forma de superar os problemas, preparamos uma playlist especial para o livro. Com a ajuda de nossos leitores no Twitter listamos músicas alucinantes  – do rock ao pop – para superar os momentos complicados da vida.

testePlaylist de Surpreendente!

Playlist Gomyde

Todo autor tem seus rituais na hora de escrever. Uns escrevem à mão, muitos pelo computador, alguns poucos em máquinas de escrever. Uns de madrugada, outros no meio da tarde. Regados a xícaras de chá ou a copos de uísque. Sóbrios, bêbados, fumando, depois de exercícios físicos, sentados no banheiro, deitados na cama. O que importa é o resultado, no fim das contas.

capa_surpreendente_03c_300c.inddMeu principal ritual é escrever ouvindo um bom som. Para se ter uma ideia, abro o iTunes antes de abrir o Word. Boa parte das pesquisas para meus livros vem das músicas que escuto enquanto escrevo. Eventualmente, uma ou outra acaba integrando a história, se determinada cena clamar por uma trilha tocando ao fundo. Mas a maioria serve apenas como inspiração.

Fone no ouvido, volume no máximo. A cena é de ação? Clássicos da Motown. De puro romance? Baladas do Phil Collins ou do U2. De tristeza? Uma sonata de Beethoven ou de Bach. De alegria? Rock and roll, sempre.

Ao término de um livro, independentemente das canções citadas, faço uma playlist para que os leitores possam desfrutar de algo além da pura experiência com a leitura. Se conseguir transmitir o que senti quando estava escrevendo, certamente os leitores vão se conectar ainda mais com a trama.

Como não podia deixar de ser, fiz uma playlist para o Surpreendente!. Nesse caso, ela foi composta integralmente por canções citadas ao longo da história. Músicas de amor, de cinema e de estrada. B.B. King, Bruce Springsteen, Marvin Gaye, AC/DC, U2, Gardel e Frankie Valli.

É só colocar o fone, aumentar o volume, descolar uma boa poltrona, abrir o livro e se deixar surpreender…

testeAmber Appleton e o poder da música

Por Rachel Rimas*

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Eu amo música. Até hoje me lembro de quando descobri as primeiras bandas e os primeiros artistas de que hoje sou fã. Na época, a internet lá em casa era discada (uma longa história…) e baixar música era uma atividade que requeria tempo e muita paciência. A cada faixa baixada, um misto de medo (nem sempre a qualidade era boa), vitória (está boa!) e deleite (quero ouvir essa música para sempre e nunca mais paraaaaar!). Eu realmente ficava emocionada com algumas músicas, com o coração apertado, com vontade de abraçá-las e nunca mais largar. Se apaixonar por algo, seja por uma música, por um livro, por um filme ou por uma pessoa, causa essa sensação na gente.

E por que eu estou falando tudo isso? Porque em Quase uma rockstar, a relação da Amber com a música é muito parecida. As canções estão presentes em momentos cruciais da vida dela, servindo não só como trilha sonora para suas experiências — boas e ruins —, mas também definindo a forma como ela enxerga o mundo e as pessoas a sua volta. Matthew Quick, o autor do livro, escreveu uma história extremamente musical. Amber ama o Jack White, a Pink! e usa os principais sucessos de grandes divas do soul para ensinar inglês às coreanas de sua igreja. Por influência da mãe de um de seus melhores amigos, ela conhece a Dinosaur Jr., uma banda alternativa dos anos 1980 e 1990 que até hoje está na ativa. É muito interessante ver como as músicas de J Mascis e companhia descrevem com clareza e sensibilidade as alegrias e as agruras da menina.

link-externoLeia um trecho de Quase uma rockstar

Formada em 1984, em Massachusetts, por J Mascis, Low Barlow e Murph, a Dinosaur Jr. lançou seu primeiro álbum, Dinosaur, em 1985. Na verdade, até o terceiro disco, a banda se chamava apenas Dinosaur, mas, por questões legais, tiveram que incluir o “Jr.” no nome. Com uma mistura de hardcore, punk, folk e riffs com influências do metal (principalmente da Black Sabbath), a Dinosaur Jr. ficou conhecida pelas guitarras distorcidas e pelo vocal arrastado de Mascis. Com o quarto álbum, Bug, a banda alcançou as paradas de sucesso, e “Freak Scene” foi a maior representante dessa época.

Amber, apesar do otimismo incansável e contagiante, se sente uma estranha. Ela não é popular, ela mora em um ônibus com a mãe, não beijou ninguém ainda, não sabe nada sobre o pai, mal tem o que comer. Ela é uma freak, e se sente acolhida por aquelas músicas feitas por pessoas estranhas para pessoas estranhas como ela.

Em certo momento da história, isolada em seu quarto, os dias de Amber se resumem a ficar na cama olhando para o teto ouvindo “Puke + Cry” (vomite e chore, em português), palavras que resumem terrivelmente bem o que ela está sentindo.  Ela chega a ouvir J Mascis cantando do andar de baixo para ela, “come on down, come on down, come on down”. Desça, Amber, saia do quarto. Mas ela não sai.

Amber Appletton consegue ser uma personagem extremamente encantadora sem resvalar na pieguice ou nos clichês. Ela é esperançosa e radiante, mas, como todos nós, tem seus momentos de tristeza e descrença, de achar que tudo está perdido. Eu sou muito suspeita para falar sobre Quase uma rockstar, porque me apaixonei pela Amber. Sorri, sofri e torci a cada conquista, a cada piada, a cada lágrima. A lição mais importante que aprendi com ela foi que, mesmo com todos os nossos humores, estranhezas e esquisitices, nos melhores ou nos piores momentos, não estamos sozinhos.


Leia outros textos da equipe da Intrínseca:
Minha vida em 50 tons, por Nina Lopes
Keep YA Weird (ou a arte de fazer livros incríveis), por Talitha Perissé
Sobre livros e anjos, por Sheila Louzada

 

Rachel Rimas, 26 anos, é editora assistente no setor de ficção infantojuvenil da Editora Intrínseca. Ela se apaixona por personagens (e por músicas) um pouco mais do que o recomendado para pessoas normais.